Ciência, Universidade e Ideologia: a Política do Conhecimento

Simon Schwartzman

Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1980

Apresentação

INTRODUÇÃO

1. Ciência, Tecnologia, Tecnocracia e Democracia

A QUESTÃO DA CIÊNCIA

2. Os mitos da ciência

3. Por uma Politica científica

A QUESTÃO DA UNIVERSIDADE

4. Universidade, Ciência e Subdesenvolvimento

5. A crise da Universidade

A POLÍTICA DO CONHECIMENTO

6. O espaço acadêmico

7. Miséria da Ideologia


APRESENTAÇÃO

O que une as questões da ciência. da universidade e da ideologia entre si é que todas fazem parte de um todo maior que é a política do conhecimento. Esta política pode e deve ser pensada em dois sentidos. Por um lado, é necessário fazer algo com nossas instituições científicas, educacionais, artísticas e culturais é necessária uma política adequada da cultura e do conhecimento. Por outro lado, os cientistas, estudantes, professores. artistas, escritores e intelectuais constituem um grupo social extremamente ativo, ou seja, fazem política constantemente.

Pensar nessas questões é enfrentar os temas mais clássicos da sociologia do conhecimento. Como conhecer de forma adequada o mundo em que vivemos? Como distinguir o conhecimento verdadeiro do falso? Qual o papel do conhecimento na organização da sociedade no progresso social, na conquista da felicidade humana? Qual a função política do conhecimento? Quais são os determinantes sociais dos diversos tipos de conhecimento? Que é, afinal, o conhecimento "científico?" Como ele se diferencia do conhecimento prático, do conhecimento ideológico e da tecnologia? Qual a relação entre o conhecimento e a ética? Essas questões têm sido centrais no pensamento filosófico de todos os tempos, e é também crucial no pensamento social e político contemporâneo. Elas foram básicas para Marx, em sua crítica à ideologia e em sua tentativa de dar ao método dialético hegeliano uma base empírica; para Auguste Comte, com sua teoria dos "três estados" de desenvolvimento da humanidade, do teológico ao metafísico e ao científico; para Émile Durkheim, em seu estudo sobre a formação de conceitos a partir de representações religiosas; para Max Weber, em suas pesquisas históricas sobre as origens da racionalidade; para Karl Mannheim, em seus ensaios sobre a ideologia e a utopia; para Gramsci, em seus escritos sobre os intelectuais; e assim por diante.

Sem pretender enfrentar essas questões no mesmo nível de tao ilustre linhagem, os trabalhos reunidos neste volume referem-se, também, à questao do conhecimento, a partir, basicamente, de duas preocupações. A primeira, mais geral, é com a maneira por que se diferenciam e se interrelacionam as diversas formas de conhecimento o científico, o técnico, o ideológico e seu uso social e político. A segunda, mais específica, é com as condições de surgimento e desenvolvimento do conhecimento científico em países subdesenvolvidos, dos quais faz parte o Brasil e aqui um tema é o do relacionamento entre a atividade científica e o sistema universitário.

A sociologia do conhecimento tem sua origem na noção, estabelecida principalmente a partir de Marx, de que as diversas formas de conhecimento não se desenvolvem no vácuo social, em funçâo da simples acumulação de informações, conceitos e teorias. Existem épocas e situações históricas que favorecem mais o surgimento de certo tipo de estudos do que outros, existem grupos sociais que, em determinadas circunstâncias, sâo mais capazes de desenvolver certas formas de conhecimento do que outras. Por que alguns países, algumas classes sociais, em algumas épocas históricas, foram capazes de desenvolver conhecimentos técnicos ou científicos de determinado tipo? Quais as condições sociais que favorecem o surgimento das grandes religiões? Como surgem e como se transformam as ideologias? Qual a prática social efetiva que permite o surgimento das diversas formas de conhecimento? Como estas diversas formas de conhecimento científico, ideológico, religioso, de sentido comum se relacionam entre si? Qual tem sido a função histórica da universidade e da educação formal em seus diversos níveis no desenvolvimento das diversas formas de conhecimento?

A preocupaçâo com essas questões deixa de ser um campo fértil para o entendimento da realidade social e se torna uma fonte de confusao e caos conceitual quando se passa da busca de relações ao reducionismo da atividade de conhecimento ao nível dos interesses econõmicos e políticos dos diversos setores e classes sociais. Com esse reducionismo, o problema do conhecimento deixa de ser examinado em sua complexidade social e epistemolôgica próprias, e passa a ser simples objeto de análise ideológica. Existem explicações sociológicas e intelectuais para a fascinação com esse reducionismo. As razões intelectuais têm a ver com o ataque marxista ao conhecimento teórico, atravês do conceito de práxis, que leva freqüentemente a apagar as linhas de demarcação entre o campo do conhecimento e o campo da ação político-partidária. As razões sociológicas referem-se ao papel político que os intelectuais buscam desempenhar em suas sociedades, que os leva, freqüentemente, a se frustrarem e não se conformarem com as limitações da atividade acadêmica. O resultado da combinação desses dois fatores tem sido com freqüência o desenvolvimento de concepções extremamente simplistas a respeito da organizaçâo da atividade do conhecimento em sociedades modernas, por um lado; e, por outro, uma politização exacerbada da problemática do conhecimento, que termina por colocar em sério risco o próprio campo e autonomia da atividade intelectual. A moderna sociologia do conhecimento desenvolve-se no espaço que ela trata de criar entre o extremo de uma concepção do conhecimento como atividade neutra e desgarrada do mundo dos homens e o outro extremo da idéia da fusão e da redução total de todas as formas de conhecimento ao jogo de poder político e econômico. O problema teórico da sociologia do conhecimento é estabelecer como o conhecimento tem sido, de fato, condicionado, em seu conteúdo e em suas condições de produção, nos diversos contextos sociais; seu problema político tem sido o de explicitar as condições que permitem o desenvolvimento de formas de conhecimento dinâmicas, criativas, dotadas de riqueza e profundidade, e socialmente relevantes.

Pensar nos problemas do relacionamento entre conhecimento e política significa pensar em muitas das questões mais cruciais de nossa sociedade, que confia na eventual vitória da Razão sobre as atuais desventuras pelas quais passamos. Chamar atenção para o aspecto político da ciência, por exemplo, significa apostar na idéia de que a busca de conhecimento superior não é um simples mecanismo cego que responde a processos autônomos e não controlados de crescimento histórico, mas algo que tem uma potencialidade de liberação humana e que merece, sempre, ser buscado e incentivado. Nesse sentido, a atividade científica e a liberdade intelectual merecem e necessitam ser defendidas e estimuladas o que não significa, obviamente, que não exista um amplo espaço para escolhas, preferências e opções. A última proposição mais geral, pois, que preside esses trabalhos é que não existe, certamente, uma Razão hegeliana nem um futuro científico positivista a nos aguardar no fim da história; mas que, apesar disso, o conhecimento é melhor do que a ignorância, e que esse valor deve ser explorado e maximizado em todos os momentos.

Diversas partes deste livro apareceram anteriormente em artigos de revistas acadêmicas ou jornais em versões distintas. Elas foram escritas visando públicos e momentos distintos, e isso se reflete em certa diferença de estilos. No entanto, havia uma preocupação e uma temática comum a todas elas, que só agora, quando postas lado a lado, podem ser melhor compreendidas. <