No meio dos horrores da tragédia do Haiti, a análise mais inteligente que vi até agora é de David Brooks no New York Times de 14 de janeiro. Ele começa comparando o terremoto de San Francisco em 1989, de magnitude 7, quando morreram 63 pessoas, e o de agora, da mesma magnitude no Haiti, com centenas de milhares de vítimas. A diferença principal é a pobreza; e o problema de fundo é que, por muitos anos, tem havido muitos esforços de ajudar o Haiti a sair da situação de pobreza extrema em que sempre esteve atolado, e nada parece funcionar. Será que, passada a tragédia, será possivel encontrar novos caminhos, além da caridade bem intencionada que não funciona?  Vale muito a pena ler.

Neste  momento, o grande problema do Haiti não é a falta de dinheiro, nem de gente e países querendo ajudar, mas a coordenação e a logística necessária para fazer a ajuda chegar às pessoas necessitadas. O Brasil, com o contingente militar que tem lá e os suprimentos e pessoal de socorro que está enviando, deve ter um papel importante, embora menor do que o que o governo e  a imprensa procuram fazer crer. Outro dia a manchete dos jornais era que Estados Unidos e Brasil estavam coordenando os trabalhos, quando a desproporção entre o envolvimento americano e brasileiro é enorme, como não poderia deixar de ser. E a nota deprimente foi o protesto do ministro Celso Amorim junto ao governo americano porque os nossos aviões não estavam tendo prioridade no aceesso ao espaço aéreo do Haiti, cujo controle o governo americano precisou assumir, tentando criar assim um incidente político-diplomático no pior momento possível.

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6 comments untill now

  1. Carla Teixeira @ 2010-01-17 10:50

    Olá, professor
    Muito obrigada por nos oferecer a leitura de tal artigo, que nos esclareu e muito quanto à realidade do Haiti.
    Mas se entendi bem o autor sugere que alguns aspectos da cultura existente no Haiti sejam substituidos por uma cultura que propicie o desenvolvimento, como a que existe no Harlem, por exemplo. E é aí que reside a minha dúvida: como conceber que se substituam aspectos culturais? O senhor poderia explicar melhor?
    Obrigada
    Carla

  2. Carla, é exatamente disto que se trata. O que diz o autor, e eu concordo, é que cultura não é algo imutável, nem sagrado, e, quando a cultura é ruim, ela precisa ser mudada. E existem culturas ruins, quando, por exemplo, elas favorecem o conformismo, a violência, ou a opressão das mulheres. Que as culturas mudam, não há dúvida, vemos isto na história e nas pessoas todo o tempo. Como mudar uma cultura, é muito mais dificil de responder, mas instituições estáveis, leis que se fazem cumprir e educação podem ter grandes resultados.

  3. Para uma perspectiva mais historica, mostrando porque a historia colonial do Haiti foi pior que em outros lugares (que inclusive pode explicar diferencas culturais que possam existir), ao contrario do que diz Brookes:

    http://www.timesonline.co.uk/tol/news/world/us_and_americas/article6281614.ece

  4. É uma história horrível, só comparável, talvez, com a do Congo sob o rei Leopoldo da Bélgica. São histórias como estas, precisamente, que fazem a cultura das pessoas, que depois é tão difícil, mas não impossivel, de mudar.

  5. Confesso que esse artigo me ofendeu.
    A ideia que a pobreza da Haiti contribuiu para o impacto do desastre e evidente.
    Mas usar essa calamidade natural para criticar uma politica internacional de desenvolvimento é de mal gosto. E concluir que o problema central é a cultura ruim do proprio povo…honestamente estou sem palavras – estou de acordo que faltam artigos técnicos para entender melhor essa crise, mas prefiro o de ontem: http://www.ft.com/cms/s/0/87ebf6ec-04dc-11df-9a4f-00144feabdc0.html
    Abraços

  6. Héctor Mendoza y Caamaño @ 2010-02-12 03:26

    Es indiscutible que el lamentable estado de pobreza en que ha vivido Haiti prácticamente desde siempre, ha influido para que las víctimas del terremoto superen los 200,000 muertos. La comparación con las 63 personas que fallecieron durante el terremto de San Francisco es más que elocuente. Por cierto, tengo algunas fotos de cuando fuimos estudiantes becarios en la Flacso que me gustaría enviarte para que las agregues a tu álbum de la época. Yo no me diplomé porque en 1963 ingresé al Servicio Exterior Mexicano y me quedé en Chile hasta 1972, año en que fui destinado a Sao Paulo donde sólo permanecí hasta agosto de 1973, cuando fui trasladado nuevamente a Chile y me tocó el golpe de Estado del 11 de septiembre de 1973 con todo lo que ello representó para Chile y los chilenos a quienes dimos asilo diplomático hasta la suspensión de relaciones con el régimen de Pinochet en noviembre de 1974. Me gustaría que me enviaras tu dirección de correo electrónico para remitirte las fotos de la Flacso. Un abrazo tras más de 45 años de no estar en contacto.