Pronunciamento das Academias de Ciência da Venezuela: contra a violência e pelo pluralismo

Diante da violência do governo contra a manifestações públicas de protesto, as academias de ciência da Venezuela lançaram um documento em que, além de exigir do governo que acabe com a repressão e garanta os direitos democráticos de expressão, rechaça de maneira categórica “todo o intento de impor um pensamento único na condução do país”. O documento do Comitê Interacadêmico das Academias Nacionais está disponível aqui.

Convite para o lançamento do livro: “Rio – a hora da virada”

SUMARIO

PREFÁCIO: Eduardo Paes

PARTE I: A RECUPERAÇÃO DO RIO

1 – Rio: a hora da virada André Urani e Fabio Giambiagi
2 – Finanças públicas do Estado do Rio de Janeiro: modernização, eficiência e preparação para o desenvolvimento sustentável Renato Vilela e Paulo Tafner
3 – Finanças do município do Rio de Janeiro: o desafio de preparar a cidade para um salto dos investimentos e para o crescimento sustentável Eduarda Cunha de La Rocque e Alessandra Augusta L. G. S. Souza
4 – Os recursos do petróleo e as perspectivas para os investimentos no estado do Rio de Janeiro Julio Cesar Carmo Bueno e Luiz Octavio Bicudo Casarin
5 – Os grandes eventos de 2011 a 2016 e seus legados para a cidade Felipe Góes
6 – A evolução do ambiente de negócios no Rio de Janeiro José Luiz Alquéres
7 – Segurança pública no Rio de Janeiro: o caminho das pedras e dos espinhos Sérgio Guimarães Ferreira
8 – Rio Como Vamos – uma experiência de cultura cidadã Rosiska Darcy de Oliveira e Thereza Lobo

PARTE II: REPENSANDO O RIO DE JANEIRO

9 – Rio, capital da energia Eloi Fernández y Fernández e Alfredo Renault
10 – Sustentabilidade é competitividade: para o Rio e para o Brasil Sérgio Besserman Vianna, Rodrigo Rosa e Clarissa Lins
11 – Rio de Janeiro: logística e geração de vantagens competitivas Paulo Fernando Fleury, Maria Fernanda Hijar e Alexandre Lobo de Paula Barros
12 – O desenvolvimento de uma economia criativa Ana Carla Fonseca Reis
13 – A marca Rio: uma promessa ainda por ser entregue Ana Couto e Bruno Israel
14 – Uma Rio-Disney: pensando no pós-2016 Lucas Ferraz e Fabio Giambiagi

PARTE III: DESAFIOS A ENFRENTAR

15 – Pobreza no Rio de Janeiro: tendências recentes e desafios para o futuro Ricardo Paes de Barros e Valéria Pero
16 – A saúde no Rio de Janeiro: o velho compromisso pendente Flavia Poppe de Muñoz
17 – Melhorar a qualidade da educação no Rio de Janeiro: um longo caminho Simon Schwartzman
18 – UPPs Sociais: ações sociais para consolidar a pacificação Ricardo Henriques e Silvia Ramos
19 – Municípios do estado do Rio de Janeiro: prosperidade em perspectiva ou riscos à frente? Paula Alexandra Nazareth

Changing universities and academic outreach. Paper for the  prepared for the New Century Scholar’s program, Fulbright Commission, 2009-2010. Preliminary version, for comments only.

Abstract:  Academic international cooperation between US and Western Europe and developing countries reached its peak in the 1960s and 1970s, through a combination of increased support for higher education, science and technology in the US and Europe; the economic development and modernization drives of former colonial and developing countries; and the foreign policy of he US and Western Europe during the cold war years. Already in the 1980s, however, it had lost much of its priority, due to a succession of failures of international cooperation, a growing skepticism about the promises of modernization, a growing concern with issues of poverty and human rights, and the expansion of private higher education and the priority given to globalization and international competitiveness by the major universities in the US and elsewhere.

This essay describes this development with a special emphasis on the links between the US and Latin America, and discusses the issues associated with the current trends.   It concludes that truly cooperative undertakings are needed, and require stable, competent and reliable patterns on both sides, recreating the global epistemic communities that could provide the basis for their permanence. Given the differences in wealth and competency, these North-South links will never be fully symmetrical regarding resources and knowledge transfer, but they should be as symmetrical as possible in terms of the genuine effort of each side to understand the needs, the conditions and the perspectives of the other.

No meio dos horrores da tragédia do Haiti, a análise mais inteligente que vi até agora é de David Brooks no New York Times de 14 de janeiro. Ele começa comparando o terremoto de San Francisco em 1989, de magnitude 7, quando morreram 63 pessoas, e o de agora, da mesma magnitude no Haiti, com centenas de milhares de vítimas. A diferença principal é a pobreza; e o problema de fundo é que, por muitos anos, tem havido muitos esforços de ajudar o Haiti a sair da situação de pobreza extrema em que sempre esteve atolado, e nada parece funcionar. Será que, passada a tragédia, será possivel encontrar novos caminhos, além da caridade bem intencionada que não funciona?  Vale muito a pena ler.

Neste  momento, o grande problema do Haiti não é a falta de dinheiro, nem de gente e países querendo ajudar, mas a coordenação e a logística necessária para fazer a ajuda chegar às pessoas necessitadas. O Brasil, com o contingente militar que tem lá e os suprimentos e pessoal de socorro que está enviando, deve ter um papel importante, embora menor do que o que o governo e  a imprensa procuram fazer crer. Outro dia a manchete dos jornais era que Estados Unidos e Brasil estavam coordenando os trabalhos, quando a desproporção entre o envolvimento americano e brasileiro é enorme, como não poderia deixar de ser. E a nota deprimente foi o protesto do ministro Celso Amorim junto ao governo americano porque os nossos aviões não estavam tendo prioridade no aceesso ao espaço aéreo do Haiti, cujo controle o governo americano precisou assumir, tentando criar assim um incidente político-diplomático no pior momento possível.

A invasão de Gaza pelas tropas de Israel é mais um capítulo de uma tragédia de radicalizações e equívocos diante da qual é muito fácil tomar posições movidas pela emoção ou pelo oportunismo, e muito difícil buscar caminhos que possam levar a uma paz duradoura.  O que penso a respeito está muito bem expresso no artigo abaixo, de Bernardo Sorj.

Compreender sem  simplificar

O conflito no Oriente Médio é  complexo. Aqueles que procuram  transformá-lo  num filme de Hollywood  no qual o mocinho e o bandido são claramente identificáveis e em que um lado representa o bem e o outro lado o mal estão fazendo um desserviço à   verdade  e à causa da paz.

Como em geral acontece com  os dramas  históricos, o conflito no Oriente Médio é  a conseqüência não-intencional de projetos humanos em que cada ator social procura realizar seus próprios objetivos, que terminam colidindo  com os de outro ator.  Tendo como base o drama de dois povos reivindicando a mesma terra, as lideranças políticas de ambos  lados  acumularam  erros que  alimentaram a desconfiança e o extremismo no interior de cada povo, dificultando ainda mais o caminho da paz.

Que erros foram esses? Sem entrar em detalhes históricos que fugiriam aos limites deste curto artigo, podemos indicar, nas últimas décadas, do lado dos governos  israelenses, a ocupação militar e a expansão constante das colônias na Cisjordânia e, do lado das lideranças palestinas, a conivência com o terrorismo e a ambigüidade em relação à plena aceitação da existência do Estado de Israel.

Criticar sem ofender nem mentir

O caminho da paz exige a comunicação e o reconhecimento da humanidade de todos. Quem quer a guerra vê o demônio no outro. Desumanizar o adversário, em algum momento, justifica a sua destruição. Durante os cinco anos  morei em  Israel e  lutei com meus colegas árabes pela paz e contra a política israelense de colonizar os territórios conquistados na guerra de 1967. Na época, enfrentei com meus colegas  os políticos israelenses que procuravam assimilar  Arafat a  Hitler e o movimento palestino, ao nazismo. Hoje sofro quando vejo grupos pró-palestinos fazerem o mesmo em relação ao sionismo. Dizer que  o sionismo equivale ao nazismo é uma mentira deslavada, uma agressão moral. E, como tal,  produz do lado israelense e judeu uma reação defensiva que alimenta o  sentimento de incompreensão e a incomunicação. Sejamos claros: Hitler exterminou sistematicamente todos os judeus que se encontravam nos territórios ocupados pela Alemanha nazista. Acontece que, no  Estado de Israel,  em l949, viviam 120.000  árabes. Hoje, hoje eles são mais de um milhão. Calcula-se em  torno de 500.000 os refugiados árabes da guerra de 1948. Eles e seus descendentes  somam de  4 a 5 milhões. Não houve, em nenhum sentido possível do conceito, um genocídio. Não se trata de negar o sofrimento pelo qual passou e passa o povo palestino. Mas não desvalorizemos os fatos históricos,  respeitando  os sentimentos daqueles que passaram pela experiência do  holocausto.  E lembremos, sobretudo, que  as palavras não são ingênuas.  Quem fala de genocídio transforma o outro em genocida,  o que permite que seja  tratado como tal.

Direitos humanos ou instrumentalização política?

Entendo  a simpatia e solidariedade com a causa palestina, seja  do mundo árabe, de descendentes de árabes e muçulmanos e de  pessoas de boa vontade identificada com o sofrimento palestino. Este sentimento é compreensível, assim como é a preocupação de judeus e não-judeus com a segurança de Israel. Mas em nenhum dos dois casos é aceitável o apoio acrítico  a lideranças radicais, seja israelenses que não se dispõem á devolver os territórios conquistados, seja  palestinas que sustentam um programa político que propõe a destruição do Estado de Israel. Preocupa-me e dói a manipulação política do conflito por intelectuais e organizações que, no Brasil e no exterior,  assumem uma posição antiisraelense primária, em geral ignorante da história da região que,  por momentos, beira  o anti-semitismo e cuja única motivação é uma ideologia política que associa Israel aos Estados Unidos. Para tais grupos, os Estados Unidos são o grande inimigo. Ergo, quem está  associado com o diabo, diabo é. Preocupa e dói porque esses indivíduos e grupos manipulam a bandeira dos direitos humanos, porém não têm nenhum compromisso real com o sofrimento humano. Porque, se tal sentimento existisse, estariam também fazendo panfletos e circulando com as bandeiras do povo checheno, curdo, sudanês ou  tibetano, que custaram e continuam cobrar a vida de milhões de pessoas. Mas a agenda destes grupos não é a dos direitos humanos nem a da paz do Oriente Médio. É uma agenda política que quer ver o circo pegar fogo para confirmar os preconceitos ideológicos. É, portanto, uma agenda perigosa, irresponsável e desumana.

O povo palestino e o mundo árabe, Israel  e o povo judeu não  são homogêneos

No ardor da  luta  contra o ataque militar  israelense,  parte da  mídia e de grupos pró-palestinos e pró-Israel transmite a  imagem de que a causa palestina e o mundo árabe e muçulmano, assim como  Israel e o povo judeu, constituem uma unidade. Transformam um  conflito político nacional no qual estão em jogo interesses e estratégias terrenas em um conflito religioso. Nada mais longe da realidade. O mundo árabe está – e sempre esteve – dividido.  Para cada governo árabe, a causa palestina ocupa um lugar específico no seu  projeto político interno e externo.  Afinal, não podemos esquecer que o território reivindicado pelo povo palestino para a criação de seu Estado nacional esteve, entre 1948 e 1967, nas mãos da Jordânia e do Egito, não de Israel. No lado israelense, a divisão política interna sempre foi explícita e, embora as relações entre boa parte da diáspora judaica e Israel sejam de solidariedade, isso  não significa nenhum alinhamento ou co-responsabilidade com os governos eleitos pelos cidadãos de Israel (inclusive pelos 20% de árabes israelenses).

Lembrar que não vivemos em mundos culturais formados por blocos coesos é fundamental. O fanatismo e o extremismo de cada lado se alimentam mutuamente.  Falemos claro: nem o extremismo palestino nem o israelense têm interesse em negociações políticas, pois nenhum deles está disposto a abrir mão de seus sonhos maximalistas. O caso do assassinato de Rabin é exemplar: morto por um extremista  israelense,  sua obra de pacificação  não pôde ser completada por Shimon Peres,  pois, apesar de sua  enorme vantagem inicial na campanha eleitoral, a onda de atentados terroristas palestinos  levou ao poder um primeiro- ministro da extrema direita.

O que será?

Nenhum povo  tem  o monopólio  da moral nem está ao abrigo de entrar num ciclo de destruição.  Quem quiser procurar na história fatos favoráveis à versão de  cada lado os encontrará em quantidades monumentais. O caminho da paz exige um doloroso esforço de abandono dos mitos e ilusões que cada parte  elaborou  sobre si mesmo e o outro. O    passado não  pode  ser esquecido, todavia será em torno de uma visão do futuro que  um novo presente poderá ser construído.

Penso que nós,  que não participamos diretamente da vida política dos países da região devemos lutar pelo essencial: apoiar a abertura de todos os  canais  de comunicação, de toda iniciativa de paz. Nós, que temos a sorte de viver  no Brasil, um país  que, apesar dos imensos  problemas sociais, é um exemplo para o mundo de convivência prazerosa entre as diversas religiões, devemo-nos esforçar por alimentar o diálogo, a esperança  e a abertura  de espírito, não permitindo que a intolerância e o ódio nos contaminem.

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Bernardo Sorj é professor titular de Sociologia da UFRJ e Diretor do Centro Edelstein de Pesquisas Sócias

Poucos devem ter visto na TV a entrevista de um sobrinho de Martin Luther King, cujo nome infelizmente não guardei.  Perguntado sobre se a vitória de Obama significava que o sonho de Luther King tinha se completado, ele disse que só em parte, porque muitas pessoas não votaram nele porque ele é negro, e outras votaram porque é.

E tinha razão. Obama, que sempre valorizou sua origem e a cor de sua pele, fez uma bela campanha em que os temas eram o país, o mundo, a economia e as pessoas, independentemente de quem fossem. Mas tanto McCain como Bush, quando falaram reconhecendo e cumprimentando a Obama pela vitória,  fizeram questão de falar, com condescendência, dos negros que agora chegam ao poder, e não de uma nova visão e uma nova política que se anuncia. De forma elegante, tentaram, espero que pela última vez, colocar a Obama “em seu lugar”.

No debate  entre os candidatos, um dos momentos interessantes foi quando  Obama disse que o aparente sucesso do “surge” do General Patraeus no Iraque poderia ser uma vitória tática, mas o que era importante era a estratégia, e McCain respondeu dizendo que Obama não sabia a diferença entre estratégia e tática.  Para McCain, estratégia era isto: colocar mais tropas no terreno, manter posições, ou, como ele diz: “A strategy of going into an area, clearing and holding, and the people of the country then become allied with you. They inform on the bad guys. And peace comes to the country, and prosperity”.

Para Obama, a questão estratégica é muito mais ampla: estabelecer um novo relacionamento entre os Estados Unidos e o resto do mundo, sem entrar em aventuras militares, e evitar que situações como a do Iraque se repitam. Nesta mudança de postura, a questão de como sair do atoleiro do Iraq não deixa de ser importante, mas é secundária. É McCain, claramente, quem não parece ter idéia da necesssidade de uma nova estratégia para os Estados Unidos, além da doutrina Bush. Esta mesma diferença apareceu nas outras partes do debate, Obama insistindo na necessidade de uma política de cunho social-democrata, que dê prioridade a questões como saúde, educação e proteção social, e McCain insistindo na agenda conservadora do estado mínimo e não interventor.

Em certo sentido, a discussão lembra o debate brasileiro sobre a violência urbana. Que fazer, ocupar as favelas e combater os bandidos ou cuidar da questão social que aflige as cidades brasileiras? A resposta óbvia é que é um falso dilema. É necessário ter força e capacidade de intervenção para reduzir a violência, mas não  é possível mudar este quadro de forma mais permanente sem enfrentar as questões mais difíceis, e estratégicas, de repensar e reorganizar as cidades e dar-lhes um novo sentido.

É muito mais difícil, em uma campanha, propor estratégias de longo prazo, e por isto fiquei com a impressão que  McCain havia ganho o debate. As pesquisas, no entanto, parecem dizer que quem ganhou foi Obama (veja os links indicados por Bruno Reis em seu comentário). A crise econômica talvez explique isto. Nestas questões, é Obama que defende políticas mais práticas e imediatas em defesa de uma população na eminência de perder suas casas, suas poupanças e sua aposentadoria, enquanto que McCain ainda defende a redução dos impostos das grandes corporações.

De viagem nos Estados Unidos, estava contando com a oportunidade de assistir daqui o primeiro debate dos candatos à presidência, logo mais à noite. Mas já é sexta feira de madrugada em Washington, e ainda não se sabe se o debate vai acontecer.  A campanha de McCain, esvaziada pela identificação com o governo falido de Bush e a falta de propostas, tem apelado para gestos espetaculares, começando pela invenção de Sarah Palin, para jogar a disputa para o campo da “guerra cultural”  entre os fundamentalistas religiosos e os liberais, e agora pelo anúncio de que o candidato suspendia a campanha, e o debate, para assumir lugar de liderança da aprovação das medidas para salvar a economia do país.  A Obama, devem ter calculado seus estrategistas, não caberia senão um papel passivo e irrelevante.

Um dia depois, o grande gesto se esvaziava – os congressistas republicanos não apoiaram o plano do governo, McCain não fez mais do que assistir a uma reunião aonde nada se resolveu,  sem exercer nenhum papel, e Obama aproveitou para dizer que, por causa da crise, era mais necessário do que nunca que a população tivesse a oportunidade de conhecer as propostas e escolher o próximo presidente do país, que vai herdar e ter que administrar toda esta confusão.  E ainda lembrou que um futuro presidente tem que ser capaz de fazer várias coisas ao mesmo tempo… Como são os democratas que têm a maioria no Congresso, são eles, com Obama, que vão afinal definir o rumo das negociações.

McCain vai ou não a Mississipi, para o debate?  De lá, dizem que os preparativos continuam, e Obama já confirmou a presença. Os estrategistas de McCain devem estar coçando a cabeça para sobre o que fazer, e como evitar que a cadeira de seu candidato fique vazia, sem reconhecer o fracasso da manobra.

As pesquisas eleitorais continuam dando vitória para Obama no Colégio Eleitoral, mas apertada – 273 a 265 votos, pela última estimativa que vi.  A crise econômica está claramente enfraquecendo a campanha de McCain, mas ninguém sabe o que pode ainda acontecer nesta campanha surpreendente.

José Roberto F. Militão: Obama, láh!


José Roberto F. Militão escreve: “Ouso encaminhar, caso queira publicar, a opinião de um afro-brasileiro, contrário a leis raciais que vê com grande otimismo a candidatura e grande esperança a eleição do mestiço Obama. Publicado em 18/01, na ´Afropress´, antes do início das primárias, ainda sem a ênfase da euforia pela vitória nas primárias”. Eis o texto:

A partir do artigo do colega Cadette, de Nova Iorque, temos o perfil do senador Obama e suas credenciais políticas por uma visão privilegiada de um afro-brasileiro, empenhado na luta contra o racismo e com visão privilegiada do ambiente e dos sentimentos dessa campanha presidencial de 2008, nos EUA. 
De fato, o mundo, surpreso e incrédulo, a quem foi apresentado uma novidade extraordinária, um jovem político, de cor, Senador Barack Obama com real possibilidade de ser escolhido candidato a Presidente dos Estados Unidos e nós, militantes por direitos humanos e ativistas contra os ideais do racismo, temos mais uma oportunidade de reflexão sobre o que representa a estampa de um homem de cor, afro-descendente que não se trata de um “afro-americano” genuíno, nem descendente de ex-escravos como nós, condição que o diferencia: nascido nos EUA, é filho de um preto africano com uma mãe branca norte-americana, os pais separados, foi com a mãe em novo casamento, para viver na pobre Indonésia, um país tão pobre quanto o Brasil, de maioria muçulmana. Sua família, entretanto sempre foi cristã.


 O perfil nos revela que foi um dedicado estudante, graduado por duas Universidades, profissionalmente, optou por ser ativista por Direitos Humanos, atuando em bairros pobres da periferia de Chicago. Desde o início da carreira política, as demandas por inclusão social é o núcleo de sua plataforma eleitoral que reitera em todos os discursos como sendo “o mensageiro da esperança e o instrumento de mudanças”. A novidade da trajetória de baixo para cima, parecida com a de Abraham Lincoln e com estampa de pessoa miscigenada e vínculos políticos com a periferia urbana, lembra ser essa mesma a plataforma que levou à vitória a campanha de Lula em 2002.


 Chama a atenção na candidatura que traz o cunho sócio-racial, por sua condição de afro-descendente oriundo de família modesta, militante por direitos sociais na periferia de Chicago e que, a partir dessa militância, se transforma numa importante liderança política. Uma questão que pode assustar a conservadora e racialista sociedade norte-americana é que se afirma com o discurso da “esperança e da mudança” que tem semelhanças (e não identidade ideológica) com a ascensão de Hugo Chavez, na Venezuela, e de Evo Morales, na Bolívia, além do nosso Lula. O que distingue o doutor Obama é ser um bem conceituado advogado, com sólida formação acadêmica na Universidade de Harvard, tradicional formadora das elites.


 Com os referidos políticos da América do Sul, tem em comum, além da origem modesta, a simbologia da mesma improbabilidade que um operário metalúrgico, um jovem militar, um líder indígena e um afro-americano, tivessem de fato, a possibilidade de assumirem lideranças nacionais ainda jovens, com menos de 50 anos. E, menos ainda que tal probabilidade se dê nos EUA, de secular história de conflitos raciais, da mais poderosa potência econômica e militar. Independente dos resultados eleitorais de 2008, o jovem Senador Obama, aos 46 anos, prenuncia que todos serão personagens políticas que vieram para ficar e influenciar o mundo nos próximas trinta anos.


 Diante dessa realidade, o que significará para nós, afro-brasileiros, uma eventual vitória do doutor Obama? A primeira constatação é que ele não representa setores do nosso movimento “negro” adeptos da racialização do Estado. Ele nem foi militante dos “blacks moviments”, o movimento afro-americano e para ser eleito Senador concorreu e venceu um antigo político apoiado pelos movimentos blacks e o fez com a defesa de políticas públicas universais e sem levar avante nenhuma bandeira de “cotas raciais”, apenas acenando com empenho em políticas públicas de Ações Afirmativas que sejam promotoras da igualdade e que neutralize todo tipo de discriminações correntes.


 O Senador construiu a carreira política, como parlamentar e mantém vínculos e compromissos com movimentos sociais. Uma evidente característica estampada no perfil humano de Obama é o fato de ser miscigenado tal como é a maioria dos brasileiros. O fato de não ser descendente de ex-escravos é uma situação inédita que o diferencia para a população branca e para os latinos, asiáticos e africanos pois não tem o raivoso discurso dos descendentes de escravos, vítimas do racismo institucional nos EUA, nem se apresenta como militante dos “direitos dos pretos”, mas na defesa de direitos dos excluídos, que além dos afro-americanos, contempla também os demais segmentos: mulheres, índios, homossexuais, deficientes e idosos.


 É o que se deduz de seu livro (A Audácia da Esperança, 2005), verdadeira plataforma política, em que destaco duas frases simbólicas. A primeira revela o caráter da responsabilidade ética com a formação da juventude distante de conflitos e de violações de direitos: “Eu sonho com uma América com mais engenheiros e menos advogados.” A segunda, é a síntese de uma plataforma de superação de crenças negativas baseadas na crença em raças, no machismo, sexismo e homofobia que sustentaram as culturas defeituosas dos séculos 19 e 20: “Eu rejeito a política baseada apenas na identidade racial, na identidade homem-mulher ou na orientação sexual. Eu rejeito a política baseada na vitimização.”


 De seu discurso político, recolho lições que servem à nossa disputa política-racial da última década. Desde o início da vida política, a questão racial jamais foi tema principal cujo núcleo tem sido a inclusão, a promoção da igualdade, a garantia de oportunidades, o combate à pobreza e melhor distribuição de rendas, naquela que é a maior economia do mundo. No campo social, sua principal proposta é um imenso programa de transferência de renda, no formato “bolsa-família/ renda mínima” de fazer inveja ao Presidente Lula e ao Senador Eduardo Suplicy com a promessa de transferir U$ 80 bilhões de dólares por ano para as famílias mais pobres. O programa de Lula, dispõe de cerca de U$ 6 bilhões por ano.


 Esse programa, se autorizada a implementação pelos votos do povo norte-americano, contrariando toda a cartilha liberal vigente nos Estados Unidos, far-se-ia, em poucos anos, a maior distribuição de rendas jamais imaginada no mundo capitalista. Para viabilizá-lo, promete mobilizar cada distrito, cada cidade, cada Estado e ainda recorrer-se de milhares de organizações civis e também à consolidada rede de fraternidade das igrejas católicas, protestantes e evangélicas, especialmente, nas periferias urbanas.


 Na América de maioria protestante, Obama tem repetido sua adesão à fé cristã, afastando os preconceitos de seu nome africano, que lembra o Islã, e tem ainda como compromisso o fim da Guerra do Iraque e a retirada de todos os soldados, no prazo de 18 meses. Seu mais aclamado discurso, proferido na Convenção do Partido Democrata de 2004 e que o transformou em estrela política, é um ato de declaração de orgulho e de amor à América e, mais ainda, de fé nos valores democráticos da Declaração de Independência dos Estados Unidos. Ninguém então imaginava viável a candidatura presidencial, que nasce declarando seu amor pelos Estados Unidos, por seu povo e pelos valores daquela sociedade: “Esta noite, nos reunimos para afirmar a imensidão da nossa nação — não por causa da altura de nossos arranha-céus, nem pelo poder de nosso exército, nem pelo tamanho de nossa economia. Nosso orgulho é baseado numa premissa muito simples resumida numa declaração feita há 200 anos: “que todos homens são criados semelhantes, e que a eles são concedidos por seu Criador certos direitos inalienáveis, entre estes a vida, liberdade e a busca da felicidade”. Isso é o gênio verdadeiro de América — uma fé em sonhos simples, uma insistência em milagres pequenos.” “Não há uma América liberal e uma América conservadora — há os EUA. Não há uma América Negra e uma América Branca, uma América de latinos e América de asiáticos — há os EUA… Isso é o gênio verdadeiro da América, uma fé nos sonhos simples das suas pessoas, a insistência em milagres pequenos… Que podemos participar no processo político e que, na maioria das vezes, nossos votos serão contados…”

De fato, vamos viver meses de grande emoção e a confirmar-se a ascensão da candidatura do Senador Obama, os norte-americanos estarão elegendo mais que um político do Partido Democrata. O eleito será um cidadão do mundo, pessoa cosmopolita, símbolo do que, pasmo, testemunhou em 1832 o francês Alexis de Tocqueville em “A Democracia na América”: Ao ver a nova sociedade na América, Tocqueville conscientizou-se em definitivo que o tempo da nobreza havia passado, que a sua classe nada mais tinha a dizer ao futuro: “formamos parte de um mundo que se despede”, escreveu ele à mulher…” “não somos senão que restos de uma sociedade que está se convertendo em pó e que logo não deixará vestígios”. (Raimond Aron).

A já vitoriosa campanha do doutor Obama, mais que as “esperanças e mudanças” prometidas na plataforma política, também traz esse significado de uma “nova era” em prol do conceito da espécie humana, desmoralizando os que dividem a humanidade em “raças” e condicionados pelo vício da crendice em “raças humanas”, ainda defendam, singela e piamente, a ideologia do racismo.
Doravante, todos os racistas do mundo, como categoria social, fazem parte de uma sociedade que está virando pó nesta primeira década, do primeiro século do 3º. Milênio, no ano de 2008 d.C. após séculos de império do racismo, da desigualdade, da hierarquia entre os humanos.

Enfim, por tudo o que representa, e pelo que representará de novidade para as possibilidades humanas no mundo, como cidadão, como brasileiro, como afro-descendente, como militante por Direitos Humanos, como ativista contra a crença em raças humanas e pelo fim de todo tipo de preconceitos e discriminações, também entrei nessa campanha: Obama, láh!!!

Fabio Wanderley Reis – Liderança, Carisma e Barak Obama

Minha nota louvando o discurso da vitória de Obama provocou muitas reações de apoio, e várias advertências dos mais realistas – o caminho vai ser difícil, ele ainda não mostrou a que veio, muitas de suas afirmações são vagas, e ele vai ter que enfrentar e participar de alguma forma da realidade dura do jogo de poder e interesses de Washington. Tudo isto é verdade. Mas a política não é só o jogo frio de cálculos e interesses, tem também um forte componente simbólico e expressivo, e é a combinação entre estas duas coisas, que Obama parece ter, que diferencia os melhores lideres dos operadores calculistas de um lado e dos demagogos populistas de outro.

Fábio Wanderley Reis, escrevendo no Valor Econômico em 4 de fevereiro passado, expressava a mesma idéia:

Mas a promessa de líder realmente estimulante é Barack Obama. Com o especialíssimo background em termos raciais e étnicos e o forte simbolismo associado (pai africano do Quênia, mãe branca do Kansas e, de quebra, meia-irmã semi-indonésia, portando e ligando-se a nomes e sobrenomes que soam como os de inimigos mortais dos Estados Unidos no período recente); podendo reclamar, como o fez, a condição de herdeiro do movimento dos direitos civis; graduado e pós-graduado por algumas das melhores universidades do país; com o vigor intelectual e pessoal que transparece fortemente na qualidade de sua oratória, combinando-se à imagem de integridade para, ao que indica sua carreira até aqui e a campanha que vem conduzindo na disputa da candidatura do Partido Democrata, torná-lo capaz de mobilizar o eleitorado estadunidense de maneira que há tempos não se via; lutando pelo acesso à Presidência nos Estados Unidos [… ] não só do conflito racial ainda presente, mas da ossificação institucional pela partidarização até do Judiciário, do peso eleitoral do dinheiro, da infeliz conjunção do 11 de setembro com Bush no poder e da sombria e desastrada “guerra ao terrorismo”, e agora da crise econômica; tudo parece justificar a expectativa de que a eventual vitória de Obama na eleição venha a redundar em experiência singular e rica em planos diversos. De minha parte, espero que a experiência possa de fato ocorrer.

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(Várias pessoas notaram que, ao contrário do que eu havia entendido, a avó de Obama, a quem ele homenageou no discurso, não foi a queniana, por parte de pai, mas a americana, com quem ele conviveu na juventude. Não foi, portanto, uma refêrencia étnica, mas pessoal).