A pesquisa universitária no Brasil e no mundo

A Universidade de Leiden, na Holanda, acaba de publicar um ranking internacional de universidades do ponto de vista de sua produção de pesquisas, baseado em uma seleção de artigos das principais revistas (“core publications”, em inglês e de âmbito internacional) da Web of Science, com uma série de indicadores sobre a produção absoluta e relativa que nos permitem ver, entre outras coisas, como a pesquisa universitária se distribui no Brasil, e qual a posição brasileira no contexto internacional. Os detalhes e dados completos estão disponíveis aqui.

A Universidade de São Paulo aparece na 8ª posição no ranking em número de publicações no período 2014-2017. A segunda na América Latina é a Universidade Autônoma do México, na posição 108, com 7.308 publicações no período. A Universidade de Buenos Aires, com 3.434 publicações, aparece na posição 355, e a Universidade do Chile, com 2.951, na posição 425. No Brasil, a segunda universidade é a UNESP, seguida da Unicamp, e depois a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a primeira das federais. 

15 universidades com maior produção de pesquisa no mundo, 2014-2017
Universidades brasileiras com mais de mil trabalhos em “core publications”

Estes dados, que só incluem instituições com pelo menos mil publicações no período, confirmam que a Universidade de São Paulo, como principal universidade de pesquisa no país, ocupa um lugar significativo internacionalmente, e mostram também como a pesquisa universitária brasileira está concentrada em um número pequeno de instituições, o que é sabido por outras fontes.

Chama a atenção, entre os indicadores elaborados por Leiden, o número de citações por artigo, o número de artigos entre os 5% mais citados, e a proporção de artigos escritos em colaboração com autores do setor produtivo. O número de citações por artigo da USP, de 4,1, é o mais baixo entre as 15 universidades mais produtivas no mundo. A percentagem de artigos entre os “top 5” na USP é 2.8%, também a mais baixa entre as grandes. E proporção de trabalhos feitos em colaboração com a indústria é a menor, e próxima de duas universidades chinesas.

Comparando com outras universidades brasileiras, a USP só perde para a UNICAMP, e por pouco, em termos de citações por artigo, e para a Universidade Estadual de Maringá em termos de artigos nos “top 5”.  Em termos de colaboração com a indústria, a Universidade brasileira que mais se destaca é a UFRJ, seguida pela Universidade Federal Fluminense.

Estes dados confirmam o que sabemos, de um modo geral, sobre a pesquisa universitaria brasileira: ela está altamente concentrada em poucas instituições; sua qualidade é relativamente baixa, e está bastante isolada do sistema produtivo.

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Author: Simon

Simon Schwartman é sociólogo, mineiro e brasileiro. Vive no Rio de Janeiro

12 thoughts on “A pesquisa universitária no Brasil e no mundo”

  1. “Estes dados confirmam o que sabemos, de um modo geral, sobre a pesquisa universitaria brasileira: ela está altamente concentrada em poucas instituições; (…)”

    Só faltou dizer: todas elas públicas (a julgar por “estes dados”).

    Quanto a “qualidade é relativamente baixa”, o número de citações da USP, pra ficar num dos indicadores do levantamento, não faz feio quando se comparado com o restante da lista (e não apenas as 15 “top”). Além disso, faz pouco sentido comparar dados bibliométricos “a seco”, quando comparamos instituições com orçamentos imensamente distintos.

    Finalmente, quanto a estar isolada do sistema produtivo, eu gostaria muito de saber se o sistema produtivo brasileiro quer estar perto das universidades. Porque quem quer efetivamente investir em P&D no Brasil (Petrobrás, Embraer e outras poucas) não parece ter muita dificuldade de encontrar as universidades e desenvolver pesquisas com elas.

    1. Sim, são públicas. Os dados de citação por artigo, como qualquer indicador isolado, deve ser visto com cuidado. O que se vê nas tabelas é que a USP tem a taxa mais baixa entre as demais universidades no grupo de 15, mas maior do que a das demais universidades brasileiras. O tamanho do orçamento não me parece que seja o que melhor explica as diferenças, porque, com o mesmo orçamento, é sempre possível, em princípio, publicar menos artigos, mas com mais qualidade. Quanto ao relacionamento com o setor produtivo, tem realmente dois lados. Não há muita demanda do setor produtivo, e, quando ela ocorre, tende a se concentrar em alguns departamentos de algumas universidades, que estão mais preparados para isso.

  2. Universidades não podem ser vistas apenas em termos de número de trabalhos publicados ou citações. O curso de Odontologia da USP é considerado dos melhores do mundo, senão o melhor, e isso não aparece em rankings. A mesma coisa vale para o curso de Geografia. Acabamos adotando o critério do “publish ou perish” como única referência, sem atentar para a complexidade de estruturas universitárias que não são comparáveis.

    1. Sem dúvida. Estes dados são sobre publicações científicas, e não sobre outras coisas que também são importantes e devem ser avaliadas por outros critérios.

  3. Há como controlar (estratificar) por grandes áreas? Seria interessante saber como fica o ranking nas áreas de Ciências Básicas, Ciências da Saúde e Engenharias. Há algo de, digamos, surpreendente em um índice que coloca a USP à frente de Stanford e Oxford.

  4. E quais podem ser as causas para este impacto citacional baixo? Acredito que só a qualidade não seja um argumento suficiente. Talvez seja uma questão de cultura científica global para privilegiar a citação de pesquisadores que já têm uma reputação na comunidade global? Esses dados estão abertos para investigação mais profunda, como por exemplo para verificar se essas citações são referentes à pesquisas feitas em co-autoria de países dito “centrais” ou com instituições internacionais de prestígio?

  5. O português constitui uma grande barreira, sim. Digamos que seja um passivo. É responsável pelo reduzido número de publicações, dificulta a comunicação, inibe o intercâmbio acadêmico e retira o país do mainstream dos programas de pesquisa. A tradução de trabalhos acadêmicos, a par de implicar custos adicionais para o sistema, não supre as lacunas abertas pela barreira representada pelo idioma.

  6. “O número de citações por artigo da USP, de 4,1, é o mais baixo entre as 15 universidades mais produtivas no mundo.”

    As outras são em sua maioria universidades anglófonas ou chinesas. E o inglês e o mandarim são línguas muito mais difundidas que o português. Seria essa uma das causas do baixo índice de citações?

    1. Não, todas as publicações analisadas aqui são em inglês, e publicadas em uma das revistas consideradas de alcance internacional (“core publications”). As publicações em português, chinês, e em revistas secundárias não entram na conta.

    2. O problema é a bibliometria naïf, eu gostaria que um aluno meu de doutorado publicasse UM artigo de alta qualidade e merecedor de citações. Mas a CAPES, e infelizmente agora até o CNPq, se tornaram em contadores de artigos não avaliadores da qualidade intrínseca da pesquisa.

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