Em nota anterior me referi ao bacharelado interdisciplinar implantado pela Universidade Federal do ABC e outras universidades brasileiras de forma semelhante ao do chamado  “Processo de Bologna” adotado na União Européia e outros países, com um ciclo inicial de três anos, seguido de mestrados de um ou dois anos e, conforme as especialidades, por cursos avançados de engenharia ou medicina, por exemplo, e doutorados. Agora recebo da professora Maria Carmen Tavares Cristóvão uma nota extensa sobre a experiência brasileira, que reproduzo abaixo:

A UFABC e os Bacharelados Interdisciplinares

A UFABC se inspirou não apenas no Processo de Bolonha. O documento fundamental para elaboração do seu Projeto Pedagógico Institucional foi o documento intitulado Subsídios para a Reforma da Educação Superior, elaborado pela Academia Brasileira de Ciências em 2004. Quem apresentou a proposta da UFABC para o Ministério da Educação foi o Prof. Luiz Bevilaqua (UFRJ), que mais tarde se tornaria Reitor da UFABC, mas foi o presidente do grupo de trabalho que presidiu a elaboração do documento acima citado.

Minha pesquisa de mestrado foi pioneira no Brasil no sentido de estudar o modelo da UFABC desde sua criação até os resultados da última gestão em 2013. Tenho acompanhado a UFABC desde sua concepção até os dias de hoje.

Bem, o primeiro equívoco é relativo à sua fundamentação. A UFBA não teve seus fundamentos no Processo de Bolonha. A UFABC foi uma fundamentação híbrida, conforme já colocado.

Quando o Prof. Dr. Nelson Maculan assumiu a Secretaria do Ensino Superior SESu/MEC, convidou o Prof. Luiz Bevilaqua a implementar o modelo de ciclos e BIs na UFABC, pois implantar as ideias de Bacharelados Interdisciplinares e uma arquitetura organizada por Centros do Conhecimento e não por departamentos seria mais fácil.

O modelo de ciclos que permite a interdisciplinaridade tem sido adotado por mais de 50 universidades no Brasil. Em 2012, na Declaração de Santo André sobre os BIs, 46 instituições já haviam se comprometido com o modelo interdisciplinar e regime de ciclos. Em 2013 no encontro de BIs já eram aproximadamente 100 universidades. A implementação é processual com os cuidados requeridos pelo processo interdisciplinar do conhecimento.

Quanto aos modelos semelhantes aos Colégios Universitários (equivalentes aos community colleges norte-americanos) citados por Naomar Almeida a UFRJ já implementou o modelo há mais de 5 anos e possui experiência relevante para divulgação na sociedade acadêmica, informações que podem ser fornecidas pelo Prof. Luiz Bevilaqua.

Quanto o ingresso dos profissionais dos Bacharelados Interdisciplinares no mercado de trabalho oriundos da UFABC ainda não existem dados de pesquisa, pois a maioria dos ingressantes em 2006 deram prosseguimento à áreas específicas como as Engenharia e outros. Como a matriz curricular é flexível e permite a mudança do aluno de curso sem perda dos créditos existem casos em que os alunos optaram por mudança de cursos o que pode estender a conclusão do mesmo por opção do aluno. Tal fato não pode ser encarado como um aspecto negativo, pelo contrário, é a autonomia criada pelo aluno ao lidar com diversas áreas do conhecimento que o torna apto a uma nova escolha.

Cabe ressaltar ainda que os Bacharelados Interdisciplinares com a duração de 3 anos na UFABC , foram pensados com uma boa carga horária de empreendedorismo para que ao término dos 3 anos, caso o aluno não optasse pela continuidade nos cursos específicos tivesse bagagem para empreender.

A formação holística do aluno é fundamental. Mas, no primeiro ciclo investem bastante em empreendedorismo também. Pois, caso o aluno não prossiga seus estudos está apto a montar seu próprio negócio e gerar emprego.

Anexo minha pesquisa onde poderá ver as entrevistas de campo com os reitores que passaram pela UFABC, inclusive o atual, chefes de gabinetes, membros do conselho entre outros.

Na primeira edição da Revista Científica da UFABC, INTERCIENTE, edição 08/2014 foi veiculado um artigo meu tratando da interdisciplinaridade no Ensino Superior em que cito a necessidade de alcance do ensino superior privado, por representar a maior parte do segmento no Brasil. Gostaria muito de que nós, que viemos da iniciativa privada e nela atuamos pudéssemos trocar mais ideias e informações sobre o tema.

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11 comments untill now

  1. Maria Carmen Tavares Christóvão @ 2014-09-01 12:57

    Para facilitar o entendimento dos leitores posto o link onde se encontram os documentos que fundamentaram a criação da UFABC.
    http://www.ufabc.edu.br/index.php?option=com_content&view=article&id=120&Itemid=3

    Profa. Maria Carmen Tavares Christóvão
    http://www.proinnovare.com.br

  2. Ana Maria de Rezende Pinto. @ 2014-09-01 16:50

    Simon:
    Muito importante o estudo desenvolvido por Maria Carmem Tavares Cristóvam sobre a UFABC.Li, inclusive, a conclusão da tese.Trata- se de um campo aberto para pesquisa.

  3. Maria Carmen Tavares Christóvão @ 2014-09-02 10:51

    Obrigada Ana Maria,

    Foi a primeira pesquisa sobre a UFABC. Estudei a fundo os Bacharelados Interdisciplinares, as reformas da educação superior no Brasil e no mundo, inclusive Bolonha, bem como os aspectos necessários para inovar nosso sistema educacional.
    Estou escrevendo um livro sobre INOVAÇÃO EDUCACIONAL NO ENSINO SUPERIOR COMO FATOR DE COMPETITIVIDADE NACIONAL. A obra apresenta fundamentos teóricos e conceituais sobre a inovação no segmento de serviços educacionais e realiza um amplo panorama da experiência internacional e nacional convidando renomados especialistas, que aceitaram prontamente participar de uma publicação brasileira sobre este tema. Abordaremos
    Coloco-me à disposição para contato.

    Profa. Maria Carmen Tavares Christóvão
    Mestre em Gestão da Inovação
    http://www.proinnovare.com.br

  4. Simon,
    Muito oportuno esse texto chamando a atenção para o projeto da UFABC, sem dúvida um marco na modernização do ensino superior brasileiro.
    Não entendo alguns pontos.
    1. O que exatamente significa “A UFBA não teve seus fundamentos no Processo de Bolonha.”? Eu acompanhei o processo que se chamou Universidade Nova na UFBA e tinha entendido que ele sim foi fortemente fundamentado no Processo de Bolonha, dando um passo além ao introduzir a interdisciplinaridade como parte fundamental da formação.
    2. Se 100 universidades aderiram à formação em ciclos então algo importante está acontecendo, pois no Brasil há 200 universidades entre públicas e privadas. No entanto, continuo com a impressão que a grande maioria das instituições de ponta no Brasil continua avessa a qualquer tipo de mudança na direção de formação menos específica e com menor carga horária.
    3. Eu gostaria muito de saber mais sobre a experiência da UFRJ com Colégios Universitários. Até agora eu achava que o projeto da UFSB era inédito no Brasil e constitui um dos mais promissores modelos de inclusão social em ensino superior no país.

  5. Renato Pedrosa @ 2014-09-02 15:05

    A UFABC é, hoje, a universidade brasileira com indicador de visibilidade científica, medida pelo número de citações por artigo (Web of Science) mais alto. É a única universidade do país em que o fator de impacto relativo (número médio de citações por artigo com autor(es) da instituição dividido pelo número médio de citações de todos os artigos na base) maior do que 1,0. Portanto, não só a UFABC se destaca pela inovação na graduação, como também se destaca em pesquisa.

  6. Maria Carmen Tavares Christóvão @ 2014-09-03 01:16

    Prezado Leandro R. Tessler,
    De acordo com o site da própria UFABC os documentos fundamentes mais importantes foram:
    1)Projeto pedagógico da UFABC
    2)Subsídios para a Reforma da Educação Superior
    3) Declaração de Bolonha – versão original (inglês) – Declaração de Bolonha (português)

    A declaração de Bolonha foi sucedida pelos Comunicados de Praga, em 2001, de Berlin, em 2003 e de Bergen, em 2005, e estão disponíveis apenas em suas versões originais em inglês.
    Confira no link da UFABC: http://www.ufabc.edu.br/index.php?option=com_content&view=article&id=120&Itemid=3.

    Na leitura do meu projeto de pesquisa disponível no site você entenderá toda a trajetória de criação.
    Na Declaração de Santo André em 2012 46 instituições de ensino se comprometeram com os principais fundamentos da Reforma: INTERDISCIPLINARIDADE, FLEXIBILIDADE CURRICULAR,MOBILIDADE E ACREDITAÇÃO, PERFIL DO EGRESSO.
    Em 2013 a UNIFAL-MG sedia II Encontro Nacional de Bacharelados Interdisciplinares com mais de 500 participantes (Reitores, Diretores e docentes) de instituições de ensino. Na Declaração do II Encontro aproximadamente 100 instituições já haviam se comprometido com os mesmos fundamentos da Declaração de Santo André. Contudo o processo é gradual, haja vista que implantar as ideias de Bacharelados Interdisciplinares e uma arquitetura organizada por Centros do Conhecimento como se organiza a UFABC, e não por departamentos é bem mais fácil do que em universidade clássicas.
    Sobre a experiencia da UFABC me envia um e-mail que te passo in box o e-mail do Prof. Luiz Bevilacqua que poderá te informar com precisão sobre o projeto.
    Me coloco à disposição.

    ​Maria Carmen Tavares Christóvão
    Diretora da PRO INNOVARE | Assessoria e Consultoria em Mestre em Gestão da Inovação |
    http://www.proinnovare.com.br

  7. Maria Carmen Tavares Christóvão @ 2014-09-03 01:29

    Prezado Renato Pedrosa,
    Exatamente! Não apenas ensino de qualidade comprovada pelo resultado dos egressos da graduação tecnológica no ENADE, mas se destaca na pesquisa.
    Em 2012 a UFABC foi pontuada por sua ousadia de iniciar a oferta da graduação concomitantemente com a pós-graduação, estratégia assertiva para que hoje a UFABC figurasse entre os rankings internacionais numa subida vertiginosa a cada ano.
    Mais interessante ainda é a forma com que em 2005 o Projeto Pedagógico Institucional apresenta a estrutura de áreas do conhecimento rompendo com a estrutura clássica de departamentos. Já em 2012, portanto, 6 anos mais tarde O Instituto de Pesquisa Helmwoltz, considerada a maior organização científica da Alemanha emite um relatório organizando o conhecimento de forma muito semelhante ao que foi realizado no Projeto Pedagógico da UFABC. Seu trabalho está dividido em seis áreas estratégicas de investigação. São elas: Energia, Ciências da Terra e Meio Ambiente, Saúde, Princípios Tecnológicos, Estrutura da Matéria, Aeronáutica, Espaço e Transportes. O fato nos comprova
    que é uma tendência global.
    Á disposição,
    Maria Carmen Tavares Christóvão
    Diretora da PRO INNOVARE | Assessoria e Consultoria em Mestre em Gestão da Inovação |
    http://www.proinnovare.com.br

  8. Cara Maria Carmen,
    Suas colocações são muito importantes mas não respondem a nenhuma das minhas perguntas. É preciso ter em conta que 100 instituições de ensino superior não é o mesmo que 100 universidades.
    Eu conheço o Prof. Bevilacqua e o projeto pedagógico da UFABC.
    Atenciosamente,
    Leandro R. Tessler

  9. Maria Carmen Tavares Christóvão @ 2014-09-13 20:00

    Leandro Tessler,

    Leia esse artigo da INTERCIENTE (UFABC) com o nome das IES que até 2011 já haviam implantado os BIs.
    http://publicacoes.ufabc.edu.br/interciente/article/os-bacharelados-interdisciplinares-e-os-seus-desafios/

    Você participou do Iº Encontro dos Bacharelados Interdisciplinares em 2012? Veja o link da Declaração de Santo André assinada por 46 universidades e institutos federais.
    http://www.ufabc.edu.br/index.php?option=com_content&view=article&id=6546

    Em 2013 no IIº Encontro de BIs o número de IES que assinou a declaração se comprometendo com a implantação dos BIs era de quase 100.

    Não estive no IIIº Encontro, mas no MEC/SERES (um dos organizadores dos encontros), há o número exato de IES que hoje já ofertam Bacharelados Interdisciplinares. E esperamos que cresça!

    Abraços,

    Profa.Maria Carmen Tavares Christóvão.

  10. Desisto.
    Eu fiz 3 perguntas. Uma foi respondida, com a ressalva que 100 IES é muito diferente de 100 universidades. Infelizmente as universidades mais tradicionais e com maior visibilidade no Brasil não estão avançando na direção dos BIs.

  11. augusto jose de sa campello @ 2014-09-15 18:04

    Boa tarde.
    De há algum tempo a esta parte – diria mais de dez anos, a iniciativa privada e mesmo empresas estatais e assemelhadas se vêem a braços com a qualidade questionável da mão de obra de nível superior .
    Digo isto por experiência própria ao atuar como consultor.
    Uma avaliação de profissionais de RH , da iniciativa privada detecta falhas nesta mão de obra, tendo por origem má formação básica em etapas pré ensino superior. E outras falhas devidas a formação insuficiente já nas universidades.
    Diversas respostas foram , aos poucos, sendo formuladas e implementadas pelas empresas. Desde a “caça” a novos talentos até modalidades de educação dita corporativa, diferente de treinamento.
    Algo deve ser feito. Não tenho respostas. Mas, corre-se o risco de instalar-se um apagão de mão de obra.
    Cordialmente , AJS Campello