{"id":128,"date":"2007-02-12T16:23:00","date_gmt":"2007-02-12T19:23:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=128"},"modified":"2008-08-03T14:22:49","modified_gmt":"2008-08-03T17:22:49","slug":"claudio-moura-castro-o-saeb-e-as-ofensas-raciais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/claudio-moura-castro-o-saeb-e-as-ofensas-raciais\/","title":{"rendered":"Claudio Moura Castro: o SAEB e as ofensas raciais"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-style:italic;\">Cl\u00e1udio de Moura Castro escreveu a seguinte nota, com o t\u00edtulo de &#8220;Pena que meu livro de m\u00e9todo cient\u00edfico j\u00e1 tenha sido publicado!&#8221;<\/span><\/p>\n<p>Nos dias 8 e 9 de fevereiro o Estad\u00e3o publicou duas mat\u00e9rias sobre educa\u00e7\u00e3o. Se a publica\u00e7\u00e3o tivesse sido h\u00e1 um ano atr\u00e1s, ambas estariam inclu\u00eddas, como exemplos, na nova edi\u00e7\u00e3o do meu livro <span style=\"font-style:italic;\">A pr\u00e1tica da pesquisa<\/span> (Rocco). Infelizmente para o Estad\u00e3o, seriam exemplos de erros cl\u00e1ssicos na interpreta\u00e7\u00e3o de dados.<br \/>\n<span style=\"font-weight:bold;\"><br \/>\nO SAEB<\/span><\/p>\n<p>No dia 9, a mat\u00e9ria mostra uma queda nos escores do SAEB, desde 1995 at\u00e9 o presente.  V\u00e1rias tabelas indicam curvas decrescentes para as pontua\u00e7\u00f5es. Os gr\u00e1ficos parecem n\u00e3o deixar d\u00favidas quanto \u00e0 queda.<\/p>\n<p>Em 1954, Darrell Huff publicou um livro que virou um cl\u00e1ssico. H\u00e1 novas edi\u00e7\u00f5es \u00e0 venda e os cursos de estat\u00edstica aplicada ou m\u00e9todos de pesquisa o citam ou citam id\u00e9ias dele derivadas. O livro chama-se <span style=\"font-style:italic;\">How to lie with Statistics (Como mentir com estat\u00edsticas)<\/span>. Seu principal objetivo \u00e9 mostrar como s\u00e3o manipuladas as apresenta\u00e7\u00f5es gr\u00e1ficas das estat\u00edsticas, com o objetivo de demonstrar aos incautos a tese do autor, seja para dar a impress\u00e3o de grandes varia\u00e7\u00f5es, seja para minimiz\u00e1-las.<\/p>\n<p>Um dos principais truques \u00e9 manipular a escala dos eixos. Se usamos uma escala onde as varia\u00e7\u00f5es s\u00e3o medidas por dist\u00e2ncias pequenas, parece que houve pouca mudan\u00e7a. Se s\u00e3o medidas por espa\u00e7os grandes, parece que h\u00e1 altera\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas nos dados.<\/p>\n<p>No caso, as tabelas apresentadas amplificam as varia\u00e7\u00f5es observadas, mediante o estratagema de apresentar uma escala expandida no eixo vertical. \u00c9 f\u00e1cil desmascarar o truque, bastando notar que o rendimento zero n\u00e3o aparece na tabela. Na altura do eixo horizontal, a pontua\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 de 170. Se o eixo horizontal fosse deslocado para baixo, at\u00e9 chegar ao zero, a tabela se espicharia pela p\u00e1gina do jornal abaixo.<\/p>\n<p>Essa tabela gigantesca \u2013 ou uma outra menor com a mesma proporcionalidade \u2013 mostraria resultados bem diferentes. Uma queda de dez pontos no SAEB significa uma queda de apenas 5% na pontua\u00e7\u00e3o. E \u00e9 dessas ordens de varia\u00e7\u00f5es que estamos falando. Varia\u00e7\u00f5es de 5% est\u00e3o dentro das margens de erro, resultantes da imprecis\u00e3o dos testes e de seus mecanismos de comparabilidade. Ou seja, o SAEB n\u00e3o parece mostrar uma queda estatisticamente significativa.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight:bold;\">Ofensas racistas<br \/>\n<\/span><br \/>\nFomos tamb\u00e9m brindados com uma mat\u00e9ria mostrando como as \u2018ofensas racistas afetam o desempenho escolar\u2019. O artigo sumaria uma pesquisa da Unesco. Como leitor do jornal, temos o direito de julgar o que foi publicado. Se os erros porventura encontrados s\u00e3o da Unesco ou da resenha, n\u00e3o \u00e9 nosso problema.<\/p>\n<p>Em resumo, os seguintes argumentos foram apresentados.<\/p>\n<p>1. As crian\u00e7as negras s\u00e3o alvos de \u2018apelidos, coment\u00e1rios discriminat\u00f3rios e ofensas\u2019 nas escolas brasileiras. A mat\u00e9ria cita exemplos de tais situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>2. Como resultado, h\u00e1 uma diferen\u00e7a de pontua\u00e7\u00e3o entre brancos e negros nos testes escolares, com ampla desvantagem para os negros. Ou seja, a discrimina\u00e7\u00e3o causa preju\u00edzos nos resultados escolares dos negros.<\/p>\n<p>Os manuais de metodologia cient\u00edfica nos advertem contra o erro conhecido como <span style=\"font-style:italic;\">post hoc, ergo propter hoc<\/span> que significa simplesmente, \u2018se vem depois ter\u00e1 sido causado por\u2019. Como h\u00e1 racismo, este ser\u00e1 o culpado pelas diferen\u00e7as entre brancos e negros. O erro \u00e9 que associa\u00e7\u00f5es desse tipo n\u00e3o demonstram causa\u00e7\u00e3o. A causa pode estar em outras bandas.<\/p>\n<p>\u00c9 hipoteticamente poss\u00edvel que as ironias e ofensas possam levar a um desempenho inferior dos negros. Mas h\u00e1 que demonstrar que \u00e9 isso e n\u00e3o muitas outras poss\u00edveis causas. Como tal n\u00e3o foi feito, n\u00e3o ficou demonstrada a tese.<\/p>\n<p>Uma das poss\u00edveis hip\u00f3teses \u00e9 mencionada &#8211; e desprezada &#8211; no \u00faltimo par\u00e1grafo. Por tudo que sabemos, o mais forte determinante dos resultados escolares \u00e9 bastante bem capturado pela educa\u00e7\u00e3o dos pais. \u00c9 a qualidade da experi\u00eancia escolar pr\u00e9via, \u00e9 o \u2018capital intelectual\u2019 da fam\u00edlia e diversas outras vari\u00e1veis que militam para reduzir o rendimento acad\u00eamico dos pobres. Quando comparamos alunos cujos pais t\u00eam a mesma escolaridade, as diferen\u00e7as de pontua\u00e7\u00e3o entre brancos e negros diminuem enormemente. Isso porque, em m\u00e9dia, os pais dos alunos negros t\u00eam menos escolaridade do que os dos brancos. Portanto, grande parte das diferen\u00e7as de rendimento dos negros n\u00e3o s\u00e3o devidas ao tratamento que recebem dos colegas, mas do fato de serem pobres.<\/p>\n<p>Mas as diferen\u00e7as n\u00e3o desaparecem apenas controlando escolaridade dos pa\u00eds. O que sobra, bem menos, pode resultar dos apelidos e coment\u00e1rios. Pode tamb\u00e9m resultar de uma auto-imagem negativa, herdada dos pais ou de muitos outros fatores. Mas tamb\u00e9m pode resultar da nossa incapacidade estat\u00edstica para capturar toda a \u2018cultura da pobreza\u2019, devido \u00e0s imperfei\u00e7\u00f5es de medidas como educa\u00e7\u00e3o dos pais. Por exemplo, verificou-se nos Estados Unidos que quando controlamos n\u00e3o a escolaridade mas a pontua\u00e7\u00e3o dos pais em testes de rendimento escolar, as diferen\u00e7as entre ra\u00e7as desaparecem.<\/p>\n<p>Em outras palavras, a afirmativa de que \u2018ofensas racistas afetam o desempenho escolar\u2019 \u00e9 uma excelente manchete para uma mat\u00e9ria de jornal. Infelizmente, n\u00e3o \u00e9 uma afirmativa confirmada pela evid\u00eancia mostrada. Pelo contr\u00e1rio, h\u00e1 falhas graves na argumenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cl\u00e1udio de Moura Castro escreveu a seguinte nota, com o t\u00edtulo de &#8220;Pena que meu livro de m\u00e9todo cient\u00edfico j\u00e1 tenha sido publicado!&#8221; Nos dias 8 e 9 de fevereiro o Estad\u00e3o publicou duas mat\u00e9rias sobre educa\u00e7\u00e3o. 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