
BASES DO
AUTORITARISMO BRASILEIRO
Simon Schwartzman
3a. edição revista e ampliada - Editora Campus, 1988 (2a.
edição, 1982)
Capitulo 6
A DEMOCRACIA REPRESENTATIVA EM PERSPECTIVA
1. Uma Perspectiva de Análise
2. A Participação Política e o Sistema
Partidário Após 1945
3. A Dinâmica do Sistema: os Resultados
Eleitorais
4. A Crise Do Sistema
5. Conclusões: o Sistema Eleitoral e a
Questão Institucional
Notas
1. Uma Perspectiva de Análise
Com exclusão das experiências eleitorais frustradas de 1930
e 1934, o período de 1945-64 foi o único na história política
brasileira em que o país experimentou um sistema de
participação política de massas. É possível, assim, assumir
uma perspectiva histórica de longo prazo e afirmar que este foi
um período excepcional, explicado, talvez, pela onda de
liberalismo democrático que passou a imperar em toda a América
Latina logo após a Segunda Guerra, e que durou, em média, 15 ou
20 anos, conforme o país. Ainda que isto seja verdade, esta
experiência despertou no país um gosto pela liberdade política
e a abertura de alternativas de participação, coisas que não
poderiam e não deveriam ser esquecidas com facilidade.
Conceitualmente, esta experiência coloca o tema de
participação no centro da análise do sistema político
nacional.
O estudo dos sistemas de participação política tem sido
muitas vezes negligenciado devido a uma tendência bastante
generalizada de considerar o fenômeno político como totalmente
inerente ao seu contexto social e econômico e, assim, desprovido
de existência própria. É curioso notar que duas tradições
intelectuais aparentemente opostas levam ao mesmo resultado. Uma,
norte-americana, deriva, conforme sugeriu Samuel P. Huntington,
da falta de experiência com os problemas de instabilidade
política, o que, por muito tempo, conduziu à noção de que um
sistema político estável e eficiente seria decorrência natural
do desenvolvimento econômico e do bem-estar social. É desta
perspectiva que deve ser vista a famosa correlação encontrada
por S. M. Lipset entre democracia e desenvolvimento, e que serviu
de base a uma literatura tio extensa sobre "desenvolvimento
político".(1) A outra
tendência tem origem marxista e inclina-se a considerar a esfera
política como uma conseqüência simples e direta de estruturas
subjacentes de produção. É certo que existem autores,
marxistas ou não que têm consciência do problema e tratam de
equacioná-lo; mas a influência destas tendências parece ter
sido grande o suficiente para difundir uma maneira de pensar que
tem dificultado bastante a análise da questão.
O fato é que, a partir destas perspectivas, o sistema
político enquanto tal é visto como desprovido de dinâmica e
determinação próprias. De certo ponto de vista, é percebido
como um instrumento de conflito de classe ou de consolidação de
uma revolução social vitoriosa, enquanto outros vêem-no como
simples operação técnica de administração e controle do
poder. Cria-se, assim, um abismo conceitual entre os
especialistas em economia e sociologia, para os quais o processo
político é um simples resultado de fatos econômicos e sociais,
e os especialistas em governo e administração pública, para os
quais o processo político surge, muitas vezes, como um problema
estritamente técnico, de management, sem muita relação com o
que ocorre no resto da sociedade. É claro que as coisas não
são tão simples assim, mas a profusão de estudos dedicados às
influências "políticas" (no sentido de interesses
econômicos e sociais) no processo governamental ou às
influências também "políticas" (aqui significando
governamentais) na vida econômica e social não são suficientes
para eliminar os paradoxos de uma sociologia política ou de
teorias do desenvolvimento despolitizadas. Isto fica bastante
claro quando se trata de entender o processo político de um
país como o Brasil.
A relação entre o que sucede ao nível sócio-econômico e
ao nível do poder político não é nada simples, a começar
pelo fato de que existem pelo menos duas mediações importantes
entre estes dois níveis. Podemos, na realidade, considerar
quatro níveis de análise factíveis de serem estudados
independentemente, antes de serem vistos em inter-relação: o
nível econômico, o da estrutura social, o do sistema de
participação política e o de governo propriamente dito. Vistos
em termos de processos históricos, é possível falar em um
processo de desenvolvimento econômico, outro de mudança na
estrutura social, outro de crescimento dos sistemas de
participação e outro de transformações do sistema de poder.
Dizer que estes processos são "autônomos" na-o
significa. evidentemente, afirmar que eles são empiricamente
independentes, mas, simplesmente, que nenhum deles poder ser
entendido dedutivamente a partir dos demais.(2)
Com estas distinções em mente, é possível utilizar um
conceito bastante restrito de desenvolvimento econômico, em
termos de crescimento da renda per capita e do que isto implica
em termos de modificações na tecnologia e na divisa-o setorial
da força de trabalho.(3) O
conceito de desenvolvimento social, que aparece muitas vezes na
literatura sob o título de "modernização", refere-se
ao aumento do bem estar de uma população de acordo com as
pautas das sociedades modernas de consumo de massa - consumo de
bens industrializados, educação, aumento da expectativa da
vida, urbanização, consumo de jornais, uso de telefones e
correios etc. Mais do que uma simples mudança em pautas de
consumo e comportamento, o desenvolvimento social traz em si uma
série de elementos fundamentais para a compreensão dos
fenômenos sociais que dele decorrem: um aumento de
comunicações, uma extensão gradativa da escala social de
participação, do nível local ao nacional e internacional, um
processo de mobilização social, no dizer de Karl Deutsch, que
se reflete mais ou menos diretamente na área política como
aumento de participação.
Esta distinção entre o econômico e o social pode ser em boa
parte pensada em termos do distanciamento entre os sistemas de
produção e os sistemas de consumo nas sociedades modernas.
Tradicionalmente, o conceito de classe social é definido em
termos da divisão social do trabalho, ou seja, da estrutura do
sistema produtivo - e esta definição traz implícita a idéia
de que os padrões de consumo, os interesses, as motivações e
as ideologias dos diferentes grupos sociais podem ser entendidos
e explicados através desta matriz produtiva básica. Existem,
sem duvida, boas razões de ordem teórica e conceitual para
questionar esta definição. Max Weber, por exemplo, estabelece
uma distinção analítica bastante nítida entre o sistema de
classes, definido de forma estrita em termos das relações
sociais que se estabelecem a partir do mercado, e o sistema de
status ou estamentos sociais, caracterizado por diferenças em
prestigio social e monopólios de certos padrões de consumo.
Sem entrar na complexidade teórica desta discussão, vale a
pena observar que uma das características mais notáveis das
sociedades modernas é a redução progressiva do número de
pessoas necessárias para a produção agrícola e industrial, em
contraste com o aumento crescente dos sistemas de serviços e de
consumo. Esta situação contrasta de maneira marcante com a
época em que o sistema produtivo absorvia de uma ou outra
maneira toda a população, e as oportunidades de consumo estavam
estreitamente relacionadas com a participação das pessoas neste
sistema. Nas sociedades modernas, as possibilidades e padrões de
consumo são definidos por uma multiplicidade de fatores, dentre
os quais a distribuição de benefícios feita pelo Estado, a
segmentação do mercado de trabalho por critérios sociais,
culturais e étnicos, os privilégios corporativos e
profissionais conquistados por diferentes categorias técnicas e
profissionais, a estratificação condicionada pelas credenciais
distribuídas pelo sistema educacional e, evidentemente, a
posição dos indivíduos no sistema de produção de
mercadorias, conhecimento e serviços de todo tipo.
Assim como o social não é uma resultante simples do
desenvolvimento econômico, tampouco a participação política
deriva, de forma simples, do processo de transformação social.
Quando, em que medida e em que condições o processo de
mobilização social se traduz em uma demanda de participação
na vida pública? É bastante óbvio que não existe uma resposta
simples para esta pergunta, que depende, essencialmente, de dois
tipos de variáveis. O primeiro se refere à natureza do processo
de modernização e mobilização social. A partir das
concepções mais simples de Lerner, que via o aumento de
participação política, na forma de comparecimento eleitoral,
como um desenvolvimento linear dos processos de urbanização e
alfabetização,(4) a análise
mais contemporânea busca nos diversos tipos de assincronias e
desequilíbrios de desenvolvimento social e econômico a raiz das
variações na participação. Sem entrar muito nesta questão,
já desenvolvida em outros contextos, é bastante evidente que
uma situação em que o desenvolvimento econômico antecede e
lidera o processo de modernização levará a um tipo de
vivência política muito distinto daquele onde o processo de
modernização é anterior, e não seguido, a não ser
longinquamente, pelo desenvolvimento econômico.(5)
No primeiro caso, a participação política tenderia a ser,
aparentemente, mais ligada a demandas específicas, propugnando
por uma ampliação progressiva das áreas de autonomia e
participação, enquanto que no segundo estariam dadas as
condições para uma ação política mais preocupada com a
satisfação de fins que com a obtenção de meios, e o terreno
seria muito mais fértil à trasladação da vida política a um
nível simbólico e principista do que na situação anterior.
O segundo tipo de variável se refere às características
mais próprias do sistema político. Um sistema político mais
institucionalizado é mais capaz, em principio, de absorver como
legítimas novas demandas de participação, enquanto que regimes
mais rígidos tenderiam a sentir-se mais ameaçados e, por isso
mesmo, a restringir as áreas de participação. O grau de
"desenvolvimento" de um regime político só em parte
depende do processo de mudança econômica e social e do nível
de demandas de participação política que encontra no
transcurso de sua história.
Existe uma solução de continuidade quando passamos do
primeiro para o segundo tipo de variável, que corresponde quase
que à passagem de uma escola de análise política à outra. No
primeiro caso, a cadeia explicativa parte da sociedade civil e do
sistema de produção para o político, que é visto tão-somente
como urna resultante ("o sistema político é instrumento
dos interesses da classe tal") ou um obstáculo ("as
elites tradicionais não satisfazem às demandas crescentes da
população...") ao que surge no nível da sociedade e da
economia. O sistema político é conceituado, nesta perspectiva,
com a ajuda de uma ou duas variáveis (esquerda - direita,
liberal-autoritária etc.). No segundo caso, o modelo causal é
invertido, e o sistema de poder passa a ser visto como algo muito
mais complexo e determinante, enquanto as explicações e
soluções são buscadas nos sistemas de autoridade, ordenações
jurídicas, estruturas de comunicação e decisão, sistemas
partidários etc. A necessidade de unir estas duas perspectivas
é óbvia, ainda que as dificuldades não sejam poucas. A
primeira abordagem surge ligada à tradição mais sistemática e
analítica da sociologia empírica (o artigo de Karl W. Deutsch,
referido anteriormente, é exemplar), enquanto que a segunda
está muito mais ligada a uma tradição em que o jurídico e o
histórico se conjugam, de forma pouco clara, com esforços de
análise mais sistêmica.
É preciso observar, finalmente, que falar em
"institucionalização" ou "desenvolvimento"
político, no entanto, é ainda muito pouco. A análise dos
sistemas políticos é em si mesma extremadamente complexa e
requer pelo menos três tipos bastante diferenciados de
consideração. O primeiro se refere às características mais
estruturais da formação do Estado, seu papel e seu peso
relativo no conjunto da sociedade. Esta é uma análise que
requer, necessariamente, uma abordagem histórica. Assim, o fato
relativamente fortuito da transferência da coroa portuguesa para
o Brasil, por exemplo, deu ao Estado brasileiro um grau de
institucionalização e um peso específico, único no contexto
latino-americano, que explica muito da relativa estabilidade do
sistema político brasileiro no século XIX. As diferenças de
experiência colonial, da mesma maneira, marcam radicalmente o
sistema político dos países da África situados ao sul do
Saara, variando desde os últimos vestígios do colonialismo
(Angola e Moçambique) até os experimentos de
institucionalização mais acabados (Gana e Nigéria), passando
pelos frutos das colonizações belga e francesa, das quais os
dois Congos servem de exemplo.
Um outro tipo de consideração se refere à estrutura formal
do sistema político, ou seja, à questão constitucional. O
formalismo jurídico que muitas vezes cerca a análise deste
aspecto dos Estados modernos leva freqüentemente o cientista
social a desconsiderá-los. e perder de vista sua importância.
No entanto, a divisão horizontal e vertical de poderes, a
organização do sistema eleitoral, as garantias e mecanismos de
preservação dos direitos das minorias, são aspectos
fundamentais para o entendimento dos sistemas políticos, por
suas conseqüências especificas e muitas vezes pouco
compreendidas.
O terceiro tipo de análise se refere ao próprio processo de
disputa, negociação, composição ou polarização que ocorre
no interior do sistema político. A lógica da competição
política não deriva simplesmente dos interesses subjacentes aos
partidos, nem das regras formais de ordenamento jurídico do
sistema político. Ela tem uma dinâmica própria que deve ser
estudada em sua especificidade, com conseqüências bastante
profundas para o funcionalismo ou eventual ruptura do sistema
político em muitos de seus aspectos.(6)
É possível organizar a discussão até aqui em termos
semelhantes aos da tentativa feita por Stein Rokkan e S. M.
Lipset de utilizar as categorias funcionais de Talcott Parsons
para análise dos sistemas políticos europeus.(7)
Parsons, como é bem sabido, propõe uma divisão analítica dos
sistemas sociais em quatro funções gerais da adaptação (A),
realização de objetivos [goal achievement) (G), integração
(1) e manutenção de normas ou latência (L) - que, aplicadas
às sociedades complexas, se traduzem exatamente nos subsistemas
econômico, governamental, de participação política e de
educação e transmissão de valores (família, escola). O estudo
de Lipset e Rokkan se refere à estrutura interna do subsistema
de participação política, em termos de suas sub-divisões.
Eles mostram como esta abordagem permite estudar e entender dois
dos principais eixos de polarização política: o que une as
funções de adaptação e integração (e que se refere a
conflitos de tipo econômico-funcional) e o que une as funções
de governo e manutenção de valores (o eixo centro-periferia).
Uma outra alternativa, que propomos aqui, é a de pensar nos
quatro subsistemas como quatro processos de transformação e
desenvolvimento social. O problema da análise dos sistemas de
participação política consistirá, então, em avaliar o que
ocorre no subsistema de participação política em face das
interações entre os outros três processos. Assim, é possível
considerar o que se passa no subsistema adaptativo "A"
como mudanças no processo de desenvolvimento econômico; as
mudanças em ""G" como o processo de
transformação e crescimento da estrutura do Estado, as
mudanças em "L", como transformações no sistema de
valores sociais, padrões de consumo e aspirações (que são
geralmente medidas em termos de alterações nas taxas de
educação e urbanização, e vistas como parte de um processo de
"modernização"); e, finalmente, mudanças em
"l", como aquelas relacionadas com a estrutura de
participação política e social. se considerarmos que, em um
contexto histórico dado, um destes processos pode assumir
caráter dominante em relação aos demais, desenvolvendo-se por
características próprias e influenciando o desenvolvimento dos
outros, teremos condições de estabelecer um quadro sistemático
de tipos alternativos de participação política:
Uma maneira simples de entender este esquema é pensar que,
quando a atividade econômica independe e prepondera sobre a
atividade especificamente política, o sistema de participação
política consiste, essencialmente, em formas de representação
de interesses. Ao contrário, quando é a atividade política que
prepondera sobre a atividade econômica, definindo, inclusive, as
oportunidades diferenciais de enriquecimento, o sistema de
participação política consistirá, essencialmente, em uma
disputa pelo controle do Estado ou pelo acesso a posições
governamentais, independentemente de uma ideologia ou programa
político explícito. Dito ainda de outra maneira, a primeira
forma de participação política relaciona-se com decisões ou
políticas (no sentido da palavra inglesa "policy"),
enquanto que a segunda forma diz respeito a posições, os
"cargos de nomear" a que se referia Macedo Soares. É
claro que nenhuma destas formas de participação ocorre de forma
pura e isolada, e o sistema de cooptação se estabelece
exatamente quando tentativas embrionárias de representação de
interesses são absorvidas, sistematicarnente, por uma política
derivada do controle de posições governamentais.
2. A Participação Política e o
Sistema Partidário Após 1945
A discussão até aqui desenvolvida, para fazer sentido, deve
nos ajudar a entender um pouco melhor as características mais
gerais do sistema político brasileiro constituído a partir de
1945, seu desenvolvimento e sua crise ao final de 1964, assim
como as evoluções posteriores do sistema partidário do país.
Este entendimento deveria poder ir além das análises
simplesmente sociológicas, que buscam explicar a política em
função das classes e outros grupos sociais, sem considerar o
sistema político; mas, além disto, deveria ter mais
profundidade que as análises meramente "internalistas"
do sistema político-eleitoral, que, ao desconsiderarem os
contextos social e de poder mais amplos em que a vida política
se move, tendem com facilidade a verdades freqüentemente
próximas de uma tautologia. E o que o texto que se segue
pretende evitar.
Terminado o Estado Novo, os interventores nos estados e seus
prefeitos nomeados se reuniram para dar forma ao Partido Social
Democrático, enquanto os burocratas do sindicalismo e do sistema
previdenciário oficiais formaram o Partido Trabalhista
Brasileiro. Cada qual à sua maneira, estes foram partidos de
"posições", partidos de governo, que funcionavam
combinando recursos do poder com capacidade de cooptar as
lideranças locais e sindicais ascendentes.(8)
Em ambos os partidos, o poder eleitoral derivava do acesso a
posições governamentais e centros de decisão. Geralmente os
temas ideológicos ou de princípio eram secundários, e os
interesses defendidos pelas lideranças se relacionavam com a
distribuição de posições, sinecuras ou facilidades e
privilégios de tipo político. Eram partidos que dependiam
essencialmente, para subsistir, da companhia do poder, e que se
desagregaram tão logo perderam o controle do Estado.
Havia vários tipos de oposição a este sistema hegemônico.
A oposição liberal a Vargas, que combinava setores urbanos de
classe média e intelectuais com líderes mais tradicionais,
marginalizados do sistema pessedista dominante; setores
militares, impacientes com a ineficiência e o clientelismo
político, que eram o preço do sistema de cooptação; setores
operários, que pugnavam por mais militância e envolvimento
ideológico por parte de suas lideranças sindicais e
partidárias; e setores militares, intelectuais e operários que
tratavam de influenciar no sentido de uma política externa e
interna mais definidamente nacionalista.
É possível sumariar tudo isto em termos da forma pela qual
se obtinha o acesso a posições de governo e da forma pela qual
essas posições eram mantidas ou buscadas. O sistema de
cooptação era, alternativamente, considerado adequado em seu
escopo, ou necessitando ser ampliado ou reduzido, conforme osetor
político em questão. Tanto governo quanto oposição pareciam
se alinhar ao longo de um contínuo de maior ou menor abertura e
participação (e, neste sentido, um contínuo de tipo
esquerda-direita), mas mantinham em comum o que estamos
denominando, por falta de melhor termo, a "política de
cooptação": a busca do controle de agências
governamentais como fonte para o exercício do clientelismo,
tanto para os que já possuíam poder, como para a incorporação
de novos grupos, e também para a expulsão dos antigos.
A intensidade dos processos de urbanização, educação etc.
(o que se denomina, em uma palavra, "modernização")
acrescenta uma nova dimensão ao quadro político,
consubstanciada em aumento das demandas de participação,
crescente consciência de objetos políticos e busca de
representação de interesses. É sobre este processo que se
exerce, mais caracteristicamente, a política de cooptação, que
é, essencialmente, uma política de controle e manipulação das
formas emergentes de participação. A distinção entre uma
política populista de cooptação e um processo político de
mobilização popular fica clara quando comparamos a
"radicalização a partir de cima" com os processos de
demandas crescentes de participação. É possível supor que
não existirá, em principio, mobilização induzida sem
participação espontânea, ou, em outras palavras, cooptação,
sem algum esforço de representação. Mas o que importa é o
peso relativo das demandas crescentes de participação e sua
capacidade de organização autônoma em relação à habilidade
e aos recursos de que dispõe o sistema de cooptação. Os
personagens políticos que se valeram do acesso a posições de
governo para incentivar a criação de um sistema de
mobilização radical em 1963-4 são um bom exemplo desta
combinação. Mas o exemplo acabado desta mistura de
mobilização, controle a partir de cima e falta de estruturas
efetivas de representação de interesses é o fascismo.
Quando um sistema econômico, além de ser dinâmico, possui
uma lógica e uma força internas que conformam o resto da
sociedade, os grupos sociais e econômicos tendem a se organizar
e influenciar as normas e mecanismos de decisão que determinam a
distribuição dos recursos gerados pela sociedade. É este tipo
de política que estamos denominando "política de
representação", da qual os regimes políticos liberais da
Europa Ocidental são o melhor exemplo, ainda que não o único
possível. O principal elemento destes sistemas é a autonomia
econômica e organizacional e a auto-referência dos grupos de
interesse. No Brasil, este tipo de política nunca chegou a se
desenvolver plenamente, mas adquiriu algumas formas embrionárias
de existência na área paulista. Uma das formas que assumiu
foram as ideologias liberais intransigentes, que rechaçavam toda
e qualquer forma de intervenção do Estado na vida econômica ou
na previdência social; outra, foram os movimentos sindicais de
cunho mais claramente "tradeunionistas", que se
preocupavam, essencialmente, com problemas salariais e se
baseavam mais em sua organização própria que em seus contatos
com o Ministério do Trabalho.(9)
Finalmente, assumia a forma de movimentos populistas de tipo
fortemente carismático, como o janismo, com pouca estrutura e
autonomia nas bases, mas também com pouco controle direto e
manipulação a partir de cima.
O que caracteriza a conversão de um conjunto de grupos de
interesse relativamente bem-articulado em um sistema político de
representação é a generalização das reivindicações e
aspirações particulares na forma de movimentos políticos
amplos e de objetivos diversificados. Esta transformação de
demandas privadas em demandas generalizadas surge, segundo
Schattschneider, quando o processo de disputa e negociação
política requer e permite a incorporação de setores sociais
progressivamente mais amplos na arena política.
É importante ter isto em mente quando nos perguntamos por que
a área paulista não deu origem a partidos políticos
bem-estruturados e de tipo representacional, como seu
desenvolvimento econômico e sua relativa marginalidade política
sugeririam. uma resposta possível é que os interesses
econômicos da área tendiam, geralmente, a ser atendidos em
termos específicos, não dando margem, assim, à formação de
uma estrutura de demandas políticas mais permanente. Já vimos
anteriormente como o setor de café pressionava no sentido de
transferir ao governo central a responsabilidade pela proteção
de seus interesses, e neste processo renunciava paulatinamente a
sua autonomia.(10) Outra
consideração é que grande parte da economia paulista era, e
ainda é, fortemente orientada para o exterior, gerando um tipo
de vínculo que tende a diminuir o interesse em questões de
política interna que não a afetem diretamente.(11)
De uma forma ou de outra, o resultado tendia a ser uma
combinação de algumas formas de política representacional,
bastante apatia e relativa marginalidade política por parte dos
setores mais privilegiados, bem como radicalismo de tipo
carismático ou esquerdista independente nos setores baixos.
Quando a estabilidade deste arranjo era abalada, aumentava a
participação, em geral através de uma ideologia de "lei e
ordem" ou de um liberalismo que repudiava a política e a
interferência governamental na sociedade como algo corrupto,
prejudicial e ineficiente. Foi este, em última análise, o caldo
de cultivo do janismo.
3. A Dinâmica do Sistema: os
Resultados Eleitorais
A análise dos resultados eleitorais através do tempo é a
melhor maneira tanto de testar a pertinência do esquema
apresentado anteriormente quanto de examinar sua evolução e
transformação através do tempo.
Uma primeira aproximação a estes dados é apresentada no
quadro 10.(12) Todas as
eleições presidenciais, exceto a de 1960, foram ganhas pela
aliança PSD-PTB. Somente em 1950 é que a aliança se rompe,
quando Vargas impõe seu nome, que não havia sido aprovado pela
liderança do PSD. O resultado desta tentativa de independência
é a derrota do candidato pessedista, Cristiano Machado, e um
novo termo no vocabulário político brasileiro, a
"cristianização" (os números entre parênteses para
1950 correspondem aos votos dados ao candidato do PSD que,
evidentemente, não recebeu o apoio de seu próprio partido): A
"cristianização" é uma demonstração, não somente
do carisma pessoal de Vargas, como de seu comando sobre a
clientela política, que supera a força da liderança de seu
partido. Este acontecimento mostra, também, como a força
pessoal de Vargas é predominantemente urbana e popular: é em
Minas Gerais, exatamente, que Cristiano recebe maior votação
relativa. A aliança volta ao equilíbrio quando a hegemonia se
coloca nas mãos do PSD. com Juscelino Kubitschek. Em 1960, no
entanto, o controle da aliança havia saldo totalmente do PSD. em
benefício dos setores nacionalistas e sindicalistas que se
lançam de forma mais clara e decidida em uma política de
mobilização. É neste momento que grande parte da liderança
pessedista "cristianiza" seu candidato, o General Lott,
permitindo a vitória de Jânio e selando, também, sua própria
ruína como partido hegemônico.
A participação de São Paulo no sistema criado por Vargas se
dá, no início, através de Ademar de Barros, criatura política
de Vargas naquele estado, surgida na cena política durante o
Estado Novo. Em 1950, Ademar se sente suficientemente forte e
marginalizado para criar seu próprio partido, o Partido Social
Progressista, e se lança como candidato presidencial em 1955 e
1960, ganhando em São Paulo e Rio nas primeiras eleições, mas
recebendo apenas 25% dos votos nacionais. Ademar foi sempre um
candidato regional, excluído do sistema PSD-PTB versus UDN, e
por isso. sem chances de chegar ao centro do poder.
A eleição de Jânio Quadros em 1960 é a primeira e única
vitória paulista no período. Jânio surge sem nenhum apoio
partidário, e sobe degrau por degrau desde a Câmara de
Vereadores de São Paulo até a presidência. Tinha uni forte
apelo personalista, seu programa se resumia em honestidade e
severidade, e o símbolo da vassoura que ostentava contrastava
claramente com sua figura suja e despenteada. Seu ingresso na
política nacional se faz através da adoção de seu nome pela
UDN, ainda que pouco houvesse de comum entre ele e este partido.
Quando no governo, Jânio foi capaz de atrair a oposição de
quase todos os grupos e setores, e sua renúncia, oito meses
depois, deixaria o país em uma crise política de grande
profundidade.(13)
A eleição de Quadros não significou que o sistema de
representação política passasse a predominar sobre o de
cooptação, mas que uma nova polarização, entre as tendências
ao fechamento e as tendências à abertura de participação,
começou a imperar. A prevalência do sistema de cooptação fica
clara no nível da vice-presidência, onde João Goulart ganha do
candidato de Jânio, que não compartia seu apelo carismático e
mobilizador.
A erosão progressiva da hegemonia da aliança PSD-PTB pode
ser vista com maior profundidade ainda no quadro 11, que fornece
os resultados das eleições para a Câmara de Deputados. Este
quadro mostra também o crescimento da votação atribuida a
alianças e coalizões partidárias. O PSD nunca deixa de ser o
maior partido, mas seu tamanho relativo diminui progressivamente
com o passar do tempo. O sistema de alianças tem como efeito
descaracterizar o sistema partidário, recebendo elas, em 1962,
quase metade dos votos. Estas alianças têm resistido a uma
análise que as "traduza" em termos de um sistema de
polarização partidária coerente, e parecem se dar de maneira
aleatória, atendendo a circunstâncias locais.(14)
No quadro 12, votos dados às alianças são somados aos dos
partidos dominantes em Minas, Guanabara e São Paulo, sendo estes
resultados colocados sob a sigla do partido, mas entre
parênteses. É uma maneira provisória de analisá-las, mas
parece permitir algumas conclusões.
O primeiro fato digno de nota no quadro 12 é o virtual
desaparecimento dos grandes partidos nacionais em São Paulo. Se
examinarmos as alianças eleitorais neste estado, veremos que,
nas eleições de 1958, o PSP fez uma aliança com o PSD, na qual
este último era claramente minoritário (o PSD teve somente 181
mil votos para a Assembléia estadual naquele ano, contra 411 mil
para o PSP). Em 1962, a aliança PSD-PSP perde para a aliança de
dois partidos eminentemente regionais, o Partido Democrata
Cristão e o Movimento Trabalhista Renovador, que também se
beneficia da herança política de Jânio Quadros naquele estado.
Tanto Ademar quanto Jânio são pessoas que visam diretamente ao
sistema político nacional, mas esta "nacionalização"
da política paulista tem como resultado, precisamente, a
destruição do sistema político partidário nacional sem a
criação de um outro sistema alternativo.
No Rio, em 1962, o PTB entra em aliança com o Partido
Socialista e com o ilegal porém ativo Partido Comunista. Somente
em Minas a configuração partidária nacional permanece
estável, com a coalizão entre o pequeno PTB e o ainda menor
PSP.
Tanto no Rio quanto em São Paulo, a eleição de 1962 para a
Câmara de Deputados se caracteriza pela presença de fortes
candidatos que polarizam os votos. Brizola, apoiado pela
coalizão PTB-PSB, concentra 62,8% dos votos em sua coalizão,
enquanto que Amaral Neto, da UDN, reúne 47,5% dos votos de seu
partido. Em São Paulo, Emílio Carlos absorve 44% dos votos da
aliança que o apóia. Em Minas, no entanto, o candidato mais
votado, Sebastião país de Almeida, obtém somente 10,6% dos
votos do PSD, chegando a um total de cerca de 80 mil, em
contraste com os 169 mil de Brizola, 123 mil de Arnaral Neto e
154 mil de Emílio Carlos.
A concentração de votos nas eleições legislativas era um
indicador das polarizações ideológicas que começavam a
dominar o cenário político nos centros urbanos, e que eram mais
reduzidas justamente em áreas mais rurais, como Minas Gerais.(15) A representação no Congresso
era proporcional à população do estado, mas o direito de voto
era restrito à população alfabetizada; isto dava força
adicional ao eleitorado de estados rurais, que permaneceram
bastante imunes ao processo crescente de mobilização política,
tão acentuado no Rio, São Paulo e centros como Recife, Porto
Alegre e mesmo Belo Horizonte. A eleição destes deputados
super-votados fazia com que o padrão das eleições legislativas
fosse próximo ao encontro nas eleições executivas, em que
poucos nomes disputavam os cargos. Mas um hiato se interpunha e
crescia entre estes casos excepcionais de legisladores
super-votados e as eleições executivas nos grandes centros, por
um lado, e os mecanismos eleitorais mais tradicionais para a
eleição ao Congresso, que ainda predominavam em termos
quantitativos, por outro. O fato de o sistema eleitoral para o
legislativo ser capaz, em grande parte, de absorver o processo de
mobilização sem se deixar afetar muito por ele explica a
tentativa de implantação do sistema parlamentarista em 1961,
assim como a legitimação dada pelo Congresso ao Governo Castelo
Branco, em 1964, que implicou, ainda, a eleição do pessedista
José Maria de Alkimin para vice-presidente da República.
Tratava-se, no entanto, de uma faca de dois gumes: o
conservadorismo do Congresso, que pareceria, em alguns momentos,
destiná-lo a um papel crescente de controle e legitimação do
Executivo, terminou por marginalizá-lo quase que totalmente do
sistema político nacional após 1964 e, principalmente, 1968.
Em resumo, pode-se dizer que são identificáveis duas linhas
principais de polarização do sistema político-partidário
brasileiro a partir de 1945. Uma delas tinha contornos
definidamente regionais, ainda que não de forma exclusiva, e
corresponde ao que estamos denominando sistema de cooptação
versus sistema de representação política. A outra se
manifestava no interior de cada um dos pólos acima, como um
corte transversal, aproximadamente de acordo com a dimensão
esquerda-direita. No sistema de cooptação, é possível pensar
que estes pólos são representados pelo PTB e pela UDN, esta
principalmente em sua versão mineira. No sistema de
representação, a esquerda era representada, em 1945 e logo
depois, pelo Partido Comunista, que, logo após a guerra, chegou
a reunir cerca de 20% dos votos em São Paulo, antes de ser
declarado ilegal, em 1947. Outros partidos, também
caracteristicamente paulistas, ou com setores paulistas
claramente diferenciados, se aliavam no contínuo
esquerda-direita, incluindo o Partido Socialista, o Democrata
Cristão, o Social Progressista e, finalmente, os setores
liberais mais conservadores que não chegaram a formar um
movimento partidário explicitamente organizado.
É possível tentar uma esquematização do sistema
partidário brasileiro nesta época, de acordo com a figura
abaixo:
Nesta figura, as duas linhas de polarização do sistema
político brasileiro aparecem como dois eixos perpendiculares em
um plano. Horizontalmente, os partidos e grupos politicamente
significativos estão organizados, da esquerda para a direita, de
acordo com suas posições em termos de maior utilização de
mecanismos políticos de cooptação ou representação;
verticalmente, eles são distribuídos conforme o maior ou menor
grau de mobilização ou restrição política que buscam.
É claro que um esquema político deste tipo força um pouco a
realidade, e muitos exemplos podem ser encontrados que
desconfirmem estas generalizações. O fato, no entanto, é que
um esquema como este, apesar de suas imperfeições, ajuda a
entender processos que de outra maneira ficariam ininteligíveis.
Um exemplo disto é o caso do Partido Comunista que mostra, em
sua história, uma curiosa combinação de duas tendências que
correspondem exatamente à polaridade cooptação -
representação. Em São Paulo, durante o período 1945-7, ele é
aparentemente um partido operário de inspiração européia,
bastante parecido com seus correspondentes na França ou na
Itália, por exemplo. Entretanto, é sabido que sua liderança
não tem origem predominantemente operária, e sim militar, a
partir da conversão do capitão gaúcho Luís Carlos Prestes ao
comunismo durante seu exílio na Argentina e, principalmente, a
partir da insurreição de 1935. Isto explica, talvez, a relativa
facilidade com que o Partido Comunista se Identificaria mais
tarde com o movimento nacionalista e com a estrutura sindical
oficialista, tratando de radicalizá-los com uma "ideologia
de Estado",(16) muito mais
do que através de uma ideologia classista que a experiência de
sucesso eleitoral em São Paulo poderia sugerir.
Um bom teste desta classificação quatripartite é a análise
do movimento operário e sindical brasileiro no período
1945-1964. Como em outros aspectos, as formas de organização e
o comportamento político do movimento sindical em São Paulo
sempre foram bastante diferentes das do resto do país. Após
1945, e até o Inicio dos anos 50, alguns dos setores mais
militantes e radicais do movimento operário brasileiro estavam
localizados em São Paulo - era o período em que o Partido
Comunista era forte naquele estado e se confrontava abertamente
com Getúlio Vargas, resistindo ao controle que o Partido
Trabalhista exercia sobre o movimento sindical brasileiro em
quase todo o país. Mais tarde, quando os movimentos trabalhista,
nacionalista e comunista passaram a se unir dentro da estrutura
sindical, uma grande variedade de organizações sindicais
não-alinhadas começou a surgir em São Paulo, em oposição aos
grupos dominantes em nível nacional. O conflito se torna claro
na III Conferência Sindical Nacional realizada em São Paulo, em
1960, quando há uma cisão a respeito da tentativa de criar uma
Central Sindical única em nível nacional. O resultado foi
acentuar mais ainda a marginalidade do núcleo operário paulista
em relação ao movimento operário nacional, durante os anos
cruciais de 1960-3.
Assim como havia uma oposição "direitista" ao
sistema PTB-Ministério do Trabalho, havia também uma oposição
de "esquerda", que carregava a bandeira da abolição
do imposto sindical e pleiteava a independência dos sindicatos
em relação ao governo,(17)
ambas localizadas predominantemente em São Paulo. Que a
contradição entre os setores paulistas e nacionais não pode
ser entendida simplesmente em termos de esquerda e direita fica
evidente, quando lembramos que o imposto sindical, que
simbolizava o sistema sindical aparentemente derrotado em 1964,
nem por isso deixou de existir a partir de então.
Esta análise permite entender a quase destruição do sistema
sindical brasileiro após 1964 e seu longo período de apatia e
desorganização. Com algumas exceções conhecidas, só com os
movimentos grevistas de 1979 e 1980 é que ele ressurge, agora
livre da tutela ministerial e concentrado no Estado de São
Paulo, nos setores mais capitalizados da indústria do país. O
"novo sindicalismo" não é, portanto, tão novo assim,
já que faz parte de uma tradição bastante anterior de
resistência aos mecanismos tradicionais de cooptação política
pelo Ministério do Trabalho por parte dos operários do centro
econômico do país.
4. A Crise Do Sistema
O sistema de cooptação, representado pela aliança eleitoral
PSD-PTB, principia a entrar em crise exatamente quando os níveis
de educação, urbanização e industrialização do país
começam a aumentar. Na medida em que crescia a participação
social em várias esferas de atividade, também ganhava corpo a
falta de interesse pelo sistema político partidário, o que se
expressa no aumento progressivo dos votos nulos verificados nas
eleições Isto é particularmente claro em São Paulo, nas
eleições para o Congresso; as eleições presidenciais, que
permitiam maior personalização e polarização de temas,
refletem menos claramente esta alienação, conforme se verifica
nos dados contidos no quadro 13.
Os dados sobre comparecimento eleitoral devem ser examinados
tendo-se em vista a proibição do voto ao analfabeto (cerca de
50% da população) e a estrutura etária (cerca de 50% abaixo
dos 18 anos). Assim, somente cerca de 25% da população é, em
principio, eleitora, variando muito essa porcentagem conforme o
nível educacional e de idade da população de cada estado. E
outro elemento importante, que torna impossível comparar estes
dados com os de outros países, é a obrigatoriedade do voto.
Para os setores mais educados e urbanos, o custo de não votar se
torna, com o tempo, tão elevado, que a proporção de votantes
em relação aos eleitores registrados acaba refletindo a
atualização dos registros eleitorais, antes que as
disposições dos eleitores. O mesmo não se aplica aos votos
nulos e em branco, que indicam realmente falta de interesse e
motivação para com o sistema eleitoral, se assumimos que o
sistema não está tão acima da compreensão do eleitor
alfabetizado O aumento de 3,2 a 21,1% é uma indicação global,
mas importante, da perda progressiva de correspondência entre o
sistema político-partidário e os interesses e motivações dos
eleitores.(18)
A participação de São Paulo no sistema político eleitoral
parece apresentar duas tendências simultâneas. Primeiro, um
desinteresse pela política ao nível nacional, que tende a
acentuar-se cada vez mais. Segundo, e simultaneamente, uma
mobilização crescente num contexto em que proliferam formas de
organização social e política. Há uma contradição entre
estas duas tendências. Os grupos mais capazes de se organizarem
na defesa de seus interesses tendem a alienar-se da atividade
político-partidária, principalmente ao nível nacional. Ao
nível local, há lugar para uma tentativa de réplica dos
mecanismos de cooptação, através de Ademar de Barros, que é
bem-sucedida eleitoralmente, mas se revela incapaz de incorporar
os grupos sociais e econômicos mais autônomos e ativos, não
chegando com isso a conferir aos setores organizados da sociedade
paulista uma expressão legítima no quadro político nacional.
A vitória de Jânio Quadros e João Goulart, em 1960, une,
por um breve período,'os dois sistemas, de uma forma duplamente
inovadora. Em primeiro lugar, o sistema partidário paulista,
até então marginal ou caudatário dos partidos políticos
nacionais, passa ao primeiro plano, com a UDN aderindo a Jânio
Trata-se de um verdadeiro processo de
"nacionalização" da política, que coloca em segundo
plano as clivagens regionais e ofusca a diferença entre os
sistemas de cooptação e representação, até então bastante
estanques. Em segundo lugar, esta nacionalização da política
se dá através de um processo de mobilização crescente e
polarização ideológica em nível nacional. O padrão de
distribuição de votos para as eleições deixa de ser o de
Minas Gerais, como foi até 1954, e passa claramente a ser o da
Guanabara, que tipifica a eleição presidencial de 1960.
O sistema eleitoral, baseado na cooptação de lideres
políticos, no paternalismo e no isolamento político do centro
econômico e dos núcleos urbanos, não resistiu ao crescimento
da mobilização e à nacionalização da política, que fizeram
do peso eleitoral de São Paulo o fator decisivo da vitória. A
cooptação política através da mobilização progressiva das
massas urbanas foi tentada mas fracassou, por falta de apoio
econômico, militar e internacional. A alternativa adotada foi,
finalmente, a da restrição forçada da participação
política, concentrando o poder nas mãos do Executivo e
retirando-o do processo eleitoral. A participação ficaria,
assim, limitada ao Legislativo, onde formas mais tradicionais de
controle do eleitorado pareciam ainda prevalecer.
A crise de 1964 tem sido objeto de uma literatura crescente.
Da mesma forma que ocorre com a Revolução de 1930, diferentes
interpretações do que teria havido em 1964 levam a distintas
conclusões a respeito do sistema político brasileiro, e até
mesmo da natureza do fenômeno político em geral. Será que o
país, por suas características históricas próprias, não tem
condições de possuir um sistema partidário eficaz? A crise de
1964 foi uma crise de conjuntura, ou representou uma
transformação profunda do sistema político brasileiro, e como
tal irreversível?
Para Maria do Carmo Campelo de Souza, a resposta é clara. De
maneira geral, diz ela, "numa sociedade relativamente
desenvolvida e complexa, o sistema partida rio é
instrumentalidade institucional dificilmente substituível".(19) No caso do Brasil, ela encontra
que "os indícios de fragilidade e desagregação coexistem
com os de fortalecimento e realinhamento do sistema
partidário." Para ela, ver só um dos la dos da questão
"revela incapacidade de apreender os processos de
transformação do sistema partidário como processos objetivos,
produzidos pela vigência efetiva de um sistema de
representação eleitoral e partidária". Em outras
palavras, o processo de desenvolvimento social não somente
desagrega o sistema partidário, como leva também a um
realinhamento e à organização de um novo sistema. É este
processo de realinhamento que estava sendo, supostamente,
gestado, quando a crise ocorreu.
A análise da crise propriamente dita é o objeto central da
análise de Wanderley Guilherme dos Santos, que trata de
explicá-la como conseqüência da segmentação e polarização
ocorridas no sistema político, com reflexos bem caracterizados
no âmbito do Parlamento. "A fragmentação dos recursos
políticos entre um grande número de atores extremamente
radicalizados constituiu, como variável independente, o palco
para a paralisia institucional."(20)
Esta situação teria impedido que continuasse a funcionar, no
Brasil, um sistema de coalizões parlamentares cambiantes que,
até então, tinham permitido o funcionamento razoavelmente
eficaz do poder Executivo, e sua convivência com o Legislativo.
Estas coalizões, mostram seus dados, deixavam de lado a aliança
clássica entre o PSD e o PTB, eleitoralmente a mais visível,
unindo inimigos aparentes na defesa de causas comuns. No período
de Juscelino Kubitschek, por exemplo, fica claro que "a
coalizão parlamentar de fato responsável pela estabilidade do
período não estava de nenhuma forma fixada ao longo do eixo
PSD/PTB e seus aliados vs. UDN e seus aliados".(21) A existência desta
estabilidade parlamentar também permitia que o governo
preservasse importantes áreas de sua administração do sistema
de espólio político, que passou a abranger todo o governo nos
anos críticos da presidência de João Goulart. A conclusão foi
a paralisia, tendo como conseqüência o aumento da
radicalização e fragmentação política, e finalmente a queda
do governo.(22)
A análise da crise política de 1964, assim como a própria
compreensão do processo político brasileiro como um todo, não
estaria completa sem um esforço no sentido de entender em maior
profundidade o funcionamento e as características mais gerais de
desenvolvimento do próprio Estado brasileiro como estrutura
complexa que tem como parte central o setor militar. Os
paradigmas políticos tradicionais tendem a tratar o Estado como
uma "caixa preta" que responde, dc forma mais ou menos
automática, às pressões e demandas da sociedade civil, e não
é estranha a esta perspectiva a insistência de muitos autores
em entenderem os militares como um grupo de "classe
média". Uma resenha da bibliografia de ciência política
brasileira feita por Bolivar Lamounier e Fernando Henrique
Cardoso mostra que estudos sobre o funcionamento do Estado
brasileiro enquanto centro decisório só ganham impulso a partir
da década de 1 970.(23)
Análises da Instituição militar em termos de sua organização
e peso próprios são ainda mais raras, devido, talvez, à
própria dificuldade de acesso inerente ao tema.(24)
Em seu conjunto, estes estudos deixam bastante claro que o
problema do autoritarismo e da democracia não pode ser entendido
como simples resultante de processos sociais gerais, nem se
esgota na lógica interna do confronto das racionalidades
individuais e grupais no seio do sistema político-partidário. A
experiência histórica indica que os países que conseguiram
instituir sistemas político-partidários estáveis contaram, via
de regra, com a participação inicial ativa da burguesia
ascendente no esforço de controle, racionalização e
subordinação relativa da autoridade política aos interesses
sociais. Este papel foi rapidamente sendo compartido por outros
grupos e setores sociais, como as minorias religiosas, os
interesses rurais, as corporações e grupos profissionais e,
obviamente, o proletariado organizado. Não é por acaso que
existe na ciência política brasileira uma crescente literatura
sobre o papel político da burguesia, num esforço de tratar de
identificar, em nosso caso, a repetição do processo histórico
europeu.(25) No entanto, a
análise da estrutura burocrático-patrimonial do Estado
brasileiro, e suas conseqüências ao nível da participação
política, mostram que esta é uma esperança vã. A democracia
brasileira, para chegar a se constituir de forma realmente
sólida, necessita que a sociedade possa se organizar de forma
autônoma sobre novas bases, além das matrizes classistas
tradicionais, a burguesia e o proletariado. É possível
encontrar muitos sinais encorajadores destas formas emergentes de
participação, no novo associativismo que surge nas grandes
cidades, na renovada consciência política e social das
associações profissionais, no novo sindicalismo, e assim por
diante. Isto, no entanto, não é suficiente, e ainda é cedo, em
1981, para prever um futuro que divirja de forma radical da
tradição centralizadora e autoritária que tem sido a marca da
história política do país. Uma discussão sobre o sentido mais
profundo da experiência eleitoral pós-64 ajudará, como
conclusão, a colocar este tema em perspectiva.
5. Conclusões: o Sistema Eleitoral
e a Questão Institucional
Recapitulemos. O fulcro da tese de "cooptação e
representação" é o qüestionamento da maneira de pensar
que vê o sistema político como baseado exclusivamente em
mecanismos de "representação de interesses", e que,
por conseguinte, somente consegue entender o Estado como agente
de um setor ou de uma constelação específica de setores da
"sociedade", definidos essencialmente em termos
classistas e econômicos.(26) A
isto se contrapõe o fato de que a maioria das sociedades
não-ocidentais tem uma organização política e estatal que é
parte importante, senão predominante, do próprio sistema
produtivo, e que por isso não pode ser vista como atuando em
nome de outras classes ou setores. Na medida em que existem,
na sociedade brasileira, dois pólos principais de organização
social - o de tipo privado capitalista e o de tipo patrimonial -
burocrático - o jogo político, quando se dá, expressa esta
contradição estrutural, na forma de dois "estilos" de
atuação e participação política -
"representação" e "cooptação" (o que
significa, obviamente, que não há nem uma nem outra quando o
sistema de participação política não se pode manifestar).
O modelo de representação política foi, por muito tempo,
quase que a única perspectiva analítica aceita dentro da
sociologia eleitoral que se pretendia estruturar, com
explicações baseadas na percepção das necessidades do sistema
social a partir de sua matriz produtiva, em contraposição a
perspectivas de tipo "culturalista" ou
"idealista". Este esquema explicativo supõe uma
sociedade organizada em grupos de interesse de diversos tipos
(classes, setores, estamentos etc.) que se dispõem para a defesa
de seus interesses na esfera pública. Sua elaboração parte,
grosso modo, da realidade histórica dos sistemas
político-partidários da Europa Ocidental, e corresponde a um
modelo teórico explicativo concomitante, que entende a sociedade
como definida essencialmente a partir de uma matriz fornecida
pela divisão social do trabalho, que dá os contornos das
diversas categorias e interesses sociais, que por sua vez se
expressam na arena política. Este modelo teórico pode surgir
com diversos graus de complexidade e sofisticação, abrangendo
desde a idéia mais singela (e por isso poderosa) de que o
sistema político e o Estado são meras
"superestruturas" do sistema econômico, até os
modelos mais complexos que tratam de incorporar conceitualmente
a- presença cada vez mais marcante do Estado nas sociedades
ocidentais modernas, lançando mão, então, de conceitos como
"fração de classe", "autonomia relativa",
"aparelho ideológico" etc.
A sociologia política, e mais especificamente a sociologia
eleitoral, que se desenvolveu como disciplina justamente nos
países em que existem os regimes políticos representativos mais
bem-sucedidos, tende em parte a confirmar e em parte a questionar
seriamente este modelo explicativo.
A confirmação consiste no achado mais ou menos universal de
que o "status sócio-econômico" tende a ser o melhor
preditor das atitudes políticas das pessoas. Tipicamente, o
conceito de "status sócio-econômico" deriva da
noção de classe, mas tende a ser definido como um contínuo em
um sistema de estratificação (medido usualmente pela
combinação da educação formal, prestígio profissional e
nível de renda da pessoa). Transformado em um contínuo, este
conceito deixa de lado a questão muitas vezes bizantina de
definir quantas e quais classes "realmente existem" em
uma sociedade, e estabelece um relacionamento mais ou menos
direto entre posição social e preferências
político-partidárias.
A relativa desconfirmação do modelo teórico de política
representativa apóia. se primeiro na debilidade das relações
acima indicadas. As relações existem, mas são baixas
("0,30 é o número mágico dos estudos eleitorais",
diz a respeito Adam Przeworski).(27)
Um conjunto de relações deste tipo, vinculadas a um conceito
contínuo de estratificação social, leva a uma teoria
"atenuada" de política representativa, que
corresponde, por sua vez, ao contexto político norte-americano e
europeu dos anos 50 e 60, quando estes estudos foram feitos. A
política é ainda a representação de interesses, mas os
interesses são múltiplos, muitas vezes conflitivos, o nível de
informação dos cidadãos é baixo porque o custo da
informação política é alto, e sua utilidade marginal, baixa),
e isto permite o funcionamento relativamente tranqüilo do
sistema representativo das democracias ocidentais, dirigido por
elites mais atentas.
A desconfirmação se acentua mais ainda quando comparações
internacionais sistemáticas começam a ser feitas. Normalmente,
as correlações entre atitudes políticas e status
sócio-econômico tendem a se manter dentro de cada pais, mas
existem grandes variações em termos de intensidade de
envolvimento político, grau de correlação entre atributos
sócio-econômicos e atitudes, e linhas de polarização dentro
das sociedades etc. Como explicar esta diversidade?
A literatura costuma mostrar três estratégias possíveis. A
primeira é utilizar o conceito de "cultura política",
que de alguma forma recupera o conceito já em desuso de
"caráter nacional". Existiria, assim, uma cultura
"machista" no México, "autoritária" na
Alemanha, "individualista" no Brasil,
"cívica" nos países escandinavos etc. Fábio
Wanderley Reis faz uma crítica absolutamente pertinente ao
conceito de "cultura política": "quando utilizada
para a explicação da evolução política de longo prazo ou
mesmo secular de um país, como se dá em algumas de suas
aplicações ao caso brasileiro, aquela noção exige que se
atribua aos componentes da 'cultura política' um grau
inaceitável de permanência e autonomia relativamente ao
substrato estrutural que lhes corresponde."(28)
A outra estratégia consiste em tomar em consideração as
características do sistema político-partidário, das leis
eleitorais, das possibilidades de enfranchisement etc.
Por exemplo, Gláucio Soares, ao tratar de explicar o
funcionamento do sistema eleitoral brasileiro no período de
1945-64,(29) utiliza-se tanto das
variáveis de tipo classista (mostrando, por exemplo, bases do
PTB nos setores operários mais modernos e urbanizados) quanto de
variáveis estruturais, como os efeitos das leis restritivas ao
voto do analfabeto. A própria lógica da competição em
diversos modelos de organização política - bi ou
pluri-partidários, de base funcional ou territorial, de âmbito
local, estadual ou nacional - implica graus distintos de
radicalização dos partidos, conteúdo ideológico ou não dos
programas, participação da população etc.
É claro que o principal problema desta abordagem é o fato de
ela tomar a estrutura político-partidária como dada e partir
daí para a explicação dos comportamentos individuais. Ela
permite, sem dúvida, explicar comportamentos a curto prazo, e
pode ser a via mais eficaz para desenvolver modelos preditivos de
grande precisão, principalmente se apoiada em estudos de
sociologia eleitoral empiricamente bem feitos; mas é impotente
para prever mudanças no próprio sistema eleitoral, tem unia
perspectiva de tempo muito limitada (ou supõe implicitamente a
intemporalidade), e por isso suas falhas na predição de
resultados eleitorais são, muitas vezes, tão surpreendentes
quanto seus sucessos.
A terceira estratégia, que considero a mais indicada, é
essencialmente histórica. Ela trata de ver como as ideologias,
as polarizações políticas, os sistemas eleitorais, as
percepções e avaliações dos fenômenos políticos pelos
diversos grupos da população, que existem hoje, são resultados
de experiências e buscas de solução para problemas e conflitos
de ontem, que caracterizam o contexto no qual são tratadas estas
questões em função dos objetivos políticos desejados para
amanhã.
A incorporação da perspectiva histórica traz grandes
vantagens e grandes problemas. As vantagens são que a realidade,
colocada pelos sociólogos empíricos em frios números e na
mente refrigerada dos computadores, ou preservada em formol pelos
teóricos da cultura política e do caráter nacional, readquire
subitamente vida, drama, emoção. O problema é que o analista
pode se encontrar, repentinamente, desarmado. Cada evento se
explica pelo evento anterior, todas as informações - os dados
econômicos, as conspirações, os acidentes, os segredos de
alcova - são importantes, e podem eventualmente mostrar a
"verdadeira" causa de cada evento. É claro que este
tipo. de situação é inaceitável, já que toda a explicação
causal que pretende superar a imediaticidade dos fatos aspira a
uma teoria, ou modelo explicativo mais genérico. Este modelo
explicativo pode muitas vezes estar implícito, outras não - a
história como produto das grandes personalidades, das
conspirações judaicas ou franco-maçônicas, das manipulações
dos irnperialisiiios, das lutas de classe.
Neste contexto é importante recuperar a problemática
teórica das relações entre Estado e sociedade, para o
entendimento dos processos históricos das sociedades
contemporânea. Pensar em termos destes dois macro-conceitos e
suas relações não é uma questão de "moda
intelectual" mais ou menos aleatória, mas o ponto de
partida mais fundamental para unia análise dos processos
sócio-políticos da história moderna e contemporânea. Pensar
em "sociedade", ou mais especificamente em
"sociedade civil", implica pensar no desenvolvimento
das cidades e da burguesia na Europa, na expansão da economia e
sociedade de mercado, no desenvolvi mento dos sindicatos etc.
Pensar em "Estado" implica, por unia parte, pensar no
"comitê executivo" do setor dominante da sociedade;
mas implica, também, pensar na criação de grandes estruturas
organizacionais capazes de mobilizar recursos e desenvolver
grandes capacidades extrativas e produtivas, incorporando grande
parte da riqueza territorial e de seus recursos humanos etc. Este
Estado nada tem de "abstrato", "sem raízes",
formal. Por isso mesmo, seu peso específico, seu relacionamento
com a burguesia, a aristocracia rural, os sindicatos e outros
atores importantes da sociedade, não podem ser definidos a
priori, mas dependem de uma análise empírica em cada caso.
Assim como existem teorias a respeito da tendência ao
crescimento e expansão do capitalismo, da tendência à
extinção de sociedades baseadas em agricultura tradicional
etc., existem também teorias relativas à tendência ao
crescimento do Estado, à lógica de poder das burocracias
públicas civis e militares etc. Cada uma destas teorias falha,
evidentemente, na medida em que não toma o outro lado em
consideração. Dai o surgimento da necessidade de teorias que
incorporem estas duas lógicas, que examinem o
inter-relacionamento destes dois processos seculares e façam
derivar daí proposições para o entendimento de situações
históricas particulares.
É desta forma que interpretações e formulações centrais
para o entendimento dos processos históricos podem ser trazidas
à colocação e experimentadas para a explicação de processos
históricos e, a partir deles, de conjunturas políticas
localizadas no tempo. Dai a vantagem em acentuar a importância
da temática da análise Estado-sociedade, dado que ela permite
combinar a análise histórica com a teoria social, ou pelo menos
com um corpo importante, no meu ver central, da teoria social
relativa aos processos históricos contemporâneos.
É por isso que considero que Fernando Henrique Cardoso, em
uma primeira reação às idéias aqui sugeridas, cometeu um erro
ao acusar de simplismo esta tentativa de acentuar o foco dos
problemas e suas ligações com a problemática conceitual
teórica, que as proposições sobre a análise Estado-sociedade
significavam.(30)
Em textos posteriores, no entanto, Cardoso passa a incorporar
a análise da questão do Estado de forma muito mais explícita e
sistemática, partindo da idéia de que "a análise sobre os
processos políticos contemporâneos precisa reavaliar as
relações entre sociedade civil e Estado e discutir mais a fundo
a visão herdada da tradição européia de que a relação
classe-partido-Estado se dá nesta ordem e com um nível de
autonomia institucional que supõe uma sociedade civil ativa e
autônoma".(31)
É a partir desta nova perspectiva que deve ser visto Partidos
e Deputados em São Paulo,(32)
certamente um dos melhores estudos sobre o sistema
político-eleitoral brasileiro já feitos. Seria impossível
analisar aqui toda a riqueza de contribuições e sugestões que
este texto contém. Limitar-me-ei, portanto, a comentar uma
série de teses e passagens que me parecem particularmente
ligadas à tem ática aqui discutida.
Em primeiro lugar, chama a atenção a análise da formação
do populismo paulista. Para o autor, o populismo é,
aparentemente, uma "perversão do sistema
representativo", que teria surgido pelas limitações ao
sistema democrático representativo impostas, principalmente, a
partir de 1947. No entanto, é claro que isto não explica tudo.
Referindo-se à inexistência de um partido trabalhista
fortemente organizado no Estado de São Paulo, ele diz que
"o controle do trabalhismo por Getúlio Vargas e depois por
João Goulart requeria na luta interna do PTB uma seção
paulista relativamente fraca". E continua: "Foi neste
contexto de marginalização dos setores ideológicos que
poderiam influenciar o comportamento das massas, do populismo e
da falência partidária do trabalhismo por causa de interesses
de grupos que lutavam pelo controle nacional do PTB, que se
desenvolveu o processo eleitoral paulista."(33)
A questão da insignificância eleitoral dos grandes partidos
nacionais em São Paulo - PSD, PTB, UDN - é central para o
entendimento do sistema político-eleitoral brasileiro pós 1945,
e é uma pena que Cardoso não tenha aprofundado a análise
sugerida pela referência à "luta interna" dentro do
PTB. No meu entender, o importante era que o PTB, como partido
governamental (de "cooptação"), não poderia aceitar
dentro de si um setor operário e sindical realmente forte e
estruturado, como seria de se esperar que se formasse na área
industrial de São Paulo. Este tipo de trabalhismo de base -
representativo - levaria a uma inversão do predomínio político
do centro administrativo-burocrático nacional sobre o centro
econômico do país. É por isso, e não por aspectos
circunstanciais de uma luta interna não-especificada, que nem os
partidos conservadores, nem os partidos liberais ou trabalhistas
de expressão nacional puderam se organizar e firmar uma base de
apoio sólida em São Paulo.
Isto não explica, entretanto, a razão da inexistência de
grandes partidos representacionais em São Paulo. Em primeiro
lugar, há que considerar que este tipo de partido tinha sua
força, ainda que limitada, no grande estado. PSB, PDC, PRP, a
própria UDN paulista, além do Partido Comunista, foram formas
de organização política independente que ali floresceram.
Mais importante do que estes, no entanto, foi o PSP. "De
fato", diz Cardoso, "o PSP foi criado, um pouco como o
PSD nacional, a partir do aparelho estatal. Entretanto, ele
expressou, desde o início, um fenômeno de 'insubordinação
paulista'. Os depoimentos trazidos à colação mostram que o PSP
combinava este fisiologismo com a participação de grupos
econômicos em rápida ascensão, e grupos sociais menos
privilegiados ligados a um sistema clientelístico - era o
'partido dos turcos', o primeiro partido que fez de São Paulo a
ligação entre um novo estilo de capitalismo e as camadas
populares ou pequeno-burguesas que na-o eram captadas pelos
conteúdos mais radicais..."(34)
Esta análise dá, creio, a chave do problema: o PSP cresce em
uma economia em expansão, onde o aparelho estatal no nível de
São Paulo também, crescia em termos de recursos e capacidade de
intervenção na sociedade paulista, e por isso nunca chega a ser
nem tipicamente um partido clientelista, ligado fisiologicamente
ao Estado, nem tipicamente representacional, dependente de grupos
de interesse autônomos.
A partir da caracterização geral dos partidos paulistas
anteriores a 1966, duas perguntas cruciais se colocam: como
entender e interpretam a vitória do MDB em 1974? Que sentido
atribuir a esta vitória e que dimensões analisar, tendo em
vista os desenvolvimentos futuros?
O voto do MDB tem dois sentidos principais, encontráveis em
São Paulo tanto quanto em outros estados em que se fizeram
pesquisas eleitorais. Por uma parte, ele é um voto de protesto
contra o sistema, contra o Estado. "Desde o passado",
diz Cardoso, "o Estado surge como pólo aglutinador quase
único da sociedade. 'O relacionamento entre estes dois termos do
processo histórico dava-se através de elites que (...)
manipulavam legendas e favores para obter o intercâmbio entre
eleitores e massa por um lado e partidos e Estado pelo outro. Uma
desconfiança básica e, por vezes, a apatia, continuavam a
permear o comportamento político das massas. Um fenômeno como o
janismo servia de catalisador momentâneo desta desconfiança.
Era quase unia alternativa de repúdio a 'tudo que aí
está", um caldo de cultura para, independentemente do
próprio líder, criar um eventual fascismo."(35) É um eleitorado reativo, que
nunca se enquadrou nos limites estreitos do sistema partidário,
que faz uso da oportunidade de votar para assinalar seu protesto.
Mas o segundo componente é igualmente importante: como
assinala muito bem Bolivar Lamounier,(36)
o voto do MDB não é simplesmente um voto negativista e
indiferenciado, um "voto cacareco". Ainda que o MDB
ganhe em toda a cidade de São Paulo, a variação geográfica
dos votos reflete "a continuidade de clivagens
sócio-ecológicas básicas", que combinam o voto de
oposição tradicional com o voto de novas áreas urbanas
periféricas. Trabalhando com duas variáveis clássicas de
estratificação, educação e idade, Lamounier mostra como a
idade permite explicar 11% de diferença no voto á favor do MDB
(os mais velhos votam pela Arena) e a educação outros 12% (os
mais educados votam pela Arena). A diferença entre a votação
pela Arena entre jovens pouco educados e pessoas maduras
bem-educadas é de 30% (12,4% e 50,4%, respectivamente), grau
tão alto de variabilidade explicada quanto os encontráveis nos
melhores estudos eleitorais. Por suá vez Cardoso mostra em seu
estudo como ás bases eleitorais dos eleitos pelo MDB têm muito
mais apoio em instituições de classe e setores sociais
especificamente definidos que a dos eleitos da Arena, que se
basearam principalmente na máquina administrativa do Governo
Laudo Natel. Esta mesma estruturação do voto emedebista, e sua
continuidade com o sistema político-partidário anterior a 1966,
é encontrada por Hélgio Trindade em seu estudo sobre Porto
Alegre.(37)
A questão do sentido do voto do MDB requer, alem do exame de
seus correlatos sócio-econômicos e ecológicos, á análise do
sentido atribuído a este voto. O estudo de São Paulo mostra que
os votantes do MDB se diferenciam claramente dos arenistas em sua
preferência pelo voto direto, pelo governo eleito, e em sua
crença na sabedoria do povo. Para Minas Gerais, Fábio Wanderley
Reis encontra níveis impressionantemente altos de falta de
informação política entre os eleitores de ambos os partidos,
mas também um predomínio daquelas atitudes que indicam,
principalmente entre os emedebistas, "postura crítica com
respeito às condições existentes no país, manifestando
preferência por uma forma conseqüentemente democrática de
organização política e rechaço ao quadro da rigidez política
que vem caracterizando a vida brasileira".(38)
O voto do MDB é, assim, em parte, a continuidade dos
vínculos político-partidários anteriores a 1966 e, em parte,
um voto de protesto, de tipo essencialmente político. Este voto
de protesto adquire a feição de um voto contra o Estado, ou o
governo, não só porque este governo representa certos
interesses, mas porque é governo centralizado e autoritário.
Alguns eleitores, diz Lamounier, se referem "a essa curiosa
figura, ao que tudo indica recente, da imaginação política
popular: a oposição entre governo e povo". É difícil
saber por que Lamounier acha "curiosa" esta atitude
historicamente tão presente na política brasileira. Para
Wanderley Reis, "o fato incontestável é que a
identificação maciça com o MDB se deveu às condições que
lhe criaram a imagem do anti-governo e anti-elitismo e lhe
permitiram emergir como o símbolo de um novo estado de
coisas."(39)
Como partir da verificação do sentido e características do
voto nas eleições de 1974 para uma visão prospectiva a
respeito do sistema político brasileiro? É óbvio, pelo menos
para mim, que os estudos eleitorais não se esgotam em si mesmos,
que não há muito interesse em poder predizer, ex-post-facto,
30% da variabilidade do comportamento eleitoral em função de
algumas variáveis de background. É claro que os estudos ganham
interesse quando identificam certos padrões de comportamento que
se mantém mesmo quando o sistema político-partidário e o clima
eleitoral se alteram. E seu interesse aumenta ainda mais se eles
nos permitem ganhar uma perspectiva sobre a evolução e o futuro
do sistema político do país.
Fábio Wanderley Reis tem este objetivo analítico claramente
em vista, quando busca no voto emedebista de 1974 o sentido de um
"voto constitucional". "A desinformação com
respeito a certos aspectos da conjuntura político-econômica do
país", diz ele, "está longe de poder ser vista como
resultando em comportamento errático diante das urnas".
Apesar da falta de informação, o voto do MDB é o voto de
oposição, caracterizando-se por alguns temas específicos
referidos às regras de participação do jogo político, e neste
nível haveria consciência clara por parte do eleitorado. Na
medida em que uma "consciência constitucional"
estivesse realmente se formando e consolidando no país, isto
colocaria em dúvida a viabilidade de qualquer projeto político
que pretendesse uma base de sustentação social sólida e ao
mesmo tempo buscasse contornar o problema da reformulação das
regras do jogo político, com seus respectivos direitos e
garantias.
Fernando Henrique Cardoso também busca uma sociedade que se
organiza de forma sólida e autônoma, e que possa, assim, fundar
um regime político aberto e participatório - mas encontra
dificuldades por todas as partes. Ele sabe que o peso do voto de
oposição tem muito de efeito circunstancial do próprio sistema
bipartidário: "a lógica do bipartidarismo, somada a certo
grau de liberdade e ao convencimento de que as eleições seriam
para valer, levaria à vitória estrondosa do 'partido popular'.
Este, no caso, foi o MDB."(40)
Mas para que o MDB possa ser realmente um partido de
representação de interesses, "o caminho a percorrer é
enorme", sendo preciso que "ele agregue, de fato,
interesses das classes que nele votaram, que se organize e se
vincule aos setores civis que apoiaram a linguagem que ele
usou".(41) O MDB, além de
estar longe de fazer isto, mostra ainda tendências à
oligarquização interna, que limitam as possibilidades de
representação de interesses em seu próprio seio. Esta
oligarquização "deu-se porque o condicionamento político
nacional a favorece, dada a descrença que ela gera no sistema
partidário e o descanso conseqüente na seleção de candidatos,
bem como o desinteresse por parte de eventuais candidatos e das
bases na renovação de quadros".(42)
Isto não deixa de ser verdade, mas ignora o teorema geral de
Michels segundo o qual a tendência à oligarquização tem a ver
com o próprio funcionamento interno das organizações
político-partidárias. Pareceria, no entanto, que o MDB seria um
partido de alta representatividade, não fosse o
"condicionamento político nacional". E os partidos de
antes de 1964?
Seria possível citar uma série de passagens onde para o
autor o positivo é a participação política representativa, e
o negativo são as formas clientelísticas, burocráticas etc. de
indução da participação política por máquinas
governamentais ou mesmo partidárias. O MDB estaria longe de
corporificar estes aspectos positivos, mas poderia representar
uma tendência. E a Arena? O normal seria que ela se
transformasse em um "partido conservador moderno", que
também fizesse a representação de seus respectivos interesses,
vinculando "este modernismo das classes dominantes - que
desde logo deve reconhecer-se como ligado à grande empresa - aos
setores da classe média urbana que eventualmente poderiam dar
sustentação político-eleitoral ao partido do governo"(43)
Eis pois, finalmente, a proposta normativa de Fernando
Henrique Cardoso, que não difere essencialmente da de Fábio
Wanderley Reis: a implantação de um sistema representativo
tanto à esquerda como à direita, a Arena representando "a
grande empresa", o MDB os setores populares etc. Como
sistema bi ou multi-partidário, é o antigo sistema
representativo que se apresenta como único candidato, senão
possível, pelo menos desejável para dar salda ao impasse
político com o qual nos confrontamos. E o Estado? Ele se
entregará docilmente aos ganhadores das liças eleitorais, a
cada qual quanto lhe toque?
Acredito que, assim como certas ideologias políticas se
reduzem ã Constante lamentação sobre a imoralidade dos
políticos, a corrupção dos governantes ou a falta de
consciência política dos eleitores, também a sociologia
eleitoral que se limite a detetar as deficiências do sistema
político representativo só pode terminar como. uma sociologia
de lamentação. No entanto, esta não é a única, nem
necessariamente, a melhor perspectiva possível. Seria
conveniente colocar aqui, com certo detalhe, os termos de uma
perspectiva alternativa, que me parece mais de acordo com a
experiência histórica brasileira e seu possível
encaminhamento. Partimos da questão da representa ção
política. A representação política supõe a existência de
grupos autônomos, orientados em função de interesses próprios
e definidos internamente, seja qual for sua base de
identificação - econômica, étnica, lingüística, religiosa
etc O que a análise histórica sugere é que as elites regionais
no Centro, Nordeste e, em certa medida, no Sul do país, tendem
historicamente a se preocupar menos com a representação de seus
interesses no centro político nacional do que com seu acesso a
posições de poder e prestígio em um regime político
centralizado. Os esforços eventuais de autonomia local tendem
geralmente a ser facilmente ou cooptados pelo centro, ou
suprimido pelas elites locais com o apoio do governo central.
Isto leva a um segundo aspecto, relacionado ao primeiro, que
é o da natureza da atividade política. Um regime político
baseado na centralização do poder e cooptação de setores mais
ativos tende á excessiva burocratização e á política de
distribuição de recursos entre clientelas eleitorais, enquanto
que uma política de tipo representativo tende a responder de
forma mais direta e explícita às demandas de seus constituintes
e, por isso, a ser mais clara na definição de objetivos e
políticas governamentais.
É importante pensar nestas categorias não como entidades
estanques, mas como elementos de um processo. A política
cartorial e clientelística deve ser vista, assim, como uma
resposta de uma administração centralizada de base
patrimonialista a uma demanda crescente de participação por
parte de grupos antes excluídos dos benefícios do poder. Ao
cooptar, o centro se enfraquece, mas ao mesmo tempo tira a
autonomia e independência dos cooptados, que de constituintes se
transformam em clientes. A conseqüência é a formação de um
sistema político pesado, irracional em suas decisões, que se
torna presa de uma teia cada vez maior e mais complexa de
compromissos e acomodações, até o ponto de ruptura. O Estado
patrimonialista, clientelista, acomodador, é visto como uma
reminiscência do passado, do tradicional, do conservador, e a
necessidade de sua substituição por um novo tipo de ordenamento
jurídico-político se impõe.
É aqui que o dilema dos dois modelos de organização
política volta a surgir, e aqui também a visão de processo é
essencial. Por um lado, o modelo representativista aparece como
ideologia anti-estatal; é o liberalismo à outrance,
que vê no Estado a fonte de todos os males, que propõe
transformar definitivamente os clientes em constituintes, em
fontes de poder, e o Estado em simples instrumento da vontade da
maioria organizada. No Brasil, é a ideologia liberal que ainda
há pouco se fazia ouvir através do Partido Libertador ou do
udenismo clássico. Por outro lado é a tentativa de liberar o
Estado de suas peias. O mal não estaria em sua participação
ativa na vida nacional, mas sim em seus Compromissos, seus
clientes, sua sujeição, enfim, à "política
partidária".
Cada lado tem sua razão, e o quadro só começa a se definir
com mais clareza quando se toma em consideração um terceiro
tipo de questão, que é a do papel da administração central na
promoção do desenvolvimento econômico e social do país. 9 que
podemos observar aqui é que, no Brasil, pelo menos desde 1937, o
Estado tem sempre desempenhado um papel ativo e agressivo na
implementação de algum tipo de política de desenvolvimento
econômico e social, embora fustigado pela crítica liberal
anti-intervencionista. É fácil ver como a crítica liberal não
se limita aos aspectos freqüentemente irracionais, ineficientes
e corruptos da política, mas se refere à própria noção da
necessidade social de planejamento e coordenação national de
recursos. A partir deste ponto de vista, a oposição ao Estado
centralizado surge como uma versa-o retardada do liberalismo
econômico do século XIX, florescendo em um enclave mais
privilegiado de um país subdesenvolvido, dependente e organizado
segundo moldes político-administrativos patrimoniais.
Eis, assim, um aparente paradoxo, que ressurge hoje em toda a
discussão dos problemas de planejamento centralizado e
distensão política: uma identificação de autoritarismo com
racionalidade e eficiência, por uma parte, e entre
participação política, liberdade, ineficiência e manutenção
de situações de privilégio, por outra. Não será esta uma
maneira equivocada de ver o problema?
O fato é que o sistema político liberal pode ser tanto na
forma de garantir a participação de setores cada vez maiores da
sociedade na definição dos objetivos nacionais quanto, ao
contrário, uma forma de garantir a prevalência de interesses
estabelecidos em detrimento de setores sociais menos articulados.
Por outra parte, sistemas políticos centralizados podem tanto
ser uma forma de limitar a distribuição do produto social a um
grupo restrito quanto, ao contrário, garantir que a vontade
geral prevaleça sobre interesses minoritários mais articulados.
É possível pensar em duas maneiras de ver o quadro político
brasileiro, que derivam destas duas perspectivas e suas bases
sócio-econômicas. A primeira, liberal e anti-estatal, pensa no
Estado como se legitimando através de um sistema democrático de
representação de interesses, e produzindo, essencialmente, uma
sociedade segura para o florescimento da iniciativa individual e
a eficiência do sistema capitalista competitivo. Ela critica,
assim, a tendência oposta como baseada no autoritarismo
político, e tendo como produto a política de clientelismo e
favoritismo pessoal.
A segunda ideologia política, simétrica a esta, é
intervencionista e centralizadora, e vê como fundamento de
legitimação do governo a existência de uma política orientada
para a maximização de objetivos coletivos e nacionais. Seu
produto é um Estado centralizado, eficiente, utilizando as
técnicas mais avançadas de planejamento econômico. Ela
critica, assim, a política representativa como a que defende
interesses privados e particularistas, e a livre iniciativa como
a manutenção de desigualdades sociais e regionais. O debate
político entre as duas tendências se refere, assim, ao sentido
verdadeiro de cada face da moeda. E certo que a bandeira de
representação política não passa de urna camuflagem para a
defesa de interesses e privilégios de pequenos grupos? Todo o
discurso político em termos de objetivos coletivos e nacionais
não seria, na realidade, senão uma racionalização para o
autoritarismo político? Os esforços de planejamento central e
eficiência governamental não seriam, na realidade, simples
roupagem para as políticas patrimonialistas e clientelísticas
de sempre?
O importante é notar que não somente as apreciações e
avaliações diferem, mas que cada uma das versões apreende um
aspecto importante da realidade político-administrativa
brasileira. É verdade que o Estado brasileiro tem sido,
historicamente, o centro de onde emana o clientelismo político e
a ineficiência, mas é também certo que, através da estrutura
governamental, alguns objetivos importantes e a longo prazo têm
sido estabelecidos e alcançados. É verdade que a bandeira da
representação política e da descentralização tem sido
historicamente relacionada com a política de interesses
privatistas - mas é também verdade que ela tem sido útil para
garantir a vigência de alguns valores básicos de liberdade e
pluralidade, e com isto aumentar cada vez mais o leque de
beneficiários presentes e futuros do desenvolvimento social.
O importante - e este é o problema político central que o
país confronta - é unificar estas duas tendências no que elas
têm de positivo. Este resultado - um sistema político
eficiente, moderno, de ampla base de sustentação social, e
buscando a realização de objetivos globais a longo prazo -- só
pode surgir quando a representação política deixe de se
identificar como apoio e a manutenção de interesses privados
limitados, e, ao mesmo tempo, quando o Estado deixe
definitivamente de ser uma burocracia patrimonial preocupada
essencialmente com sua sobrevivência e se transforme em um
agente efetivo e responsável de interesses sociais amplos.
Esta unificação deve ser efetivada, inclusive, no espaço,
ou seja, quando as duas tendências deixem de responder a
clivagens políticas diferenciadas geograficamente. Isto
significaria dar uma base representativa adequada ao processo de
coordenação e planejamento nacional, de tal forma que este
processo seja adequadamente controlado para evitar a
ineficiência e o autoritarismo, e, ao mesmo tempo, fazer com que
a política representativa seja de tal forma relacionada com os
interesses mais gerais da sociedade que estes prevaleçam sobre a
lógica dos interesses particulares de grupos privilegiados.
Existe, assim, um duplo trabalho a ser desenvolvido:
transformar as estruturas e atitudes políticas nos dois lados da
divisão regional e ideológica do país; desburocratizar, tornar
menos autoritária e clientelística a ação do Estado, e tornar
menos privatista e conservadora a política representativa. É
difícil prever como este trabalho evoluirá e não há dúvida
de que, em sua essência, estes serão os termos do debate
político que nos espera.
Na realidade, a questão do relacionamento entre o liberalismo
político e as formas mais capitalistas de organização social
encontra sua discussão mais plena nos termos sugeridos por
César Guimarães. Essencialmente, ele mostra que, conforme o
momento histórico do surgimento do capitalismo, em suas
relações com organizações políticas estatais preexistentes,
diferentes conseqüências políticas podem emergir. O primeiro
tipo sugerido de "capitalismo politicamente
implementado" corresponde ao modelo clássico de política
representativa. Nos outros dois, no entanto, pareceria que a
bandeira liberal deixa de existir, ou passa a figurar somente
como uma justificação ideológica que encobre uma orientação
política autoritária. Esta expressão, na realidade -
"capitalismo autoritário" - é utilizada por Otávio
Guilherme Velho em seu trabalho Modos de desenvolvimento
capitalista, campesinato e fronteira em movimento.(44)
Um último ponto, que creio importante assinalar, é que os
estudos eleitorais são somente uma das vias, e não
necessariamente a mais importante, para o entendimento dos
processos políticos, tanto em si mesmos quanto em função da
efetivação de valores que o analista possa ter. Conhecemos
suficientemente, hoje, de sociologia eleitoral para não nos
iludirmos quanto à capacidade de os sistemas eleitorais gerarem
e garantirem formas políticas adequadas. Pessoalmente, acredito
que a existência de sistemas eleitorais competitivos é uma
condição necessária, mas nunca suficiente, para garantir uma
sociedade quanto a formas abusivas de oligarquização e
monopolização de recursos sociais e econômicos por grupos
restritos.
Se isto é assim, os estudos eleitorais deveriam ser colocados
em um contexto que examinasse de forma bem mais ampla as
possibilidades de participação social que a sociedade
brasileira vem ou não oferecendo, não só na esfera
estritamente político-partidária, mas também em outras formas
de participação no setor produtivo, na organização do espaço
residencial e habitacional - as sociedades de bairros, por
exemplo -, no sistema de consumo, no sistema educacional e de
circulação de informações, em estruturas organizacionais
administrativas dentro do governo ou fora dele, em relação ao
sistema judiciário etc. A separação entre unia "esfera
política" e as demais esferas da vida social transforma a
vida política em um ritual vazio de conteúdo, dispendioso e
essencialmente inútil para governantes e governados. É na
medida em que a sociedade desenvolve a capacidade de
participação de seus cidadãos em muitas áreas diferentes,
reestabelecendo de forma efetiva o vínculo perdido e oculto pela
tradição liberal entre Estado e Sociedade, que o sistema
eleitoral pode, eventualmente, recobrar ou conquistar o seu
sentido de manifestação consciente e estruturada de valores
sociais. Até lá - ruim com ele, pior sem ele - o funcionamento
contínuo do sistema eleitoral e seu estudo livre de mitos
poderão, esperamos, contribuir para o desenvolvimento de uma
sociedade cada vez menos injusta e mais eqüitativa.
Notas
1. Cf.
Lipset, S. M., 1967, c Huntington, 5., 1968, p. 7.
2. A
incapacidade em considerar estes quatro níveis de análise
separadamente é responsável por muitos equívocos na literatura
sobre problemas de desenvolvimento. Celso Furtado, por exemplo,
em Subdesenvolvimento e Estagnação na América Latina
(Furtado, C., 1966), diagnostica bem a crise no nível econômico
e as dificuldades no nível do poder, mas não tem nada mais
elaborado a dizer no nível da estrutura social (refere-se a isto
com a expressão vaga de "massas heterogêneas") e da
participação política (dá por suposta a necessidade e
viabilidade de uma ideologia de desenvolvimento). Ver a
discussão sobre o livro de Furtado em Schwartzman, S., 1967.
3. O
conceito de "desenvolvimento econômico" medido nestes
termos, ou em termos de con sumo de energia per capita, é
intencionalmente quantitativo. Existem vantagens analíticas em
considerar o desenvolvimento, ou crescimento econômico,
independentemente de outras variáveis tais como as de
distribuição da renda, estrutura da produção, sistema de
propriedade, relações econômicas externas etc., cujas
relações empíricas com o crescimento podem então ser
estabelecidas.
4. A
linearidade aparece também nos correlatos políticos que S. N.
Eisenstadt atribui ao processo de modernização, ou seja, a
diferenciação institucional continua e "uma quebra na
auto-suficiência e fechamento dos diferentes grupos e camadas
sociais, que são trazidos para um centro institucional e
societal comum mais unificado, e começam a influenciar a esfera
institucional e simbólica da sociedade". Há aqui a idéia
de um processo de ampliação da esfera de participação similar
ao sugerido por Germani (participação restrita, ampliada,
total). Este aumento na escala de participação política parece
ser inegável, mas não descreve todas as alternativas possíveis
de participação. Eisenstadt, S. N., 1966 e Germani, G., 1962.
5. Análises
dos "avanços" e "atrasos" no processo de
desenvolvimento, sugeridas entre outras partes no artigo pioneiro
de Karl W. Deutsch sobre mobilização social, têm sido
desenvolvidas independentemente por uma série de autores, com
resultados geralmente recompensadores. Um trabalho neste sentido
é o de Rosalind e Ivo K. Feierabend, que desenvolve um índice
de frustração pela comparação entre indicadores de
"criação de desejos" e de "satisfação de
desejos" (educação, comunicações de massas,
urbanização, por um lado, e crescimento econômico por outro).
Outra linha de pesquisas, de orientação mais estrutural, é a
das equipes da Fundación Bariloche e do Instituto de Sociologia
da Universidade de Zurich, sob a direção de Peter Heintz e
Manuel Mora y Araujo. Ver Deutsch, K. W., 1966b; Feierabcnd, R. e
J. K., 1966; Helntz, P., 1970; Schwartzman, 5., 1972; Mora y
Araujo, M., 1972; Kaztman, R., 1972; Passos, A., 1968a.
6. Esta
é uma abordagem bastante nova no contexto brasileiro. Os dois
exemplos mais importantes nesta linha sido os trabalhos de
Santos, Wanderley Guilherme dos, 1979, e Lima Ir., Olavo Brasil
de, 1980.
7. Rokkan,
S. e Lipset, S. M., 1967. Este é um excelente exemplo de como um
esquema conceitual, pensado inicialmente em termos de uma teoria
funcionalista adaptativa, pode ser utilizado com proveito na
análise de processos históricos dinâmicos.
8. Para
uma descrição da história da organização dos partidos
políticos brasileiros pós-1945. ver Peterson, P. i., 1962. Para
o entendimento do sistema de poder local, ver Leal, V. N., 1948;
e o trabalho de Cintra, A. O.,, 1971; e Soares, G. A. D., 1973,
cap. VI. O melhor sumário a respeito das relações entre o
sistema sindical e o sistema político brasileiro é
possivelmente o de Schmitter, P. C., 1971, capts. 5 e 8.
9. Hélio
Jaguaribe já propunha, pelo menos desde 1962, uma distinção
entre um setor "cartorial" e um setor mais econômico
nos diversos estratos sócio-econômicos brasileiros, inclusive o
sindical, que é bem semelhante à sugerida aqui. Cf. Jaguaribe,
H., 1962.
10. Reis,
E. M. Pereira, 1979.
11. Ver
sobre isto Love, J. L., 1973.
12. Para
a coleta, organização e análise destes dados, contamos com a
colaboração de Lúcia Gomes Klein
13. Para
uma análise da renúncia de Quadros em termos do processo
político brasileiro mais geral, ver o trabalho de Jaguaribe, H.,
1961.
14. Lima
Jr., Olavo Brasil de, 1980, faz uma análise minuciosa das
alianças eleitorais tanto nível estadual quanto federal, e
mostra que elas não obedeciam nem a critérios ideológicos, nem
a motivações irracionais, mas a uma lógica de maximização de
resultados que dependia essencialmente do tamanho dos partidos em
cada estado e eleição. Isto são impede, evidentemente, que
elas tenham tido um sentido mais profundo, como indicação de
uma transformação a longo prazo pela qual o sistema vinha
passando.
15. Cumpre
notar que o fenômeno da concentração de votos para o
Legislativo já existia antes desta época, no Rio de Janeiro.
Assim, em 1945, Getúlio Vargas obtinha 24,1% dos votos da cidade
do Rio de Janeiro na eleição para o Congresso, e seu filho,
Lutero Vargas, chegou a 14,5% em 1950. Carlos Lacerda obteve
24,2% dos votos do Rio de Janeiro em 1954, e ele e Lutero
reuniram 42,5% dos votos da cidade naquele ano. Em 1958, Lacerda
volta a reproduzir feito semelhante, com 15,4% dos votos. Este
fenômeno carioca relacionado a Vargas e seu principal opositor
não encontra paralelo, no entanto, no resto do país até o
início da década de 60.
16. A
noção de "Ideologia de Estado" é central na análise
que faz Bolivar Lamounier das ideologias políticas no Brasil.
Cf. Lamounier, B., 1974 e 1977.
17. Ilustra
bem esse processo a história da tentativa de criação de uma
central sindical única no Brasil, descrita por Schmitter, p. c.,
1971, p. 190-3. Em uma nota de rodapé, Schmitter se refere a uma
enquete feita pela Conferência Nacional de Círculos Operários,
organização de inspiração católica, com dados a respeito da
recém criada Confederação Nacional dos Trabalhadores. Os
resultados mostram que sua força era maior em Pernambuco (71%
dos sindicatos), depois Pará, Piauí (61%), Maranhão (59%),
Guanabara (47%), e finalmente Rio de Janeiro (47%). São Paulo
fica bem mais distante, no último lugar, mostrando que a força
desta federação, pretensamente nacional, se correlacionava
quase perfeita, mas negativamente, cóm a industrialização dos
estados brasileiros.
18. para
uma tentativa mais ampla de Interpretar os votos nulos e em
branco, ver Schwartzman, S., 1973b. Nesse texto, se sugeria que
os votos nulos e em branco não sido simplesmente anômicos, mas
possuem um conteúdo de protesto contra o sistema político.
Entretanto, como observa muito bem maria do Carmo Campello de
Souza (1976), é impossível comprovar esta idéia a partir dos
próprios dados de abstenção, que podem refletir tanto a
marginalização dos setores "modernos" quanto a
incorporação de setores mais tradicionais e rurais ao sistema
eleitoral. De qualquer forma, a noção de que estes votos
representavam um debilitamento no sistema parece ser
suficientemente clara.
19. Souza,
M. C. C., 1976.
20. Santos,
Wanderley Guilherme dos, 1979, p. 41. Ver também, sobre
paralisia governamental, Heintz, Peter, 1964.
21. Ibid.
p. 145. Ver, para uma analise de coalizões cambiantes na
votação da criação da Sudene, Hirshmann, Albert, 1963.
22. "Toda
a administração do Estado, sob Goulart, foi aparentemente
transformada em um maço de cartas disponíveis para o uso
exclusivo no jogo de influências políticas" (Santos,
Wanderley, Guilherme dos, 1979, p. 17).
23. Lamounier,
B. e Cardoso, F. 11., 1978. As referencias incluem os trabalhos
de Vieira da Cunha, M. W., 1963; Daland, R . T., 1969, Lafer, C.,
1970, Leff, N., 1968, Martins, L., 1973, e Wirth, J. D., 1970.
Ver também Barros, A. S. C., 1969; Boschi, R. e Diniz, E., 1978.
e Lessa, C., 1978.
24. Os
principais estudos são os de Stepan, A., 1971, Coelho, E . C.,
1976; e Barros, A. S. C 1978.
25. Veja,
por exemplo, Boschi, Renato, 1979.
26. Esta
seção se baseia em "As eleições e o problema
institucional," publicando em Dados, 4, 1977
(Schwartzman, S., 1977), que inclui uma parte mais polêmica e
comentários de Fernando Henrique Cardoso e Fábio Wanderley
Reis.
27. Przeworski,
A. e Sprague, 3., 1975.
28. Reis,
F. W., 1974, p. 53.
29. Soares,
G., 1973.
30. Cardoso,
F. H., 1973. Seus comentários se referem a Schwartzman, S.,
1970.
31. Cardoso,
F. H., 1974.
32. Cardoso,
F. H., 1975.
33. ibid.,
p. 47.
34. ibid.
p. 50.
35. Ibid,
p. 56
36. Lamounier,
B., 1975.
37. Trindade,
H., 1975.
38. Reis,
F. W., s/d, p. 14. Ver também Reis, F. W., 1975.
39. Reis,
F. W., s/d, p. 15
40. Cardoso,
F. M., 1975, p. 19.
41. Ibid.
p. 19.
42. Ibid.
p. 23.
43. Ibid.
p. 43.
44. Cf. Guimarães, C.,
1977, e Velho, O. G., 1976.