pisaSaíram os esperados resultados do PISA, a avaliação internacional de desempenho dos estudantes em matemática, linguagem e ciências da OECD. Para o Brasil, um resultado triste mas esperado, e outro promissor mas difícil de entender.  O esperado é que o Brasil continua na lanterninha, junto com Albânia, Tunísia, Argentina e Jordânia, bem abaixo do Chile e também do México na América Latina.  O promissor é que o desempenho em matemática aparentemente vem melhorando ao longo do tempo. O mistério é como explicar porque os brasileiros melhoram algo em matemática mas não melhoram em linguagem e ciências.

O PISA avalia estudantes de 15 anos que estão na série adequada, ou seja, no último ano da educação fundamental ou primeiro ano da educação média.  Segundo um estudo de Ruben Klein, a melhora havida entre 2006 e 2009 pode ser atribuída ao fato de que os alunos na amostra de 2009 estavam na média mais adiantados e eram mais velhos do que os de 2006. Não houve nenhuma melhora entre 2009 e 2012 em linguagem e ciências, mas a matemática continuou melhorando, ainda que muito pouco.

provabrasilOs dados do PISA podem ser comparados, em certa medida, com os da Prova Brasil para os alunos do nono ano,  embora esta inclua estudantes de todas as idades, Os resultados são semelhantes (os dados aqui são a percentagem de estudantes com desempenho satisfatório, extraída do site do Qedu). Os quadro geral é ruim, existe uma pequena melhora sobretudo em português entre 2007 e 2009; entre 2009 e 2011 houve uma piora em português, mas a matemática continuou melhorando.

Se a educação brasileira tivesse de fato melhorando, esta melhora deveria ocorrer em todas as áreas. Se no entanto é só a matemática que melhora, como explicar isto?  Houve alguma mudança nos métodos usados pelos professores?  O material didático melhorou?  Será um efeito das Olimpíadas de Matemática? Ou será que é simplesmente porque estávamos tão ruins em matemática que não foi difícil mudar um pouco, o que não se conseguiu em ciências e linguagem?  A outra dúvida é:  Como explicar a melhoria de 2006 e 2009 e a queda ou estagnação entre 2009 e 2012?

Para quem tiver uma boa explicação ou evidência, as páginas deste blog estão abertas!

 

 

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6 comments untill now

  1. Publiquei um artigo na Folha hoje sobre isso. Acho que a melhoria está relacionada a dois fatores.
    Metade desta melhoria de deveu a mudanças no perfil social dos alunos – que explica toda a melhoria de leitura no período, por exemplo.
    Segundo, o fato de que em 2003 os nossos piores alunos praticamente zeravam na prova – media (233-286 pontos) e em 2012 eles chegam mais próximos do nível menos 1 (298-337). Há diferença muito maior em termos de pontuação do que teve de aprendizado. Foram eles que puxaram a nota do Brasil para cima, Entre os melhores não houve mudança. Esta é minha hipótese.
    Segue o artigo:
    http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2013/12/1380479-analise-avanco-nao-indica-melhora-nas-politicas-de-educacao.shtml

  2. augusto jose de sa campello @ 2013-12-04 16:06

    Boa tarde.

    Tendo a concordar com a Sra. Paula Louzano. E vou um tanto adiante : enquanto não houver um esforço de pesquisas aprofundadas , independentes e continuadas , o pouco que sei da Educação em nosso país tenderá a ficar em alguma zona cinzenta de informação utilizável. Cordialmente, AJSCampello

  3. Felipe G. Nievinski @ 2013-12-06 17:28

    Algum especialista poderia por favor preparar e divulgar os histogramas do Brasil para cada ano? Assim ficaria mais aparente a “cauda à esquerda muito pesada” do Celso Franco e a “melhoria dos nossos piores alunos”, conforme Paula Louzano? Grato.

  4. Ana Maria Rezende Pinto @ 2013-12-04 12:36

    Vou arriscar um comentário. Não sei explicar porque os resultados em matemática melhoraram, talvez sua última hipótese seja procedente ou o conjunto delas.Vou arriscar ao dizer que o português depende mais de um mergulho cultural do aluno, de Background cultural para se manifestar com mais brilho.Já a Matemática pode ser aprendida com bons professores, bons materiais e estímulos escolares. A matemática é lógica , raciocínio, todos nascemos com este potencial.Ha por outro lado, uma outra dimensão mais instrumental, diria de conhecimento de resolução de problemas….Quanto a Ciências, entra só se raspão no currículo, embora haja bons programa na mídia.

  5. facebook_marcelobferreira @ 2013-12-04 22:54

    Senhor Simon, sou um dos muitos medalhistas de Ouro da OBMEP (Olímpiada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas) e posso garantir ao senhor que não haveria nenhum interesse meu nessa área se não fosse pela OBMEP. A Obmep tirou do isolamento alunos de qualidade das escolas públicas que eram condenados a mediocridade local, levando-os a competir em níveis mais elevados e nos mostrando o quão pouco sabemos e o quanto precisamos estudar.

    Além de me motivar a estudar muita Matemática no colegial, recebo uma bolsa de iniciação científica na minha graduação em Economia na Unesp, onde tenho meus estudos em Economia Matemática.

    Não sou apenas eu nesse processo Sr. Simon, são dezenas e centenas de milhares de alunos.

  6. Valdemar Seltzer @ 2013-12-06 04:48

    Você escreveu:

    “Se a educação brasileira tivesse de fato melhorando, esta melhora deveria ocorrer em todas as áreas. Se no entanto é só a matemática que melhora, como explicar isto? Houve alguma mudança nos métodos usados pelos professores? O material didático melhorou? Será um efeito das Olimpíadas de Matemática? Ou será que é simplesmente porque estávamos tão ruins em matemática que não foi difícil mudar um pouco, o que não se conseguiu em ciências e linguagem? A outra dúvida é: Como explicar a melhoria de 2006 e 2009 e a queda ou estagnação entre 2009 e 2012?
    Para quem tiver uma boa explicação ou evidência, as páginas deste blog estão abertas!”

    Uma possível explicação é a seguinte: Passamos do 0,001 para o 0,002. É muito fácil subir de um infinitésimo para um infinitésimo mais um infinitésimo.

    Pela minha experiência, uma grande parte dos alunos do ensino médio das escolas públicas não sabem tabuada. Agora, segure-se: nem mesmo a de somar. Faça você mesmo um teste: vá a uma escola pública e pergunte a tabuada de multiplicar para algum aluno. Se ele não souber, pergunte quanto é 5+7 — eu caí duro no chão quando um aluno do ensino médio começou a fazer essa soma nos dedos. E se o aluno souber a tabuada de multiplicar, pergunte quanto é 2% de 90. Eu fiz essa pergunta em 5 palestras que dei em 2011 como “embaixador docente da USP”, para alunos de 2a. e 3a. séries do ensino médio de 3 escolas públicas. Ninguém soube responder. 2% era o bônus mínimo que um aluno que fez todo o ensino médio em escola pública ganhava então no vestibular para a USP. A primeira fase tinha 90 questões. Eu perguntava quanto eles ganhavam de graça na primeira fase; acho que como 2% de 90 questões não é um número inteiro de questões, eles se atrapalhavam. Ou simplesmente não sabiam nada sobre porcentagem.

    Em minha experiência, os alunos de escolas públicas em geral (com algumas excepcionais exceções) não estão aprendendo absolutamente nada de coisa nenhuma. E o mais trágico é que os pais deles, que em muitos casos não puderam passar de uma 4a. série numa escola rural, têm uma grande esperança de que, estudando — com muito sacrifício para a família –, seus filhos terão um futuro melhor. É uma verdadeira enganação nacional.