A nova numerologia do INEP

Não contente com o “Conceito Preliminar de Cursos”, o INEP, incorrigível, agora lança na imprensa o “Indice Geral de Cursos da Instituição”, combinando os dados do conceito preliminar com as notas de avaliação da pós-graduação da CAPES.  Agora “sabemos” que as melhores universidades do Brasil são, nesta ordem, a Universidade Federal de São Paulo, a Universidade Federal de Ciências de Saúde de Porto Alegre, a Universidade Federal de Viçosa e a Universidade Federal de Minas Gerais; as piores são a Universidade de Santo Amaro, a Universidade do Grande ABC, a Universidade Iguaçu e a Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (a Universidade de São Paulo e a Universidade de Campinas, prudentemente, preferiram ficar fora da brincadeira).

Para que que serve mesmo saber que, segundo o INEP, a Universidade Federal do Rio de Janeiro está na posição 35? Isto ajuda os estudantes a decidir se vale ou não à pena se candidatar para fazer o curso de economia, medicina, educação física ou um doutorado em biofísica nesta instituição, ou uma pós-graduação na COPPE? Isto ajuda o MEC a decidir se vai aumentar ou diminuir os recursos de custeio da Universidade, ou fazer com que ela gerencie melhor os recursos que já recebe? O que se espera? Que ela chegue à posição 20 em “x” anos?…

Para quem que, como eu, sempre defendeu a necessidade de avaliar os cursos e as instituições de ensino superior no Brasil, fica uma situação difícil, já que esta numerologia reforça os argumentos dos que sempre acharam melhor não avaliar coisa nenhuma. O fato é que o INEP não tem condições de fazer uma avaliação adequada das 2.270 instituições e 22 mil cursos superiores que existem por este Brasil afora, e estes exercícios estatísticos, por mais bem feitos que sejam (e não são bem feitos assim, veja minha análise do “conceito preliminar”) estarão sempre sujeitos a demasiados erros e imprecisões, e por isto mesmo não poderiam ser divulgados pela imprensa como o são, ainda que sob o título de “preliminar”.

Que alternativas existem? Eu não tenho respostas prontas, mas acho que poderíamos começar por algumas coisas:

  • Ao invés de se preocupar tanto em controlar o ensino privado, o Ministério da Educação poderia começar por concentrar esforços em avaliar e controlar melhor suas  próprias 105 instituições  federais (é o dado de 2006), que são financiadas com recursos públicos, para ter certeza que seus cursos são bons, em áreas prioritárias para o país, e que os recursos estão sendo utilizados de forma racional e eficiente.
  • Para o setor privado, o Ministério deveria se limitar a assegurar que as instituições têm condições mínimas para funcionar. Ao invés de distribuir estrelas, haveria simplesmente uma certificação institucional (como um ISO educacional)  e também uma certificação dos cursos em instituições não universitárias (se não me equivoco, as universidades não precisam de autorização do MEC para criar cursos).
  • Recursos poderiam ser destinados para reforçar os sistemas de certificação profissional de médicos, advogados, professores, engenheiros e outras áreas profissionais de impacto na saúde, formação e patrimônio das pessoas.  Instituições públicas ou privadas que não formassem alunos capazes de passar por estas certificações seriam forçadas a fechar, ou se aperfeiçoar.
  • Deveria haver um esforço de desenvolver e explicitar as competências e habilidades profissionais esperadas nas diversas áreas profissionais, e usar este conhecimento para a criação de sistemas de avaliação das instituições por profissão, ou carreira, abrindo espaço para o reconhecimento das diferenças que existem entre os cursos em relação às competências que buscam desenvolver.
  • As instituições privadas, que hoje se sentem prejudicadas pelas avaliações que o INEP produz, deveriam levar a sério o projeto de criar sistemas próprios e independentes de certificação e avaliação de cursos e instituições, que pudessem eventualmente se contrapor aos números oficiais que o governo  vem divulgando. A idéia não seria criar um “inepinho” privado, mas ir estabelecendo sistemas de avaliação setoriais, por adesão das instituições interessadas em mostrar para  sociedade a qualidade que tenham. Os custos deveriam ser cobertos pelas instituições participantes.
  • A legislação existente, que criou o CONAES e o SINAIS, precisaria ser revista, para que o país possa desenvolver sistemas de avaliação do ensino superior que tenham qualidade técnica e legitimidade, respeitando a grande diversidade e as dimensões continentais do país, coisas que não ocorrem hoje.

Escreve Felipe F. Schwartzman:

Se a menor unidade de análise para os físicos são partículas elementares, para os cientistas sociais, são as pessoas e o uso que elas fazem de seu tempo. Uma pesquisa que já vem sendo feita há alguns anos nos EUA, a American Time Use Survey, propõe estudar exatamente isso através do uso de diários nos quais as pessoas colocam o que fazem em cada hora do dia. Depois de muitos estudos e achados interessantes, essa pesquisa teve seu orçamento cortado pelo congresso americano para 2009 pois o preço era considerado alto demais: 6 milhões de dólares.

Enquanto isso, o novo acelerador de partículas custou 8 bilhões. Ou seja, mais de 1300 anos da ATUS.  Não é à toa que física tem condições de se proclamar uma “ciência exata”

Já estão disponíveis os resultados deste projeto, desenvolvido pelo IETS em parceria com o InterAmerican Network of Academies of Sciences (IANAS), e com o apoio da Fundação Ford.  O trabalho consistiu no exame de um grupo seleto de casos em diferentes países latinoamericanos em que centros e institutos de pesquisa universitários se mostraram capazes de desenvolver projetos que têm, ao mesmo tempo, conteúdo científico e técnico de qualidade, e contribuem de forma significativa para o bem estar social e o desenvolvimento sustentado de seus países. O objetivo principal foi identificar os arranjos institucionais, financeiros e acadêmicos que permitem a estas instituições desenvolver estes projetos e atividades.

Sabemos, pela literatura existente, que as conexões mais frutíferas entre ciência, tecnologia e inovação não obedecem a uma sequência linear, da ciência básica às aplicações (conforme os modelos de oferta) nem da demanda à pequisa aplicada e básica (conforme os modelos de demanda), mas ocorrem através de interações e negociações complexas que ligam os diferentes participantes dos processos de inovação, nas quais o papel empresarial e de liderança dos pesquisadores e cientistas é de grande importância. As instituições universitárias, tradicionalmente, estão organizadas de forma rígida, que dificultam o desenvolvimento destas novas formas de interação. No entanto, existem exemplos importantes de atuação inovadora que vão além destas limitações, e que o estudo tratou de identificar e difundir.

Os casos escolhidos em cada país buscaram cobrir instituições públicas e privadas, em diferentes áreas de atuação – tecnológica, de biociências, agrícola e sócio-econômica. Além dos estudos de casos, disponíveis aqui, os resultados foram publicados em um livro consta de uma introdução, sobre “Educação Superior, Pesquisa Científica e Inovação na América Latina” (Simon Schwartzman); capítulos gerais sobre “Incentivos e Obstáculos ao Empreendedorismo Acadêmico” (Elizabeth Balbachevsky); “Propriedade Intelectual: Política, Administração e Prática nas Universidades Latinoamericanas” (Carlos M. Correa) e “Financiamento das Relações Universidade – Indústria” (Antônio José Junqueira Botelho e José Antônio Pimenta Bueno); e um capítulo para cada país, com um panorama geral da pesquisa universitária e o sumário dos estudos de caso.

O livro está publicado em versão eletrônica em português, pela Biblioteca Vrtual em Ciências Humanas do Centro Edelstein de Ciências Sociais;  em versão espanhola, pelo Instituto Internacional da UNESCO para a Educação Superior na América Latina e Caribe (IESALC), e a versão em inglês está prevista para ser publicada proximamene pela SensePublishers.

Os textos completos dos livros, assim como os 16 estudos de caso, podem ser baixados daqui.

Ivan Moura Campos: Inovação Tecnológica e Desenvolvimento Econômico

Recebi de Ivan Moura Campos o trabalho acima, escrito em parceria com Eduardo de Campos Valadares, a pedido da Secretaria de Planejamento de MG, “tratando da mesma temática dos textos em “Universidades e Desenvolvimento na América Latina”, apontados em seu blog. Focalizo o assunto com um viés que argumento ser especialmente adequado para as engenharias e as hard sciences, onde se cotejam o grau de desenvolvimento da indústria local e a competência instalada na universidade, e como isso impacta a agenda de pesquisa universitária”.

Nas conclusões, dizem os autores que  “muito do que se financia no Brasil como ciência ou pesquisa básica é, na verdade, tecnologia de ponta de boa qualidade, desacoplada do parque produtivo local, gerando publicações indexadas, mas sem clientes prospectivos em prazo previsível. Na realidade, as universidades e os institutos de pesquisa brasileiros estão fazendo inovação tecnológica que não foi demandada pelo parque produtivo local, tratando de temas de ponta, condição necessária para publicação em periódicos de qualidade”.   O trabalho está disponível aqui.

Ciencias sociais, ciencias naturais e as humanidades

A ciência política é uma ciência, como a física, ou parte das humanidades, como a literatura? Sendo uma ou outra coisa, de que forma ela participa, ou deveria participar, das políticas nacionais de desenvolvimento científico, tecnológico e inovação? Como ela deve ser avaliada por uma instituição como a CAPES?
Este foi, ou deveria ter sido, o tema da mesa redonda em que participei no 6º  Encontro de Associação Brasileira de Ciência Política, realizado em Campinas em 1º  de agosto, sob o o título de “As Ciências Sociais e o Desenvolvimento Científico”.  Creio que todos os participantes da mesa – Wrana Panizzi, vice-presidente do CNPq,  Carlos Henrique Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, Ruben Oliven, presidente da ANPOCS, e Leôncio Martins Rodrigues, coordenador da mesa – concordaram em que  o mundo da ciência está muito mudado e diversificado, que as diversas áreas do conhecimento têm importantes responsabilidades de produzir resultados,  e que não é possível avaliar as ciências sociais (nem nas naturais) conforme os padrões clássicos da ciência acadêmica convencional.

No entanto, como acontece nestas ocasiões, a reunião terminou quando a discussão deveria estar começando. Parte de minha apresentação foi baseada nos resultados do estudo que fizemos em 2006-2007 sobre “Universidades e desenvolvimento na América Latina: experiências exitosas de centros de pesquisa”, cuja versão digital em português está disponível na Biblioteca Virtual de Ciências Humanas ; e parte nas notas que preparei a partir de uma reunião promovida pela CAPES sobre “avaliação de Competência Científica” realizado em 2007, aonde trato de discutir um pouco mais em detalhe esta questão das ciências sociais e das humanidades (o texto está disponível aqui).

Uma das minhas conclusões, na qual venho insistindo, é que o modelo de avaliação acadêmica adotado no Brasil 30 ou mais anos atrás, que teve importantes resultados, já não dá conta de lidar com a diversidade e pluralidade das atividades de pesquisa que vem se desenvolvendo no país e no resto do mundo, e já está a hora de buscar novos caminhos.

Na minha entrevista à revista Veja de dua semanas atrás, eu coloquei em dúvida, como exemplo, a prioridade que deve ser dada à física de partículas no Brasil. Isto provocou críticas de vários pesquisadores da área, entre os quais a do professor Ronald Cintra Shellard, que está publicada como comentário aqui. Agora recebi uma outra carta, dos professores Roberto Salmeron, personalidade importante da ciência brasileira, e Alberto Santoro, do Instituto de Física da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, cujo texto transcrevo abaixo.

É possivel que eu tenha me equivocado totalmente, de fato não sou especialista na área (embora saiba algo da história e das políticas da ciência no Brasil) e neste caso peço desculpas. Mas acredito que eu teria encontrado a mesma reação se tivesse questionado a prioridade do programa espacial, ou dos estudos de filosofia.

Meu ponto principal, que creio que continua valendo, é que é necessário poder discutir de forma aberta a importância e o peso relativo das diversas áreas de pesquisa em um país, com a participação tanto dos especialistas quanto de outros setores da sociedade, e tomar decisões sobre prioridades, sem com isto diminuir a liberdade intelectual nem desvalorizar a contribuição de ninguém.

O argumento de que todas as áreas do conhecimento devem ser apoiadas, porque fazem parte da cultura, e que só os especialistas podem opinar sobre os respectivos campos, é válido quando os recursos são ilimitados, mas acaba redundando em uma grande dispersão de esforços que nunca atingem a densidade científica e técnica que o país necessita. Para ficar mais claro o que estou dizendo, sugiro a leitura dos critérios para o apoio à pesquisa básica do Office of Management and Budget do governo americano, disponível aqui.

Segue a carta dos professores Salmeron e Santoro:

19 de maio de 2008

Prezado professor Simon Schwartzman,

Com grande surpresa e preocupação lemos em sua entrevista à revista Veja de 3 de maio de 2008, páginas amarelas, algumas declarações questionáveis, mas sobretudo as seguintes:

“ Não tem sentido, por exemplo, o Brasil fortalecer sua pesquisa em física de partículas. Tivemos aqui pesquisadores importantes na década de 40, como Mário Schenberg e César Lattes, que fizeram pesquisa de fronteira e publicaram artigos preciosos. Mas acabou aí. Depois nisso ninguém fez mais nada.”

“A física de partículas é hoje uma ciência bilionária. Depende de investimentos que nenhum pais faz sozinho. O Brasil vai participar desse jogo para que? E vai botar quanto dinheiro nisso? “

Essas afirmações são inteiramente fora da realidade e são uma ofensa a brasileiros que têm dado contribuições fundamentais a essa área e se impuseram na comunidade internacional de físicos.

Desejamos inicialmente fazer duas correções. A primeira, Mário Schenberg nunca trabalhou em física de partículas elementares. Trabalhou no que chamamos “teoria de campos”, que em alguns aspectos às vezes tem conexão com física de partículas mas não é física de partículas. A segunda, os únicos trabalhos importantes feitos em física de partículas no Brasil na década de 40 foram os do professor Gleb Wataghin e seus colaboradores diretos no Departamento de Física da ex-Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP, tanto em teoria quanto em experiências. Entre eles, a primeira teoria estatística sobre produção de mésons de Gleb Wataghin, trabalho pioneiro de 1942, e a descoberta experimental dos “chuveiros penetrantes” em colaboração com Marcello Damy de Souza Santos e Paulus Aulus Pompéia, de 1940. Esta experiência foi repetida na Inglaterra com técnica diferente e contribuiu para uma das mais importantes descobertas da física do século XX, a das “partículas estranhas”. São trabalhos que ficaram na história.

Sua afirmação:

“Mas acabou aí. Depois disso ninguém fez mais nada”

é uma ofensa a brasileiros que contribuíram e continuam contribuindo para esse campo da física. Contrariamente à sua afirmação, há centenas de trabalhos em física de partículas feitos com colaboração de brasileiros. Alguns deles, pela sua importância, ficaram na história da Física.

Por exemplo, um grupo de físicos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, contribuiu para a descoberta do “quark top”. Sabemos que a maioria das partículas são compostas de seis partículas chamadas “quarks”. O “top” por ser o mais pesado foi o de detecção mais difícil. Foi descoberto numa experiência realizada no Fermilab nos Estado Unidos, da qual participou o grupo brasileiro. Uma parte da análise dos eventos que prova que se tratava realmente do “quark top” foi inteiramente realizada no Rio. O anúncio dessa descoberta foi feito com uma declaração à imprensa no mesmo dia e na mesma hora, levando-se em consideração os fusos horários, em Nova York, em Paris e no Rio.

Em novembro passado os jornais de todo o mundo publicaram a notícia de que a colaboração internacional conhecida como “Projeto Auger” descobriu origens de raios cósmicos de altíssimas energias, um dos grandes desafios da física deste século. A colaboração Auger tem forte participação de grupos brasileiros de várias de nossas universidades, de um lado com equipamento importante integralmente construído pela indústria nacional, de outro com a elaboração de programas de computadores para análise dos dados. Dois físicos brasileiros fazem parte do comitê internacional de direção da colaboração. O financiamento da parte brasileira foi feito pelo CNPq e pela FAPESP, cujas direções expressaram publicamente sua satisfação com o resultado obtido. Queremos também esclarecer que esta experiência é uma experiência em física de partículas elementares, os raios cósmicos sendo partículas, todo o equipamento é o mesmo utilizado em física de partículas junto a aceleradores. Todos os físicos da experiência tiveram sua formação em física de partículas.

Vejamos suas outras afirmações:

“A física de partículas é hoje uma ciência bilionária. Depende de investimentos que nenhum país faz sozinho. O Brasil vai participar desse jogo para que? E vai botar quanto dinheiro nisso?“

Dizer que a física de partículas é uma “ciência bilionária com investimentos que nenhum país faz sozinho” exige uma explicação, porque o grande público não conhece a estrutura dessa disciplina e vai pensar que o Brasil gasta ou vai gastar fortunas fabulosas, bilhões de reais ou de dólares, o que seria um absurdo. Sua declaração nos dá o direito de pensar que o senhor também não conhece a estrutura da disciplina.

A realidade é a seguinte. As experiências são realizadas por colaborações internacionais junto a grandes aceleradores de partículas, dos quais os mais importantes são o Tevatron do Fermilab nos Estados Unidos, agora em fins de utilização depois de mais de 30 anos, e o novo acelerador Large Hadron Collider (LHC) do CERN, situado em Genebra, na Suíça. A construção dos aceleradores, de todas as suas partes, os contratos com as indústrias, a infra-estrutura técnica, oficinas, computadores, salários de engenheiros, de técnicos e de físicos com contratos permanentes são pagos integralmente pelos governos dos países que são os donos dos laboratórios. No caso do Tevatron, o governo do Estados Unidos. No caso do CERN, que é um laboratório internacional europeu pertencente a 20 paises da Europa, os governos desses 20 países, que financiam um orçamento anual. O Brasil, como todos os outros países que não são membros do CERN, não paga absolutamente nada para construção e manutenção do laboratório.

As experiências são realizadas por colaborações internacionais cujos financiamentos são feitos em parte pelo próprio CERN, mas na maior parte pelos paises que participam da colaboração. Há um espírito de colaboração, cada país contribui dentro de suas possibilidades. Grupos brasileiros estão participando de quatro grandes experiências no LHC do CERN, que entrará em funcionamento normal daqui a dois ou três meses. Participam dessas experiências 150 países, e dentre eles pelo menos 140 são mais pobres que o Brasil.

É preciso levar em consideração também que a física de partículas elementares está na vanguarda da tecnologia, que beneficia o Brasil. Um grupo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e outro da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” estão colaborando com o CERN em nova filosofia para cálculos de experiências com grandes números de dados e fizeram que centenas de computadores fossem construídos pela indústria nacional, utilizados por várias de nossas universidades; são pólos da América Latina para receber dados diretamente de Genebra e transmiti-los aos outros países. O grupo da UERJ está auxiliando a Faculdade de Medicina em informática.

Se não houvesse física de altas energias o senhor não teria internet, pois o www foi inventado no CERN.

Como resposta à sua pergunta

“E vai botar quanto dinheiro nisso?“

queremos informar que em física de partículas elementares o Brasil gasta muito menos do que em outras áreas da física e da pesquisa científica. A astronomia, ciência importante que deve ser apoiada e cada vez mais exige trabalhos em colaborações internacionais, tem orçamento anual fixado por lei, maior do que a verba total de todas as experiências de partículas elementares, incluindo viagens e estadias no exterior.

Queremos informar de que está havendo uma preocupação extremamente salutar em cientistas brasileiros de todas as idades e de várias ciências, como física, matemática, química, bioquímica, farmacologia, ciências médicas, genética, com a qualidade dos trabalhos efetuados no Brasil. Nossa produção científica aumenta incontestavelmente, mas a preocupação é: qual o impacto dos trabalhos feitos no Brasil ? Pouquíssimo, a não ser alguns trabalhos. A experiência internacional nos ensina que o caminho mais curto para se chegar ao impacto é o de colaborações internacionais. E a física de partículas elementares está dando o exemplo.

Para responder à sua pergunta

“O Brasil vai participar desse jogo para que?”

queremos dizer inicialmente que não é um jogo, é Cultura. Somos um país de 180 milhões de habitantes, um povo empreendedor, grande proporção de jovens, é nosso dever de universitários de estimular a curiosidade e a cultura das novas gerações, de fazê-las participar de grandes movimentos culturais do mundo, de não mantê-las isoladas. É nosso dever contribuir para acabar definitivamente com a idéia retrógrada de “é bom para a Europa ou os Estados Unidos mas não é bom para o Brasil”.

As informações erradas que o senhor transmitiu em sua entrevista são ainda agravadas pelo fato de o senhor ser membro titular da Academia Brasileira de Ciências, o que lhe dá certo prestígio perante o público, mas os leitores de Veja não sabem que um acadêmico também pode errar.

Cordialmente,

Professor Alberto Santoro, Diretor, Departamento de Física de Altas Energias, Instituto de Física, Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Professor Roberto Salmeron, Diretor de Pesquisa Emérito, Laboratoire Leprince-Ringuet, Ecole Polytechnique, França

Com este título, A revista Veja do dia 7 de maio de 2008 publica uma entrevista comigo nas “Páginas Amarelas”, a propósito de uma pesquisa que realizamos sobre os vínculos entre a pesquisa acadêmica e suas aplicações práticas na América Latina. Para quem tiver interesse, a publicação pode ser acessada aqui. O texto da entrevista é o seguinte:

O sociólogo Simon Schwartzman, 68 anos, ex-presidente do IBGE, é dono de uma vasta produção acadêmica, na qual o tema da educação ocupa lugar de destaque. Seu mais recente trabalho é uma análise comparativa de dezesseis centros de pesquisa universitários do Brasil, da Argentina, do México e do Chile, com foco na aplicação efetiva da produção científica ali desenvolvida. Nele são esquadrinhadas experiências em geral positivas: centros de excelência integrados ao mercado e afinados com as necessidades de cada país. Uma realidade bem distante da que se constata na maior parte das universidades brasileiras. Nesta entrevista, concedida em sua sala no Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), Schwartzman defende a maior integração entre universidade e empresas e a valorização dos centros de excelência. Ele também faz um alerta. O Brasil está ficando cada dia mais distante dos países desenvolvidos no que se refere a investimento em pesquisa. “Estamos perdendo o bonde.”

Veja – As pesquisas feitas nas universidades brasileiras contribuem para o desenvolvimento do país?
Schwartzman – Não como deveriam. Em geral, elas ficam restritas ao âmbito acadêmico e não se transformam em produtos ou serviços úteis à sociedade. Não há transferência de conhecimento, nem mesmo quando se trata de uma pesquisa aplicada.

Veja – Por que isso acontece?
Schwartzman – Há vários fatores envolvidos. Um deles é que a universidade pública, onde se realiza boa parte da pesquisa acadêmica no país, não é estimulada a atender às demandas da sociedade e do setor empresarial, porque é integralmente financiada pelo dinheiro do governo. A experiência mostra que uma instituição só se volta para fora quando precisa buscar recursos. Uma universidade integralmente financiada pelo dinheiro público tem uma tendência à acomodação. Não precisa buscar parceiros e aliados externos. Ao mesmo tempo, a indústria brasileira, tradicionalmente, não tem demanda por tecnologia. Você não pode dizer que a responsabilidade é apenas das universidades se do outro lado não há procura.

Veja – O melhor caminho é necessariamente a associação entre universidade e empresa?
Schwartzman – Na maioria das vezes, sim. Mesmo pesquisas importantes para a sociedade não são devidamente aproveitadas fora da academia quando não existe parceria com empresas. O pesquisador pode criar uma cura para determinada doença, mas transformar isso em um produto farmacêutico requer um investimento enorme e muitos anos de trabalho na etapa de desenvolvimento. Só o custo para registrar uma patente pode chegar a centenas de milhares de dólares. Não basta inscrevê-la num único escritório, a patente tem de ser registrada na Ásia, nos Estados Unidos e na Europa, que são os principais mercados. Isso muitas vezes só é possível com a ajuda de um parceiro privado.

Veja – Qual a responsabilidade dos órgãos oficiais de financiamento à pesquisa nessa situação?
Schwartzman – O sistema de avaliação dos centros de pesquisa e pós-graduação utilizado pela Capes tem mais de trinta anos. E foi muito importante para o Brasil. Graças a ele, o país tem hoje uma pós-graduação que é de longe a melhor da América Latina. Mas já está ultrapassado. Ele dá muita ênfase aos trabalhos acadêmicos e desestimula qualquer iniciativa prática. Os critérios de qualidade levam em conta o número de artigos publicados, o número de doutores formados e a participação em congressos internacionais. A aplicação da pesquisa não é valorizada. Com isso, os pesquisadores só querem publicar artigos em revistas internacionais e, assim, contar pontos para seu departamento. Depois de o artigo ter sido publicado, eles não se interessam em procurar uma empresa para desenvolver o produto. Consideram mais vantajoso à carreira iniciar outra pesquisa, para publicar um novo artigo.

Veja – O que o Brasil perde com isso?
Schwartzman – Há dois tipos de perda. O setor privado perde uma excelente oportunidade de evoluir tecnologicamente. E o governo também perde, pois não usa o saber acadêmico para auxiliá-lo na formulação de políticas públicas. Há uma série de demandas por pesquisa em diversas áreas. Em saúde, por exemplo, para controlar a dengue. Na formulação de políticas de segurança, na administração de complexos urbanos. São linhas de estudo que o governo deveria estimular – e usar. O Brasil precisa do melhor conhecimento para lidar com suas questões econômicas e sociais, e não pode abrir mão dos centros de excelência das universidades. Veja só a área da educação, em que o país vive uma tragédia. Temos um sistema educacional que não ensina. As crianças entram na escola e saem semi-analfabetas com 13 ou 14 anos de idade. Faltam estudos para entender o que está acontecendo, quais as saídas, o que funciona e o que não funciona. A área do meio ambiente é pior ainda. Eu nunca vi um estudo sério e competente sobre a transposição do Rio São Francisco.

Veja – Como mudar esse quadro?
Schwartzman – Por um lado, o governo precisa ser melhor usuário de pesquisas. Embora ele tenha institutos próprios, como o Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), há sempre um risco quando o pesquisador recebe seu salário diretamente do ministério. E se o ministro não gostar da pesquisa? Outro papel do governo é estimular as empresas privadas a investir em inovação. Ele tem de compartilhar o risco desse investimento. No que diz respeito à universidade, há duas maneiras de pensar uma mudança: de cima para baixo e de baixo para cima. No primeiro sentido seria criando normas para regular o funcionamento das instituições. Isso já foi tentado no Brasil com a criação da Lei de Inovação, que facilita a ligação da universidade com a indústria. Mas nunca funcionou muito bem. Acho que o melhor caminho é de baixo para cima. Ou seja, dando mais autonomia às universidades e estimulando para que elas não fiquem restritas ao meio acadêmico.

Veja – De que forma é possível fazer isso?
Schwartzman – As universidades públicas seguem a lógica do serviço público. Não têm flexibilidade para pagar melhor determinado pesquisador nem para tratar de forma diferenciada um departamento que tem potencial para produzir mais. Elas precisam poder ser mais flexíveis na sua administração. Esse é um ponto. De outro lado, as instituições têm de ser motivadas a buscar parceria com as empresas. Precisam ganhar alguma coisa com isso, mas também têm de perder se não o fizerem. Vou dar uma sugestão. Se cada departamento da universidade recebesse apenas 50% do seu orçamento e tivesse de levantar os outros 50%, já seria um grande estímulo. Poderia ser estipulado que o pesquisador receberá seu salário em dobro se o departamento conseguir mais dinheiro, mas receberá a metade se não conseguir nada. Isso os tiraria da inércia. Quando eu estudava na Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos, fecharam o departamento de biologia porque estava obsoleto. E é uma universidade pública. O departamento era antigo, tinha pesquisadores experientes e famosos, mas considerados ultrapassados. Depois de fechá-lo, a universidade foi ao mercado buscar uma nova geração de pesquisadores para substituir a antiga. E por que fizeram isso? Porque sabiam que se tivessem um departamento forte e atualizado conseguiriam dinheiro com mais facilidade junto ao governo e às empresas privadas.

Veja – Que critérios uma universidade brasileira segue para definir suas linhas de pesquisa?
Schwartzman – As decisões são individuais. A lógica é a que está na cabeça de cada pesquisador. Isso pode ser bom para a carreira dele, mas não é interessante para o país porque não há uma linha coerente. O pesquisador morre de medo de alguém dizer a ele o que deve pesquisar. E às vezes tem boas razões para isso. Concordo que o governo não pode definir o que deve ser pesquisado no país. Mas acho que cada instituição tem de eleger prioridades estratégicas, voltadas para as demandas da sociedade. Não tem sentido, por exemplo, o Brasil fortalecer sua pesquisa em física de partículas. Tivemos aqui pesquisadores importantes na década de 40, como Mario Schenberg e Cesar Lattes, que fizeram pesquisa de fronteira e publicaram artigos preciosos. Mas acabou aí. Depois disso ninguém fez mais nada. A física de partículas é hoje uma área bilionária. Depende de investimentos que nenhum país faz sozinho. O Brasil vai participar desse jogo para quê? E vai botar quanto dinheiro nisso?

Veja – O governo distribui corretamente seus investimentos em pesquisa?
Schwartzman – Esse é outro problema. O governo pulveriza muito os recursos. E os projetos contemplados não conseguem crescer. O CNPq (responsável pelo financiamento de pesquisas universitárias) criou o Instituto do Milênio, cuja idéia inicial era fortalecer alguns centros. Mas isso foi sendo pulverizado. Em vez de concentrar o dinheiro em centros de excelência, a estratégia foi diluir. É um critério democrático, mas com isso você não cria densidade. Dessa forma é impossível dar um salto de qualidade. A atividade científica é cara e concentrada. Não é para qualquer grupo. Hoje, a legislação brasileira exige que todas as universidades façam pesquisa. Isso só estimula uma mimetização. O professor participa de um congresso qualquer ou publica um artigo numa revista que ninguém lê. É algo que tem aparência de pesquisa, mas não produz conhecimento. Fazer pesquisa significa participar de um grupo seleto e muito exigente de pessoas que estão produzindo conhecimento de fronteira. É uma atividade que pouca gente faz. Por isso o investimento deveria ser concentrado, como acontece em países desenvolvidos.

Veja – Sua pesquisa analisou universidades que conseguem associar ciência de excelência à relevância social ou econômica. Elas têm algum ponto em comum?
Schwartzman – O principal fator é o humano. Em todos os casos que estudamos, havia um pesquisador com mentalidade empresarial, que liderou o processo de integração com o mercado. Mesmo nas universidades públicas, o líder de um departamento, além de ser bom na sua área, deve ter um perfil empreendedor. Precisa estar o tempo todo antenado com o que acontece fora da universidade para saber quais temas de pesquisa estão surgindo, quais as linhas mais promissoras e onde estão as oportunidades. Ele tem de saber convencer os outros da importância do seu trabalho. Isso cria uma dinâmica. Foi o que aconteceu no Instituto Tecnológico de Aeronáutica, que virou padrão internacional na área de engenharia. Por que o Exército ou a Marinha não conseguiram fazer nada parecido? Não foi por questão política. Foi porque colocaram gente de talento lá dentro. É preciso dar mais liberdade para que líderes de departamento com capacidade empreendedora possam agir.

Veja – Como isso acontece nos países desenvolvidos?
Schwartzman – Na Inglaterra, todas as universidades são públicas, mas são administradas como se fossem do setor privado. Elas têm agilidade para buscar recursos, identificar prioridades, contratar ou demitir gente e, principalmente, pagar de forma diferente profissionais diferentes. Um grande médico ou um grande químico não podem ganhar o mesmo que um professor de história, como acontece nos universidades públicas brasileiras. Nada contra os historiadores, mas esses profissionais são pagos de forma diferente no mercado. Se a universidade não fizer o mesmo, os mais qualificados irão atrás de oportunidades melhores na iniciativa privada. Nos Estados Unidos, as universidades trabalham com todo tipo de convênio e de parceria. Evidentemente produzem muito mais.

Veja – O mau uso de verbas públicas por fundações ligadas a universidades originou um escândalo que resultou no afastamento do reitor da Universidade de Brasília. No Brasil, essa liberdade não pode dar margem a abusos?
Schwartzman – Não há respostas óbvias para isso. Tudo precisa ser regulado. O caso das fundações é bastante interessante. Elas foram criadas para contornar a rigidez na administração das universidades públicas. Claro que há possibilidade de abusos, como aconteceu em Brasília. Mas fechá-las seria um desastre. Acho muito importante manter as fundações, sobretudo enquanto as universidades públicas estiverem submetidas à camisa-de-força do serviço público. Precisamos ver caso a caso se as irregularidades são de fato ações desonestas ou o exercício efetivo da flexibilidade para o qual elas foram criadas. Fundações estão submetidas à legislação própria de responsabilidade e transparência no uso de recursos, e, se há irregularidades, a solução não é fechá-las, mas aplicar as regras que existem.

Veja – A economia brasileira está vivendo um período notável. A pesquisa acadêmica não tem se beneficiado disso?
Schwartzman – Não o bastante. O Brasil está perdendo o bonde. O volume de investimento em pesquisa tem crescido a uma velocidade bem maior nos países desenvolvidos do que aqui. A distância está aumentando muito. O país não tem capacidade para atrair um investimento de qualidade porque não tem massa crítica. O atual governo fala muito sobre a questão da inclusão. Seu tema principal é o acesso à universidade. Acho isso um equívoco. Você não tem tanta gente para colocar na universidade porque o ensino médio está muito ruim. Essa política dá acesso a gente que não vai conseguir muita coisa. Não acho que o problema da desigualdade social passe pela inclusão na universidade. Seria melhor oferecer uma educação básica de qualidade. A função da universidade é produzir competência, gente bem formada e pesquisa de qualidade. A universidade tem de ter liberdade e estímulo para eleger prioridades. Hoje ela não tem nem uma coisa nem outra. O que devemos discutir é se essa universidade tem bons engenheiros, bons cientistas e se tem capacidade para oferecer serviços. O resto é secundário.

Etanol a preço de banana

Coskata, uma companhia norte-americana financiada pela General Motors e outras fontes, anunciou que desenvolveu uma tecnologia para a produção de etanol a partir de qualquer material orgânico ao preço de menos de um dólar por galão, que é parecido com custo do etanol produzido no Brasil, e bem abaixo do produzido nos Estados Unidos a partir do milho. A notícia é importante para o Brasil porque, se confirmada, ela poderia ter um forte impacto no projeto de transformar o país em um fornecedor internacional deste combustível. O artigo da revista Wired descrevendo o processo pode ser lido aqui,

“O crítico da ciência”

A Revista Pesquisa FAPESP, n. 140, Outubro, pp 12-17, publica uma longa entrevista minha com Carlos Fioravanti, aonde antecipo algumas dos resultados da pesquisa que coordenei sobre 16 grupos de pesquisa universitários na Argentina, Brasil, Chile e México que conseguem associar o trabalho acadêmico à produção de conhecimentos relevantes à economia e à sociedade, e faço um pequeno histórico de meus trabalhos anteriores sobre o tema. O título, “o crítico da ciência”, é dele, e o texto completo pode se baixado clicando aqui. Os resultados da pesquisa devem ser publicados em forma de livro nos próximos meses.

O Mandarim – História da Infância da Unicamp, do jornalista Eustáquio Gomes, publicado em 2006 pela própria Universidade, é sobretudo a história dos mandos e desmandos de seu fundador, Zeferino Vaz, que havia sido antes interventor na Universidade de Brasília e, antes ainda, fundador da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. O livro é bem escrito, baseado em depoimentos e documentos internos da Universidade, e um excelente exemplo do que pode e não pode fazer um ditador. Entre 1966 e 1978, Zeferino Vaz fez o que quis na UNICAMP, navegando nas águas turvas da ditadura militar, exibindo quando necessário suas credenciais de anti-comunista militante, defendendo e até tirando da cadeia ¨seus comunistas¨, e manobrando todo o tempo para tirar do caminho as pessoas que questionavam seu poder.

Zeferino tinha uma qualidade, que era haver entendido desde cedo que ¨instituições científicas, universitárias ou isoladas, constroem-se com cérebros e não com edifícios¨. Curiosamente, o livro não diz nada sobre o que Zeferino Vaz fez em sua própria área, de medicina e zoologia. Nas outras áreas, que não conhecia diretamente, buscou nomes de grande prestígio e reputação, trazendo para Campinas e dando total apoio a alguns cientistas brilhantes que haviam feito seu nome no exterior, especialmente Sérgio Porto, Rogério Cerqueira Leite, que criaram a nova área de física do estado sólido, e a grande estrela que era César Lattes, que permaneceu isolado. Na área das ciências sociais e humanas, começou, não se sabe por quê, entregando-a um obscuro professor de filosofia fenomenológica, que foi um desastre; em economia, optou por fazer da universidade a continuadora da tradição da CEPAL, então na moda na América Latina; e descobriu depois que, com o fim da ditadura que já se pressentia, era dos sociólogos marxistas que precisava, desde que não fizessem política nem se confrontassem com ele. Em 1975, promoveu um grande seminário internacional estrelado pelo historiador marxista Eric Hobsbaum que deu à universidade da ditadura uma áurea de centro avançado de pensamento de esquerda, preparada para os anos que viriam.

Comparada com a criação da USP trinta anos antes, que foi buscar nos centros universitários europeus os melhores talentos, chama a atenção o provincianismo do projeto da Unicamp, aonde o único estrangeiro de renome, que estava lá por acaso, era o geneticista Gustav Brieger, que cedo se indispôs com Zeferino e acabou se afastando. Zeferino entendia que sem cérebros não se constrói uma universidade, mas nunca entendeu ou aceitou que estes cérebros formam comunidades de pessoas ativas e pensantes, sem cuja participação as instituições não têm como crescer e fortalecer. O livro é rico de documentos que mostram as brigas por poder na Universidade, mas nada que mostre a existência de deliberações e consultas sobre programas, prioridades, e política de recursos humanos.

O livro também vale pelas fofocas que revelam o estilo e o caráter de muitos personagens que ainda estão entre nós – mas isto fica para o juízo pessoal de cada um.