Acabo de ver a lamentavel proposta curricular para o programa de sociologia para o nível médio do Rio de Janeiro. É um conjunto  desastroso de idéias gerais, palavras de ordem e ideologias mal disfarçadas que confirmam as piores apreensões dos que, como eu, sempre temeram esta inclusão obrigatória da sociologia no curriculo escolar.

É difícil saber por onde começar a crítica.   Faltam coisas essenciais como familia e parentesco, educação, socialização, estratificação social, mobilidade, criminalidade, religião, burocracias, modernidade, opinião pública, instituições. Na parte de “sociedade democrática”, nao há nada sobre instituições políticas,  sistemas políticos comparados, participação politica, sistemas eleitorais, partidos políticos, populismo, fascismo.  Nao há nada mais conceitual sobre teoria sociológica, suas correntes, etc.  Nao há sequer algo sobre direitos civis, sociais e humanos.

Por outro lado, sobram bobagens como “compreender e valorizar as diferentes manifestações culturais de etnias, raças (negra, indígena, branca) e segmentos sociais, agindo de modo a preservar o direito à diversidade, enquanto princípio estético (sic) que pode incentivar a tolerância, mas que em alguns casos pode gerar conflitos”, ou “compreender que a dominação européia expressa pelo colonialismo e pelo imperialismo é a causa fundamental das desigualdades sociais”  ou ainda “construir a identidade social e política atuante e dinâmica para a constante luta pelo exercício da cidadania plena”, e trivialidades como “perceber a importância do trabalho para a sociedade”. Quem quiser ver o texto completo da proposta pode baixá-la da Internet aqui.

A sociologia, quando bem dada, mostra para as pessoas que existem muitas maneiras diferentes de entender o mundo. Este programa visa o contrário, ou seja, inculcar nos jovens uma visão de mundo particular e empobrecida.

Temo que os programas que estão sendo feitos para outros estados poderão parecidos, ou piores. Penso que a Sociedade Brasileira de Sociologia, ou os sociólogos mais ativos que a compõem, deveriam tomar uma posição pública sobre isto, inclusive sugerindo um programa minimo mais razoável. Não seria difícil, existem muitos bons exemplos na internet, inclusive o sumário da Wikipedia em português, que podem servir de referência.

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13 comments untill now

  1. Renan Springer de Freitas @ 2010-03-07 20:26

    Em Minas Gerais também foi feito um trabalho de Proposta Curricular para o Ensino Médio, não sei se está inda disponível no site da Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais, o qual, se não é a perfeição, certamente não é nenhuma catástrofe. Penso que pode ser proveitoso conhecer esta Proposta.

  2. Geraldo Moises Martins @ 2010-03-08 11:58

    Prezado Simon,
    Muito importante e oportuno o alerta, ou melhor, a denúncia que faz em relação às distorções que estão sendo praticadas no ensino da Sociologia e de outras disciplinas em nosso sistema escolar, notadamente, no ensino de História. Isso significa “obscurecer” o conhecimento para colocá-lo a serviço de uma visão de mundo ou de correntes políticas. A liberdade de pensamento e de opinião não é antagônica à busca da verdade no conhecimento científico. Pelo contrário, é até uma condição para o confronto das teorias e para a comprovação rigorosa de suas teses. É verdade que a Ciência não gaza de absoluta neutralidade,principalmente em suas aplicações. Mas fazer do conhecimento científico uma cartilha doutrinária…só mesmo nos regimes totalitários e nazistas!
    Que a prática da democracia da liberdade tão estudada pela Sociologia e pelas Ciências Políticas não seja sufocada por tamanho obscurantismo!

  3. Paulo Roberto Farah @ 2010-03-08 17:41

    Realmente, embora não tenha terminados os estudos do Iuperj, o que sobrou de + importante, foi perceber que há muitas maneiras de perceber o mundo.

  4. José Augusto Guilhon de Albuquerque @ 2010-03-08 17:43

    O pior é que isso vem somar-se à indigência de igual natureza das disciplinas de Ciências Humanas no ensino médio. No total, as disciplinas de Geografia – geralmente a mais afetada pela ignorância dos professores e coordenadores – História, Filosofia, Literatura, e disciplinas estranhas e vagas, como Panorama, Debates, ocupam parte significativa do currículo com ideologia e desinformação.

    Não quero desfocar a discussão da sociologia, mas em algum momento será preciso enfrentar o problema mais geral. Talvez o mal menor pudesse consistir em suprimir todas essas disciplinas, substituindo-as pelo que realmente são: “educação moral e cívica segundo Chauí”. Todo o mal seria feito de uma vez e contido numa fração mínima do currículo.

    José Augusto

  5. Marcio Costa @ 2010-03-08 17:44

    Simon, não se poderia esperar coisa diferente. Trata-se de uma reedição, supostamente esquerdizada, da Educação Moral e Cívica. Todas as mentes autoritárias pensam nisso: curricularizar uma forma de moralização do outro. O que se faz por aí, com nome de sociologia no E.M. é apenas isso, um amontoado de bobagens, orientadas por uma visão supostamente crítica, mas que na verdade é completamente doutrinária, proselitista.

    Sem dúvida, precisamos tomar alguma atitude antes que a coisa seja aprovada, já que ainda é um projeto, creio. Talvez uma carta aberta de sociólogos à Secretária de Educação do Estado. o que você acha?

  6. Silvia Velho @ 2010-03-08 17:45

    Simon,

    É que é pior, é que depois alguns desses alunos fazem sucesso em suas carreiras de “ciências duras” e passam a disseminar um absoluto desprezo pelas ciências sociais. Alguns até chegam à posição de Ministro!

    Alio-me a você, espero que a Anpocs tome uma posição,
    Sílvia Velho

  7. Elizabeth Balbachevsky @ 2010-03-08 18:05

    O Zé Augusto tem razão: essa é a re-invenção da famigerada “Educação Moral e Cívica” re-inventada pela esquerda brasileira.

    Na verdade o problema é mais sério do que parece, pois essa proposta parte do princípio de que todo e qualquer conteúdo é irrelevante frente ao objetivo mais nobre de conscientizar o povo da realidade da luta de classes. Infelizmente essa perspectiva grassa em toda as as disciplinas da área de humanidades que são ministradas para nossos jovens… O problema da sociologia (e provavelmente também da filosofia) e que elas sequer tem o lastro das experiências passadas.

    Aqui, realmente, “tudo o que é sólido levita no ar”…

  8. Ana Maria de Rezende Pinto @ 2010-03-08 18:45

    Prezado Simon:

    Não sou socióloga, mas gostaria de meter minha colher de pau nesta discussão; isto por considerar a sociologia instrumento vital para situar o jovem na compreensão do mundo moderno. Este é a meu ver o grande papel do Ensino Médio Em sendo assim, tendo a pensar que a sociologia não deveria ser ensinada como uma disciplina em si, mas como ferramenta para compreensão de questões ligadas á juventude, do tipo: juventude e cidadania; o mundo do trabalho, violência urbana, marginalidade, manifestações culturais da juventude (vestimentas, músicas, movimentos etc.)
    Atenciosamente,
    Ana Maria de Rezende Pinto

  9. Carla Teixeira @ 2010-03-08 22:51

    Eu vejo esse currículo como mais uma das facetas de militância da esquerda no Brasil. Isso é ridículo e tem de ser combatido pelos intelectuais esclarecidos e influentes de nosso país. Há algum?

  10. Antonio Augusto pereira Prates @ 2010-03-09 16:03

    Simon,
    A proposta da existência da disciplina da sociologia no nível do ensino médio reflete, além do interesse coroprativo-sindical de criação de postos de trabalho para os sociólogos,uma tentativa ideológica de “fazer a cabeça” da juventude brasileira. E, ironicamente, a isto dá-se o nome de “criação de uma consciência crítica” nos jovens brasileiros. Esta proposta é peversa, não apenas pelo caráter oportunista e autoritário que expressa, mas, também, por retirar dos grupos mais pobres da pop. jovem que é, exatemente, a que frequenta o ensino público, horas preciosas do ensino da matemática, ciências e português

  11. Carlos Sarmento @ 2010-03-13 11:01

    Ola… Como professor de sociologia…. a grade do estado é um atentado… a nossa tentativa… de desenvolver algumas idéis e conceitos criticos de nossa sociedade com nossos alunos… respondo basicamente… como me foi perguntado pela minha noiva que tambem é professora do estado de sociologia…. “como irei desenvolver os conceitos de percepção critica do mundo com meus alunos, me utilizando de tal grade curricular” … minha resposta é simple, tanto para ela, para outros professores das áreas humanas e para mim mesmo…. “bem, farei da minha maneira, quem determina o que meus alunos vão aprender e o que vale realmente sou eu educador… e não um estado que só pensa que pensa…” … abraço a todos….

  12. Rodrigues @ 2010-03-16 20:16

    Críticas como esta já se denunciam nas primeiras linhas: se posicionam contra a inclusão da Sociologia no ensino médio!

    Não se trata de um programa, mas de uma propostas curricular. É, no mínimo, sintomático, fazer esta confusão proposital.

    E a Sociologia no ensino médio se presta a apresentar aos alunos uma nova forma de pensar, de refletir e de se posicionar no mundo. Não tem por objetivo formar sociólogos. Assim como a Biologia no enino médio não formará biólogos.

    Quem já enfrentou uma turma de ensino médio, quem já esteve na linha de frente, sabe que não se pode medir a sociologia no ensino médio pelos parâmetros dos frios corredores da pós-graduação.

    A proposta curricular tem problemas, mas em relação as críticas e ausências apontadas por Simon, a tal propostas é muito boa!

  13. Particularmente, acho que a crítica é pertinente, mas rasa; o problema, me parece, é que o currículo está proposto apenas em termos de habilidades e competências. De fato, há muitos dos problemas apontados por Shwartzman, “conceitos” inventados e imprecisões. Mas isso pode ser resolvido se, além de uma séria revisão nas formulações, ao lado da tabela de habilidades e competências, formula-se uma segunda tabela, de conceitos que devem orientar o programa do professor.
    É importante, entretanto, ter em mente o que aponta Rodrigues: não se trata de um processo de formação de sociólogos; isso redimensiona a prática do ensino de sociologia, lhe impõe novas bases. Não pode ela ser pensada como uma versão “light” dos conteúdos do bacharelado. Neste sentido, é correto se pensar em habilidades e competências. E se falta listar os conceitos, não se enganem aqueles que nunca estiveram no “front”: em três disciplinas espalhadas em três anos não daremos conta de todo o acúmulo teórico e analítico das três ciências sociais.
    A crítica do Shwartzman, neste sentido, me parece pouco produtiva, na medida em que não parte da preocupação de como deve ser o currículo de sociologia no ensino médio, mas apenas do pressuposto de que seria mais conveniente que ele não existisse…