Educação Técnica e Profissional nos Estados Unidos

O Brasil é um dos poucos países do mundo, senão o único, que não oferece alternativas de formação profissional de nível médio, e aonde a formação tecnológica profissional pós-secundária, de curta duração, praticamente não se desenvolveu. É importante, por isto, entender o que outros países estão fazendo, e ver se conseguimos aprender algo destas experiências.

Uma das explicações para esta situação é que existe uma valorização exagerada dos cursos acadêmicos e universitários, quando, na realidade, nem sempre eles trazem os benefícios que deles se espera.

Este mito existe também nos Estados Unidos, e um estudo recente de Mark Schneider, do American Institutes for Research, Higher Education Pays: But a Lot More for Some Graduates Than for Others, mostra o que ocorre na realidade:

  • portadores de algumas certificações pós-secundárias, como os “associate degrees” e certificados profissionais de dois anos, podem ganhar muito mais depois de formados do que pessoas com quatro anos de curso superior (o “bachelor’s degree” americano);
  • aonde você estuda faz diferença, mas não muita – universidades de maior prestígio não levam necessariamente a melhores perspectivas profissionais;
  • O que você estuda é mais importante do que aonde você estuda. Graduados nas áreas de engenharia e saúde ganham mais do que graduados em musica, fotografia, filosofia e humanidades.

É um tipo de informação sobre os resultados práticos dos formados no mercado de trabalho que deveria ser essencial para os estudantes decidirem o que estudar e aonde, e que, infelizmente, falta nos sistemas de avaliação do ensino superior no Brasil.

Um trabalho recente feito por Érica Amorim em colaboração comigo mostra em bastante detalhe o como se dá o ensino técnico e vocacional nos Estados Unidos.

O trabalho mostra que nove em cada dez alunos que concluíram o ensino secundário nos Estados Unidos cursaram pelo menos uma matéria na área técnica e vocacional. A educação técnica e vocacional está presente como opção em quase todas as escolas públicas de ensino médio nos Estados Unidos . Ela continua no nível pós-secundário em cursos de um e dois anos, que qualificam para o mercado de trabalho. No que diz respeito à qualificação profissional, em 2005, cerca de 40% da população adulta (cerca de 53 milhões de pessoas) participou de algum tipo de curso fora do sistema educacional e relacionado ao mercado de trabalho.

 

 

 

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Author: Simon

Simon Schwartman é sociólogo, mineiro e brasileiro. Vive no Rio de Janeiro

5 thoughts on “Educação Técnica e Profissional nos Estados Unidos”

  1. Prezado Simon,

    Vejo que o seu bem intencionado artigo carece de algumas informações. Na década de 1970, em pleno Regime Militar, houve a obrigatoriedade de que todo o ensino médio seria também profissional, alternativa foi revogada no início da década de 1980. Tal política retornaria anos mais tarde; no início da década de 1990, havia o ensino médio “integrado” ao técnico, mas foi a partir do ano de 2005, que o governo federal brasileiro fez retornar o ensino técnico profissional integrado ao ensino médio e em 2008, a partir das estruturas então em franca expansão da rede federal de educação tecnológica (os Centros Federais de Educação Profissional e Tecnológica , das escolas agrotécnicas federais e de algumas escolas vinculadas às universidades federais), cria os Institutos Federais de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, cujas atribuições vão além do ensino puramente técnico profissional, abrangendo também o ensino médio integrado ao técnico, com duração de 4 anos, o ensino superior, seja ele graduação tecnológica, engenharias, licenciaturas (formação de professores), quanto de pós-graduação (stricto e lato sensu) – até 2016, haviam mais de 650 campi desses Institutos, oferecendo, principalmente, ensino técnico profissional juntamente com o ensino médio. Além disso, mesmo a partir de 2005, alguns estados brasileiros têm implementado alternativas de educação profissional integrada ao ensino médio, a exemplo do estado da Bahia, que tem uma das maiores redes estaduais do país. Estão aqui uma pequena amostra de que no Brasil oferece, sim alternativas de formação profissional de nível médio, tanto integrado quanto subsequente e concomitante ao ensino médio.

    Cordialmente,
    Carlos Pedreira

    1. Prezado Carlos Pedreira,

      Obrigado pelo seu comentário. Existem hoje no Brasil cerca de 23 milhões de jovens no ensino médio, dos quais somente 1.9 milhões em cursos profissionalizantes de nivel médio, ou seja, menos de 10%. Entre estes, somente 365 mil estão nos institutos federais. O acesso a estes institutos depende de exames seletivos, e a grande maioria dos alunos que entram se preparam para cursos universitários. O principal objetivo do ensino profissional de nível médio (também chamado vocacional) seria dar uma qualificação para os milhões de jovens que hoje não seguem carreiras universitárias, muitos dos quais sequer terminam os cursos médios. Isto significa que, primeiro, deveria haver muito mais oportunidades de formação vocacional de nível médio do que há hoje, e, segundo, os institutos federais, caros e seletivos, não respondem à esta necessidade. Para uma análise mais detalhada, veja https://www.researchgate.net/publication/310021124_Educacao_media_profissional_no_Brasil_situacao_e_caminhos
      um abraço,

  2. Boa tarde.

    Por coincidência estive, ontem à noite, em um Liceu de Artes e Ofícios. Assistindo a um “musical”.

    Conheci aquele “espaço” (não gosto deste termo modernoso) décadas passadas. Como contratado, planejando cursos de Protético (profissão em extinção – tudo feito via computador e té mesmo impressoras 3D hoje), Ferramenteiro, e outras.

    Foi com muito aperto no coração que constatei uma : “décadance avec deselegance”.

    Foi proposital minha citação da profissão de Protético. E a indicação entre parenteses a respeito dos rumos que toma esta atividade. Ainda há, em nosso parque industrial, chão de fábrica composto por maquinário antiquado. Mas, a presença maior vai se impondo : parques de máquinas (até na carpintaria e na confecção de roupas – mesas de corte, p. ex.) programáveis via computador.

    Não é, portanto de espantar ou surpreender, a formação de unidades temáticas no ensino profissionalizante.

    Até mesmo na indústria pesada, na construção naval, por exemplo, onde o corte de chapas e a posterior soldagem é feita, em parte substancial, por máquinas semi ou totalmente controladas por computador.

    Tenho a confessar minha tristeza quando me deparei co o miolo mal ajambrado de um destes programas governamentais de ensino profissionalizante. A previsão de investimentos contemplava maquinario de antanho…..

    Cordialmente. Ajscampello

  3. Prezado Simon:
    Obrigada pelo texto. É importante acompanhar o que acontece nas economias mais desenvolvidas, para compreendermos para onde a economia e a escola poderão nos levar no futuro.
    De uma maneira geral,parece que o ensino técnico profissional , no sentido estrito de uma ocupação, está em declínio e inaugura- se a ênfase na formação acadêmica e formação mais geral para uma ocupação.
    Pareceu- me que os princípios que informam a mudança da formação vocacional americana, não apresentam grandes novidades, a não ser o item estimulo a inovação,sem maiores especificidade.
    Lembro que as primeiras escolas superiores brasileiras, voltadas para a formação profissional( Engenharia, Agronomia,farmácia, Odontologia), sobretudo, Agronomia de Viçosa,tinhainspiração no modelo americano de cursos pós secundários, de mais curta duração e foco mais prático ou operacional, Até, se constituírem nos cursos de graduação de cunho mais acadêmico/ vocacional de hoje.
    Ainda, entre o os anos cinquenta e sessenta, Século Passado, o Estado brasileiro, cito como exemplo Minas Gerais, desenvolveu experiência bem sucedida de educação valendo sevda formação de seus quadros em educação pôs secundaria.O docente, dois anos, pôs trabalho efetivo, poderia se candidatar,mediante concurso público, a realizar cursos pós médio em Bh, no Instituto de Educação(com salário mais bolsa de estudo) em temas de gestão escola, a saber, Curso de Administração Escolar- CAE( 2 anos), curso de Biblioteconomia(1 ano) etc.Eram voltados para a escola fundamental, 4 primeiras séries, o currículo era único e só poderia exercer a profissão de Diretor, orientador educacional o docente titulado no CAE, idem para a função de bibliotecário.Havia mais uniformidade do padrão de funcionamento acadêmico das escolas.
    A tabela A1 do anexo 6 é curiosa, ela parece indicar, sobretudo para ciências humanas e ciências, a ênfase, a mudança de ênfase do ensino que parte do conteúdo disciplinar para unidade temática, ou seja volta-se mais para a integração do conhecimento, englobando disciplinas afins.

    Por enquanto é só,
    Atenciosamente,
    Ana Maria de Rezende Pinto

  4. Boa tarde.

    Educação aqui em Pindorama, meio sem querer querendo fazer gracejo, um triste gracejo, é meio Bipolar.

    Não consegui ler o texto sobre educação técnica nos USA. Mas li um texto/entrevista de uma educadora no ” O Globo”, dias passados. Ela coloca o dedo em algumas feridas e , parece , propõe uma virada na educação individualizando-a de algum modo. Li também uma reportagem no “The Ecconomist” sobre a diferença entre agricultura nos USA e na Europa. O fulcro da diferença seria o bastante antigo sistema dos 3 ou 4 “Hs”. E suas derivações. Resultando na ótica estadunidense que vê a agricultura e a pecuária como negócio e os produtos como “commodities”.

    Pessoalmente tenho duas experiências fracassadas. Em Petrópolis/RJ. A primeira foi um quebrar de lanças para formar jardineiros. Alta demanda não atendida até hoje. O mercado é atendido por “curiosos” e por empresas de “paisagismo”. A segunda, mais recente foi no sentido de formar os diversos profissionais que poderiam, habilitados e capacitados, trabalhar em creches. Bati de frente com feudos corporativos.
    Cordialmente. Ajscampello

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