mousetrap
Artigo publicado na Folha de São Paulo, 6 de outubro de 2014

Os economistas falam da “armadilha da renda média”, de países que, como o Brasil, conseguiram chegar aos US$ 10 mil ou US$ 12 mil por habitante por ano, mas não conseguem chegar perto dos US$ 30 mil a US$ 50 mil, como os países desenvolvidos. Um outro nome seria a armadilha da mediocridade.

O Brasil chegou aonde está graças às exportações de minérios e produtos agrícolas e ao crescimento da indústria e dos serviços que acompanharam a expansão das cidades. Fez parte desta história a ampliação da Previdência Social, dos serviços de saúde e da escolaridade. Para os governos, bastava cobrar impostos e distribuir para quem solicitasse conforme a força de cada um, dos políticos amigos às indústrias protegidas, passando pelos funcionários públicos e sindicatos, e chegando aos pobres com o Bolsa Família.

Esse tipo de crescimento já não tem como continuar. Acabou a migração do campo para as cidades, mas a violência urbana parece fora de controle e o transporte público é péssimo. A desigualdade vinha caindo, mas já não cai mais. A miséria se reduziu, mas a pobreza continua. Já quase não se morre de diarreia, mas o SUS mal consegue atender os enfermos de câncer e do coração. Já não há crianças fora da escola, mas elas mal aprendem. O acesso ao ensino superior cresceu com mais dinheiro para as universidades públicas, cotas, bolsas e crédito educativo, mas a qualidade da maioria dos cursos é ruim e as vantagens de ter um diploma são cada vez menores.

Os economistas sabem muito do que precisa ser feito para sair dessa armadilha: equilibrar as contas públicas, fortalecer a capacidade regulatória do Estado, abrir as empresas à competição internacional, criar regras claras para o uso de incentivos públicos e garantir ao setor privado a segurança jurídica necessária para seus investimentos. Mas isso não basta, porque o “custo Brasil” não vem somente do protecionismo, dos entraves burocráticos e da má qualidade da infraestrutura física, mas, sobretudo, da ausência de uma população bem-educada e capacitada, da condição de vida precária das cidades e da incerteza gerada por um sistema político desmoralizado.

Não será mais possível continuar crescendo e se desenvolvendo como se fez até aqui. Para sair da armadilha da mediocridade, é preciso redirecionar a política econômica e social, mas também olhar em volta, para os países que conseguiram superar essa barreira, e ver o que têm a nos ensinar sobre educação, saúde, proteção à velhice, gestão dos espaços urbanos, política ambiental, política energética, modernização do Estado e reforma do sistema político.

Nestas eleições, a grande pergunta é quais candidatos continuam olhando para trás, fazendo e prometendo mais do mesmo, satisfeitos com o que temos, e quais têm as condições de abrir espaço para um país capaz de avançar nestes novos caminhos. Para todos será uma longa aprendizagem, sujeita a erros e acertos. Mas não há dúvida de que está na hora de renovar.

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3 comments untill now

  1. Marcus Sampaio @ 2014-10-06 23:19

    Excelente artigo.Como eu, outros pensam da mesma forma sobre este Brasil Que se apresenta hoje.

  2. Sergio Moura @ 2014-10-07 11:25

    Simon, só faltaram duas coisas nos seus conselhos para a prosperidade: 1) o reconhecimento de que só se ganha dinheiro com comércio e que, portanto, cabe ao governante implementar medidas que estimulem ao máximo o livre comércio, e 2) que o governante é obrigado a implementar medidas que nos permitam comprar o melhor produto ou serviço pelo menor preço e impeçam que desperdicemos nosso tempo e dinheiro com coisas que não nos trazem qualquer benefício (DUT – aquele papelzinho que temos de guardar (nunca sabemos onde) enquanto tivermos o veículo – por exemplo). De resto, parabéns

  3. augusto jose de sa campello @ 2014-10-09 12:19

    Bom dia.
    Não sei bem por onde começar . Minha vontade é a de explorar muitos dos tópicos mencionados. Mas , estes lugares da WWW não são lá muito apropriados para grandes dissertações.
    Que a mediocridade tornou-se algo reinante, salvo as famosas “ilhas de excelência” existentes, ou não, tanto no mundo privado como no governamental e em outros estamentos , é fato conhecido e inconteste há muito tempo. Sua expansão em ritmo de metástase acelerou-se.
    Aproveito para colocar algumas perguntas. Cujas respostas devem ser buscadas pois não as tenho. Ficam como desafio à paciência de pessoas e organizações como as promotoras deste site e associadas.
    A primeira pergunta se refere ao IBAM – Instituto Brasileiro de Administração Municipal. O que aconteceu com este órgão ? Foi “desidratado” ?
    Uma segunda pergunta. No Ministério da Saúde havia um departamento voltado para a administração hospitalar. O que aconteceu com ele ?
    Análises dos fatos concernentes a estes órgão , figurando e baseadas em séries históricas, quadros de lotação de pessoal, orçamentos antes e depois de contingenciamentos e sua execução, seriam interessantes. Poderiam informar a respeito de “Políticas de Estado”.
    Cordialmente. AJS Campello