{"id":102,"date":"2006-10-02T11:44:00","date_gmt":"2006-10-02T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=102"},"modified":"2014-09-26T21:26:06","modified_gmt":"2014-09-27T00:26:06","slug":"sao-paulo-e-o-estado-nacional-revisitado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/sao-paulo-e-o-estado-nacional-revisitado\/","title":{"rendered":"Sao Paulo e o Estado Nacional, revisitado"},"content":{"rendered":"<p>Quando publiquei este livro em 1973 (revisto e republicado mais tarde como Bases do Autoritarismo Brasileiro), o que mais tinha chamado minha aten\u00e7\u00e3o era como a pol\u00edtica brasileira passava, historicamente, pelo eixo Rio\u2013Minas\u2013Nordeste\u2013Rio Grande do Sul, deixando de fora justamente o centro mais din\u00e2mico da economia do pais, S\u00e3o Paulo (e tamb\u00e9m Paran\u00e1 e Santa Catarina), que no m\u00e1ximo produzia lideran\u00e7as populistas que n\u00e3o transcendiam o estado, como Ademar de Barros, ou o ef\u00eamero J\u00e2nio Quadros, que afinal era mato-grossense. Eu dizia, seguindo Faoro, que o Estado Nacional era patrimonialista, no sentido de que ela n\u00e3o era o \u201crepresentante\u201d de determinados interesses, e sim o objeto de interesses de uma classe ou estamento pol\u00edtico que vivia de e para o poder; que a pol\u00edtica exercida por este Estado era ou autorit\u00e1ria, com os militares, ou populista, com Get\u00falio, ou uma combina\u00e7\u00e3o das duas coisas; e que o sistema partid\u00e1rio nacional era baseado na coopta\u00e7\u00e3o das lideran\u00e7as (inclusive sindicais) pela oligarquia pol\u00edtica. E eu imaginava que, com o tempo e a moderniza\u00e7\u00e3o do pais, outro tipo de pol\u00edtica, origin\u00e1ria em S\u00e3o Paulo, passaria a predominar no pa\u00eds \u2013 uma pol\u00edtica mais autenticamente representativa, com partidos apoiados nas classes modernas, burguesas e prolet\u00e1rias, da parte mais capitalista do Brasil.<\/p>\n<p>Quase acertei: a partir de Fernando Henrique, e continuando com Lula e agora, Alckmin, S\u00e3o Paulo saiu do isolamento, as lideran\u00e7as paulistas se transformaram em lideran\u00e7as nacionais, e s\u00e3o elas que disputam entre si o comando do Estado Nacional. Mas errei, no entanto, ao pensar que esta polariza\u00e7\u00e3o se daria em termos de uma divis\u00e3o de classes. Embora as divis\u00f5es de classe continuem existindo, a pol\u00edtica nas sociedades modernas se faz por grandes coaliz\u00f5es de interesses, valores e orienta\u00e7\u00f5es, e nenhum candidato que se apresente como representante de uma classe social espec\u00edfica consegue apoio suficiente para ganhar uma elei\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria. Fernando Henrique conseguiu montar uma coaliz\u00e3o deste tipo, ao liderar um processo de racionaliza\u00e7\u00e3o da economia e moderniza\u00e7\u00e3o do Estado, uma agenda que Alckmin trata de dar continuidade. E Lula, que come\u00e7a a carreira como um aut\u00eantico l\u00edder sindical da ind\u00fastria, se transforma aos poucos no l\u00edder do sindicalismo do setor p\u00fablico, e finalmente, em um l\u00edder com forte apelo popular, ou populista, e com isto consegue transcender as limita\u00e7\u00f5es do antigo PT, e chegar \u00e0 Presid\u00eancia.<\/p>\n<p>Neste primeiro turno, as pesquisas eleitorais mostram que Alckmin tem mais apoio nas camadas sociais mais ricas, e Lula, nas camadas mais pobres. Mas se engana quem interpreta isto em simples termos de direita\u2013esquerda, ou burguesia\u2013proletariado. Nem a maioria dos eleitores de Alckmin s\u00e3o burgueses (e sim da classe m\u00e9dia), nem a maioria dos eleitores de Lula s\u00e3o prolet\u00e1rios (e sim pobres). Mais do que a divis\u00e3o de classes, \u00e9 a divis\u00e3o entre estados e regi\u00f5es que marca a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que estamos vivendo hoje. Alckmin ganha as elei\u00e7\u00f5es de S\u00e3o Paulo para baixo, e Lula, nos estados tradicionais de Minas Gerais, Rio de Janeiro e todo o Nordeste. O que d\u00e1 for\u00e7a a Lula nestes estados, me parece, n\u00e3o \u00e9 que ele tenha sido um l\u00edder oper\u00e1rio e represente os pobres, mas sim sua capacidade de dar continuidade \u00e0s pol\u00edticas patrimonialistas tradicionais, distribuindo cargos e subs\u00eddios para ricos e pobres em regi\u00f5es que dependem, para sobreviver, do fluxo de benesses do governo central.<\/p>\n<p>Em outras palavras, o que marca a pol\u00edtica brasileira hoje n\u00e3o \u00e9, como eu imaginei que viria a ser, a disputa entre lideran\u00e7as e partidos pol\u00edticos modernos, nem uma disputa de classes, nem uma disputa entre ricos e pobres, e sim o antigo confronto entre duas maneiras cl\u00e1ssicas de fazer pol\u00edtica, a pol\u00edtica representativa e a pol\u00edtica de coopta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando publiquei este livro em 1973 (revisto e republicado mais tarde como Bases do Autoritarismo Brasileiro), o que mais tinha chamado minha aten\u00e7\u00e3o era como a pol\u00edtica brasileira passava, historicamente, pelo eixo Rio\u2013Minas\u2013Nordeste\u2013Rio Grande do Sul, deixando de fora justamente o centro mais din\u00e2mico da economia do pais, S\u00e3o Paulo (e tamb\u00e9m Paran\u00e1 e Santa &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/sao-paulo-e-o-estado-nacional-revisitado\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Sao Paulo e o Estado Nacional, revisitado&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21],"tags":[],"class_list":["post-102","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/102","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=102"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/102\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4969,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/102\/revisions\/4969"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=102"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=102"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=102"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}