
Reunião da Comissão de Educação da Assembléia Legislativa
do Estado de São Paulo sobre o projeto de criação da Universidade Tecnológica
do Estado de São Paulo (Projeto de Lei n 827/89).
Simon
Schwartzman
Abril de 1990.
Representando o Reitor da Universidade de São Paulo, participei da reunião
promovida no dia 17 de abril pela Comissão de Educação da Assembléia Legislativa
do Estado de São Paulo para discutir o projeto de criação da Universidade
Tecnológica do Estado de São Paulo (Projeto de Lei n 827/89). A reunião
foi coordenada pelo Deputado Mattos Silveira, e o debate foi iniciado pelo
Prof. Antônio Celso Arruda, designado "reitor pró-tempore" da
UTP, e pelo Prof. Antônio Joaquim Severino, da Faculdade de Educação da
USP. Além dos membros da Comissão, a reunião teve a presença de um grande
número de pessoas com faixas, cartazes, músicas em coro, panfletos e outras
demonstrações de que o tema está altamente politizado, e com muitos interesses
envolvidos.
Tanto quanto consigo entender, o projeto da Universidade Tecnológica consiste,
basicamente, em dar autonomia e status universitário ao Centro
Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza, que é hoje um complexo de
ensino técnico de segundo grau e ensino profissionalizante pós-secundário,
e ligado à UNESP. o CEETPS conta hoje com 13 escolas técnicas e quatro Faculdades
de Tecnologia, Segundo o Professor Celso Arruda, o status universitário
daria ao Centro Paula Souza autonomia, e seria acompanhado da criação de
outras áreas de ensino técnico na área da saúde, meio ambiente, e outras.
Ele não pretende reproduzir as disciplinas e cursos das outras universidades,
mas criar outros, de sentido mais fortemente profissionalizante. A nova
universidade continuaria a manter seus cursos secundários, e a passagem
do nível secundário ao superior seria, aparentemente, automática, ou pelo
menos privilegiada para os alunos da UTP. O tema da pesquisa universitária
não chega a ser mencionado. Ele acredita que a nova universidade teria condições
de receber recursos internacionais para estas novas áreas (da Universidade
das Nações Unidas, por exemplo), de tal maneira que o orçamento estadual
não seria sobrecarregado. O projeto da universidade deveria ser desenvolvido,
segundo ele, por uma comissão, aparentemente paritária, formada por professores,
alunos e funcionários do Centro Paula Souza.
Parece bastante claro que o projeto tem apoio em setores importantes no
interior do Centro Paula Souza, já que ele implicaria, aparentemente, uma
equiparação do Centro às demais universidades estaduais paulistas, em termos
de salários e acesso a uma parcela fixa do ICMs do Estado. O projeto consegue
apoio mais geral, também, ao acenar com a ampliação de vagas no sistema
público de educação de terceiro grau para uma região, e um tipo de população,
que normalmente não consegue acesso às universidades públicas do Estado.
Por outro lado, o projeto tem a oposição da Associação dos Docentes das
Faculdades de Tecnologia do CEETPS. Eles crêem que se trata de um projeto
conservador, que não atende à especificidade do ensino tecnológico, caracterizado
pelo atendimento em cursos noturnos e estudantes de tempo parcial e sem
a formação geral típica dos alunos das demais universidades. A oposição
dos professores das FATECs não é contra a criação da Universidade em sí,
mas contra o atual projeto, e parece seguir uma linha de divisões político-partidárias.
As questões mais gerais relativas ao projeto foram colocadas, principalmente,
pela Deputada Guiomar Namo de Melo, membro da Comissão. Em primeiro lugar,
ela chamou a atenção para a tendência, que se manifesta também no nível
federal, de dar uma ênfase exagerada ao ensino técnico de nível secundário,
e depois de verticalizar o ensino técnico secundário e superior,
ou seja, de estabelecer uma via de acesso direta das escolas técnicas secundárias
às universidades tecnológicas, sem passagens para o sistema educacional
mais amplo. O problema com esta ênfase no ensino técnico é que ele dá uma
formação limitada que pode se tornar obsoleta com muita rapidez, dada a
velocidade das mudanças que ocorrem na tecnologia. Este problema já vem
sendo sentido por outros países que, como a França, abraçaram no passado
a solução das escolas técnicas de nível superior. Além disto, os recursos
que as escolas técnicas federais têm absorvido no Brasil são tipicamente
10 a 20 vezes superiores, em termos per capita, do que se gasta
com o ensino secundário de tipo geral, que é aonde a formação de nível secundário
deve se dar. É claro que, com esta desproporção de recursos, o ensino das
escolas técnicas termina sendo muito melhor do que a média das escolas médias
comuns, o que faz com que muitos alunos usem as escolas técnicas como preparação
(publicamente subsidiada) para as carreiras universitárias mais prestigiadas.
Estes questionamentos apontam para o fato de que não existe uma política
educacional coerente, nem do governo federal, nem do governo do Estado de
São Paulo. O projeto de criação da Universidade Tecnológica é uma iniciativa
isolada, atendendo possivelmente a um conjunto determinado de interesses
particulares ou corporativos, e deveria servir, principalmente, de oportunidade
para uma discussão mais ampla do papel do Estado de São Paulo em relação
ao ensino de nível superior da região.
Parece claro que o setor público deveria ampliar sua participação no ensino
superior no Estado, que hoje é de menos de 10% das matrículas. Não é nada
claro, no entanto, que esta ampliação devesse ser feita pela criação de
uma quarta universidade, só que "diferente" das demais. Se isto
for feito, a tendência será de haver uma pressão quase irresistível por
isonomia, tanto de salários de professores e funcionários quanto de validade
e reconhecimento de títulos, sem nenhuma garantia (e na realidade muitas
dúvidas) de que os níveis de qualidade da USP ou UNICAMP sejam minimamente
alcançados.
O tipo de ensino técnico, secundário e pós-secundário, oferecido pelo CEETPS,
deve existir em um estado como São Paulo, mas não deve, certamente, substituir
os demais. O Estado de São Paulo pode e deve desenvolver um sistema múltiplo
de instituições de ensino superior - Universidades (com pesquisa e pós-graduação),
escolas profissionais, centros de formação de professores e escolas técnicas
de 2 ou 3 anos. Este é o esquema adotado, por exemplo, pelo Estado da California
nos Estados Unidos. Ele é pior do que os sistemas mais homogêneos de muitos
países europeus, mas ele parece inevitável quando se pretende ampliar efetivamente
o atendimento educacional a uma população tão diferenciada como a nossa
(ou a americana). O importante é que os diferentes setores não sejam estanques,
e que existam mecanismos que permitam a passagem de pessoas de um a outro
tipo de educação, em função de seu desempenho. O Centro Paula Souza pode
ser visto como o embrião de um setor deste sistema múltiplo. Transformá-lo
em universidade pode significar exatamente o contrário disto, ou seja, matar
a possibilidade de que esta diversidade de instituições e atividades se
firme e se estabeleça.
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