
Ciência, Universidade e Ideologia: a Política do Conhecimento
Simon Schwartzman
Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1980
Capítulo 3 - POR UMA POLÍTICA
CIENTÍFICA
Publicado em primeira versão no Jornal da Tarde como
"Por uma política científica no Brasil", São Paulo, 24 de março de 1979.
Sumario:
Introdução
Política científica e planejamento econômico
A legitimidade da política
Política científica de projetos de impacto
Política de integração ensino-pesquisa
A política científica da comunidade acadêmica
A política científica do desenvolvimento tecnológico
Política científica das tecnologias de grande porte
Conclusões e proposições finais
Notas
Introdução
Poucos colocariam em dúvida hoje, a noção de que o Brasil precisa ter uma "política
científica" de determinado tipo. No entanto, esta seria uma idéia pouco
compreendida antes da criação do Conselho Nacional de Pesquisas, no inicio da
década de 1950. A única experiência anterior de estruturação da atividade científica
por um órgão governamental foi a criação da Diretoria de Pesquisas Científicas
do Ministério da Agricultura em 1934, sob a direção de Arthur Neiva, reunindo
o Serviço Geológico, o Instituto de Química, o Instituto de Meteorologia, o
Instituto Nacional de Tecnologia e outros, de Biologia Animal e Vegetal, que
não chegaram a ganhar corpo. Foi uma experiência de curta duração, e que de
qualquer maneira visava tão-somente a dar uma coordenação administrativa às
atividades científicas, sem chegar a dar-lhes uma direção. O CNPq, no entanto,
criado pela inspiração do Almirante Álvaro Alberto, tinha um objetivo principal
em mente, que era contribuir para trazer ao Brasil as promessas da tecnologia
nuclear. Tendo fracassado em seus objetivos iniciais, por dificuldades internas
e Pressões internacionais de vários tipos, o CNPq transformou-se em instituição
de apoio rotineiro à pesquisa, e a idéia de uma política científica só seria
retomada a partir dos anos 1960, com a criação do Fundo de Tecnologia do BNDE
(FUNTEC), do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, da
FINEP, com a transformação do antigo CNPq no novo Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico, e com a reunião de todos esses fundos e instituições
nos chamados "planos básicos" de desenvolvimento científico e tecnológico.
O segundo Plano Básico, último do Governo Geisel, dá uma idéia clara de sua
concepção a partir do próprio título de sua introdução, ou seja, "Ciência
e Tecnologia a Serviço da Sociedade" . Nele, a política científica é indissoluvelmente
ligada à política tecnológica, e ambas subordinadas à política econômica, já
que "uma política de ciência e tecnologia não define autonomamente seus
objetivos mas antes os deriva da própria estratégia nacional de desenvolvimento"(2).
O plano não se limita a uma visão economicista da questão, já que "pretende
que ciência e tecnologia, em sua dimensão mais ampla, devem servir aos objetivos
gerais da sociedade brasileira, inclusive em seus aspectos sociais e humanos,
na garantia da qualidade de vida, da defesa do patrimônio de recursos naturais
do país". Existe também uma forte vinculação desse conjunto de atividades
à idéia de caber a um empresariado nacional forte e tecnicamente competente
a realização dos objetivos acima, pela utilização ótima dos recursos proporcionados
pela ciência e pela tecnologia.
Essa visão a respeito da ciência e da tecnologia presidiu ao grande desenvolvimento
dessa área no Brasil dos últimos anos, que deu ao país um papel de destaque
entre as nações em desenvolvimento na área da pesquisa científica, tecnológica
e na pós-graduação. Existirão certamente desacertos, mas o fundamental, que
foi dar à atividade científica e tecnológica recursos adequados, condições institucionais
de apoio, flexibilidade, preocupação com a qualidade, foi conseguido. Seria
uma grande perda para o país se, por causa de algumas deformações passadas ou
erros de concepção presentes ou futuros, todo esse esforço da última década,
iniciado pelo BNDE e levado à frente pela FINEP, Conselho de Pesquisas e Ministério
da Educação, entre outros, viesse a se perder.
Uma vez estabelecida com clareza a importância do que foi feito, que é o ponto
de partida do qual devemos avançar, cabe ir mais fundo, e examinar até onde
pode, de fato, ir o planejamento da ciência, qual o relacionamento dessa atividade
com outras áreas da sociedade, e quais seriam os pressupostos mais gerais para
uma política científica mais amadurecida e consolidada. É uma discussão sobre
política científica e não sobre política científica e tecnológica. Já deve estar
claro a esta altura que se trata de coisas inter-relacionadas mas distintas;
enquanto a ciência tem muito a ver com o sistema educacional, por exemplo, a
tecnologia é inseparável da política industrial. A própria interpretação do
sentido desses termos implica políticas distintas, como veremos mais adiante.
Política científica e planejamento econômico
Em primeiro lugar, é necessário examinar em profundidade a idéia de que a atividade
científica pode, de fato, ser submetida a um planejamento global, e integrado
a um plano econômico mais amplo. Essa é uma idéia bastante difundida entre planejadores
e economistas, ainda que muito pouco entre os próprios cientistas. Documento
da Organização dos Estados Americanos, por exemplo, prefere falar de "planejamento"
em vez de "política" da ciência e da tecnologia, e em "progresso
técnico" em vez de desenvolvimento cientifico e tecnológico.
Assim, diz o documento, "a integração da planificação do desenvolvimento
econômico com a planificação científica pode ser obtida mediante um processo
de influência recíproca. O planejamento econômico estabelece certas taxas de
crescimento setorial, que implicam maior produtividade. Essa maior produtividade
implica por sua vez certas metas de progresso técnico, sob dois aspectos: criação
de novos conhecimentos para resolver problemas pendentes e difusão de conhecimentos
quando existem tecnologias ainda não utilizadas. Coloca-se assim a necessidade
de utilização do conhecimento, no sentido de induzir os empresários a colocar
em prática as inovações necessárias, criando o clima propício para a mudança
técnica como processo contínuo"(3) Nessa
perspectiva, a pesquisa científica não diretamente tecnológica (chamada geralmente
de "pesquisa básica") é vista como um insumo de quantificação e mensuração
difícil, mas certamente necessário para o bom funcionamento da atividade tecnológica.
Finalmente, o documento da OEA não deixa de notar que "a capacidade científica
e técnica nacional não deve ser analisada somente como função do desenvolvimento
técnico, mas também deve cumprir importantes funções em relação ao desenvolvimento
cultural e social de cada nação e, especialmente, com respeito ao ensino superior"
(pp. 20-21). O ensino superior e a própria formação de cientistas, no entanto,
são reinjetados no modelo econômico, quando a educação é vista como "formação
de recursos humanos para a pesquisa".
Documento da OECD, finalmente, vai ainda mais longe: segundo ele, "A política
científica não inclui somente uma política para a ciência, ou seja, para a criação
de condições nas quais a ciência possa florescer e as escolhas possam ser feitas
entre diferentes projetos e áreas de atuação científica e tecnológica; ela também
inclui a ciência para a política, em termos das maneiras pelas quais considerações
científicas e tecnológicas influenciam decisões políticas importantes e escolhas
políticas que não são, em si mesmas, cientificas".(4)
Nessa visão, pois, a ciência deveria ser parte de urna política científica
e tecnológica maior, que por sua vez deveria ser parte de uma política de planejamento
social e econômico mais amplo, o qual, por sua vez, deveria ser feito de forma
"científica". A política científica que tem existido, implicitamente.
no Brasil, está longe de se aproximar desse modelo, e essa é, para muitos, uma
das razões por que essa política parece insatisfatória. Para outros, no entanto,
o principal problema da atual política científica no Brasil é exatamente que
ela tenta se aproximar desse ideal, gerando com isso um esforço de tipo burocrático
e administrativo que termina por prejudicar a atividade científica.
Política científica, na realidade, não é o mesmo que planejamento, e muito
menos administração da ciência. Política científica é, essencialmente, política.
É necessário lembrar, ainda que rapidamente, o que significa "política,"
para que um melhor entendimento das possibilidades de uma política científica
possa surgir.
Política é, em resumo, o processo pelo qual recursos escassos são distribuídos
pelos diversos setores sociais pelas autoridades.
Esses recursos não são somente financeiros, mas incluem outras coisas igualmente
valorizadas, como prestígio, facilidades de todo tipo e, sobretudo, poder. São
os sistemas de poder que estabelecem quais são as autoridades, e o poder de
decidir sobre a distribuição de recursos escassos é, evidentemente, o mais precioso
dos recursos escassos. Nesse sentido, uma parte importante da política é o processo
de formação e legitimação das autoridades.
O processo político é muitas vezes descrito como um sistema de inputs
e outputs. Os inputs constituem o que, em inglês, se denomina
politics: o processo pelo qual a sociedade escolhe suas autoridades e
estabelece suas preferências sobre diferentes cursos alternativos a serem seguidos.
Os outputs, em inglês, recebem o nome de policy, que são as opções
governamentais propriamente ditas.
É significativo que a língua portuguesa atribua a "política" o sentido
de politics, mas não o de policy. Política científica é, assim,
um anglicismo, tradução de science policy, que muitas vezes é tomado
equivocadamente, como significando "planejamento" ou "administração"
da atividade científica.
A noção de que uma policy não pode ser definida de forma técnica, mas
tem de ser estabelecida por um processo político, pode ser melhor entendida
com a citação que se segue, a respeito de um dos conceitos fundamentais do planejamento,
o conceito de racionalidade:
Podemos conceber a existência de diversos níveis de racionalidade
para diferentes aspectos da sociedade. Existe uma racionalidade das normas legais
e das estruturas sociais, uma racionalidade política que tem a ver com a manutenção
de um sistema de decisões e uma racionalidade econômica que tem a ver com o
aumento da riqueza nacional. O que é bom para o sistema político pode não ser
bom para o sistema econômico e vice-versa (...). Qualquer análise de política
pública que não toma em consideração as incompatibilidades entre as diferentes
áreas de racionalidade tenderá a ser parcial e enganosa.(5)
A tendência de utilizar critérios de racionalidade econômica como forma de sair
do problema é, evidentemente, falsa. Mesmo deixando de lado outros objetivos que
não os econômicos, existe muita controvérsia a respeito dos próprios objetivos
de desenvolvimento econômico, uma vez que a simples noção, não qualificada, de
"crescimento do bolo" não mais satisfaz. Em última análise, buscar a
racionalidade econômica não passa de uma forma de tentar evadir a existência de
conflitos não resolvidos (p. 282). A noção de que o planejamento da sociedade,
e inclusive o planejamento da ciência, pode ser feito de forma científica, deriva
de um tipo de utopia contemporânea que tem como um dos seus componentes principais
uma super-valorização das possibilidades da chamada "análise de sistemas"
e da elaboração matemática da lógica dos processos decisórios, iniciada a partir
da teoria dos jogos.(6) Sem poder entrar nesses
temas com a necessária profundidade, é necessário, no entanto, assinalar algumas
idéias fundamentais a esse respeito.
Em seu sentido mais rigoroso, o termo "análise de sistemas" se aplica
à utilização de modelos formais, quantificados e matematizados de programação
linear, que estabelecem inter-relações no espaço e no tempo entre uma série
de unidades pertencentes a um sistema dado. A teoria dos jogos pretende calcular,
em situações de possíveis alternativas de ação, qual a mais racional, tendo
em vista uma avaliação de possíveis comportamentos de outras partes movidas
por interesses diversos. Essas técnicas têm sua eficiência limitada a situações
onde os objetivos finais estejam claramente definidos, onde a complexidade das
situações que podem surgir no futuro possa ser prevista de antemão (o que não
é o caso dos jogos de xadrez, nem na grande maioria das situações humanas),
e onde, finalmente, não exista a aleatoriedade e impredictabilidade dos comportamentos
e motivações humanas.
Uma das conseqüências da busca da eficiência científica do planejamento consiste
no esforço contínuo e sistemático de eliminar do processo de planejamento as
incertezas do "fator humano". As ciências sociais passam a ser percebidas.
nesse contexto, como tecnologias de manipulação, treinamento e aperfeiçoamento
dos "recursos humanos", definidos de acordo com a lógica do sistema.
Esta não é, no entanto, a forma pela qual muitos cientistas sociais se percebem
quando tendem a se ver, principalmente, no papel de destacar a riqueza e a pluralidade
das formas de existência e sociabilidade humanas, às quais os sistemas técnicos
devem servir, e não vice-versa.
A idéia de um planejamento científico da ciência leva ao absurdo as pretensões
do planejamento formal abrangente. Por definição, a ciência básica explora realidades
desconhecidas. Trata-se de uma situação tipicamente emergente, que pode ser
propiciada por uma série de condições mas nunca prevista e planejada de antemão,
já que isso suporia conhecer o desconhecido. No setor mais tecnológico o planejamento
já se torna mais possível, ainda que, quanto mais avançada a tecnologia, mais
imprevisível a previsão de custos, tempo e inputs necessários para resolver
um problema dado seja a fusão nuclear, ou a utilização econômica de solos áridos,
ou a construção de transportes supersônicos.
Isso se aplica tanto à produtividade especificamente científica de determinada
linha de trabalho quanto ao eventual impacto social ou econômico que ela venha
a ter. Em extenso artigo sobre os mitos da política científica, Jean-Jacques
Salomon conclui que "é necessário supor uma conjugação feliz entre a determinação
do que é útil para a ciência e quais são as necessidades sociais para que a
escolha de orientação do esforço de pesquisa seja uma indicação do interesse
geral. O obstáculo insuperável das políticas científicas reside na impossibilidade
de medir a utilidade da ciência; o critério de utilidade termina sendo nesse
caso, como na ética, uma avaliação a posteriori de escolhas que refletem preferências,
e não a utilização de uma escala de valores de aplicação universal".(7)
Em outras palavras, "a regra de relacionamento entre a ciência e o poder
não obedece à lógica dos valores do discurso científico, e sim às pressões contingentes,
partidárias e conflitivas do processo político" (p. 33).
A legitimidade da política
Mas, afinal, a política é algo tão mal assim? Parece haver freqüentemente uma
noção de que a política seria algo irracional, muitas vezes emocional, muitas
vezes carregada de intenções inconfessadas, que deveria ser, tanto quanto possível,
mantida afastada dos lugares onde prevalece a honestidade, a clareza de objetivos,
o uso da razão e a vontade de trabalhar.
Essa é uma visão equivocada, que deriva, muitas vezes, de entender a política
como algo estritamente partidário, ligado ao processo eleitoral, e destituído
de qualquer conteúdo realmente substantivo. Na realidade, como já foi dito,
o processo político é essencial mente o processo pelo qual a sociedade estabelece
suas preferências e define seus rumos entre alternativas possíveis, em condições
de recursos escassos.
Quando esse processo político é aceito como legítimo, a política pode ser feita
de forma explícita e aberta, através de uma confrontação de valores, preferências
e capacidade de influência dentro de regras do jogo mais ou menos bem estabelecidas.
Quando, no entanto, a atividade política é considerada indigna, menor, ou irracional,
isso leva a que ela se processe de forma oculta, camuflada, sob disfarces diversos,
o que resulta, na realidade, na manutenção de monopólios das decisões políticas
em nome de valores de racionalidade que são, geralmente, simples utopias, ideologias
ou racionalizações. Daí a necessidade de explicitar, tanto quanto possível,
a natureza política do processo de formação de políticas sociais e econômicas,
para dar-lhe legitimidade e realidade.
Uma última dificuldade em relação ao reconhecimento da legitimidade da política
consiste na separação formal que realmente se busca estabelecer entre o sistema
político e o sistema administrativo. Segundo os modelos políticos clássicos,
o processo político se daria, essencialmente, para a escolha dos dirigentes,
e estes governariam através de suas administrações de forma estritamente técnica,
colocando em prática o mandato exercido.
Na realidade, o grau de controle efetivo que as instituições estritamente políticas
exercem sobre os governos e administrações públicas varia de pais a país e de
época a época. De qualquer forma, nenhuma sociedade contemporânea consegue separar
de forma clara e estanque o que é policy governamental e o que é simples
administração; e nenhum governo se furta totalmente às demandas políticas que
se exercem continuamente sobre todos os escalões decisórios. Por isso, existe
hoje a noção de que as políticas são formuladas continuamente em todos os níveis,
e o inter-relacionamento entre as agências de decisão e os diversos setores
dentro e fora da administração governamental é algo que deve ser visto como
legítimo, natural e desejável, o que não exclui, evidentemente, o processo político-partidário
e eleitoral propriamente dito.(8)
Toda esta discussão até aqui pode ser resumida no seguinte: o problema da política
científica não é um problema técnico, mas um problema político. Isso, por dois
motivos principais: primeiro, não é algo que possa ser equacionado tecnicamente;
segundo, não existe clareza nem consenso sobre que futuro se deseja para o país
como um todo e para cada um dos setores que têm a ver com a atividade científica.
A função do processo político é, exatamente, a de ir estabelecendo essas preferências
de forma continua, através do confronto das partes interessadas.
O processo político na área de ciência no Brasil tem sido, e continua sendo,
bastante complexo e diferenciado. Existem muitos grupos diferentes que estabelecem
demandas e buscam conduzir as políticas para rumos nem sempre coincidentes.
A comunidade científica, o setor econômico nacional e internacional, as forças
armadas, a opinião pública, os estudantes, os tecnocratas, as universidades,
todos esses setores e grupos têm visões próprias a respeito do que deve ser
a ciência, e tratam de fazê-las predominar, A política científica real é a resultante
de todas essas forças, e não poderia deixar de ser assim. O que estaremos examinando,
daqui por diante, são algumas das principais dessas visões alternativas.
Política científica de projetos de impacto
As políticas governamentais relacionadas com a atividade científica estabelecidas
a nível mais alto são geralmente resultantes de uma combinação bastante complexa
de demandas, e o termo "opinião pública" muitas vezes serve para sintetizar
esse agregado. Quando temas da área científica chegam a esses níveis mais altos,
normalmente é porque existe uma grande expectativa a respeito dos resultados
que a atividade científica possa ter, e do seu impacto social. O Brasil, no
século passado, teve a felicidade de contar com um imperador que era cientista
amador, e a isso se credita grande parte do que foi possível fazer na área científica
no país naqueles anos. Logo no início do século, as campanhas sanitárias de
Oswaldo Cruz obtiveram apoio decidido da presidência Rodrigues Alves. Mais recentemente,
as decisões brasileiras referentes ao acordo de cooperação com a Alemanha na
área de energia nuclear foram decididos a nível mais alto.
Esse tipo de política científica orientada para projetos de impacto combina
aspectos positivos e negativos. O aspecto positivo está na possibilidade de
recursos e liberdade de ação que um apoio político de mais alto nível proporciona.
O aspecto negativo consiste em que, tendo de responder a expectativas políticas
muito específicas, decididas muitas vezes fora do âmbito propriamente científico,
esses trabalhos científicos muitas vezes têm de aparentar uma eficiência e produtividade
prática incompatíveis com o estado da arte e com os processos usuais de desenvolvimento
da pesquisa científica. A conseqüência é que, muitas vezes, esses projetos terminam
afastando cientistas mais categorizados, e sendo entregues a pessoas menos qualificadas,
o que leva, finalmente, ao fracasso em relação aos objetivos propostos. Em outros
casos, evidentemente como a história de Manguinhos parece exemplificar é possível
utilizar o apoio governamental para a institucionalização mais permanente da
atividade científica, que pode assim viver e prosperar graças ao impulso em
algum momento recebido. Basicamente, no entanto, um tipo de política baseado
em projetos grandiosos conduz a trabalhos intermitentes, incerteza na continuidade
de recursos, pressões não científicas sobre o trabalho científico e, conseqüentemente,
pouco amadurecimento da pesquisa científica enquanto tal.
Política de integração ensino-pesquisa
A integração ensino-pesquisa tem sido um dos postulados básicos da política
educacional brasileira na área do Ministério da Educação e Cultura. Dentro dessa
concepção, a ciência e, mais particularmente, a ciência básica deveria ser feita
principalmente dentro do sistema universitário. Isso permitiria a elevação contínua
do nível dos programas de ensino nas universidades, e também daria à atividade
científica um ambiente adequado para a pesquisa livre e para a descoberta e
treinamento de novos talentos.
Essa política faz parte de um esforço bastante abrangente que vem sendo desenvolvido
desde a Reforma Universitária de 1968 de elevar o nível do professorado de tal
forma que absorva o impacto do crescimento do sistema universitário do, país,
que responde, por sua vez, ao aumento continuo da demanda social por educação.
Essencialmente, o que se fez foi estabelecer uma exigência legal de titulação
pós-graduada para o ensino universitário, e o início da montagem de um sistema
nacional de cursos de mestrado e doutorado, alimentado em boa parte, hoje, pelo
Programa Integrado de Capacitação de Docentes (PICD). Existe uma demanda contínua
sobre as autoridades educacionais por mais escolas, mais vagas, mais acesso
aos programas de pôs-graduação; isto é atendido tendo em vista, quanto possível,
a manutenção de padrões mínimos de qualidade. O resultado tem sido entender
a pesquisa científica como, basicamente, um indicador de qualidade didática
dos cursos de pôs-graduação; o aspecto educacional e formativo do trabalho científico
tende a prevalecer sobre o conteúdo especifico da pesquisa.
As observações que podem ser feitas a respeito dessa política são as seguintes:
em primeiro lugar, o postulado da união ensino-pesquisa não é, de forma alguma,
auto-evidente. As universidades brasileiras são organizadas em função da educação
profissional, e a Alemanha no século XIX talvez seja o único caso histórico
de uma união realmente efetiva entre pesquisa científica e ensino profissional.
Os Estados Unidos hoje possuem uma atividade científica universitária de alto
nível, mas ela está, essencialmente, ligada à formação de cientistas profissionais,
através de seus programas de Ph.D. Outros países os exemplos mais claros atuais
são a França, com o CNRS (Centre Nationale de la Recherche Scientifique)
e a União Soviética, com a Academia de Ciências mantêm a atividade científica
bastante separada da atividade universitária, do ponto de vista institucional,
ainda que possa haver, evidentemente, diferentes formas de inter-relacionamento
e cooperação.
Em segundo lugar, existe uma incompatibilidade quase natural entre as atividades
científicas e as atividades docentes de formação profissional. O estudante que
está adquirindo conhecimentos para o trabalho profissional interessa-se por
informações já digeridas, consolidadas e utilizáveis; o cientista interessa-se
por áreas de conhecimento novas, de fronteira, e por isso mesmo ainda pouco
consolidadas. Além disso, a carreira do cientista é essencialmente orientada
para a obtenção do reconhecimento de sua comunidade pelos trabalhos que realiza,
suas pesquisas e publicações; o ensino, e mais particularmente o ensino ao nível
de graduação, é visto como um estorvo e um desperdício de tempo em relação a
suas atividades mais importantes.
Finalmente, existe um problema extremamente sério em relação aos esforços de
melhoria da qualidade do ensino universitário, que é a ausência de critérios
a respeito de que nível de qualidade é suficiente ou não. Houvesse uma integração
mais próxima entre o sistema de ensino superior e o mercado de trabalho para
seus formados, seria possível estabelecer, com certa acuidade, os níveis de
excelência necessários para os diversos cursos de formação profissional. Em
uma situação de mercado competitivo, os cursos inadequados se extinguiriam,
e os cursos excessivamente qualificados tenderiam a relaxar suas exigências.
No entanto, não é isso que se dá. Existe um grande time lag entre o momento
em que o estudante decide por uma carreira universitária e o momento em que
ele entra no mercado de trabalho, o que dificulta qualquer ajuste mais fino
entre oferta e demanda. Existe ainda uma quase total desinformação para os estudantes
sobre a realidade dos cursos a seguir e suas possibilidades profissionais posteriores,
que pode ser talvez explicada por uma conjunção de fatores: a sucessão de transformações
no sistema universitário, as mudanças que ocorrem no mercado de trabalho, e
a falta de preparo das novas levas de estudantes que buscam a universidade sem
uma experiência familiar que lhes sirva de baliza.
O resultado é paradoxal e contraditório: por um lado, existe uma pressão muito
grande para transformar a atividade educacional em um mero ritual de passagem,
destituído de conteúdo efetivo; e isso é compensado, espasmodicamente, por esforços
de estabelecer níveis altíssimos de exigência. como quando do estabelecimento
da sistemática de reconhecimento dos cursos de pós-graduação pelo Conselho Federal
de Educação. Em geral, termina prevalecendo a pressão dos números, com prejuízo
da qualidade, o que afeta diretamente o trabalho cientifico que se pretende
fazer nas universidades.
A política científica da comunidade acadêmica
A comunidade científica brasileira tem pouca tradição e concentra-se, principalmente,
na área de São Paulo. Ela é formada por aquelas pessoas que se dedicam á pesquisa
científica como profissão, cujas carreiras estão vinculadas à sua capacidade
de produzir novos conhecimentos e de obter apoio para esse trabalho. A principal
instituição brasileira de pesquisa científica é a Universidade de São Paulo,
em uma tradição de trabalho desenvolvida a partir da formação da Faculdade de
Filosofia, Ciências e Letras da USP, em 1934. Existem algumas outras tradições
importantes de pesquisa científica no país, particularmente na área biomédica,
a partir da experiência pioneira do Instituto Manguinhos e seus desenvolvimentos
posteriores, no Rio, São Paulo, Belo Horizonte e alguns outros lugares. Além
das instituições de trabalho, a comunidade científica tem suas próprias associações
profissionais, como a SBPC, a Sociedade Brasileira de Física, as diversas associações
de docentes e várias outras associações por área de especialização, que são
indicadores importantes do grau de amadurecimento e institucionalização da comunidade.
Seria evidentemente equivocado supor que todas as atividades que surgem sob
o nome de ciência, da física de partículas à biologia marinha, das ciências
políticas à estatística, são similares do ponto de vista de suas características,
seus problemas e suas motivações. No entanto, algumas generalizações podem ser
feitas. Como grupo social, os cientistas têm interesse em recursos para suas
atividades e liberdade de trabalho. A liberdade é necessária, segundo os cientistas,
porque ninguém, a não ser eles próprios, podem saber quais são os temas, as
áreas e as metodologias que constituem a fronteira do conhecimento; e o trabalho
científico, essencialmente criativo, não pode submeter-se ás rotinas, regulamentações
e programações das organizações burocráticas.
Como justificar, no entanto, o apoio financeiro para essas atividades? Essencialmente,
existem dois tipos de justificativa. A primeira relaciona-se à importância do
saber enquanto cultura, maior compreensão pelo homem dos fenômenos da natureza,
enriquecimento do espírito humano. Historicamente, na Europa, esta foi uma justificativa
importante, ligada que estava a todo o racionalismo que deu conteúdo moral e
intelectual à revolução burguesa, juntamente com o protestantismo na esfera
religiosa e o contratualismo na esfera política. A segunda justificativa é hoje
mais difundida, e tem a ver com as promessas tecnológicas da ciência. A pesquisa
científica é apresentada como processo de acumulação de conhecimentos, ou de
formação de recursos humanos, que seriam mais tarde revertidos, com juros, para
a solução de problemas de interesse prático e grande alcance social. Em muitas
áreas do conhecimento como, por exemplo, nas disciplinas ligadas ao mapeamento
de recursos naturais esta relação entre a ciência e seus resultados a longo
prazo é bastante clara. Em outras, porém, a aplicação prática dos resultados
da pesquisa funciona muitas vezes como biombo e justificação para obter recursos
para a pesquisa que, de outra forma, não viriam: é a "pesquisa pura no
bicho aplicado."
A política científica do desenvolvimento tecnológico
Ao lado da comunidade científica, existe no Brasil uma outra comunidade histórica
e atualmente importante, que estamos denominando "técnico-científica e
de planejamento". Historicamente, essa comunidade pode ser vinculada à
tradição de engenheiros formados pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro,
assim como pela Escola de Minas de Ouro Preto, e algumas outras instituições,
além das próprias Forças Armadas. Trata-se de uma elite de homens de ação, preocupados
com resultados práticos, e vinculados à administração pública, na qual têm constituído,
historicamente, setor dos mais ativos. Instituições como o Ministério da Agricultura,
desde o início do século; o Departamento Nacional de Produção Mineral, e a Comissão
de Comércio Exterior na década de 1930; os bancos e agências de desenvolvimento
e planejamento econômico, a partir da década de 1950, têm sido organizadas e
estimuladas por essa comunidade. É nesse meio que têm sido geradas as idéias
de planejamento econômico e social, a implantação de sistemas abrangentes de
controle e administração da coisa pública etc.
Para essa comunidade, a atividade científica só teria sentido quando se integrasse
a um projeto de planejamento mais amplo. A demanda de independência e autonomia
dos cientistas é vista como incompreensível e romântica, no melhor dos casos;
ou francamente ingênua e dispendiosa, um luxo que um país em desenvolvimento
não poderia aceitar (mesmo quando o custo da atividade científica livre seja,
de fato, extremamente reduzido em comparação com outros grandes projetos na
área tecnológica). No entanto, a idéia de um relacionamento assim tão íntimo
e necessário entre ciência e tecnologia não é assim tão óbvia.
Na realidade, a grande aproximação entre ciência e tecnologia é um fenômeno
relativamente recente, dos últimos cem anos talvez. Existe, certamente, uma
vinculação histórica importante entre a ciência moderna e a utilização de instrumental
técnico para observação e mensuração - que é, na realidade, uma das características
mais distintivas das ciências empíricas. É possível, também, encontrar inúmeros
exemplos históricos de conhecimentos científicos desenvolvidos ou utilizados
em atividades práticas na arquitetura, na navegação, nas artes marciais. No
entanto, uma das características mais importantes da ciência moderna a partir,
pelo menos, da organização da Royal Society na Inglaterra no século XVII
é a institucionalização da ciência como atividade independente e diferenciada.
No passado, ciência e tecnologia não foram somente atividades separadas e com
objetivos diferentes, mas atividades realizadas por pessoas totalmente distintas,
de classes sociais diversas, e com pouca comunicação entre si, Antes do século
XIX, a maioria das atividades científicas tinha pouco a contribuir em termos
de utilidade prática, enquanto a tecnologia, desenvolvida próxima à atividade
industrial, é que gerava conhecimentos que depois iam, eventualmente, ser incorporados
pela ciência como conhecimento organizado.
O exemplo mais importante no século XIX do relacionamento próximo entre ciência
e tecnologia é, possivelmente, o da indústria química, área em que se desenvolveu
o modelo universitário alemão da integração entre ciência e indústria. Essa
união, no entanto, não continuou da mesma forma neste século, quando a fronteira
do conhecimento na área de química se une aos desenvolvimentos nos estudos da
estrutura do átomo com a criação da físico-química, e a química tradicional
transforma-se progressivamente em uma ciência de processos industriais (na realidade,
o fato de o Brasil ter herdado da Alemanha a tradição da química do século XIX
é apontado por muitos como uma das principais razões do pouco desenvolvimento
da química como atividade cientifica no Brasil). O exemplo mais importante no
século XX talvez seja o da energia atômica. Quanto a esta, há que lembrar que
a pesquisa básica que levou ao desvendamento da estrutura do átomo foi feita
por setores estritamente acadêmicos (Heisenberg, Rutherford no Laboratório Cavendish,
Bhor, Dirac). Durante a guerra, muitos cientistas desse grupo inicial dedicaram-se
ao desenvolvimento aplicado da energia atômica. Logo após a guerra, a pesquisa
tecnológica para a produção de energia ou armas atômicas voltou a se diferenciar
em termos de instituições, pessoas, valores, objetivos e métodos de trabalho
das pesquisas físicas sobre a estrutura do átomo. A noção de que o "físico
atômico" é alguém que trabalha competentemente tanto em pesquisas de ponta
sobre a estrutura atômica quanto no desenvolvimento de sistemas energéticos
para fins aplicados é, simplesmente, folclórica.
Visto nessa perspectiva, portanto, os exemplos da química e da física parecem
contribuir para a tese da diferenciação institucional da ciência e tecnologia,
como importantes exceções que terminam por confirmar a regra. Modernamente,
e cada vez mais, as atividades tecnológicas não se podem desenvolver sem a utilização
de conhecimentos desenvolvidos pela pesquisa científica, mas isso não impede
que as pessoas, instituições e linhas de trabalho desenvolvidos pelos setores
de ciência e de tecnologia continuem a ser diferenciados.
Mais ainda, a evidência histórica parece indicar que a ausência de um establishment
científico bem desenvolvido em um país não é um obstáculo para o seu desenvolvimento
tecnológico que consiste, essencialmente, em processos imitativos e adaptativos,
pelo menos em sua etapa inicial. Este parece ter sido o caso do Japão, e também
dos Estados Unidos, que se desenvolveram durante o século XIX em um nível tecnológico
similar ao da Inglaterra, com um ambiente científico muito inferior ao deste
pais ou da Alemanha. Conversamente, a existência de uma comunidade científica
doméstica bem desenvolvida não é garantia de um desenvolvimento tecnológico
apropriado, como parece ser o caso da Índia, mais recentemente.
Finalmente, é necessário colocar em perspectiva correta a questão das relações
entre desenvolvimento econômico e tecnologia. Sem entrar na complexidade do
problema, cabe lembrar que a incorporação de novas tecnologias nem sempre é
o principal motor do desenvolvimento. Outros fatores capital, trabalho, capacidade
empresarial podem desempenhar e freqüentemente desempenham papéis mais importantes.
Novas tecnologias são, essencialmente, técnicas que poupam trabalho, e isso
só é crucial em situações em que o custo do trabalho é alto, e quando a competição
econômica coloca um prêmio na maior produtividade por unidade de trabalho.
Em resumo, é possível afirmar que: a) nem sempre a tecnologia é um fator crucial
para o desenvolvimento econômico; b) quando a tecnologia desempenha papel econômico
importante, nem sempre necessita de um sistema científico básico que a acompanhe.
O relacionamento entre a atividade científica e a atividade empresarial tem
sido freqüentemente exagerado. Na realidade , somente algumas poucas empresas
internacionais como a BeIl, por exemplo, ou a Kodak, têm condições de manter
laboratórios e um quadro de cientistas de alto nível e com autonomia para trabalharem
com independência, em temas muitas vezes longínquos dos interesses mais imediatos
da empresa. A grande maioria dos cientistas de alto nível trabalha, em todo
o mundo, em universidades ou centros governamentais ou independentes de pesquisa,
e as empresas tendem em geral a se concentrar na chamada "R&D",
pesquisa e desenvolvimento, que é a parte mais aplicada do ciclo de conhecimentos.
No Brasil, ao lado de importantes exceções, pareceria que a situação mais geral,
dadas as características da economia brasileira, de ser aberta e receptiva ao
sistema capitalista internacional, é aquela em que a insistência governamental
na nacionalização da tecnologia e no controle da compra de patentes é percebida
como obstáculo à livre iniciativa, dentro da lógica mais conveniente de mercado.
Essa contradição explica, talvez, a debilidade crônica de instituições da área
do Ministério da Indústria e Comércio responsáveis pela política de patentes
do país. Ela explica também a pouca utilização industrial de projetos aparentemente
viáveis tecnicamente e desenvolvidos em universidades e instituições governamentais
de pesquisa. Em resumo, dentro da lógica estritamente empresarial e de mercado,
os esforços de desenvolvimento de tecnologias nacionais visando à sua exploração
industrial tendem a ser vistos como inviáveis e desperdiçadores de recursos.
Na medida em que a atividade cientifica é vista como parte da tecnologia, ela
também sofre.
A ausência de um interesse mais direto do setor empresarial pela pesquisa tecnológica
afeta, ainda que indiretamente, a área científica. Existe pouca demanda para
técnicos de formação elevada, e isso desestimula os centros de formação universitária;
há pouca ou nenhuma solicitação de serviços técnicos mais qualificados aos centros
de pesquisa, que se limitam, na maioria das vezes, a trabalhos de rotina de
controle de qualidade, testes ou de implantação de sistemas de controle; não
se forma, assim, a cadeia de atividades que vai da pesquisa científica mais
pura à atividade mais aplicada, vinculando universidades, laboratórios, centros
de pesquisa, empresas, mercado.
Em conseqüência, existe uma propensão dos que examinam o problema da ciência
de uma óptica empresarial a considerá-la uma atividade inútil, um luxo desnecessário,
sem atentar, evidentemente, para o papel que a própria ciência pode, eventualmente,
desempenhar para alterar essa situação, se estimulada de forma independente.
Política científica das tecnologias de grande porte
Esse tipo de política científica tem como principal sustentação as grandes
corporações governamentais, a começar pelas Forças Armadas e incluindo eventualmente
empresas de grande porte. Ela se superpõe assim, em parte, com a "comunidade
técnico-cientifica e de planejamento", mas trata-se de um setor dessa comunidade
dotado de forte estrutura organizacional e recursos econômicos e administrativos
vultuosos, Seu objetivo é a aquisição de autonomia de operações e o controle
nacional e institucional de recursos técnicos estratégicos.
A energia nuclear, telecomunicações, produção de armamentos, computadores,
indústria aeronáutica, atividades aeroespaciais, são alguns exemplos de projetos
de interesse dessas corporações. São em geral projetos que exigem especialistas
com formação técnica e científica de alto nível. Uma das características mais
centrais da política científica orientada para essas tecnologias é a verticalização:
existe uma tendência para unificar todas as etapas relacionadas com o desenvolvimento
dessas tecnologias dentro de um mesmo marco institucional, desde a pesquisa
básica até os processos de desenvolvimento dos produtos finais, e incluindo
a formação de especialistas. Esses empreendimentos tecnológicos muitas vezes
dependem da compra de tecnologias estrangeiras e de serviços de empresas especializadas
internacionais; contudo, a tendência é manter o mínimo de interface com outras
instituições do país que tenham atividades próximas mas a partir de uma base
institucional distinta.
Esses programas são responsáveis, muitas vezes, pela criação de instituições
de ensino e pesquisa à margem dos sistemas nacionais, que possam responder de
forma mais rápida e eficiente a seus interesses. Exemplos importantes no Brasil
são o ITA, o IME e, mais recentemente, a vinculação de centros de pesquisa de
energia nuclear à Nuclebrás. Como atesta o documento de "Avaliação e Perspectivas"
do CNPq para a área de energia nuclear de 1977, o Instituto de Energia Nuclear
e o Instituto de Pesquisas Radioativas "foram criados nos campi da UFRJ
e da UFMG por convênio, mas desde que passaram a pertencer à Nuclebrás o nível
de colaboração com essas universidades diminuiu muito, em comparação com a época
em que eram ligados à Comissão Nacional de Energia Nuclear" (p. 21).
Muitas vezes, como no caso do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, essa relativa
marginalidade permite o desenvolvimento de centros de alto nível, que podem
funcionar sem os entraves burocráticos do Ministério da Educação, pagando salários
mais adequados a seus professores, e exigindo mais dos alunos. Em outros casos,
instituições de ensino isoladas podem nunca chegar a desenvolver as características
de liberdade e estimulo ao trabalho intelectual sem as quais a atividade cientifica
de vanguarda não pode crescer.
De qualquer forma, instituições de ensino e pesquisa paralelas, mesmo quando
são eficientes, têm uma disfuncionalidade importante; elas retiram do sistema
universitário e de pesquisa recursos, talentos e pressão política para que melhorem,
e nesse sentido favorecem a estagnação, ainda que, em si mesmas, essas instituições
isoladas possam ter contribuições importantes a dar.
Conclusões e proposições finais
A análise da política da ciência no Brasil e das diversas policies dela resultantes
mostra que está longe de haver um consenso no país a respeito de para que serve
sua ciência e sua tecnologia. A discussão anterior sobre aquilo em que consiste,
na realidade, uma policy serviu para mostrar que essa falta de consenso não
pode ser resolvida de forma "técnica" ou científica, porque ela tem
a ver, exatamente, com a imagem do Brasil futuro que cada um dos setores envolvidos
tem e procura fazer prevalecer através das políticas que propugna.
A aparente desorganização e incoerência do quadro esboçado até aqui só deveria
preocupar pessoas excessivamente dependentes de organogramas. As sociedades
modernas são normalmente complexas e contraditórias, e costumam ter bastante
redundância, superposição e oposições entre diversos setores sociais desempenhando
atividades aparentemente similares ou concordantes. É essa redundância que permite
falhar em alguns casos e acertar em outros, tentar várias vias ao mesmo tempo,
e ir resolvendo, na prática, e não a priori, os melhores caminhos a serem
seguidos. O custo dessa redundância e incoerência não é demasiado caro: no caso
da ciência, ele é, certamente, muito mais barato que muitos projetos ambiciosos
de tecnologia aplicada e engenharia, de resultados sociais duvidosos.
O quadro também permite ver que a ciência não conta, no Brasil, com setor social
expressivo que a apóie enquanto atividade especifica, nem agência governamental
que tenha como preocupação primordial o apoio à atividade científica. (A FAPESP,
no nível estadual, é uma importante exceção.) Isso faz a atividade científica
no Brasil bastante vulnerável, e cria uma situação em que ela se vê na contingência
de justificar sua existência e seus custos de forma nem sempre condizente com
os fatos.
Em conseqüência, pareceria que o mais importante em uma ação governamental
de apoio à atividade científica no Brasil seria dar à ciência condições de se
desenvolver em toda a sua plenitude, segundo sua própria lógica de crescimento,
e não para atender diretamente ás demandas dos setores educacional, tecnológico,
econômico ou militar. O caminho para isso consiste em dar aos cientistas uma
posição muito mais central nas instituições responsáveis pela política científica
e, ao mesmo tempo, reduzir as amarras que ultimamente se tem buscado estabelecer
entre a ciência e outras áreas de atividade, no nível da programação global
e do planejamento.
Isso não significa tratar a ciência como uma atividade isolada em outra torre
de marfim. Os cientistas devem ser estimulados a participar de atividades educacionais,
tecnológicas e industriais, através de uma multiplicidade de vínculos pessoais
e inter-institucionais. Mas isso deve ser feito a nível concreto, específico,
e não a nível de planejamento. Mais ainda, isso não pode ser feito á custa da
autonomia das instituições especificamente de pesquisa, que se deveriam guiar,
essencialmente, por suas vocações.
A legitimidade da atividade científica no Brasil deve ser mantida e estimulada
exatamente pelo potencial multiplicativo que a atividade científica possui,
quando é exercida com plenitude e em vinculação com outros setores da sociedade.
Além disso, ela deve ser estimulada porque a ciência, o conhecimento, são bens
em si mesmos, que valem enquanto tal. Para que essa legitimidade se estabeleça,
é natural e necessário que os cientistas participem, como cidadãos, do processo
político nacional mais amplo, onde são tomadas as decisões mais importantes
e que afetam o país como um todo e o seu sistema científico em particular. Citando
ainda Salomon, "os cientistas são competentes para definir objetivos sociais
não porque eles tenham mais acesso do que outros a instrumentos para isso, mas
porque, como cidadãos, e ao lado de seus colegas não cientistas, desejam que
as coisas se encaminhem em determinado sentido. Eles podem mudar a direção do
esforço de pesquisa e fazê-lo mais racional e mais de acordo com as intenções
do discurso científico, não influenciando o sistema de pesquisa como um meio
a serviço do Estado, mas influenciando os próprios fins do Estado, diretamente"
(p. 33).
Se os cientistas não devem limitar-se à ciência, também é verdade que a ciência
não pode ficar limitada aos cientistas. Como grupo que custa à sociedade, e
que tem uma tendência inerente ao crescimento, a comunidade científica deve
estar aberta ao escrutínio e à critica dos demais setores da sociedade. Em primeiro
lugar, a comunidade científica deve estar aberta ao escrutínio de seus pares,
nacional e internacionalmente. A ciência só é ciência quando é de nível internacional,
quando é de fronteira, e não tem sentido manter uma atividade cientifica de
segunda classe no país a pretexto do subdesenvolvimento nacional. Essa exposição
dos cientistas nacionais ao escrutínio internacional pode levar a decisões difíceis
quanto a opções de áreas, linhas de trabalho e instituições a serem estimuladas
ou descontinuadas. Essas decisões só podem ser feitas de maneira razoável com
a participação da própria comunidade científica mais ampla.
As atividades da ciência também devem estar submetidas ao escrutínio de setores
não científicos da sociedade. Esse é um ponto extremamente delicado, porque
leva facilmente a tentativas obscurantistas de submeter a busca do conhecimento
a dogmas ou preconceitos de um ou outro tipo. Ao mesmo tempo, existem hoje áreas
de pesquisa extremamente caras, como a física de partículas, ou potencialmente
perigosas, como as de engenharia genética, ou de interesse intelectual discutível,
como as de biologia taxonômica, que necessitam ser vistas e discutidas por um
público maior do que aquele formado pelos cientistas mais diretamente envolvidos
com esses temas, e que já investiram o suficiente para não poderem tratar do
assunto com isenção.
O caráter político da política científica não deveria ser objeto de preocupação,
mas de aceitação e reconhecimento. O futuro é incerto, existem muitas tendências
tratando de conduzir o país para objetivos distintos, e só um processo político
aberto e continuo pode' permitir a formação de um eventual consenso sobre os
caminhos a serem seguidos pela ciência e tecnologia nacionais. É importante,
para isso, tratar de eliminar dos problemas de política científica sua aparência
esotérica e hermética, e traduzi- los em linguagem mais universal, de tal forma
que eleve o debate nacional a respeito desses problemas.
Como se explica que as incoerências e a diversidade de orientações e objetivos
dos diversos setores interessados em ciência e tecnologia não sejam mais evidentes
do que são? Uma explicação é que a linguagem de planejamento e de sistemas,
utilizada pelos administradores, tende muitas vezes a ocultar diferenças e contradições
reais. Mais profundamente, no entanto, deve ser dito que o crescimento do sistema
brasileiro de ciência, tecnologia e educação pós-graduada, ocorrido nos últimos
anos, deu-se em um período de abundância de recursos para esse setor, graças
ao aumento da capacidade financeira do governo, e ao ponto de partida inicial
bastante modesto.
É de supor que daqui para a frente, no entanto, os recursos comecem a escassear,
ou pelo menos parem de crescer. Nessa situação, a competição por recursos escassos
tornar-se-á mais intensa, e essa é, como vimos, a própria definição do processo
político. A explicitação do contexto mais amplo em que se desenvolve a política
científica no Brasil, o reconhecimento de que a diversidade é legítima, e o
fortalecimento da comunidade científica enquanto tal, são condições essenciais
para que os sucessos dos últimos anos não sejam perdidos.
Não há razão para crer que, em situação de escassez de recursos, a ciência
seja necessariamente poupada. Para que ela tenha uma chance, no entanto, existem
algumas condições políticas indicadas mais acima que podem ser implementadas,
Isso seria o básico, salvo melhor juízo, para firmar as bases de uma política
para o desenvolvimento das ciências no Brasil.
É importante lembrar, finalmente, que "a ciência" não é um todo homogêneo,
como este texto poderia fazer supor. Dentro da comunidade científica existe
também política por recursos, por autonomia, por ênfases em diferentes linhas
de trabalho, por prioridades, Esse processo político é um dos principais mecanismos
pelos quais o dinamismo da comunidade científica é mantido, e não exclui que
exista uma área bastante comum de interesses e pontos de vista que permitam
que essa comunidade se apresente de forma bastante integrada ante os demais
setores sociais que se interessam pelo setor de ciência e tecnologia,
Algumas sugestões concretas que poderiam ser derivadas desta discussão são
as seguintes:
a) tornar explícito que os planos nacionais de desenvolvimento científico
e tecnológico não deverão ser planos integrados e coerentes, mas um agregado
de planos setoriais;
b) descentralizar as instituições de desenvolvimento científico,
tecnológico e educacional, dando a cada uma dessas áreas suficiente autonomia
de decisão e um montante previsível de recursos;
c) na área científica, manter cientistas de prestigio como responsáveis
pelas instituições que lhes dizem respeito, não somente como assessores, mas
também como executivos em nível mais alto (no Brasil, isso já ocorre, por exemplo,
na área econômica, onde os ministros devem ser necessariamente economistas conceituados);
d) intensificar o sistema de avaliação dos programas de pesquisa científica
por uma série de mecanismos inter pares: contratação de trabalhos sobre "estados
da arte", visitas de especialistas internacionais, organização de painéis
de discussão e avaliação;
e) exposição contínua dos centros de pesquisa científica a setores afins
da área de tecnologia, de ensino de pós-graduação etc., para impedir que os
mecanismos de avaliação inter pares se transformem em sistemas de simples
autodefesa das comunidades científicas.
f) institucionalização dos centros de pesquisa mais importantes do país,
independentemente de seu contexto (em universidades, institutos privados,
ministérios etc.). Isso significa essencialmente dar condições orçamentárias
permanentes para esses centros, livrando-os da instabilidade dos financiamentos
bianuais da FINEP, fundações estrangeiras etc.;
g) eliminação dos processos burocráticos e centralizados de reconhecimento
ou credenciamento de cursos de pós-graduação e seus respectivos títulos. Isso
permitirá que cada título valha tanto quanto a instituição que o proporcione.
Eliminação, também, de títulos de pós-graduação como exigência formal para
o exercício de qualquer atividade a não ser as estritamente científicas.
Notas
2. Brasil, Presidência da República, II Plano Básico de
Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico, p. 9
3. Organização dos Estados Americanos, Primer Seminario
Metodológico sobre los Estudios de Base para la Planificación de la Ciencia
y la Tecnología. Washington, D. C. 1972, p. 22.
4. OECD, Science, growth and society, 1971, p. 39.
Citado por Peter Weingart, Is science policy really policy? Conditions of
a science policy as a structural policy, trabalho apresentado ao Seminário
Internacional sobre Política Científica, março de 1978, Rio de Janeiro, a ser
publicado pelo CNPq.
5. Naomi Caiden e Aaron Wildawsky. Planning and budgeting
in poor countries. Nova York, Wiley. 1974. p. 281.
6. Robert Boguslaw, The new utopians - a study of system
design and social change, Prentice-Hall, 1965.
7. 6 Jean-Jacques Salomon, "Science policy and its
myths: the allocation of resources", Public Policy, XX, 1, inverno
de 1972, p. 28.
8. Simon Schwartzman, "Da responsabilidade política dos
governantes", Dados, 12, 1976.