
Ciência,
Tecnologia e Subdesenvolvimento: Dez Teses para Discussão
Simon Schwartzman
Jornal do Brasil, Caderno Especial, 16 de dezembro, 1979 (republicado
internacionalmente em One Word - Supplement for a New International
Economic Order, n 3, inclusive em Development Forum (United
Nations), vol. VII, 8).
Todos sabemos que os países subdesenvolvidos não têm muita tecnologia e
ciência modernas e que eles não pobres. Entretanto, o papel que a tecnologia
e as ciências modernas podem de fato desempenhar nestes países não é entendido
claramente, e tende a ser visto de forma bastante confusa, em que se misturam
muitos mitos, ideologias e advogados de grupos de interesses bem específicos.
As teses abaixo sugerem qual estes papéis poderiam ou não ser, e como estas
três coisas - ciência, tecnologia e subdesenvolvimento - estão relacionadas
entre si. São teses para discussão.
1. O desenvolvimento da ciência não pode ser confundido com o desenvolvimento
pela ciência. Cientistas gostam de pensar que existiria uma relação direta
entre o progresso em suas carreiras e instituições e progresso em suas
sociedades. Existem bons exemplos, históricos e contemporâneos, no entanto,
de ciência bastante boa com pouco impacto social (Índia) e muito progresso
econômico sem ciência ou tecnologia próprias (Formosa, Suíça).
2. Ciência, tecnologia e educação superior são coisas inter relacionadas
e interdependentes. Isto não nos permite supor, no entanto, que ciência
e tecnologia são a mesma coisa, ou que a educação superior deva ser sempre
científica. Ao contrário: ainda que as linhas divisórias sejam pouco claras,
não há dúvida que ciência e tecnologia são atividades distintas, com formas
institucionais e objetivos separados e que devem por isto ser tratadas
separadamente. Cientistas e tecnólogos podem ser bons professores, mas
os problemas de formação profissional e educação devem ser tratados de
forma separada e independente dos processos de geração e aplicação de
conhecimentos de fronteira.
3. A atividade científica só faz sentido quando trata com a aquisição
de novos conhecimentos. Os problemas do subdesenvolvimento, no entanto,
não são normalmente de ignorância, mas de falta de vontade política e
de condições sociais para aplicar conhecimentos já estabelecidos para
a solução de problemas sociais e econômicos relevantes. Os problemas de
atraso científico e tecnológico são, principalmente, sociais e políticos,
e não científicos e técnicos.
4. A verdade da tese 3 leva, no entanto, a um erro profundo, que é o de
acreditar que, existindo vontade politica e os recursos econômicos necessários,
a capacitação científica e tecnológica pode ser criada ou comprada sem
maiores dificuldades. A conseqüência deste erro, quando transformado em
politica governamental, é criar e estimular um ciclo de dependência científica
e tecnológica crescente, com todos os seus custos econômicos e sociais.
5. Ciência e tecnologia não são mercadorias que possam ser compradas.
nem serviços que possam ser facilmente contratados. Uma condição necessária
mas nunca suficiente para o desenvolvimento científico é a existência
de uma comunidade científica ativa, intelectualmente independente e auto-referida,
que não se submete com facilidade ao planejamento econômico ou politico
de suas atividades e produção. Do mesma forma, uma condição essencial
para o desenvolvimento tecnológico é a formação de comunidades tecnológicas
com suas próprias tradições de trabalho, prestígio social e influência
política. Em outras palavras, ciencia e tecnologia dependem essencialmente
de pessoas - e pessoas que pensam por conta própria, e por isto podem
ser politica mente incômodas e pouco confiáveis.
6. Os países desenvolvidos gastam mais em tecnologia do que em ciência,
enquanto que os países subdesenvolvidos fazem o contrário. Inverter este
padrão, no entanto, significaria matar a pouca ciência que estes países
conseguem ter, sem nenhuma garantia de que seu potencial tecnológico venha
a ser levado à prática efetiva.
7. O papel principal da pesquisa científica nos países subdesenvolvidos
não é o de criar conhecimentos práticos e lucros econômicos, mas o de
gerar e reproduzir um grupo de pessoas que possam pensar de forma independente,
criticar as verdades e soluções de sentido comum em todas as esferas de
atividade e sugerir novas alternativas Este papel é mais importante do
que o produto eventual de suas pesquisas. As implicações desta tese para
o tipo de trabalho leito por estes cientistas são, evidentemente muito
sérias.
8. A distância tecnológica que separa os e países desenvolvidos dos países
subdesenvolvidos não é uma simples questão de conhecimentos e equipamento,
mas de sistemas muito complexos e integrados de pessoas bem formadas,
instituições especializadas, escolas profissionais, agências governamentais,
interesses econômicos - além de conhecimentos e equipamento Vincular um
país subdesenvolvido a um sistema como este significa ficar dependente
de toda esta estrutura, para o bem e para o mal - só países suficientemente
grandes podem eventualmente aspirar a uma posição mais simétrica no relacionamento
com os centros científicos e tecnológicos mais avançados.
9. Tratar de contrapor tecnologias apropriadas ou intermediárias à presença
cada vez maior dos sistemas tecnológicos modernos, altamente integrados
e intensivos de capital e energia, é um objetivo nobre, mas sem muitas
esperanças, em um contexto de trocas relativamente livres de informação,
pessoas e capitais entre países Estes esforços de auto-suficiência só
podem ser tentados em sociedades altamente mobilizadas e insuladas Quando
isto ocorre, no entanto, o que se consegue em termos de simplificação
tecnológica na área econômica tende a ser compensado pela criação de sistemas
altamente integrados de mobilização e controle social e político. A Revolução
Cultural Chinesa, enquanto durou, foi a tentativa mais espetacular de
tentar este caminho.
10. Existem muitos que afirmam que os países subdesenvolvidos deveriam
restringir-se às ciências aplicadas e à educação técnica maia simples
e pratica em suas escolas superiores É difícil crer, no entanto, que os
problemas do subdesenvolvimento possam ser enfrentados com ciência subdesenvolvida,
tecnologia subdesenvolvida e educação subdesenvolvida Atingir os níveis
mais altos de qualidade, no entanto, é um caminho muito difícil e cheio
de armadilhas: alienação, dependência crescente, gastos crescentes, resultados
medíocres. Ser capaz ele autodeterminação em um mundo interdependente;
ter como objetivo a qualidade mais alta e o refinamento cultural sem estimular
demasiado elitismo e alienação; resistir à invasão das tecnologias modernas
sem comprometer o país a um voto de pobreza, isolamento e ignorância;
estes são alguns dos dilemas que devem ser enfrentados e resolvidos Só
com instituições e grupos suficientemente fortes e prestigiados na área
científica, tecnológica e educacional é possível aos países subdesenvolvidos
tratar de enfrentar estes problemas. Não há nenhuma garantia de que eles
serão capazes de fazê-lo. É certo, no entanto, que nada pode ser feito
sem estes grupos e instituições. Neste sentido, não existem alternativas
para os países subdesenvolvidos a não ser investir na qualidade de suas
instituições científicas, tecnológicas e educacionais, e fazer delas o
melhor uso possível.
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