
Francisco
Iglésias Simon Schwartzman
enviado para publicação em O Tempo, Belo
Horizonte, em março de 1997
Um dia, devia ser no final dos anos 50, resolvemos encostar o Iglésias na
parede. Ele seguramente não se lembra, mas tínhamos 20 anos, se tanto, estávamos
descobrindo as ciências sociais, a militância política, e tínhamos certeza
de que o Brasil estava às vésperas de uma grande transformação que viria
pelas nossas mãos. O Iglésias - ora, o Iglésias sabia de tudo, havia lido
todos os livros, era amigo dos escritores e poetas, tinha assistindo o fim
da segunda guerra, quem sabe participado da luta contra a ditadura getulista,
das tentativas de encontrar caminhos das gerações antes da nossa - porque
não se juntava a nós? Por que não nos contava como tinha sido este caminho,
que fazia dele, naqueles dias, o historiador inteligente, culto, irônico,
que todos admirávamos, mas que parecia ficar em seu canto, ter segredos
que não queria contar? Não lembro das palavras da resposta, mas lembro do
tom. Já não acreditava tanto, não tinha mais o nosso entusiasmo, agora era
nossa vez.
Levei um tempo para entender que não poderia ter sido de outra forma, cada
geração tem que reinventar o mundo, achar seus próprios caminhos, não teríamos
ouvido os conselhos de Iglésias se ele os quisesse dar. Uma das forças,
mas uma das fraquezas também da geração de sociólogos e economistas formados
pela Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG a partir dos anos 60, era
a sensação de que não havia nada antes de nós, que tudo tinha que ser reinventado
e recriado. Éramos arrogantes e iconoclastas, mas o episódio da conversa
com Iglésias mostra como éramos também carentes, não tanto de idéias e conceitos,
que, achávamos, era só uma questão de ler e estudar (nos livros franceses
que chegavam na livraria Duas Cidades ou em inglês que nos trazia, deus
sabe de onde, Júlio Barbosa), mas de modelos de viver, pensar e estar no
mundo, que Iglésias, quem sabe, poderia nos ajudar a encontrar.
Apesar da recusa, acho que Iglésias acabou deixando coisas preciosas para
as gerações que passaram pelas suas aulas e puderam desfrutar de seu convívio.
Primeiro, o valor da literatura. A geração de Iglésias se formou à luz da
revolução modernista, que, Mário de Andrade à frente, criou uma nova maneira
de olhar e expressar a realidade, renovando a linguagem pela busca de suas
raízes no quotidiano, e buscando vínculos intelectuais e culturais com revoluções
semelhantes que varriam a Europa. Nos anos 30 e 40, a literatura foi a forma
privilegiada de redescobrir o Brasil e abrir caminho para os novos padrões
de comportamento que romperiam com a hipocrisia dominante. Há ainda quem
pense que isto seja assim.
Depois, o valor da história, que, nas suas melhores vertentes, preserva
o uso cuidadoso e inteligente da língua como instrumento fundamental. Não
tanto os fatos históricos em si, mas a importância e a necessidade de olhar
os fatos atuais com a perspectiva do passado, e as coisas daqui com a perspectiva
das coisas de outros tempos e lugares. Talvez seja um exagero fazer de Iglésias
o único responsável, mas a verdade é que, por mais que vários de seus alunos
tenhamos nos dedicado ao estudo de teorias abstratas e do uso dos métodos
quantitativos para entender a realidade econômica e social, continuamos,
de uma forma ou de outra, tentando fazer história, buscando os vínculos
do presente com o passado, e olhando nossas coisas com a perspectiva do
outro, da comparação.
E finalmente, aí em nível muito mais pessoal, o valor da autenticidade.
Francisco Iglésias não somente se manteve sempre fiel a si mesmo, mas desenvolveu
um espírito agudo, muitas vezes implacável, de identificar e denunciar a
falsidade, o farisaísmo e a empostação. Talvez não haja, em Minas Gerais,
melhor "caseur", melhor conhecedor e contador de histórias do que ele, histórias
sempre saborosas, que acabam sempre por revelar o lado falso, e por isto
mesmo risível, de seus personagens. É claro que todos podemos ser, em algum
momento, personagens destas histórias, mas é um privilégio especial poder
estar, algumas vezes, entre os que as escutam.
(Simon Schwartzman, atual Presidente do IBGE, foi aluno de Francisco Iglésias
no curso de sociologia e política da Faculdade de Ciências Econömicas da
UFMG de 1958 a 1961).
<