
PETER HEINTZ
(1920-1983) Simon Schwartzman
El recuerdo es una forma de encuentro
Esta frase em castelhano está impressa como epígrafe na comunicação que
nos chega de Zurique informando a morte de Peter Heintz, pouco depois da
de sua esposa de toda a vida, Suzanne.
Lembro-me de Peter Heintz dos anos de 1962 e 1963, quando estudava na Faculdade
Latino-Americana de Ciências Sociais - FLACSO, em Santiago do Chile, da
qual ele foi diretor e professor de Sociologia de 1960 a 1965. Nascido e
educado em Zurique e na Alemanha, onde trabalhou com René Köning, Peter
Heintz trouxe para a América Latina uma formação profundamente democrática,
que na Europa o havia levado a identificar-se com a causa da República Espanhola
e explorar as potencialidades do anarquismo e outras formas de oposição
não autoritária à opressão do poder. Em Santiago, trata de constituir uma
Sociologia do Desenvolvimento que possa levar em conta desde os fatores
mais profundos da personalidade e da cultura em nossos países até a análise
do sistema internacional como um sistema de estratificação e dominação entre
nações. De volta à Suíça em 1966, continua seus trabalhos sobre a integração
e a dinâmica do sistema internacional, e termina com a proposta de um paradigma
para o estudo do desenvolvimento, que publica em Buenos Aires em 1970. Em
1980, seus ex-alunos, colegas e associados se reúnem para a publicação de
um livro em sua homenagem, um Festschrift que, sob o título geral
de "Sistema Internacional e Estrutura Social", inclui quase 40 trabalhos
cobrindo os diversos campos da Sociologia contemporânea que, de uma forma
ou de outra, ele mesmo estudou e para os quais contribuiu.
Além de suas pesquisas e publicações, Peter Heintz marcou sua passagem pela
América latina ao contribuir para fazer da Faculdade Latino-Americana de
Ciências Sociais um centro de formação de alto nível, que levava para todo
o continente um modelo de trabalho profissional e acadêmico que até hoje
perdura. Não é possível, na realidade, falar das ciências sociais no continente
sem incluir vários dos estudantes da FLACSO que, de uma ou outra forma,
passaram por suas mãos; uma lista bastante incompleta inclui os nomes de
Adalberto Torres-Rivas, Adolfo Gurrieri, Antônio Octávio Cintra, Enzo Faletto,
Carlos Filgueiras, José Luis Reyna, Fabio Wanderiey Reis, Manuel Mora y
Araujo, Nilda Sito, Ramiro Cordona, Ruben Kaztman. Suzana Filgueiras. De
volta à Suíça, Heintz organizou o Instituto de Sociologia da Universidade
de Zurique e manteve, por vários anos, colaboração estreita com o programa
de Sociologia da Fundação Bariloche, trazendo para a Europa vários de seus
professores e pesquisadores.
É possível que a principal lição que Heintz tenha transmitido a seus alunos
e amigos tenha sido uma profunda crença na riqueza dos dados da realidade,
acompanhada de um certo ceticismo quanto à possibilidade de entendermos
o mundo pelo mero exercício do raciocínio lógico-dedutivo. Heintz era um
leitor voraz e eclético, que selecionava de autores os mais inesperados
pedaços de teoria que julgava interessantes e que juntava com idéias de
fontes totalmente distintas. Além disto, explorava até o limite os dados
empíricos de que dispunha, não somente para a comprovação de hipóteses prévias,
mas para a geração de novas hipóteses e teorias, novas maneiras de entender
o mundo. É possível que esta maneira de trabalhar tenha tido, ao final,
um peso negativo, em sua tentativa de síntese teórica através de um paradigma.
Mas foi uma forma de trabalho caracterizada por grande curiosidade intelectual,
anti-dogmatismo e respeito pela realidade, que marcou, certamente, a maioria
dos que com ele conviveu.
Apesar de seus vários anos na América latina, de seus vários livros e artigos
publicados em castelhano, e de seus ex-alunos espalhados por todo o continente,
Peter Heintz é hoje um autor pouco conhecido entre nós. É possível que isto
se deva, em parte, ao relativo hermetismo e complexidade metodológica de
sua obra mais recente; é possível que se deva ao fato de sua obra dos últimos
anos ter sido publicada principalmente em alemão. É possível, finalmente,
que suas teorias específicas sobre o desenvolvimento social, que buscavam
elevar os conceitos próprios de uma Sociologia de tipo "micro " - anomia,
desequilíbrio de status, autoritarismo, prestígio, influência - à
análise de grandes sistemas sociais e suas transformações, não tenham encontrado
eco na competição com outras maneiras de entender as questões do subdesenvolvimento,
que terminaram predominando - como, por exemplo, a teoria da dependência,
de apreensão muito mais intuitiva.
Mas é também possível - e isto seria muito triste - que algo deste relativo
esquecimento se deva à própria instabilidade que afeta nossas instituições
de ensino e pesquisa, de forma a deixar pouco espaço para o espírito inquisitivo,
que deve ser sempre insatisfeito, sempre aberto a novas teorias, novos dados,
novas metodologias de análise, sempre disposto a investir tempo e inteligência
no conhecimento das idéias dos demais, espírito que Peter Heintz personificou.
O espaço pode ter sido pouco, mas tende a crescer. Peter Heintz ajudou a
abri-lo e a iluminá-lo, e será sempre um ponto de referência definido e
claro, como modelo de postura intelectual e pessoal, para os que estejam
empenhados em mantê-lo.
Neste espaço sempre o lembraremos, e o encontraremos.
(Publicado em Dados - Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro,
26, 1, 1983, p. 5-7)
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