
Ciência, Universidade e Ideologia: a Política do Conhecimento
Simon Schwartzman
Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1980
Capítulo 2 - OS MITOS DA CIÊNCIA
Publicado em alemão como "Entwicklung und die Mythen
der Wissenschaft," Weltgesellschaft und Sozialstruktur (Ferschrift zum
60. Geburtstag von Peter Heintz), Diessenhofen, Verlag Rüegger, 689-704, 1980.
English version: The Ideologies of Science
Sumário
Os mitos da ciência
A antiga síntese: o progresso através da ciência
Tese: o rei filósofo
a) Planejamento científico
b) Os intelectuais
Antítese: o reino da ciência
a) A racionalização da sociedade
b) A república dos. cientistas
A nova síntese: ciência, tecnologia e desenvolvimento
econômico
Notas
Ciência, Universidade e Ideologia: a Política do Conhecimento
Os mitos da ciência
En um artigo publicado em 1966 na revista Science o falecido Homi J.
Bhabba, um dos pais da tecnologia nuclear da índia, transmitia uma noção bastante
simples e aparentemente convincente a respeito das relações entre ciência e
desenvolvimento econômico e social: o que os países desenvolvidos têm e os países
subdesenvolvidos não têm, dizia, é uma ciência moderna e uma economia baseada
em tecnologia também moderna. Para desenvolver os países subdesenvolvidos é,
portanto, necessário estabelecer neles a ciência moderna e transformar suas
economias tradicionais em economias baseadas na ciência e tecnologias modernas.(1) A explosão nuclear da índia em 1974 e o lançamento
de seu primeiro satélite no ano seguinte não deixaram dúvidas quanto ao sucesso
da Índia em se apropriar de algumas das mais sofisticadas da tecnologia moderna.
A questão a respeito de quanto esses sucessos ajudaram a modernizar a economia
do país é, no entanto, muito mais duvidosa.
O relacionamento entre ciência, tecnologia e desenvolvimento é, naturalmente,
muito mais complicado do que a citação acima deixa transparecer. Essa complexidade
deriva, na realidade, da própria complexidade do conjunto de atividades, instituições
e corpos de conhecimento que estão implícitos no termo "ciência".
Mais ainda, as percepções que possamos ter do que é a ciência e de como eia
se relaciona com processos seculares de transformação social são freqüentemente
perturbadas pela nuvem de mitos que sempre cercaram a atividade científica.(2)
Esses mitos devem ser levados bastante a sério. Não se trata de simples erros
que poderiam ser afastados com melhor conhecimento a respeito da verdadeira
natureza da atividade científica e seu relacionamento com o meio social. Mitos,
conforme definição corrente de dicionário, são uma "narrativa comumente
legendária que apresenta partes das crenças de um povo ou explica uma prática
ou um fenômeno natural". Os mitos sobre a ciência são uma das formas pelas
quais as sociedades percebem e justificam suas crenças no progresso, e uma das
formas pelas quais os cientistas explicam e justificam suas práticas. Enquanto
a realidade é contraditória e complexa, os mitos tendem a ser simples de entender
e ter uma coerência que obedece muito mais às suas funções sociais do que aos
cânones da lógica formal; isso significa que eles não são necessariamente coerentes,
mas trazem, muitas vezes, contradições e ambigüidades em seus supostos e implicações.(3)
Uma das possíveis utilidades da dialética é ajudar a entender situações ambíguas
e contraditórias, e isso pode ser útil nesta exposição. Para efeito de clareza,
e sem maiores pretensões à ortodoxia dialética, examinaremos primeiro a síntese
indiferenciada, ou seja, o mito do progresso social através da ciência, que
será dividido em dois, a "tese" e a "antítese". Esses dois
mitos, ou sub-mitos, desenvolvem-se de maneira simultânea e contraditória, e
não existe aqui nenhuma pretensão de estabelecer a precedência histórica e temporal
de um em relação ao outro.
A tese é o mito do Rei Filósofo, ou seja, a idéia de que o mundo deve ser ordenado
segundo os cânones da racionalidade superior a ser proporcionada pelos que sabem.
Ele nos permite, entre outras coisas, pensar nas idéias modernas de planejamento,
incluindo o planejamento da própria ciência, assim como examinar a questão do
papel social dos cientistas e intelectuais. A antítese é a idéia de que a sociedade
humana tende naturalmente à racionalidade, e que os cientistas participam disso
ao serem, simplesmente, leais às suas vocações específicas. Discutiremos isso
em termos do mito do Reino da Ciência, no qual cabe uma seção especial dedicada
à República dos Cientistas. O principal suposto da antítese é que o mundo é
naturalmente harmônico, a Razão impera, e conseqüentemente os cientistas podem
viver em uma República. A tese, ao contrário, acredita que o mundo em si é desordenado,
e por isso necessita de uma direção esclarecida, a ser exercida pelos homens
de conhecimento superior. A união entre essas duas visões antagônicas é tentada
na nova síntese, que postula a identidade entre ciência, tecnologia e desenvolvimento.
Chamar atenção para esses mitos não significa dizer que eles sejam necessariamente
errados ou ilusórios. O que dá força a um mito é que ele captura uma parte significativa
da realidade social, como ela é e como eia é percebida pelas pessoas, e transforma
tudo isso em verdades generalizadas. Quando se diz, por exemplo, que ciência
e tecnologia são duas faces da mesma moeda - um postulado central do mito da
nova síntese - o verbo ser significa que isso é assim, mas também
que isso deve ser assim, e que será sempre assim, onde quer que ciência
e tecnologia se desenvolvam. Esta combinação de afirmações empíricas, normativas
e preditivas é que faz dos mitos algo tão presente, mas ao mesmo tempo tão imune
a qualquer tentativa de refutação empírica ou lógica.
Se os mitos sobre a ciência são importantes nos países onde a atividade científica
mais se desenvolveu, eles se tornam ainda mais cruciais em países subdesenvolvidos
onde a ciência moderna entra, freqüentemente. pela via de políticas governamentais
explícitas que se guiam, via de regra, pelos mitos, sempre muito mais acessíveis
à percepção e ao entendimento do que a própria realidade. É nesse sentido que
a preocupação com os mitos da ciência, objeto talvez de curiosidade nos países
centrais, passa a ser essencial para o entendimento do que ocorre na periferia,
onde o Brasil se coloca.
A antiga síntese: o progresso através da ciência
A citação de Bhabba no começo deste texto pertence a uma antiga tradição que
sustenta que ciência e conhecimento são coisas boas e socialmente úteis, e é
o que distingue, mais do que qualquer outra coisa, entre sociedades avançadas
e sociedades primitivas ou atrasadas. Jawaharlal Nehru parecia concordar com
isso. Bhabba o cita afirmando seu apoio à ciência moderna pelo seu papel "não
somente de transformar o meio material, mas de transformar os homens. É una
obrigação inerente a um grande país como a Índia", dizia Nehru, "com
suas tradições de scholarship e de pensamento original, e sua grande
herança cultural, de participar plenamente na marcha da ciência, que é provavelmente
o maior empreendimento da humanidade nos dias de hoje."(4)
A idéia de que a Ciência, com "C" maiúsculo, traz em si a chave para
solução dos problemas da humanidade não é, certamente, nova. Robert Merton,
em seu estudo clássico sobre o surgimento da ciência moderna Inglaterra do século
XVII, mostra como o prestígio crescente das carreiras científicas se relacionava,
na época, com a idéia de que esta era uma atividade ao mesmo tempo prática,
útil e nobre. Aritmética e geometria, por exemplo, eram consideradas "muito
úteis para manter contabilidades entender de fortificações", enquanto a
química era "um tipo de conhecimento que não era indigno de um gentleman".(5)
Para a ética puritana daquele tempo, a ciência, ou a filosofia natural, "era
instrumental, primeiro, para as provas práticas do estado de graça do cientista;
segundo, para aumentar o controle dos homens sobre a natureza; e terceiro, para
glorificar a Deus. A Ciência ficava, assim, convocada a serviço do indivíduo,
da sociedade e de Deus."(6) Poderíamos,
evidentemente, recuar ainda mais no tempo na busca das fontes dessas idéias,
ao lembrar, simplesmente, que para os filósofos gregos o conhecimento não era
apenas a mais agradável das atividades, mas que, na utopia de Platão, o Filósofo
era Rei.
Essa mistura de justificações pragmáticas e morais para a atividade científica
é provavelmente a dimensão mais importante desse mito científico. Ela tem sido,
historicamente, um ingrediente indispensável na cultura de todas as sociedades
em que a ciência surgiu como uma atividade significativa. Os sociólogos da ciência
denominam "cientismo" esse apoio social e cultural aos ideais científicos,
e existe evidência histórica abundante para mostrar que o cientismo, quando
emerge, tende a ser parte das ideologias de grupos sociais ascendentes. Isso
era certamente verdade no caso do gentleman da Inglaterra do século XVII
estudado por Merton, como foi o caso dos intelectuais franceses no século XVIII
e dos alemães o século XIX.(7)
Podemos deixar por aqui, neste contexto, a análise da questão dos determinantes
sociais desse mito científico, e examinar o que ocorre quando ele surge em uma
sociedade determinada. Um importante efeito é que ele faz com que uma boa parte
dos indivíduos mais talentosos da sociedade escolham carreiras científicas como
projeto de vida digno de ser seguido. A outra é que a sociedade, como um todo
- ou pelo menos seus grupos ascendentes - concorda em cobrir os custos da atividade
científica. Outra característica é que a ciência é buscada e apoiada independentemente
de seus resultados práticos imediatos. Isso não significa que não haja interesse
ou expectativas a respeito dos produtos do conhecimento científico; ao contrário,
esses produtos são uma parte muito importante do mito. Mas, quando a crença
na ciência existe, o fracasso na produção de resultados práticos a prazo curto
ou médio não é suficiente para reduzir a fé no valor da atividade científica,
para os que a fazem como para os que a apóiam. Isso dá à atividade científica
um espaço e uma liberdade que é um de seus componentes principais. Toda a história
dos países ocidentais dos últimos 400 anos parece demonstrar os benefícios a
longo prazo da pesquisa científica, e isso serve como importante defesa da atividade
científica em tempos de pobreza de resultados tecnológicos.
Uma última conseqüência desse mito é que, com ele, a palavra "ciência"
passa a englobar várias atividades distintas e nem sempre compatíveis entre
si. O que é ou não é, "realmente", ciência é uma questão epistemológica
complicada, que não poderia ser examinada em profundidade aqui.(8)
Basta, no entanto, partir de uma definição sociológica simples - "ciência
é aquilo que as pessoas que a sociedade reconhece como cientistas fazem"
- para vermos quantas atividades diferentes entram na mesma definição. Ciências
naturais e sociais, empíricas e exatas, básicas e aplicadas, demonstração e
confirmação, coleta de dados e elaboração de teoria, pesquisa e desenvolvimento,
ciência e tecnologia, todos esses e outros pares de termos descrevem atividades
que tendem a ser bastante diferentes em objetivos, estilos, métodos de verificação,
critérios de verdade e validação. Também encontraremos grandes diferenças se
compararmos as diversas disciplinas - o que é "ciência básica", por
exemplo, para um físico, um botânico, ou biólogo marinho ou um geólogo? Essas
diferenças em "paradigmas de trabalho" combinam-se, ainda, com diferenças
profundas na maneira como as pessoas se organizam para a realização de seus
trabalhos científicos. Universidades, laboratórios industriais, centros de pesquisa
autônomos, institutos de tecnologia, academias - a organização social da ciência
varia de pequena a gigantesca, de informal a extremamente burocratizada, de
acadêmica a totalmente voltada para os resultados tecnológicos, de instituições
preocupadas com a eficiência de custos a instituições que trabalham a fundo
perdido.
Mais ainda, o mito do progresso pela ciência encobre, sob o manto de sua generalidade
e abrangência, supostos muito diferentes e freqüentemente contraditórios a respeito
do relacionamento entre ciência e sociedade. Podemos considerar esses supostos
como também míticos, uma vez que eles não se apóiam necessariamente em fatos
empíricos analisados com rigor, mas influenciam a maneira pela qual o desenvolvimento
da ciência é buscado por diferentes pessoas e instituições. Um desses mitos
tem a ver com o papel dos intelectuais e cientistas na vida social; o outro,
com a forma pela qual a ciência, como conhecimento racional, faz-se presente
no meio social e político. Eles são a tese e a antítese nas quais se divide
a velha síntese.
Tese: o rei filósofo
a) Planejamento científico
O Positivismo do século XIX é uma expressão recente da antiga utopia platônica
de uma república organizada racionalmente e dirigida pelos homens de saber.
Em sua proposta sobre os Plan des travaux scientifiques nécessaires pour
réorganizer la société, Auguste Comte via a necessidade de realizar dois
tipos de tarefa: "uma, teórica e espiritual, tem como objetivo o desenvolvimento
da idéia-mãe do plano, ou seja, do novo princípio segundo o qual as relações
sociais devem ser coordenadas,"e a formação do sistema de idéias gerais
destinado a servir de guia à sociedade. A outra, prática e temporal, determina
o modo de divisão do poder no conjunto das instituições administrativas mais
adequadas ao espírito do sistema, tal como foi estabelecido pelos trabalhos
teóricos. Como a segunda série tem por base a primeira, não sendo mais do que
sua conseqüência e realização, é por esta que o trabalho geral deve, necessariamente,
começar."(9) A primeira e mais nobre tarefa
deve ser dada aos cientistas, definidos como "os homens que têm como profissão
formar combinações teóricas por procedimentos metódicos, ou seja, sábios ocupados
com o estudo das ciências da observação" (p. 86). A segunda tarefa, a de
execução do plano, pode então ser atribuida aos administradores, ou "chefes
de trabalho industrial". O domínio das atividades intelectuais sobre as
atividades práticas é, nessa visão das coisas, absoluto. Em uma nota de pé de
página, Comte toma em consideração o fato de que os cientistas muitas vezes
ficam limitados a campos de especialidade demasiado estreitos, que não lhes
permite uma visão de conjunto, e explicita sua preferência por "homens
que, sem consagrar suas vidas á cultura especial de uma ciência da observação
dada, possuem a capacidade científica, e fazem do conjunto dos conhecimentos
um estudo suficientemente aprofundado para se compenetrarem de seu espírito",
A estes estaria reservada "a atividade essencial na formação da nova doutrina
social". Os outros teriam, somente, um papel "passivo" (p. 87).
É dessa forma que a noção de que a sociedade deva ser organizada pela ciência
evolui rapidamente para a noção de que a própria ciência deve ser sujeita ao
mesmo tipo de organização planejada. A desconfiança de Comte em relação aos
cientistas que pretendem ter suas próprias instituições, regidas de forma autônoma,
é bem conhecida. O rei filósofo de Comte não é um simples cientista, mas um
intelectual, um homem que vai além dos limites específicos do conhecimento especializado
e atinge uma visão de todo o conhecimento, e que por isso pode exercer liderança
e supremacia. Ele fala sobre "les savants", e insiste em que "só
eles exercem, em matéria de teoria, uma autoridade incontestável. Assim, e independentemente
do fato de que somente eles tenham competência para formar a nova doutrina orgânica,
somente eles possuem a força moral necessária para fazer com que esta nova doutrina
seja admitida" (p. 89).
A importância da perspectiva positivista não é função de que ela seja historicamente
verdadeira, nem prática, nem mesmo original. Ela deriva do fato de que Comte
sintetiza, de forma muito clara, um dos mitos centrais da ciência moderna, que
tiveram e ainda têm hoje em dia grande impacto. Somente para dar um exemplo,
eis como Stevan Dedijer formulava, há alguns anos, a necessidade de ciência
para os países em desenvolvimento:
"Os primeiros passos no caminho para o desenvolvimento nacional
são hoje impensáveis sem o uso dos resultados de pesquisas desde o momento inicial.
É impossível estimar o ponto de partida de desenvolvimento, definir os objetivos,
é impossível dar o primeiro passo, do primeiro para o segundo, sem pesquisas
nas ciências naturais, sociais e da vida..., O desenvolvimento do potencial
de pesquisas nacional, ou seja, cientistas qualificados, instituições científicas,
equipamentos, e uma cultura científica são necessários para que as demais políticas
de desenvolvimento nacional possam ser conduzidas com sucesso. A política científica
deve ser uma parte importante das políticas de desenvolvimento nacional, tanto
quanto as políticas econômicas e educacionais, e possivelmente mais do que as
políticas externa, militar e outras. Negligenciar um desenvolvimento planejado
e vigoroso da pesquisa indígena nas ciências físicas, da vida e social, coloca
em perigo todo o processo de desenvolvimento." (10)
Essa necessidade de ciência moderna contrasta fortemente, para o mesmo autor,
com as realidades dos países em desenvolvimento. Esses países não têm comunidades
científicas, falta-lhes um governo acostumado a lidar com a ciência, assim como
instituições militares, agrícolas, comerciais, educacionais, médicas, industriais
e outras, que dêem valor aos resultados da pesquisa". Elas não têm os "elementos
institucionais e motivacionais para a pesquisa", e por isso são "basicamente
alheias ou hostis a ela".
O planejamento parece ser a solução para resolver esse problema, mas é uma
solução difícil pela própria falta de experiência e tradição desses países:
"Nos países subdesenvolvidos, a ignorância, o preconceito e a falta de
fontes confiáveis de assessoramento fazem com que essas decisões (sobre a ciência)
se tornem muito mais difíceis, e seu sucesso muito mais problemático."
Esses problemas, no entanto, fazem com que o autor proponha mais, e não menos
planejamento: "Cada decisão sobre ciência deve fazer parte de um plano
nacional para o desenvolvimento e uso dos resultados da pesquisa. A ciência
deve ser vista como parte de um plano nacional para o desenvolvimento e uso
dos resultados da pesquisa. A ciência deve ser vista como parte de uma política
nacional planejada. Cada primeiro-ministro deve criar em seu gabinete uma secretaria
de ciência."
De fato, agências e ministérios de ciências foram criados em grande número
de países nos últimos dez ou quinze anos, e instituições internacionais tais
como a UNESCO, a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a Organização
dos Estados Americanos e várias outras criaram suas próprias estruturas para
ajudar as burocracias nacionais em suas tarefas de planejar a ciência. Poucos
dos líderes mais responsáveis dessas organizações endossariam o otimismo ingênuo
de Dedijer sobre o poder da ciência e as virtudes do planejamento; mas eles
certamente compartirão a mesma preocupação e desconfiança quanto à capacidade
de os cientistas, por si mesmos, trazerem a seus países os benefícios que deles
se esperam.
b) Os intelectuais.
A pretensão dos intelectuais à superioridade moral e ao direito de dirigir
a sociedade não é, certamente, algo que começa com Comte, nem mesmo com Platão.
Um dos temas centrais dos estudos clássicos de Max Weber sobre as sociedades
antigas da China, Índia e Palestina, é o jogo de poder entre os militares, que
governam pela força, e os intelectuais, que tratam de governar através de sua
autoridade moral.(11) Historicamente, os intelectuais muitas vezes
surgem como grupos especializados em assuntos religiosos. Como indica Weber,
"a princípio o sacerdócio era a carreira mais importante do intelectualismo,
particularmente onde existiam escrituras sagradas, que faziam com que os sacerdotes
se transformassem em uma guilda literária, engajada na interpretação das escrituras
e no ensino de seu conteúdo, sentido e aplicação". Isso foi particularmente
verdade, ainda de acordo com Weber, na Índia, Egito, Islã e para o cristianismo
antigo e medieval; e menos na Grécia, Roma e China, lugares onde "o desenvolvimento
do pensamento metafísico e ético ficou nas mãos de não-sacerdotes, tanto quanto
o desenvolvimento da teologia".(12) Na
China, o confucionismo foi uma doutrina desenvolvida pela burocracia dos mandarins,
"com uma absoluta falta de sentimento de necessidade de salvação ou de
qualquer ponto de apoio transcendental para a ética. Em seu lugar existe uma
doutrina substantivamente oportunista e utilitária (ainda que esteticamente
refinada) de convenções apropriadas a um grupo de status burocrático" (p.
476). Na Índia, os brâmanes desenvolveram uma religião secularizada que convinha
à nobreza dominante da classe guerreira, mas puderam manter para a sua própria
casta o controle dos rituais, procedimentos e normas de comportamento em que
as classes dominantes eram educadas. Outras formas de religião mais místicas
e introspectivas, mágicas ou salvacionistas desenvolveram-se quando as relações
entre os setores políticos e religiosos se tornavam menos harmônicas. O budismo
e o jansenismo são exemplos importantes de religiões salvacionistas que surgiram
nas tradições chinesa e hindu, desenvolvidas dentro de grupos intelectuais,
e mais tarde espalhadas entre as massas. No judaísmo antigo, a desorganização
do Estado e de seu sistema sacerdotal, após Salomão, parece ter dado condições
para o surgimento de uma religião popular baseada em um movimento profético
e em algo que Weber denomina "intelectualismo pária e pequeno burguês",
com um forte conteúdo ético e salvacionista.
Em síntese, os intelectuais são muitas vezes responsáveis pelo desenvolvimento
e manutenção de tradições religiosas e culturais que justificam e legitimam
a ordem social vigente, e em troca recebem prestígio e honra social, tal como
ocorria com os brâmanes e os mandarins. Quando esse prestígio é afetado, ou
quando surgem novos grupos intelectuais, eles tendem a desenvolver ideologias
alternativas, "saivacionistas", e religiões que freqüentemente pregam
o distanciamento da vida mundana e a busca da verdade interior. Em ambos os
casos, o interesse pelo conhecimento de tipo científico, de base empírica, tende
a ser mínimo.
A discussão do papel dos intelectuais no mundo árabe é muito ilustrativa a
esse respeito. O religioso erudito muçulmano, o "ulama", sempre se
colocou, tradicionalmente, em uma posição próxima mas diferenciada da dos detentores
do poder. Algum tempo depois de Maomé, "os eruditos religiosos perceberam
que, permanecendo distanciados do exercício efetivo do poder, eles mantinham
seu prestígio sem se deixar contaminar pelos erros dos príncipes, e podiam,
assim, cultivar suas tradições intelectuais". Um acordo tácito parece ter
sido feito entre os príncipes e os "ulama", de tal forma que os religiosos
ficassem com o controle de temas relativos ao status social, à educação e ao
comportamento moral das pessoas.(13) O preço
pago por esse acordo foi a aceitação de uma hierarquia de diferentes tipos de
conhecimento, dos quais o mais alto era o estudo da lei religiosa, que definia
as regras adequadas de comportamento social. Em segundo lugar vinham os conhecimentos
que podiam ser socialmente úteis, tais como a medicina e a matemática, que era
considerada necessária para "dar cumprimento aos requisitos da lei religiosa
em algumas questões tais como divisões de propriedades, heranças e outras transações
comerciais"). Finalmente, menos relevante de todos era a busca do conhecimento
pelo conhecimento, que só poderia ser tolerada porque podia, eventualmente,
ajudar em alguma coisa útil. Como diz o autor que nos serve de referência, "a
ordem de valores parece clara: as ciências não religiosas são consideradas necessárias
somente como ciências aplicadas, e derivam seu valor do fato de contribuírem
para os objetivos da lei religiosa. O valor da pesquisa pura e básica é subordinado
ao da ciência aplicada, que é, por sua vez, subordinada à religião". Essa
ordem de prioridade refletia a predominância do "ulama" como a elite
intelectual dominante da sociedade islâmica (p. 78). E claro que existiam variações
entre as diversas nações árabes, mas a força dos líderes religiosos torna-se
particularmente clara quando, como foi o caso recente no lrã, o divórcio entre
a liderança política e a liderança religiosa se acentua.
Esse arranjo não era incompatível com o florescimento da ciência aplicada e
do trabalho filosófico e científico que ocorreu no mundo árabe no período medieval,
quando a cultura islâmica proporcionou o elo de continuidade entre a tradição
greco-romana e o renascimento. Os contatos com o Ocidente, no entanto, que se
intensificaram a partir das primeiras derrotas militares do Império Otomano
no final do século XVII, parecem ter perturbado essa tradição. Tentativas foram
feitas de modernizar o Egito, a Turquia e outros países islâmicos, e a cultura
ocidental proporcionou padrões de desenvolvimento intelectual que se apresentavam
como alternativos e opostos à tradição escolástica dos "ulama". Surgiram
assim intelectuais ocidentalizados e politicamente orientados, que tratavam
freqüentemente de se apoiar no passado islâmico para estabelecer uma ponte entre
suas tradições e as idéias modernas ocidentais, que buscavam trazer para seus
países.
O principal resultado desse processo não foi, no entanto, a introdução da ciência
ocidental moderna no mundo islâmico, mas sim a ocidentalização das políticas
desses países e o desenvolvimento do nacionalismo árabe. No século XX, nas décadas
de 1920 e 1930, "os intelectuais lideraram a luta pela independência de
seus países através da palavra escrita e falada. Estiveram sempre à frente dos
movimentos que clamavam por independência e reformas sociais; muitos eram ativos
em partidos políticos e nos parlamentos. Mas quando os novos regimes foram estabelecidos
pelas lideranças militares, grande parte desses intelectuais foram marginalizados.
Paradoxalmente, o envolvimento intenso dos modernos intelectuais árabes com
a ideologia política de sua época contribuiu para sua posição periférica, quando
as ideologias criadas por eles conseguiram, finalmente, triunfar."(14)
Como esse exemplo indica, a entronização do rei filósofo não parece ter muito
a ver com o desenvolvimento da ciência moderna de tipo ocidental. Ao contrário,
a experiência ocidental parece ser produto de um arranjo bastante especial,
que colocou um grupo significativo de intelectuais fora dos centros de poder,
e com um profundo comprometimento com sua atividade especifica. Para Weber,
a explicação desse fenômeno tem sua origem no surgimento do "intelectualismo
pária" do judaísmo antigo, que se desenvolveu historicamente na forma de
uma ética pessoal de salvação pelos esforços do crente, ética da qual a racionalidade
ocidental seria a culminação.
Joseph Ben-David, na mesma linha de raciocínio, discute o papel tradicional
dos filósofos e mágicos nas sociedades tradicionais, e se coloca uma pergunta
semelhante à de Weber: como explicar o surgimento dessa combinação de racionalidade,
impulso intelectual individual e preocupação com a natureza das coisas, que
são as características da ciência moderna. "O filósofo tradicional",
diz Ben-David, "como o cientista, está interessado em captar, por intermédio
de modelos lógicos, algum tipo de realidade, Mas a realidade paradigmática para
o filósofo tradicional era o Homem ou Deus. Os eventos naturais não eram considerados
importantes como assuntos humanos ou religiosos.. ."(15)
Desse ponto de vista, o conhecimento prático é visto como uma atividade menos
importante, e a busca de efeitos práticos dá origem ao mundo da astrologia,
alquimia e medicina xamanista, ou de feitiçaria. Como demonstra Ben-David, o
caminho que levou ao desenvolvimento da ciência como uma atividade institucionalizada
que trata a natureza de acordo com os princípios mais elevados da razão foi
difícil e irregular. Ele exigiu a criação de um papel peculiar para os cientistas
na sociedade, que era diferente do papel do sacerdote-filósofo, tanto quanto
do papel do mágico-prático. Antes que a ciência pudesse institucionalizar-se,
teria de surgir na sociedade a noção de que o conhecimento científico em si
mesmo era tão importante para a sociedade quanto a filosofia moral. O trabalho
do cientista tinha de ser aprovado e apoiado; mas, para florescer, os cientistas
só deveriam servir à Ciência, tanto quanto os capitalistas só deveriam servir
aos requerimentos de auto-realização através do lucro e da atividade empresarial.
Paradoxalmente, segundo a lógica do liberalismo, essa era, para ambos, a melhor
maneira de servir tanto à humanidade quanto a Deus.
Antítese: o reino da ciência
a) A racionalização da sociedade
Já deveria estar claro a essa altura que o ideal platônico do rei filósofo,
tanto quanto o ideal comtiano da supremacia dos "savants", não pertence
à mitologia mais central do cientismo moderno. A noção liberal de desenvolvimento
através da racionalização é essencialmente individualista, e supõe que a sociedade,
como a economia, será tanto mais racional e eficiente quanto cada pessoa maximize
sua racionalidade individual, deixando de lado normas de comportamento que possam
restringir ou limitar a iniciativa dos indivíduos Não é coincidência que Merton,
seguindo as pegadas de Weber, tratasse de estabelecer os vínculos entre os ideais
científicos e o protestantismo, como uma ética de salvação individual pelo ascetismo
e pela auto-realização. Seria um erro imaginar que o modelo weberiano de autoridade
racional-legal que se exerce pela administração burocrática supõe uma alteração
desse ponto de vista. Para Weber, as burocracias, quando idealmente constituídas,
devem ser racionais somente em um sentido legal, ou seja, formal. Isso significa
que a racionalidade substantiva se estabelece no inter-relacionamento entre
os indivíduos (o que ele chamaria de "ação societal"), e a burocracia
teria como única função levar à frente os objetivos definidos no mundo político.
A essência da burocracia moderna é, na linguagem de Weber, "a crença na
legalidade das leis positivas e no direito daqueles elevados a posições de autoridade
de acordo com essas leis a comandar".(16) O surgimento de uma preocupação com a racionalidade
substantiva dentro da burocracia era vista como uma aberração, já que significava
transferir para ela uma autoridade que ela não poderia, legitimamente, assumir.
Isso é profundamente diferente e oposto da noção de que a ciência e os cientistas
(ou, no tempo de Platão, o filósofo) deveriam governar e impor os princípios
da racionalidade sobre a sociedade. A noção liberal, que é a weberiana, supõe
um papel profundamente distinto para o cientista, e uma forma profundamente
diferente de organização social, onde não há lugar para um planejamento racional
que tome o lugar do livre fluxo da racionalidade independente dos indivíduos.
O Reino da Ciência é, conseqüentemente, em sua versão liberal, parte inseparável
dos ideais dos séculos XVIII e XIX a respeito da evolução e do progresso através
do desenvolvimento da razão e racionalidade dos indivíduos. Um de seus principais
postulados é a crença radical de que cada pessoa tem o direito de aceitar ou
rejeitar a verdade de acordo com suas convicções mais Intimas, e de que o conhecimento
científico deve prevalecer porque é um conhecimento inerentemente melhor e mais
convincente do que a sabedoria convencional. Nesse sentido, o racionalismo foi,
em termos políticos, uma ideologia libertária que desafiava a organização tradicional
das sociedades e seus sistemas estabelecidos de poder e autoridade. O significado
político dessa ideologia é muito maior, evidentemente, quando ela é apoiada
por intelectuais, estudantes universitários e outros grupos sociais que têm
um interesse definido na mudança social.
A Rússia do século XIX foi um excelente exemplo dessa função libertária da
ideologia cientista. Em um estudo sobre a ciência na cultura russa, o autor,
Alexander Vucinich, traça um vivo quadro do clima político e ideológico que
rodeavam as idéias do tempo. Um grupo de intelectuais da década de 1860, entre
eles D. I. Pisarev, N. A. Dobrolubov e N. G. Ghernyshevskii, faziam parte do
núcleo de um movimento conhecido como "niilista", e que consistia
na defesa explícita e coerente do poder intelectual da ciência e das qualidades
humanísticas da atitude científica.(17) Vucinich
descreve um dos intelectuais da época, M .A. Antonovich, como "vendo na
onipotência da ciência um guia para uma vida melhor. Sua idéia, de que todas
as ciências eram parte do mesmo continuum lógico, levava-o a justificar a apíicação
dos métodos das ciências naturais para o estudo da sociedade, da história e
da mente humana. Sua filosofia era um ataque mal disfarçado ao pensamento teológico
contemporâneo, considerado como arma ideológica de um sistema baseado na autocracia,
analfabetismo e servidão... O conceito materialista da unidade da ciência, a
relatividade histórica das leis científicas, a superioridade intelectual do
espírito científico, eram todos partes da nova ideologia que minava o sistema
autocrático e contribuía para apressar a sua queda" (p. 20). Em sua forma
mais pura, essa ideologia não levava, simplesmente, á rejeição da autoridade
tradicional russa, mas à rejeição da autoridade enquanto tal. Um professor da
Universidade de São Petersburgo é citado como dizendo a seus estudantes que
as universidades deveriam ser lugares onde "todas as autoridades deveriam
ser afastadas, de tal maneira que a verdade pudesse começar a se expressar por
si mesma. Na orientação moderna, a ciência é independente, tanto quanto a verdade
é independente; ela existe acima de todos os interesses externos, todos os preconceitos
e vieses (...) ela não tem medo, (...) guia-se por si mesma (...) e opera a
partir do princípio de que a verdade, que inclui tudo o que é racional, deverá
ter alguma aplicação prática mais cedo ou mais tarde" (p. 43).
A reação das autoridades em relação a essa idéia de ciência era, evidentemente,
negativa, ainda que o próprio Governo russo estivesse convencido dos benefícios
que a ciência poderia lhe proporcionar. Em resumo, diz Vucinich, "o Governo
via a ciência como indispensável para a modernização da economia, forças armadas
e serviços públicos da Rússia", mas ele também "desconfiava do espírito
científico, com sua crítica em relação à autoridade, sua interpretação relativista
sobre a natureza e as instituições sociais, sua abordagem individualista aos
problemas, e sua crença na sabedoria suprema das capacidades racionais do homem.
Essas autoridades tinham suas razões para desconfiar, uma vez que os principais
opositores do regime esperavam, explicitamente, que a ciência desempenhasse
um papei importante na liberação da Rússia de seu passado feudal e na introdução
de uma nova era de liberdade civil, igualdade social e liberdade do pensamento."
Isso não significa, certamente, que todos os cientistas partilhassem do mesmo
ponto de vista. Não é uma coincidência o fato de que alguns dos mais ativos
defensores da ciência como instrumento de mudança social e modernização não
fossem cientistas naturais, mas filósofos, professores de direito e intelectuais.
A tradicional Academia de Ciências de São Petersburgo, fundada no inicio do
século XVIII, tinha um grande interesse investido na idéia da ciência como atividade
pura, intelectual, e desvinculada da política. Em seu conservadorismo, os acadêmicos
opunham-se tanto à adoção de novas idéias científicas quanto às ideologias sociais
e políticas que as acompanhavam. Nas universidades, no entanto, o movimento
pela modernização e mudança era muito mais intenso: "Os professores universitários
estavam muito mais sintonizados com as grandes mudanças das décadas de 1860
e 1870; para eles, a busca do conhecimento e a difusão ativa das idéias modernas
eram atividades vitais de importância social imediata. Foram os professores
universitários, e não os acadêmicos, que introduziram Darwin para o público
russo, e tornaram os nomes de cientistas como Liebig, Bunsen, Helmholtz e Ludwig
tão conhecidos e respeitados na Rússia quanto na Alemanha. Foram os professores,
e não os acadêmicos, que ajudaram a ciência a chegar à comunidade mais ampla
na forma tanto de um conjunto de novos conhecimentos quanto de uma poderosa
arma ideológica" (pp. 75-76). Talvez isso explique, também, a ironia de
que tenha sido a Academia, e não as universidades, que deu a base para o desenvolvimento
do sistema científico soviético de hoje.
b) A república dos cientistas.
"A República da Ciência", dizia Michaei Polanyi, "é uma República
de Exploradores."(18) Eles exploram o desconhecido,
e só têm compromissos com sua própria curiosidade e com a busca de sua satisfação
intelectual. Não são leais a Deus, à nação ou à riqueza, mas somente a si mesmos.
Cada qual é livre para seguir seus próprios impulsos. Como em um mercado, eles
"vendem" seus produtos como publicações e trabalhos científicos, e
são "pagos" em termos de prestígio e influência acadêmica. Como no
mercado, a racionalidade individual leva o cientista a trabalhar nos temas que
lhe sejam mais valiosos, quer dizer, que lhes dêem maior prestigio e reconhecimento.
Ele busca vantagens comparativas, em termos de sua formação anterior e habilidades
intelectuais. Se não consegue escolher bem seus ternas, ele será rapidamente
excluído do mercado pela competição. Assim, a República da Ciência estimula
a racionalidade individual, e, ao fazê-lo, estimula a ciência como um todo.
O resultado agregado de tantas decisões individuais não é o caos, mas coerência:
a comunidade científica se organiza segundo os princípios de "auto-coordenação
por ajustes mútuos", e "disciplina sob autoridade mútua". Essa
comunidade desenvolve, pelas leis do mercado, um conjunto de noções a respeito
do que é importante e do que não é, que padrões de comportamento são aceitáveis
e quais não o são, e quais são os problemas que merecem ser estudados. Em termos
mais atuais, ela desenvolve um paradigma comum de trabalho.
O mito da República da Ciência tem sem dúvida beleza conceitual, que é a mesma,
na realidade, das teorias de integração social pelo mercado, frutos da economia
clássica. No mundo real, as coisas são evidentemente muito mais complexas, mas
esse mito serve de defesa da comunidade cientifica em relação àqueles que pretendem
ditar-lhe o que fazer. De acordo com essa perspectiva, somente os cientistas
sabem o que deve ser feito em suas pesquisas, e os ajustes entre o produto de
seu trabalho e as necessidades intelectuais e materiais da humanidade se darão
natural e necessariamente.
É importante lembrar que essa concepção corresponde à realidade histórica de
comunidades científicas relativamente pequenas e que, como Derek de Solla Price
mostrou, cresceram geometricamente e duplicaram de tamanho cada dez ou vinte
anos ao longo dos séculos.(19) Todas essas noções
de liberdade de pesquisa, predominância da verdade individual sobre a autoridade,
apoio à inovação e criatividade, dependem muito, para existir, de uma fronteira
aberta de expansão, que permite a incorporação contínua de mais pessoas, mais
recursos, mais empregos ao mundo da ciência. A ciência sofre quando os limites
dessa expansão se aproximam, e começam a surgir questões desagradáveis mas inevitáveis
de prioridade, precedência, relevância social, antiguidade de postos. Em termos
globais, somente nos últimos anos pareceria que a ciência mundial está se aproximando
dessa limitação; existem exemplos abundantes, no entanto, de centros científicos
que atingem seu topo de desenvolvimento e depois decaem pela falta de espaço
social e econômico para continuar seu crescimento. Nesses casos, no entanto,
o historiador da ciência quase sempre olha para outro lado, para aqueles que
agarraram a bandeira do progresso contínuo: o mito da ciência ilumina o sucesso
e o progresso, e evita entrar em contato com a estagnação e o fracasso no próprio
mundo da ciência.
Esse mito traz também a noção de que "só existe uma ciência", noção
essa que permite evitar os problemas de escolhas e prioridades que são dispensáveis
quando a disponibilidade de recursos e espaço para o crescimento é ilimitada.
A idéia de que "só existe uma ciência" pode ter vários significados.
Aqui, estamos nos referindo à noção de que a ciência é universal, de que a química,
a física, a medicina ou as ciências políticas não têm nacionalidade e credo
ideológico. Para que isso fosse totalmente correto, teríamos que ter uma comunidade
científica internacional coordenada por regras de tipo de mercado em um contexto
de informação perfeita, onde a produção de trabalhos de qualidade seria imediatamente
difundida e reconhecida, gerando assim um sistema integrado e coerente de valores,
normas e percepções. A noção de que, pelo menos nas ciências naturais, existiriam
paradigmas abrangentes que seriam compartidos por toda a comunidade de especialistas
em cada disciplina foi sugerida por Thomas S. Khun em seu famoso livro sobre
as estruturas da revolução científica, para ser, no entanto, bastante abrandada
e condicionada no posfácio de sua segunda edição. Vistas mais de perto, as comunidades
científicas em seu sentido mais estrito são grupos muito reduzidos, onde o conhecimento
é dificilmente transferível e comunicável de uma área de especialidade a outra,
mesmo dentro de uma disciplina determinada, e as tradições, estilos e ênfases
de pesquisa científica são muito menos coerentes entre si do que a noção de
uma (ou mais) ciência universal requereria. A expansão e sofisticação dos modernos
sistemas de informação científica têm como objetivo facilitar os contatos, mas
o volume de produção científica tende a ser hoje tão grande que surgem problemas
insuperáveis de sobrecarga de informações para os cientistas individuais. A
conseqüência é que se torna cada vez mais difícil para um cientista acompanhar
o que acontece fora de seu campo restrito de especialidade. Como substituto
para a integração e coerência de toda urna área científica, o que faz o pesquisador
individual é acompanhar o que ocorre nos centros mais prestigiosos e nas revistas
mais conceituadas, tomando-os como indicadores de onde estão, em cada momento,
as fronteiras da atividade científica. O que tende a ser verdadeiro, mas nem
sempre.
A maneira pela qual a ciência ópera em um contexto de recursos em expansão
foi formulada com toda a clareza por uma comissão dirigida por Emanuel R. Piore,
que, em 1958, reviu os programas de física de altas energias nos Estados Unidos:
"Não é possível atribuir prioridades relativas aos vários campos da ciência
básica, e eles não deveriam ser vistos como em competição. Cada ciência, em
cada momento, se confronta com um conjunto de problemas críticos que precisam
de solução para que o crescimento da ciência possa continuar. Algumas vezes
essas soluções podem ser conseguidas com custos baixos; algumas vezes são necessárias
grandes somas de dinheiro. Conseqüentemente, o custo não reflete o valor relativo,
mas a necessidade. Cada área precisa ser financiada de acordo com suas necessidades
.... ), "(20)
De fato, como sabemos, essa lógica não prevalece sempre na distribuição de
recursos para a ciência, da mesma forma que a lógica da livre competição não
decide a distribuição de renda na sociedade. Em seu trabalho sobre a política
da ciência pura nos Estados Unidos, Daniel Greensberg mostra como, na ciência
como em qualquer outra área, recursos são distribuídos de acordo com o poder
e a influência dos diversos grupos de interesse, tanto quanto com critérios
políticos que nem sempre têm a ver, diretamente, com uma noção clara de quais
são os "problemas críticos" a pesquisar. O mito do mercado científico
sofre quando a ciência deixa de ser barata e se torna grande e dispendiosa,
como vem acontecendo, por exemplo, com a física de partículas, a pesquisa do
câncer, ou com a tecnologia espacial. Como os problemas de escolha não podem
ser ignorados, a tendência é pensar que a própria ciência possa dar critérios
objetivos ou técnicos de prioridade. Completa-se assim o círculo, com a ressurreição
da idéia do planejamento científico da ciência, o mito do rei filósofo.
A nova síntese: ciência, tecnologia e desenvolvimento
econômico
O contraste entre o mito do rei filósofo e o mito do Reino da Ciência indica
a existência de duas concepções profundamente diferentes a respeito do que é
a racionalidade e como ela deve relacionar-se e de fato se relaciona com a sociedade.
No primeiro caso, a racionalidade é um dom dos intelectuais, um produto de suas
mentes, que deveria ser levado à sociedade de forma sistemática e deliberada,
No segundo, a racionalidade é imanente ao processo social, e conseqüentemente
deveria ser deixada livre para que floresça e prevaleça por suas próprias forças
e pela atuação das leis de desenvolvimento histórico. Ambas as concepções compartem,
de certa maneira, uma concepção hegeliana a respeito do desenvolvimento da história
através do desdobramento progressivo da Razão. Mas enquanto na tese a racionalidade
deveria ser parte de um plano geral e consciente de ordenamento da sociedade,
em sua antítese espera-se que o desenvolvimento da racionalidade se dê de forma
natural, O primeiro mito é utilizado freqüentemente como justificação para ideologias
de planejamento abrangente e para sistemas de dominação política tecnocrática;
o segundo funciona muitas vezes como parte de ideologias de liberalismo e laissez-faire
social, econômico e político.
Visto dessa perspectiva, fica claro que o contraste entre os dois mitos não
passa de um capítulo de um debate muito mais amplo a respeito de questões de
organização social, liberdade política e planejamento econômico, que fazem parte
dos dilemas dominantes de nosso tempo. Não existem soluções conceituais ou práticas
simples para esses problemas: é isso, afinal, que faz deles dilemas. Mas existe
uma tentativa de solucioná-los no nível igualmente mitológico. É isso que faz
a nova síntese, ao supor que a ciência, a engenharia social; a tecnologia, o
desenvolvimento econômico, todas essas formas de racionalidade moderna são simples
partes de uma e mesma coisa.
"Os filósofos buscavam interpretar o mundo, mas trata-se de transformá-lo."
Com uma penada, Marx denunciou o caráter alienado do pensamento teórico, independente
e abstrato, e jogou os intelectuais, filósofos e cientistas na arena política.
A racionalidade era vista por ele como produto do desenvolvimento social, que
tinha gerado o capitalismo e haveria de gerar o socialismo. O conhecimento superior
era função de estar contra ou a favor da história, pelo progresso ou pela estagnação.
As fronteiras entre a ciência natural e as ciências sociais, entre o pensamento
teórico e o pensamento prático, entre o trabalho abstrato e o trabalho aplicado,
eram todas vistas como alienações, destinadas a desaparecer no próprio processo
de transformação social que traria democracia concreta, e não formal. assim
como conhecimento concreto e prático, e não abstrato. É a partir dessa visão
que os intelectuais renovam as tentativas de liderança de suas sociedades.
A fusão de todas as dimensões da racionalidade em uma unidade, a ser corporificada
pelos movimentos revolucionários e por seus líderes, deixou o marxismo particularmente
desarmado para lidar com os problemas de dominação tecnocrática, autoritarismo
político e a super-burocratização, que são tão proeminentes na União Soviética
e outros países socialistas. O que ocorreu, naturalmente foi que o socialismo
não surgiu, como Marx esperava, das entranhas do capitalismo, e as dificuldades
conceituais e intelectuais geradas pela tentativa de implantar o socialismo
em um único e subdesenvolvido país ainda hoje são sentidas, Esta é, de fato,
uma das principais razões por que muitos intelectuais bem intencionados custaram
tanto a aceitar os fatos do stalinismo.(21)
É possível dizer que as teorias liberais, não marxistas, de progresso social,
não estavam em posição muito melhor para lidar com os fatos da tecnocracia e
o autoritarismo. Max Weber, como vimos, compartia com Marx a herança hegeliana
que esperava que a racionalidade surgisse com o capitalismo avançado. Era, no
entanto, menos otimista, e antevia um futuro no qual a moderna burocracia poderia
tomar as rédeas do controle político em seus dentes e trazer os países modernos
de volta às estruturas patrimoniais burocráticas que foram a característica
principal dos grandes impérios do passado. Não havia lugar em seu sistema de
pensamento, tanto quanto não existe na tradição liberal ocidental, para a noção
de um processo de modernização que introduzisse a racionalidade fora dos caminhos
conhecidos do desenvolvimento capitalista liberal.
No entanto, depois de Keynes, o planejamento econômico tornou-se aceito e respeitável
no mundo ocidental, e com ele a idéia de planejamento da educação, da ciência
e da tecnologia. A partir dos trabalhos de um grupo de economistas de Chicago,
a tecnologia começou a ser tratada como um fator de produção da mesma forma
que o capital e o trabalho, e o conceito de "capital humano" foi lançado,
para caracterizar a contribuição que as pessoas educadas e bem treinadas traziam
para o desenvolvimento econômico. Tornou-se teoricamente possível calcular quanto
um país deveria investir em educação para aumentar sua produtividade.(22)
A distribuição de recursos em pesquisa pura e aplicada, educação científica
e técnica dos países desenvolvidos passaram a servir de padrões para a distribuição
de recursos em áreas similares nos planos educacionais e de ciência e tecnologia
dos países subdesenvolvidos, Assim, o planejamento para a ciência, tecnologia
e educação passou a ser entendido como suscetível de incorporação a modelos
de planejamento econômico, e a teoria econômica de inspiração neo-liberal juntou
suas mãos ao marxismo no esforço de unir os dois pólos da antinomia que opõe
o rei filósofo ao Reino da Ciência. Um pressuposto básico comum a ambas as concepções
é a idéia da identificação entre ciência e tecnologia, que merece ser vista
mais de perto.
O que é ciência e o que é tecnologia, e como ambas se influenciam, é um desses
problemas conceituais que parecem não ter solução e não ter outro propósito
além do de manter ocupados alguns escritores mais bizantinos. Os cientistas
geralmente sabem o que fazem e não se preocupam muito com esse problema, e tendem
a usar o termo "ciência" em um sentido bastante amplo, para cobrir
todo o campo do conhecimento técnico e suas aplicações. Os economistas freqüentemente
supõem que a ciência é uma dimensão lateral ou preliminar da tecnologia, e tendem
a se preocupar somente com a última, em termos de "progresso técnico",
ou "pesquisa e desenvolvimento", entidades conceituais que seriam,
supostamente, compreensíveis dentro da lógica da racionalidade econômica. Essas
visões baseiam-se, evidentemente, em aspectos importantes da realidade científica
e tecnológica contemporânea. Mas a dificuldade de tratar separadamente a ciência
da tecnologia é reveladora, e precisa ser entendida em maior profundidade.
Podemos começar pela afirmação de que não existe uma resposta simples para
a questão do relacionamento entre ciência e tecnologia, nem sobre suas fronteiras.
O próprio conceito de "ciência" varia de uma época para outra, de
uma linguagem para outra. de uma cultura para outra. A expressão alemã Wissenschaft,
por exemplo, possui uma série de conotações que o termo ciência não
tem.(23) Ao mesmo tempo, a história mostra que a tecnologia,
como conhecimento prático, pode se desenvolver tanto a partir do conhecimento
"científico" (ou seja, conhecimento sistemático e desenvolvido sem
o objetivo de aplicação imediata) como sem ele; e vice-versa. É possível fazer
várias afirmações bem específicas a respeito do relacionamento entre ciência
e tecnologia, que mostram como essas relações variam, Por exemplo, a energia
atômica contemporânea é um produto tecnológico claramente dependente dos descobrimentos
científicos da física atômica do pré-guerra. Por outro lado, a máquina a vapor
desenvolvida por James Watt é de 1769, enquanto as leis da termodinâmica, que
aparentemente a explicam, foram estabelecidas por Rudolph Clausius, Maxwell
e outros depois de 1850. A questão geral de como o conhecimento é transferido
de um grupo e de uma esfera de atividade a outra não é jamais simples. Duplicações,
redundâncias, coisas que "funcionam" sem que se saiba exatamente por
quê, ramos de conhecimento que crescem sem nenhuma perspectiva visível de aplicação,
fazem parte da vida diária do mundo da ciência e da tecnologia, sem que existam
regras preestabelecidas a respeito de sua integração e coerência a médio ou
longo prazo. Ao contrário do que se pensa com frequência, a busca de resultados
práticos não é necessariamente a principal razão pela qual os cientistas escolhem
seus temas de pesquisa, nem a principal explicação pelo apoio que eles recebem.(24)
A posição que os cientistas tendem a tomar em relação a essa questão é freqüentemente
ambígua. Quando recursos e apoio são buscados, o argumento a favor da utilidade
da ciência e sua vinculação Intima com a tecnologia é enfatizado(25); quando a independência e autonomia da atividade
científica é ameaçada, o que predomina é a defesa de sua independência e relativa
separação em relação a objetivos práticos mais imediatos. Depois da guerra,
um número crescente de cientistas começou a se mostrar irritado e não mais disposto
a aceitar as idéias de isolamento e independência entre a atividade científica
e o mundo social, político e econômico circundante, as quais passaram a ser
vistas como parte de uma postura irresponsável e hipócrita.(26) Antes da guerra, no entanto, a defesa de uma
ciência autônoma e independente era percebida por muitos como uma posição importante
que deveria ser assumida na luta pela liberdade de pensamento e da razão que
se viam ameaçadas pelo nazismo. Em um trabalho publicado em 1938, Robert K.
Merton toma a Alemanha nazista como exemplo de hostilidade contra a ciência,
ao exigir que os cientistas abandonassem o respeito a todas as normas que, na
opinião das autoridades políticas, entrassem em conflito com as normas do Estado.
As normas da cultura científica deveriam ser sacrificadas, na medida em que
exigiam um repúdio, por critérios políticos, da validade e importância científica
de idéias e pessoas.(27) As tentativas de muitos cientistas alemães de
se manterem afastados da realidade política somente fizeram com que eles entrassem
em uma linha de colaboração passiva com o regime, em um processo de redução
progressiva da liberdade de pensamento e do espaço para o exercício da independência
intelectual.(28)
A Alemanha nazista é um exemplo extremo em que, hoje vemos com clareza, não
havia lugar para a atividade científica com um mínimo de integridade e coerência.
A conclusão de Merton, no entanto, não se limita à Alemanha; o que ele sustenta
é que, quando o locus do poder social reside em instituições não científicas,
e os próprios cientistas ficam inseguros quanto à sua lealdade principal, se
ao poder ou se à ciência, sua posição fica necessariamente. tênue e incerta.
A solução que apresenta é, essencialmente, a da volta ao ideal da República
da Ciência.
A busca de uma posição intermediária entre a subordinação total da ciência
a objetivos tecnológicos, econômicos e políticos, por um lado, e a total independência
da ciência, por outro, tem levado a tentativas de estabelecer critérios , racionais
para a distribuição de recursos entre diferentes tipos de atividade científica.
Essa discussão está bem representada pelo conjunto de artigos reunidos por Edward
Shils em 1968, dando origem a um debate que ainda continua.(29) Jean-Jacques Salomon, em artigo mais recente,
põe em dúvida as sugestões de Alvin Weinberg sobre a possibilidade de definir
esses critérios. Qual, pergunta-se Salomon, é a fonte para a esperança mítica
de que possa haver critérios objetivos e racionais para a distribuição de recursos
para os diferentes aspectos da atividade científica?
Não existe, mostra Salomon, uma relação claramente definível entre ciência
e desenvolvimento econômico; "mas, mesmo que essa relação existisse, ainda
restaria por explicar quais as condições em que o esforço de pesquisa, e mais
particularmente a pesquisa não orientada, influencia a crescimento econômico.
A mitologia em que a política científica está submergida não pode esconder o
fato de que não existe relação necessária entre a prosperidade de um país e
o tamanho de seus gastos em pesquisa".(30)
É duvidoso que a ciência possa sobreviver sem seus mitos, que são a força vital
que dá sangue e paixão a uma área de atividade cada vez mais difícil e cara.
Mas é aconselhável tomar esses mitos pelo que eles realmente são esperanças,
desejos, tipos ideais de tal forma que a realidade possa ser vista, ao invés
de sua sombra
Notas
1. Bhabba, H. J., "Science and the problems of development,"
Science, 151. 4 de fevereiro de 1966.
2. Esse relacionamento persistente e aparentemente ilegítimo
entre a racionalidade humana, a ciência, e seu oposto, o mito, tem prendido
frequentemente a atenção de quem examina a atividade científica sob a luz das
ciências sociais. Ver, por exemplo, o livro de Kalman H. Silvert, The social
reality of scientific myth. New York, American University Field Staff, 1969,
e Jean-Jacques Salomon, "Science policy and its myths", in Public
Policy. 1972, 1, pp. 1-33.
3. Nesse sentido "mito" significa o mesmo que
ideologia; mas as ideologias tendem a ser mais abrangentes e de conteúdo político
mais explícito, enquanto os mitos tendem a ser mais particularizados.
4. Citado por Bhabba, ibid.
5. Essas citaçôes de textos da época são apresentada por
Robert K. Merton, em estudo publicado originariamente em 1930. Science, technology
and society in seventeenth-century England, Harper, 1970, p. 27.
6. R. K. Merton. "The puritan spur to science', in
Merton, The sociology of science, Chicago, 1973, p. 232.
7. Para uma visão histórica a respeito do cientismo e seu
papel no surgimento da ciência moderna, ver Joseph Ben-David, O papel do
cientista na sociedade: um estudo comparativo. S. Paulo. Pioneira - EDUSP,
1974.
8. Uma das formas mais frutíferas dessa questão é a famosa
contraposição entre as idéias de Thomas S. Khun e de Karl Popper a respeito
da natureza da atividade cientifica contemporânea, na qual Khun dá ênfase ao
trabalho de rotina dentro de paradigmas preestabelecidos, enquanto Popper privilegia
a exploração dos limites de validade do conhecimento pelo uso do principio de
demarcação. Ver Karl Popper, The logic of scientific discovery (publicado
inicialmente em 1934) e Conjectures and refutations, 1963; e T. S. Khun,
The structure of scientific revolutions, 1962, 1967. Ver também Imre
Lakatos, The philosophy of Karl Popper, 1974; e Criticism of the growth
of knowledge (com A. Musgrave, 1970).
9. Auguste Comte, Plan des travaux scientifiques nécessaires
pour réorganizer la société. Paris, Editions Aubier Montagne, 1970 (publicado
inicialmente em 1822), p 75. A tradução é minha.
10. Stevan Dedijer "Underdeveloped science in underdeveloped
countries", Minerva, 11.1,1963, p. 64. A tradução é minha.
11. Para uma visão abrangente a respeito da interpretação
weberiana do papel dos intelectuais nas civilizações antigas, ver Reinhard Bendix,
Max Weber - An intellectual portrait. Berkeley, University of California
Press, 2a. ed., 1978.
12. Max Weber, Economy and society. New York, Belmister
Press, 1968, 3 vols, p. 500.
13. Menahem Milson, "Medieval and modern intellectual
traditions in the Arab World", Daedalus, verão de 1972, p. 19. Ver
também Nikki E. Keddie, "intellectuals in the modern Middle East: a brief
historical consideration", ibid. Para uma visão mais abrangente, ver G.
E. von Grunebaum, Modern Islam: the search for cultural identity, Berkeley,
University of California Press, 1962.
14. Milson, op. cit. , p. 33.
15. J. Ben-David, The scientist's role in society.
1971, p. 29.
16. Economy and society. p. 251.
17. Alexander S. Vucinich, Science in Russian culture.
Stanford, 1963, p. 15.
18. Michael Polanyi, "The Republic of Science, its
political and economic theory", Minerva, 1, 1962. Ver também "The
growth of science in society", Minerva, IV, 4.1967; e seu principal
trabalho sobre o tema, Personal knowledge - towards a post-critical philosophy.
Londres, Routledge and Kegan Paul, 1958.
19. D. J. de Solla Price, O Desenvolvimento da Ciência
- análise histórica, filosófica, sociológica e econômica. Rio, Livros Técnicos
e Científicos, 1976.
20. Piori Panel Report, High Energy Physics Program,
1958. Citado por Daniel S. Greenberg, The politics of pure science The
New American Library, 1967, pp. 231 -232.
21. O principal defensor desse ponto de vista foi. certamente,
o cientista britânico J. J. Bernal, cuja obra principal, Science in history.
MIT, 1973, é uma das tentativas mais ambiciosas já feitas de colocar toda a
evolução da ciência humana em seu contexto histórico, político e econômico.
As dificuldades de Bernal para entender o que ocorreu na União Soviética, e
mais particularmente suas dificuldades com a interpretação no caso Lysenko,
mostram bem os limites de seu ponto de vista. Ver, também de Bernal, Social
function of science, MIT. 1973. Para uma visão soviética oficial a respeito,
com vistas aos países subdesenvolvidos, ver A. Shpirt, The scientific and
technological revolution and the Third World, Moscou, Novosti Press Agency
Publishing House, 1972.
22. Um trabalho que teve grande influência nessa linha
de raciocínio foi o de Frederick H. Harbison e c Charles A. Myers, Education,
manpower and economic growth, McGraw Hill, 1964. Existe uma análise interessante
da tentativa de aplicar essas idéias à Índia: ver Trilok N. Dhar, The politics
of manpower training: graduate unemployment and the planning of higher education
in India. Calcutá, Minerva Associates Publications PVT. 1974. A principal
defesa desse ponto de vista no Brasil consta do trabalho de Carlos G. Langoni,
A rentabilidade social dos investimentos em educação no Brasil. Rio, ANPEC,
1972.
23. Otto Mayr, "The science-technology relationship
as an historiographic problem", Technology and Culture, v. 17, 4,
1976. Para uma discussão mais geral a respeito, ver S. Schwartzman, Formação
da comunidade científica no Brasil. Companhia Editora Nacional / FINEP,
1979, cap. 1.
24. A história do grupo de pesquisas liderado por Enrico
Fermi na Itália na década de 1930 mostra que, enquanto o grupo justificava a
busca de apoio que fazia em nome dos possíveis benefícios de suas pesquisas
para o país, na realidade o que realmente motivava era a competição com os centros
científicos mais bem estabelecidos da Inglaterra, Alemanha, Dinamarca e Estados
Unidos. Mais importante do que os resultados práticos de suas pesquisas era,
para a Itália fascista, o que os resultados brilhantes do trabalho de Fermi
poderiam significar para a glória do país. Essa conjugação de interesses, no
entanto, estaria fadada a fracassar. Ver a respeito Gerald Holton, "Striking
gold in science: Fermi's group and the recapture of ltaly's place in physics",
Minerva, XII, 2, abril de 1974.
25. Ver o livro de D. Greensberg, The politics of pure
science, 1967, para os Estados Unidos.
26. Para um estudo da reação da comunidade científica norte-americana
em relação à bomba atômica, ver Alice Kimball Smith, A peril and a hope.
Chicago, 1966.
27. R. K. Merton, "Science and the social order",
Philosophy of science, 5, 1938. Republicâdo em R. K. Merton, The sociology
of science, Chicago, 1973.
28. Ver, ainda sobre o exemplo alemão, Alan D. Beyerchen,
Scientists under Hitler: politics and the physics community in the Third
Reich. Yale, 1977. Para o período anterior, Brigitte Schroeder-Gudehus,
"The argument for self-government and public support of science in Weimar
Germany'". Minerva, X, 4,1977.
29. Criteria for scientific development: public policy
and national goals. A selection of articles from Minerva. MIT, 1968.
30. Alvin Weinberg, "Criteria for scientific choice",
in E. Shils, op. cit. , e Jean-Jacques Salomon, '"Science policy and its
myths: the allocation of resources", Public Policy. XX, 1, 1972.