Simon Schwartzman
3ª edição revista e ampliada - Editora Campus, 1988 (2ª edição, 1982)os achados mais sugestivos... são aqueles relacionados com as relações indeterminadas entre o desenvolvimento e associabilidade, achados que na realidade envolvem a confirmação de uma hipótese nula. Primeiro, a transformação estrutural da sociedade brasileira não conduziu à formação de grupos de interesse autônomos, agressivos e com alto grau de interação, articulando demandas alternativas e competitivas.... Segundo, essas mudanças não parecem ter produzido coalizões multifacéticas de associações ao longo de linhas exclusivas e totalmente antagonísticas. O caso brasileiro coloca em questão os supostos ortodoxos das relações entre industrialização e conflito polarizado de classes. Terceiro, apesar da evidência conclusiva a respeito do aumento da associabilidade, não existe evidência de um aumento da influência desses grupos no processo de tomada de decisões em nível governamental. Em resumo, a predominância de grupos de pressão pode não ser um componente inevitável da modernização, tal como geralmente se pensa.(3)Isso não significa, evidentemente, que a atividade política se dê em um mundo idílico onde não existem interesses em jogo. Acontece, porém, que os interesses manifestados na esfera política não são facilmente identificáveis com interesses econômicos bem determinados, como normalmente se pensa. O processo político, como este livro pretende evidenciar, tem objetivos e mecanismos próprios que, embora não sejam independentes e isolados dos processos que se desenvolvem na esfera produtiva, só podem ser entendidos em sua especificidade.
É o proletariado, objetivamente, este estrato dinâmico, o que não significa que, em sua maioria, já esteja consciente desta sua função na sociedade. Encontra-se, como apontamos atrás, em processo de alcançar o conhecimento desta condição, pelos fatores da ação intrínseca e extrínseca, fundamentalmente pelos últimos, o que pressupõe ainda uma longa caminhada na direção da total conscientização.(9)Mais recentemente, essas teorias de desenvolvimento predeterminado passaram a admitir, mesmo em sua vertente liberal, a noção de um período "interveniente" de autoritarismo político no caminho entre tradicionalismo e modernidade. Mas, em geral, ambas as vertentes têm dificuldade em explicar a embaraçosa persistência e o inesperado comportamento desses regimes "intervenientes."(10)
nesta fase da filosofia política em que o Estado é concebido como uma estrutura estranha à sociedade, ajustado a eia vindo de cima como que por direito divino e não emanado dela, partilhando das suas condições materiais e de espírito vivendo a vida de sua "cultura" e sofrendo a influência de suas transformações.(11)De acordo com essa perspectiva as elites são culturalmente alienadas, e o sistema político é criado não em função dos interesses e preferências de grupos sociais determinados, mas em função de modelos estrangeiros mais ou menos prestigiosos A conseqüência, de acordo com Oliveira Viana era não somente a falta de correspondência entre as estruturas informais de poder e o sistema formal de ordenação jurídica, mas também uma grande discrepância entre um modelo de organização política que pressupõe altos níveis de agregação de interesses e uma população preocupada com temas nacionais por uma parte, e uma cultura política em que os horizontes dificilmente ultrapassavam o nível local e os interesses mais imediatos, por outra.
| Quadro 1: Atitudes de Advogados Brasileiros em Relação aos Partidos Políticos | ||||
| Faixa de idade | ||||
| Jovem | Meia Idade | Mais Velhos | Total | |
| Acreditam que os partidos devem representar grupos de interesse | 23,5% | 17,8% | 0,0% | 17,6% |
| Acreditam que os partidos devem permanecer acima de interesses privados | 73,5% | 82,2% | 91,6% | 80,4% |
| Não sabem/ não respondem | 3,0% | 0,0% | 8,4% | 2,0% |
| TOTAL (100%) | (34) | (56) | (12) | (102) |
| Fonte: ver nota 12. | ||||
Belo Horizonte cresceu a uma taxa apenas pouco inferior [a São Paulo] - 6,8% - que revela o considerável impulso tomado pela sua industrialização.(16)Mais adiante, tratando de explicar como São Paulo continuou crescendo, ao passo que a taxa de industrialização diminuiu, diz que "o crescimento da indústria acarreta forte expansão do setor terciário da economia". O modelo teórico implícito dificulta a percepção do fato, por outra parte óbvio, de que pode haver urbanização e terciarização sem industrialização; e que Belo Horizonte cresceu por razões administrativas, políticas e sociais, diante das quais a indústria é uma atividade de importância secundária e subsidiária. Quando não é possível assemelhar São Paulo ao resto do país, surge muitas vezes a tendência de considerá-lo como um "caso desviante" no quadro nacional; mas isso é certamente problemático quando se trata do próprio centro da economia nacional.
A nobreza, a seguirmos Antônio de Sousa, nunca chegou a criar raízes no campo, nem teve função civilizadora, função de direção e proteção dos moradores locais; apresentava-se, antes, como parasita da população e do poder central.(23)O poder se concentrava na Casa de Avis, e isso auxilia a explicação do notável impulso empresarial de Portugal nos séculos XV e XVI. Vinda para o Brasil, a estrutura centralizada, burocrática e patrimonialista de governo foi transplantada, inicialmente com o estabelecimento do Governo Geral em 1548 e, muito mais tarde, com a mudança de toda a Corte portuguesa para o Rio, em 1808. Tornado independente cm 1822 por um membro da realeza portuguesa, a linha de continuidade nunca foi completamente quebrada, e isso é importante para a compreensão da institucionalização estável do Governo brasileiro durante o período colonial e, mais tarde, na segunda metade do século XIX. É digno de nota que, antes do estabelecimento do Governo Geral em 1548, institui-se um sistema de capitanias de características feudais, porém sem sucesso. Essas capitanias deveriam ser transmitidas de pais para filho, e a coroa portuguesa teve de readquirir uma delas, quando o Governo Geral estava prestes a ser criado.(24)
Henri Pirenne, em Medieval cities, e outros observaram que as cidades européias cresceram em oposição e eram separadas da sociedade maior. Mas essa tese remonta a um exagero, no que diz respeito à Europa Medieval. A maioria das cidades industriais é parte integrante de estruturas sociais mais ampla.(27)A principal dificuldade relativa ao conceito de cidade pré-industrial é, naturalmente, a teoria de desenvolvimento unilinear que ela implica, e que considera o sistema feudal como o único predecessor das sociedades modernas. Oliver C, Cox,(28) no entanto, afirma que, mesmo na Europa Medieval, as cidades se desenvolveram fora da estrutura feudal, além de considerar que o conceito de cidade pré-industrial de Sjoberg representa pouco mais que um conceito residual. A crítica de Cox é convincente, no que diz respeito à debilidade do argumento de Sjoberg, porém tem pouco a oferecer. A melhor indicação teórica, o que não é surpreendente, nos é oferecida por Max Weber, por meio da diferença, por ele estabelecida, entre a cidade ocidental e a oriental:(29)
Contrariamente, as cidades ocidentais são dotadas de uma "combinação de autonomia e autocefalia(30)." Elas são, em outras palavras, núcleos econômica e politicamente autônomos, alimentados pela atividade comercial ou industrial de seus cidadãos, que participam ativamente, de formas variadas, da condução de seus destinos. Aplicada ao Brasil, essa distinção permite ver o Rio de Janeiro como uma cidade muito mais próxima, historicamente, do modelo "oriental", sede política e administrativa do Império, enquanto que São Paulo, cidade desenvolvida de forma muito mais independente e isolada, se aproxima bastante do que seria o modelo clássico de cidade "ocidental".O inverso da capital burocrática e urbana constitui o segundo tipo de região, chamada "tradicional." As regiões "tradicionais" brasileiras têm pouco em comum com o "tradicionalismo", constante da literatura padrão acerca do subdesenvolvimento e da modernização. Comumente, essa literatura considera como "tradicional" a sociedade camponesa ou, de alguma forma, não-industrial, que sofre o impacto da modernização e industrialização.(31) Supostamente, essas sociedades tradicionais se encontram em um estágio primitivo de desenvolvimento social e econômico, e a correspondente literatura sociológica trata dos obstáculos culturais, emocionais e sociais aos valores, estilos de vida e padrões de comportamento modernos.(32)
paradoxalmente, na recente história da Espanha, as regiões mais desenvolvidas se sentiram alienadas do cenário nacional. Dispondo de "poder econômico" e de bem-estar, sentiram se, justificadamente ou não, privadas de "poder político."(41)As diferenças entre Madri e Barcelona, expressas na tabela que se segue, são surpreendentemente semelhantes às que podemos encontrar entre Rio e São Paulo:
| Quadro 2. Espanha: Barcelona e Madri | ||
| Espanha "burguesa" (Barcelona) | Madrid | |
| % da População do País (1960) | 24,2% | 7,7% |
| Renda per cápita (média nacional = 100) | 164 | 131 |
| Recrutamento de membros do gabinete no Governo de Franco. | 0,85 (a) | 6,25 |
| Professores universitários. | 0,58 (a) | 3,24 |
| Juízes | 0,95 (a) | 2,87 |
| (a) Quociente entre a proporção nascida em cada uma das áreas e a proporção da população vivendo nestas áreas em 1910, ano aproximado do nascimento das elites. | ||
| Fonte: Ver nota 41. | ||
| Quadro 3. Brasil: Diferenças Regionais em Quatro Estados | ||||||
| População em 1970 | % da renda | |||||
| urbana | total | da Indústria | da agricultura | do setor público | total | |
| São Paulo | 27,3 | 19,0 | 56,8 | 19,5 | 23,5 | 35,3 |
| Minas Gerais | 11,7 | 12,3 | 7,5 | 12,2 | 8,3 | 10,0 |
| Guanabara | 8,2 | 4,6 | 9,7 | 0,6 | 25,2 | 11,4 |
| Rio Grande do Sul | 6,8 | 7,1 | 5,9 | 12,6 | 8,9 | 8,5 |
| Soma dos 4 estados | 54,0 | 43,0 | 79,9 | 44,9 | 65,9 | 65,2 |
| Brasil | 100% | 100% | 100% | 100% | 100% | 100% |
| Fonte: Fundação IBGE, Anuário Estatístico do Brasil, 1971. | ||||||
| Quadro 4. Itália: Famílias Residentes por Ramo de Atividade Econômica do Chefe da Família, por Regiões (%) | ||||
| População | número de famílias cujos chefes trabalham em | |||
| indústria | agricultura | outras atividades | ||
| Regiões | ||||
| Setentrional | 44,8 | 56,5 | 35,5 | 47,1 |
| Central | 18,5 | 17,5 | 16,0 | 224 |
| Meridional | 245 | 18,0 | 31,8 | 20,2 |
| Insular | 12,2 | 8,0 | 16,7 | 10,3 |
| Total | 100% | 100% | 100% | 100% |
| Fonte: Calculado do Instituto Centrale de Statistica, Compendio Statistico Italiano (Roma), 1971, p. 21 e 28-29. | ||||
Algumas regiões se modernizam mais e mais rapidamente que outras, devido a vantagens em recursos, capacitação, comunicação com o mundo exterior, ou por outras razões. Algumas nações se modernizam politicamente e permanecem atrasadas economicamente. Outras nações são altamente urbanizadas, antes de se desenvolverem economicamente e de se modernizarem politicamente (...). No grau de simetria e de continuidade das mudanças desses três conjuntos de variáveis (modernização social, econômica e política), reside uma parte muito expressiva, certamente a principal, da explicação do surgimento dos sistemas fascistas, a duração de seu domínio, a variação de suas atitudes e comportamento políticos e a especificidade e cronologia do fim do sistema.(42)O pressuposto do desenvolvimento unilinear, ainda que desigual, é talvez a principal fraqueza dessa análise. De fato, se "nenhuma nação se desenvolve de tal maneira que todas as regiões e todos os aspectos da vida nacional mantenham o mesmo ritmo de todo o resto", o que necessita ser explicado é a razão pela qual somente algumas dessas nações caem no padrão fascista de organização política. O fato é que as diferenças não constituem apenas uma questão de taxas variáveis de crescimento regional e funcional, mas principalmente uma questão de diferenças regionais, estruturais, refletidas nos desequilíbrios do desenvolvimento.
Estes centros de poder localizados nas regiões sudeste e nordeste dos territórios da Igreja Católica ergueram impérios cruzados nas fronteiras, para fazer face à religião do Sul. Isto auxilia a explicação da íntima simbiose da Igreja e do Estado nestes impérios: o poder militar do Estado foi um instrumento decisivo na luta pela expansão do cristianismo ocidental (...). Os impérios ibéricos trouxeram o mesmo fervor de ortodoxia através dos mares até o Novo Mundo: a conquista da América Latina produziu uma fusão ainda mais forte de instituições religiosas, políticas e econômicas.(44)O Rio Grande parece ter desempenhado no Brasil um papel semelhante ao que Portugal e Espanha desempenharam na Europa cristã: como um posto militar de fronteira, desenvolveu sua própria ortodoxia, o positivismo - em uma combinação peculiar soma tradição militar local e a cultura boiadeira - e uma forte oligarquia estadual, que reunia forças tanto para a luta contra o inimigo espanhol e portenho quanto para a luta pela autonomia em relação ao Império brasileiro. A região era base da ala mais importante do Exército brasileiro, fornecendo, também, uma parte considerável dos seus quadros. Desempenhou um papel bastante ativo na vida política nacional, desde a criação do Partido Republicano Rio-Grandense em 1882, na derrubada do Império, em 1889, e dai em diante. Em 1930, chegou ao poder nacional com Vargas, que tinha sido anteriormente governador do Rio Grande do Sul, de acordo com os interesses de Borges de Medeiros, o chefe político do estado, e com ele os gaúchos literalmente atrelaram seus cavalos na capital nacional.(45) Vargas novamente, em 1950, Goulart, em 1961, Costa e Silva, Médici e Geisel, depois de 1964, todos esses presidentes gaúchos atestam a marcante vocação do Rio Grande para o poder nacional, através de seus filhos civis e militares.
"Por ora, a cor do governo é puramente militar e deve ser assim. O fato foi deles, deles só, porque a colaboração do elemento civil foi quase nula. O povo assistiu aquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava. Muitos acreditavam sinceramente estar vendo uma parada. Era um fenômeno digno de ver-se. O entusiasmo veio depois (...)." (De uma carta de Aristides lobo, um jornalista, citada por Carone, E., 1969.)27. Sjoberg, G. 1960.