RELATÓRIO DE UMA VISITA AO BRASIL

Simon Schwartzman

Publicado como "Universidade e Ciência Observadas por Ben-David" (introdução ao texto de Joseph Ben-David), Ciência Hoje 7, 37, novembro 1987, p. 68.


Em 1976 a Financiadora de Estudos e Projetos - FINEP - patrocionou a visita ao Brasil de Joseph Ben-David, falecido no ano passado, e um dos autores contemporâneos mais importantes no campo da sociologia da ciência e do ensino superior. O relato que fez Ben-David sobre o que viu e o que entendeu a respeito da atividade científica no Brasil, aqui publicado pela primeira vez, é ainda de grande atualidade, e de mais interesse do que nunca no contexto das homenagens que este ano se prestam à sua memória.

Uma breve biografia de Ben-David pode ser extraída no número especial da revista Minerva deste ano a ele dedicado (Shils, 1987). Joseph Ben-David nasceu na Iugoslávia em 1920, e trabalhou por alguns anos como prático químico. Em 1941 emigrou para a Palestina, onde, depois de alguns anos de serviço militar com o exército inglês, se matriculou como estudante de história na Universidade Hebraica de Jerusalém, tendo depois trabalhado em programas de assistência social a delinqüentes juvenis na Cidade Velha. Em 1947 foi para a London School of Economics com uma bolsa das autoridades britânicas para estudar administração social, mas estudou também sociologia, à qual já tinha se iniciado com Martin Buber. De volta a Israel, iniciou sua carreira como professor de sociologia na Universidade Hebraica em 1951, tendo nela permanecido até sua morte. Visitava constantemente a Europa e os Estados Unidos, e particularmente a Universidade da Califórnia, Berkeley, onde colaborou com a Carnegie Commission for Higher Education, e a Universidade de Chicago, onde ensinou regularmente.

A principal contribuição de Ben-David à sociologia da ciência são seus estudos históricos sobre as universidades e o contexto cultural, político e institucional do surgimento e das transformações da ciência moderna. Para ele, a ciência moderna requer, para seu desenvolvimento e continuidade, a constituição de um "papel social" para os cientistas, através do qual sua atividade seja reconhecida, prestigiada e protegida. "A persistência de uma atividade social ao longo do tempo, que resista inclusive à mudança de seus atores, depende da emergência de papéis para o desempenho destas atividades e a compreensão e a avaliação positiva ("legitimação") destes papéis por algum grupo social" (Ben-David, 1971, p. 17). Esta concepção se aproxima às idéias clássicas de Thomas K. Merton sobre a existência de um sistema valorativo e ético próprio da ciência, associado aos valores iluministas e racionalistas; assim com às proposições de Michael Polanyi e Thomas S. Kuhn sobre comunidades reais como embasamento sociológico dos paradigmas científicos. A contribuição específica de Ben-David consistiu em dar carne e osso e densidade histórica a estas proposições, e em elucidar as relações profundas e complexas que se estabelecem entre os sistemas científicos e os sistemas educacionais. Primeiro, por seus trabalhos clássicos sobre o desenvolvimento da ciência moderna na França, na Alemanha, na Inglaterra e nos Estados Unidos, e seus estudos comparados sobre e evolução histórica dos sistemas universitários destes e outros países (1968, 1970, 1971, 1977); e, segundo, por estudos pormenorizados de alguns casos específicos de emergência e consolidação de tradições científicas contemporâneas (com Collins, 1966; com Katz, 1975; e 1986). A visão que Ben-David transmite da ciência moderna e sua inserção nas sociedades contemporâneas é claramente weberiana, pela sua preocupação com o contexto social e histórico das idéias, valores e produtos intelectuais, assim como seu pano de fundo definido por um otimismo iluminista, temperado pelo ceticismo inevitável de nosso século. A ciência moderna é vista, sobretudo, como um fenômeno cultural, ligado aos sistemas educacionais e intelectuais, e irredutível a suas implicações ou resultantes econômicos e tecnológicos. Ele evitava, cuidadosamente, os exageros da sociologia do conhecimento reducionista, para a qual todo o saber não passaria de uma forma disfarçada de poder e ideologia; mas, vistas em profundidade, suas idéias não eram incompatíveis com a moderna micro-sociologia do conhecimento inglesa, o chamado "programa forte" (Freudenthal, 1987).

A visita de Ben-David ao Brasil foi feita no período áureo da FINEP, quando, sob a liderança de José Pelúcio Ferreira, ela conseguiu introduzir um grande dinamismo à atividade de pesquisa científica no Brasil e, ao mesmo tempo, protegê-la tanto quanto possível do autoritarismo político e ideológico então reinante. Ben-David se impressiona com o dinamismo da ciência brasileira, mas, ao mesmo tempo, coloca o dedo em algumas feridas cuja gravidade ficariam óbvias anos mais tarde. Ele duvida da estabilidade de arranjos institucionais que protegem as instituições científicas mas deixam intactas as rotinas burocráticas; ele se preocupa com o pouco impacto dos cientistas e pesquisadores universitários sobre os cursos de graduação; fala sobre as dificuldades inerentes aos programas de bolsas de estudo para exterior, cuja importância não deixa de assinalar. Finalmente, ele discute se existe ou não um caminho brasileiro para o desenvolvimento científico e tecnológico, e faz uma advertência quanto à necessidade de desenvolver a pesquisa básica e universitária, ao invés de colocar toda a ênfase em projetos tecnológicos ou industriais de tipo substitutivo. Sua tese é que tecnologia é algo que se importa, que não tem sentido reinventar; a atividade científica, no entanto, requer o fortalecimento de tradições locais próprias e bem assentadas socialmente. O que faz falta ao Brasil, diz ele implicitamente, é a institucionalização do "papel do cientista" como algo reconhecido e valorizado. A precariedade do ensino superior, combinado com uma percepção exageradamente tecnológica e utilitarista da atividade científica, pareciam conspirar contra isto. Agora como dez anos atrás, ele parece ter toda a razão.

Bibliografia:

Ben-David, J., 1968 - Fundamental Research and Universities. Paris, Organization for Economic Cooperation and Development.

Ben-David, J.: 1970, "The Rise and Decline of France as a Scientific Centre", Minerva VIII, 2 pp. 169-180.

Ben-David, J., 1971 - The Scientist's Role in Society: a Comparative View. Englewood Cliffs, N.J.: Prentice Hall. Segunda edição com nova introdução, Chicago, Universidade de Chicago, 1984 (existe tradução brasileira).

Ben-David, J., 1977: Centers of Learning: Britain, Germany, the United States. New York, McGraw Hill, 1977.

Ben-David, J.: 1986: "Academic Market, Ideology and the Growth of Scientific Knowledge: Physiology in Mid-Nineteenth Century Germany", in Lindberg, S., Coleman, J. and Nowak, E.: Approaches to Social Theory, New York, Russell Sage Foundation.

Ben-David, J., and Collins, Randall: 1966, "Social Factors in the Origins of a New Science; The Case of Pshychology", American Sociological Review XXXI (agosto).

Ben-David, J. e Katz, S., 1975 - Scientific Research Agricultural Innovation in Israel, Minerva XIII,2, 152-187.

Shils, Edward, 1987 - "Joseph Ben-David, 1920-1986", Minerva XXV, 1-2. pp. 1-2. <