O jornal O Estado de São Paulo de 17/5/2012 publicou  o meu comentário abaixo sobre os dados do Ministério da Educação que mostram uma piora dos índices de repetência e abandono no ensino médio brasileiro nos últimos anos

Ainda não sabemos  que fazer com os alunos que não aprendem

Os dados agora publicados sobre retenção, evasão e repetência escolar mostram que ainda não conseguimos superar o falso dilema sobre o que fazer com os alunos que não aprendem: deixar passar de qualquer forma ou reprovar, fazendo com que acabem por abandonar a escola, sobretudo a partir da adolescência, ou seja, no ensino médio. É difícil entender exatamente o que esses dados significam sem uma análise mais elaborada de fluxos, porque alunos que abandonam um ano podem voltar para a escola no ano seguinte, e as taxas de abandono nas séries mais elevadas já excluem os que saíram antes. Mas o quadro é grave, com muitos estudantes abandonando antes de completar o ensino médio e ficando praticamente excluídos do mercado de trabalho.

O correto, claro, seria fazer com que os estudantes aprendam e não queiram sair da escola, sem precisar repetir de ano. Para o ensino fundamental, até o 9.º ano, essencial é garantir que ninguém fique para trás em português e matemática, que é a base para tudo o mais. No ensino médio se coloca o problema adicional da grande variedade de alunos que começa a chegar a esse nível, com interesses, idade e níveis de educação prévia muito diferentes. Além disso, uma boa parte dos estudantes de nível médio ainda estuda de noite, porque as escolas são ocupadas pelo ensino fundamental durante o dia – e todos sabem que esses cursos noturnos dificilmente funcionam na prática.

Em todo o mundo, os governos oferecem e os estudantes começam a fazer escolhas a partir dos 15 anos sobre o que estudar, muitos se orientando para cursos mais práticos e profissionalizantes, outros para cursos mais acadêmicos de diferentes tipos que levam ao ensino superior. Em poucos países o ensino médio é tão burocrático e carregado de matérias inúteis como o nosso, e o ensino técnico de nível médio tão pouco desenvolvido. Tentando lidar com o problema, o MEC aprovou recentemente uma recomendação de “flexibilizar” o currículo do ensino médio, que pode significar, na prática, no esvaziamento de seus conteúdos, quando o que precisamos são de opções e alternativas de qualidade.

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4 comments untill now

  1. Victor Prochnik @ 2012-05-18 09:10

    Simon,

    sobre seu texto “O que fazer com os alunos que não aprendem?”

    Me impressionou muito o relato de uma professora da UFF, sobre os professores de ensino médio de Nova Iguaçu. Ela trabalha com bonecos e jogos e procura gerar novas formas de transmissão de conhecimento mais participativas. Ela conseguiu um convênio com Nova Iguaçu e estava testando suas criações.

    O que me impressionou muito foi o relato dela sobre o moral dos professores de lá. A profissão de professor é, simplesmente, ridicularizada, mesmo pela família e amigos do professor. A moral dos professores é péssima e eles ficam sempre na defensiva ou em depressão. A resposta dos alunos é muito negativa, pois incorpora esta forma de ver depreciativa.

    Ela disse que o alento dos professores, com as propostas dela, foi enorme. Nunca nada diferente havia sido proposto, nunca eles haviam sido mobilizados e a perspectiva de uma nova forma de interação com os alunos os encantou.

    Se este exemplo for válido, como intervir e apoiar? O diagnóstico, neste caso, é de que há um problema que não está nem nos alunos nem nos professores, mas no contexto cultural e social.

    No campo da saúde mental, na cidade do Rio de Janeiro, está se propagando um trabalho muito interessante de integração com a comunidade. Talvez algo possa ser apreendido deste e de outros programas análogos e possa ser adaptado para o caso do ensino médio (formação de redes, participação de psicólogos e sociólogos no apoio ao processo de ensino).

    A psicanalista Lia Prochnik (minha prima) faz um trabalho pioneiro com crianças em uma escola do Leme. Ela atende as crianças em grupo e em separado e é impressionante como mesmo um acompanhamento de um dia por semana gera resultados tão positivos.

    Como você estuda este campo há anos com sucesso e eu sou um curioso, me desculpe se chovi no molhado. Neste caso, fica a minha admiração pelo seu trabalho e a curiosidade sobre o tema.

    Abração,

    Victor

  2. Simon
    Twitter: sschwartzman
    @ 2012-05-18 09:25

    Victor, existem muitas experiencias bem sucedidas, sempre associadas a iniciativas isoladas de professoras ou diretoras e diretores de escola. O problema é como criar escala, criando um sistema bem ajustado de apoios, incentivos e acompanhamento. Vale a pena acompanhar o que tem sido feito na Prefeitura do Rio de Janeiro neste sentido, embora a prefeitura nao lide com o ensino médio, aonde o problema é mais grave. Alem disto, está a questao de fundo dos conteúdos, que precisam ser oferecidos de forma adequada e com qualidade, abrindo oções que façam sentido. Enfim, é um longo caminho de aprendizagem, sem “magic bullets”…

  3. Simon,

    Existem poucas pessoas “batendo o bumbo” pelo Ensino Médio. Você é um deles.
    Um outro problema estrutural que afeta a educação como um todo: Mínimo engajamento social/familiar.
    No Instituto Direcionar, apostamos em uma mobilização/conscientização popular iniciando pelos executivos e empresários.. Mesmo as empresas pouco engajadas socialmente pagam um alto preço pela ineficiência da educação e o consequente gargalo do ensino médio.
    Oferecer um ensino médio de qualidade e com a garantia de que os jovens saiam aprendendo o esperado é papel do Governo, contudo a urgência do problema exige que as empresas “rachem a conta”.

  4. Ana Maria de Rezende Pinto @ 2012-05-21 22:19

    Prezado Simon:

    Há soluções pensadas e executadas no ensino fundamental. Mas, de fato, o problema é o de se conseguir trabalhar com escala. Neste nível de ensino está se firmando o papel ou acompanhamento do psicopedagogo. Entre as propostas, por mim experimentadas, em cargos de gestão municipal da educação, está aquela da análise clínica ou do estudo do caso do estudante, sua escola sua família. A abordagem no âmbito escolar é muito rica mais de difícil equação, posto que mexe com a tessitura do organismo escolar, provocando melindres ao desvendar a construção do cotidiano escolar.Uma vez na semana, reúnem-se orientadores, professores, diretores e representante de pais, alunos, serventes, entre outros, para discutir o caso de determinados segmentos de alunos e conseguir um consenso sobre a atuação conjunta e contínua com e sobre os estudantes.Esta técnica é trabalhosa, alem de mexer com a estrutura de poder da escola. Ela ameaça, de certa forma, o poder do diretor, que poderá boicotar o andamento dos trabalhos.

    O método clínico utilizado por médicos e psicólogos é um caminho a ser mais utilizado, sobretudo, no ensino médio, onde os problemas da adolescência e da vida adulta afloram. Mas, conforme o seu texto parece que o próprio MEC está entregando ‘a pá com a rapadura’, posto abrir mão de caminhos delineados com maior rigor.
    Atenciosamente,
    Ana Maria de Rezende Pinto