{"id":1055,"date":"2009-04-05T20:02:57","date_gmt":"2009-04-05T23:02:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=1055"},"modified":"2017-11-14T07:36:14","modified_gmt":"2017-11-14T10:36:14","slug":"miriam-leitao-no-tunel-do-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/miriam-leitao-no-tunel-do-tempo\/","title":{"rendered":"Miriam Leit\u00e3o: No Tunel do  Tempo"},"content":{"rendered":"<p><em>Reproduzo aqui o artigo de Miriam Leit\u00e3o dispon\u00edvel do site de O Globo, em que compara o novo &#8220;desenvolvimentismo&#8221;\u00a0 estatal de agora com o dos tempos do governo militar. Deu certo antes?\u00a0 Vai dar certo agora?\u00a0 A resposta, nos dois casos, \u00e9 a mesma: n\u00e3o vai.<\/em><\/p>\n<p><strong>No Tunel do Tempo<\/strong><\/p>\n<p>Na crise, est\u00e1 crescendo um dos males econ\u00f4micos do qual tentamos nos livrar: a transfer\u00eancia de renda para cima. Como na ditadura, o caminho \u00e9 o mesmo: uso dos bancos estatais, dos subs\u00eddios, dos incentivos fiscais, da rolagem de d\u00edvidas, dos fundos de poupan\u00e7a p\u00fablica. A conversa \u00e9 a mesma: fortalecer as empresas nacionais. A leitura local da crise, de suas causas e rem\u00e9dios, reabilitar\u00e1 velhos h\u00e1bitos.<\/p>\n<p>O governo atual sempre acreditou na ideologia econ\u00f4mica do governo militar. A id\u00e9ia do crescimento liderado, dirigido, financiado e subsidiado pelo Estado sempre fez sentido para muitos deles. Como se o dinheiro p\u00fablico gasto sem controle n\u00e3o prenunciasse mais extors\u00e3o da sociedade, atrav\u00e9s de uma carga tribut\u00e1ria alta. Eles se definem com o simp\u00e1tico nome de \u201cdesenvolvimentistas\u201d, como se houvesse quem fosse contra o progresso. A quest\u00e3o sempre foi sobre a qualidade das escolhas para se chegar ao desenvolvimento.<\/p>\n<p>Rondam, de novo, a economia brasileira as famigeradas opera\u00e7\u00f5es-hospital do BNDES. O banco tem entrado de s\u00f3cio e dado dinheiro para empresas com conhecidas dificuldades. Um dos poss\u00edveis candidatos ao dinheiro do banco \u00e9 o Frigor\u00edfico Independ\u00eancia, que est\u00e1 em recupera\u00e7\u00e3o judicial e tem abatedouros em \u00e1reas de desmatamento. Os fundos p\u00fablicos t\u00eam sido usados para rolar as d\u00edvidas de setores que t\u00eam d\u00edvidas com a sociedade. Alguns setores escolhidos est\u00e3o tendo al\u00edvios fiscais que outros n\u00e3o t\u00eam.<\/p>\n<p>Tudo lembra o caminho feito na \u00e9poca do governo militar. No primeiro ano do regime, quando anunciaram o PAEG, o Plano de A\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica do Governo, os militares falaram em austeridade e cortaram gastos, mas deram aumentos salariais de 100% para os funcion\u00e1rios p\u00fablicos e de 120% para os pr\u00f3prios militares. A tese de, na escassez, primeiro os nossos gastos, data daquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>O crescimento que aconteceu depois dos primeiros anos de tentativa de equil\u00edbrio foi inflacionista e baseado em farta distribui\u00e7\u00e3o de recursos p\u00fablicos para cima, sem controle e sem contrapartida. \u201cO governo n\u00e3o hesitou em lan\u00e7ar m\u00e3o de um amplo esquema de subs\u00eddios e incentivos fiscais para promover setores e regi\u00f5es espec\u00edficas, que passaram a fazer parte da pol\u00edtica industrial do governo\u201d, ensina Luiz Aranha Corr\u00eaa do Lago, no cap\u00edtulo que escreveu para o livro \u201cA Ordem do Progresso\u201d, organizado por Marcelo Paiva Abreu, da PUC do Rio de Janeiro. \u201cTodas as declara\u00e7\u00f5es em favor do desenvolvimento do setor privado e da livre opera\u00e7\u00e3o do mercado contrastavam com a prolifera\u00e7\u00e3o de incentivos, novos subs\u00eddios, isen\u00e7\u00f5es espec\u00edficas\u201d diz o texto.<\/p>\n<p>Tudo era feito para criar empresas fortes e forjar o Brasil grande, mas acabou criando apenas empresas dependentes do Estado. O governo se agigantou. O brasilianista Tom Trebat, da Universidade de Columbia, registrou em seus estudos que de 1968 a 1974 foram criadas 231 empresas estatais.<\/p>\n<p>Reli, durante a semana, textos sobre a hist\u00f3ria da pol\u00edtica econ\u00f4mica dos anos do regime militar para um evento pedido pela CBN. Eu teria que responder \u2014 num programa gravado e com p\u00fablico, na Livraria da Travessa \u2014, se os militares tinham acertado na economia. Apesar dos avan\u00e7os, como a cria\u00e7\u00e3o do Banco Central e investimentos em infraestrutura, minha convic\u00e7\u00e3o \u00e9 que o saldo daquele per\u00edodo \u00e9 negativo tamb\u00e9m na economia.<\/p>\n<p>A democracia herdou a armadilha inflacion\u00e1ria, a divida externa, o Estado agigantado, uma estrutura fiscal tosca, um pa\u00eds fechado, uma ind\u00fastria formada por monop\u00f3lios e cart\u00e9is e empres\u00e1rios viciados em estado. Anos foram gastos para desarmar alguns desses defeitos da economia. Outros ainda est\u00e3o entre n\u00f3s e crescem \u00e0 sombra, e com o pretexto, da crise atual. Depois da palestra, uma amiga me falou que, quando ouviu a descri\u00e7\u00e3o do gigantismo do Estado e da distribui\u00e7\u00e3o de favores a empresas, pensou: \u201cn\u00e3o mudou muito n\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Houve uma lenta constru\u00e7\u00e3o de alguns princ\u00edpios e institui\u00e7\u00f5es que deram um pouco mais de transpar\u00eancia ao gasto do dinheiro p\u00fablico. O Banco Central deixou de ser banco de fomento para ser apenas autoridade monet\u00e1ria. A sangria de dinheiro p\u00fablico pelos bancos estaduais foi estancada. As sider\u00fargicas deixaram de ser estatais e, portanto, pararam de subsidiar com mat\u00e9ria prima barata grandes empresas e multinacionais. Foram fechados alguns monstros engolidores de dinheiro do contribuinte, tipo a Siderbr\u00e1s. Acabaram monop\u00f3lios, como o das telecomunica\u00e7\u00f5es. O pa\u00eds foi, aos poucos, entrando numa nova l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Muito entulho do estatismo ficou. Muita gente no governo, com poder de decis\u00e3o, acredita neste ide\u00e1rio de fortalecer a \u201cburguesia nacional\u201d, fazer um Brasil grande pela m\u00e3o forte do Estado, criar estatais ou rever privatiza\u00e7\u00f5es, salvar empresas mesmo que tenham quebrado por m\u00e1 gest\u00e3o. Agora, eles ouvem do primeiro-ministro brit\u00e2nico, Gordon Brown, que infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais problema, que agora \u00e9 a era do expansionismo fiscal e monet\u00e1rio, que os governos devem fazer tudo o que for poss\u00edvel contra crise. Entendem isso como um sinal de que o mundo se curva, afinal, a eles. Que agora h\u00e1 uma licen\u00e7a global para gastar, que a ideia estatista sempre esteve certa. Esse \u00e9 o risco do momento. O governo n\u00e3o est\u00e1 entendendo nossas limita\u00e7\u00f5es e pode aplicar, literalmente, um receitu\u00e1rio que vai nos levar ao regresso institucional e gerar a crise fiscal futura.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reproduzo aqui o artigo de Miriam Leit\u00e3o dispon\u00edvel do site de O Globo, em que compara o novo &#8220;desenvolvimentismo&#8221;\u00a0 estatal de agora com o dos tempos do governo militar. Deu certo antes?\u00a0 Vai dar certo agora?\u00a0 A resposta, nos dois casos, \u00e9 a mesma: n\u00e3o vai. 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