Acesso à Internet dos estudantes de nível superior

O uso de recursos de internet para manter vivas as atividades das instituições de nível superior tem sido  objeto de controvérsias, colocando, por um lado, os que advogam, como eu, que isto deve ser feito, apesar das dificuldades que existem, e os que se opõem, argumentando que isto aumentaria ainda mais a desigualdade no ensino superior, já que os estudantes de baixa renda não teriam condições de fazer uso destes recursos.  A Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar Contínua de 2018 traz perguntas específicas sobre uso de computadores e acesso à Internet, e permite que se verifique até que ponto esta desigualdade realmente existe.

A PNAD estima que existem 7.8 milhões de estudantes de nível superior no Brasil, 74% na rede privada. A distribuição de renda dos estudantes nos dois setores, público e privado, é semelhante, com mais estudantes de renda mais baixa no setor público, e bem melhor do que a da população em geral, embora existam estudantes em todas as faixas de renda.

Educação Superior e renda familiar per capita

Posse de computador, tablet ou celular

No total, 83% dos domicílios dos estudantes têm computador ou, em menor número, tablets em casa. A posse de computador varia com a renda das famílias, indo de 58% entre os mais pobres até 98% entre os mais ricos, sem muita diferença entre os que estudam na rede pública ou privada. Em termos absolutos, 1.2 milhões dos domicílios dos estudantes de nível superior, e 172 mil na rede pública, não tem nem computadores nem tablets. Por outro lado, praticamente todos têm telefone celular.

Acesso à Internet

Por um meio ou outro, 98.2% dos estudantes de nível superior declaram que acessam a internet. Dos que não acessam, metade dizem que não o fazem porque o equipamento é caro, e 18% porque acessam de outro lugar que não o domicílio, e 88.5% dizem que acessam por conexão de banda larga.

Conclusão

Os dados mostram que praticamente todos os estudantes de nível superior têm acesso à Internet, mas cerca de 17%, sobretudo nos níveis de renda mais baixa, só têm acesso por telefone celular. Isto coloca uma limitação no uso de sistemas mais complexos de educação à distância, mas não chega a ser um impedimento.

A questão que se coloca é sobre o que seria mais adequado, proporcionar educação à distância para a grande maioria que tem como acessá-la, desenvolvendo um trabalho adicional de apoio aos que não têm (por exemplo distribuindo tablets de baixo custo), ou privar a grande maioria do acesso à educação, para não aumentar a desigualdade.

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Author: Simon

Simon Schwartman é sociólogo, mineiro e brasileiro. Vive no Rio de Janeiro

6 thoughts on “Acesso à Internet dos estudantes de nível superior”

  1. Quando li este texto seu, Simon, foi imediata a associação que me veio. Quando, por esta contingência de pandemia, estamos sintonizados com noticiário da TV, Globo News por exemplo, vez por outra perdemos a frase do comentarista porque o sinal não estava bom… Imagina, Rede Globo, tecnologicamente conhecida como a melhor, tem que estar minuto a minuto atrás de uma conexão que falha. Fiquei pensando o que está por trás dos números tão favoráveis que sustentam seu argumento. Claro que acho que as universidades terão que se remodelar, incluindo entre suas ofertas aquelas que se beneficiam das mídias. Algumas estão já fazendo. Mas não dá para estabelecer como política pública porque a distância entre ter um celular e ter conexão constante, boa, ou adequada é imensa. E aprofundaremos ainda mais o fosso entre os que têm e os que não têm, só que agora como política oficial. Demorei a comentar, mas não me saiu da cabeça, por isso, venho aqui atrasada mesmo.

    Mas o seu texto de hoje, domingo, dia 24, teria que ser distribuído em todas as mídias. Compartilhe mais. Muito, muito bom.

    1. Oi Helena, sobre celular e computador, etc., você tem razão, as diferenças e as dificuldades são grandes, e não dá para decretar de um dia para o outro que agora tudo é por internet, e quem não conseguir, azar. Mas dá para ir tentando, buscar caminhos, ver como apoiar quem precisa, o que não me parece que faz sentido é nivelar por baixo.

  2. Professor Simon, o pacote de dados do celular também pode ser um fator limitador. A grande maioria das pessoas de baixa renda utilizam aparelhos pré-pagos com baixo nível download de dados.

  3. “Por um meio ou outro, 98.2% dos estudantes de nível superior declaram que acessam a internet”.
    Quando se pensa nos universitários, se a pergunta considerou o acesso a internet, independentemente do local, pode haver um confundimento nas respostas. Pois todas as universidades, apresentam a disponibilidade de internet. Mas se o acesso era de uso exclusivo em casa, o as desigualdades regionais devem ser consideradas, como recorte.

  4. Sou professor universitário. Nesse período tentamos usar tecnologias mas de cara 20% não puderam acompanhar ou porque não tinham computador, tablet, internet. Dos que se dispuseram a acompanhar a maioria tem internet com pacote de dados e acabava com poucos dias. Outros moram no interior onde, apesar de ter dados não funciona.
    A desigualdade nesse país é marcante e nesses momentos fica mais marcante. Por isso #asiaoenem

  5. É sempre esse discurso de que existe desigualdade, se existir sim mas não é motivo para continuar atrasando um país que já está atrasado em ensino em todos os níveis. O fato da maioria ter deveria muito bem contínuar os programas de ensino superior nas públicas na pandemia. Ninguém pensou em resolver o problema, mas pelo contrário é atrasar o país com esse discursos sempre de que tem pena de pobre ou pena de pele da cor do indivíduo. Eu já cansei desse discurso com argumentos de discriminação racial e de classes social. Todos aos alunos de classe social mais baixa que eu conheço possuem computador em casa ou tem um celular e se conectam a internet até mais do que os de classe social mais alta. E na hora de uso uso para ensino e aprendizagem venham com esse discurso do que nem todos têm.

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