
O que preocupa
os cientistas Simon Schwartzman
Publicado no Jornal do Brasil, 6 de março
de 1979, página 11.
A falta de definições do futuro governo com relação à área de pesquisa científica
e tecnológica tem gerado apreensões na comunidade acadêmica, traduzidas,
entre outras formas, pelas reuniões sucessivas. que a seção regional da
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência vem promovendo no Rio de
Janeiro. Nem a nomeação de um matemático com a reputação intelectual e o
prestigio pessoal que tem Maurício Matos Peixoto para presidência de Conselho
Nacional de Pesquisas foi suficiente para tranqüilizar esta comunidade.
Porque o problema não é somente de nomes, mas também, ou principalmente,
da política a ser adotada.
Os receios que os cientistas manifestam surgem em dois sentidos opostos
mas complementares. O primeiro é o de o futuro governo atribuir importância
somente à pesquisa tecnológica, economicamente rentável, em detrimento da
atividade de pesquisa básica e acadêmica. Nos primeiros momentos de indefinição,
correram boatos insistentes de que o Conselho de Pesquisas seria transferido
para o Ministério da Indústria e do Comércio, ou teria suas atividades divididas
entre a Secretaria de Tecnologia Industrial do MIC e a Empresa Brasileira
de Pesquisas Agropecuárias do Ministério da Agricultura. Em um segundo momento,
quando o nome do futuro presidente do Conselho ficou conhecido, temeu-se
que o CNPq voltaria a ser a instituição desprestigiada e desprovida de recursos
que foi até sua reforma em 1975.
A integração entre a pesquisa básica e a pesquisa aplicada, ou tecnológica,
tem sido a pedra de toque da política brasileira desta área desde a criação
do Fundo de Tecnologia do BNDE (FUNTEC). Formado inicialmente para dar apoio
à atividade tecnológica nas empresas financiadas pelo Banco, o FUNTEC rapidamente
evoluiu e se transformou na principal fonte de financiamento para a pesquisa
científica aplicada e acadêmica, em instituições isoladas ou universidades,
dentro do país. Nos últimos dez anos este financiamento tem sido proporcionado
através dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico,
gerido pela FINEP. A transformação do CNPq Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico, em 1975, completou o quadro desta integração,
fortalecida ainda mais, nos últimos anos, pela cooperação estabelecida entre
estas instituições da área econômica e o Ministério da Educação, através,
principalmente, do Conselho Nacional de Pós-Graduação.
Ainda é muito cedo para um balanço definitivo desta política. Um dos resultados
mais imediatos foi o grande aumento de recursos que se tornaram disponíveis
para a atividade científica e de pós-graduação no Brasil. Ainda que existam
certamente desperdícios no número absurdo de mais de 600 programas de pós-graduação
hoje existentes, não há dúvida de que o número e a qualidade da atividade
de centros científicos brasileiros de alto nível aumentou bastante. A comunidade
científica brasileira é hoje é muito mais forte, mais diversificada e potencialmente
mais influente do que jamais o foi na história do país.
Este aumento de recursos e condições de trabalho veio acompanhado, no entanto,
de uma sensação de perda dc autonomia e independência por parte desta comunidade.
As cassações e aposentadorias de 1969 e 1970, o sistema do cassações brancas
imposto desde então (pelo qual cientistas são impedidos de receber auxílios
e bolsas de estudo por critérios políticos não explicitados), a crescente
máquina burocrático-administrativa montada pelo Conselho em sua nova estrutura,
a tomada de decisões importantes na área de política tecnológica (como na
área nuclear) sem consulta ou consideração à comunidade científica especializada,
tudo isto gerou uma sensação de mal estar que era tanto maior quanto mais
a comunidade científica se via dotada de mais recursos e condições de trabalho.
A qualidade e o impacto da pesquisa tecnológica realizada neste período
são muito mais difíceis de analisar. A pesquisa básica, ou acadêmica, é
aferida por critérios internos à própria comunidade através, principalmente,
de suas publicações. A pesquisa aplicada deve ser avaliada principalmente
por seus resultados. Os órgãos de apoio à pesquisa, no entanto, nunca tiveram
condições de se integrar à política econômica do país, nem às políticas
na área de saúde ou energia, de onde poderia surgir a utilização destas
pesquisa. Em um contexto de dependência externa e abertura a tecnologia
internacional, existe sempre a tendência de preferir tecnologias consolidadas
do exterior às tecnologias em gestação no próprio pais. Assim, a pesquisa
tecnológica, ainda que tenha gerado uma capacitação e um potencial de produção
técnica respeitável, não conseguiu se constituir em fator significativo
do desenvolvimento econômico e social do país. Nestas condições. a ênfase
atribuida à pesquisa aplicada pode terminar por prejudicar a pesquisa acadêmica
independente e auto-dirigida. Além disto, a noção de que a pesquisa científica
deveria necessariamente estar ligada aplicações práticas de rentabilidade
econômica e social a curto prazo foi um dos fatores que levou à organização
de sistemas bastante complexos de planejamento e controle da atividade científica,
de peso burocrático e administrativo conhecidos, mas de eficiência questionável.
Apesar deste problemas, a convivência entre a pesquisa básica, a pós-graduação
e a pesquisa aplicada foi bastante pacífica nos últimos dez anos, e é possível
afirmar que o balanço geral é positivo para todos. Esta convivência pacifica
se explica por duas ordens de fatores. A primeira é que o volume de recursos
dedicados à área de ciência, tecnologia e pós-graduação tem se expandido
continuamente até agora o que fez com que os possíveis atritos entre as
diversas áreas sejam relativamente fáceis dc acomodar. Segundo, algumas
das posições centrais neste sistema de ciência e tecnologia estavam ocupadas
por pessoas altamente respeitadas e de trânsito fácil tanto na área científica
quanto na área tecnológica e econômica. Esta liderança pessoal foi tão mais
importante porque nunca houve solução institucional para o problema da duplicação
de funções entre os diversos órgãos do sistema de ciência e tecnologia,
a começar pela própria FINEP e CNPq, apesar de ambos pertencerem mesmo Ministério.
A redução dos recursos disponíveis no período de contenção de despesas que
se aproxima, a ausência de pessoas em condições de realizar a intermediação
entre as diversas áreas, como vinha ocorrendo até então, e o abandono de
qualquer projeto de autonomia tecnológica nacional, em benefício de uma
preocupação com a rentabilidade empresarial a curto prazo, e a importação
contínua de capitais, tudo isto parece prenunciar que o experimento de vinculação
entre a ciência e a tecnologia está chegando ao fim. Devolvido aos cientistas,
o Conselho de Pesquisas corre o risco de voltar ao isolamento e à falta
recursos das épocas antigas. enquanto que a tecnologia, entregue o às empresas
do setor privado, poderá tender cada vez mais à importação de pacotes
do exterior, tirando, assim, a razão de ser do esforço de criação de uma
tecnologia nacional. A comunidade científica tem, certamente, razões para
se preocupar.
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