{"id":15,"date":"2005-03-12T06:34:00","date_gmt":"2005-03-12T09:34:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=15"},"modified":"2008-08-03T13:06:41","modified_gmt":"2008-08-03T16:06:41","slug":"o-que-disseram-os-outros-cientistas-estrangeiros-o-modelo-economico-e-o-ensino-superior-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-que-disseram-os-outros-cientistas-estrangeiros-o-modelo-economico-e-o-ensino-superior-brasileiro\/","title":{"rendered":"O que disseram os outros: cientistas, estrangeiros, o modelo econ\u00f4mico e o ensino superior brasileiro"},"content":{"rendered":"<p>No debate de <span style=\"font-style: italic;\">O Globo<\/span> de 10 de mar\u00e7o, chamou muito aten\u00e7\u00e3o a advert\u00eancia feita pelo reitor da UFRJ, Alo\u00edsio Teixeira, ao Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, de que o governo n\u00e3o deveria deixar que os cientistas assumissem o controle das comiss\u00f5es de avalia\u00e7\u00e3o dos planos de desenvolvimento das universidades, como est\u00e1 sendo proposto pela Academia de Ci\u00eancias e pela SBPC. Cientistas, disse ele, s\u00e3o bons para fazer ci\u00eancia, mas n\u00e3o para definir as pol\u00edticas de ensino superior (os termos podem n\u00e3o ter sido estes, mas este foi o sentido).<\/p>\n<p>Me parece que, em parte, ele tem raz\u00e3o; os cientistas t\u00eam muita dificuldade em entender e aceitar que, nos modernos sistemas de educa\u00e7\u00e3o superior de massas, a pesquisa ocupa um nicho importante, mas existem outras coisas, como a forma\u00e7\u00e3o profissional, a forma\u00e7\u00e3o geral, e a forma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, no qual eles t\u00eam pouco a contribuir diretamente; e que existem muitas institui\u00e7\u00f5es &#8211; na verdade a grande maioria &#8211; dedicadas exclusivamente ao ensino em suas diversas formas. A imposi\u00e7\u00e3o de crit\u00e9rios cient\u00edficos como \u00fanica m\u00e9trica para a avaliar institui\u00e7\u00f5es e programas de ensino leva a distor\u00e7\u00f5es graves, como por exemplo a dificuldade que o Brasil tem tido de cria\u00e7\u00e3o de mestrados profissionais, e as altas taxas de reprova\u00e7\u00e3o de muitos cursos das universidades p\u00fablicas e privadas.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o fica claro \u00e9 quem o reitor acha que deveria exercer o poder sobre as universidades e os sistemas de avalia\u00e7\u00e3o, no lugar dos cientistas. Dada a hist\u00f3ria conhecida da UFRJ, parece claro que ele tenderia a preferir a \u201ccomunidade universit\u00e1ria\u201d, representada pelos sindicatos de docentes, funcion\u00e1rios e associa\u00e7\u00f5es de estudantes, uma perspectiva coerente com a demanda pela ger\u00eancia colegiada das institui\u00e7\u00f5es e elei\u00e7\u00e3o direta dos reitores, que o projeto do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o acolhe. Existe hoje uma ampla literatura sobre a \u201cprofiss\u00e3o acad\u00eamica\u201d e seu papel na regula\u00e7\u00e3o e controle dos sistemas educacionais \u2013 que, justamente com o Estado e o Mercado, comp\u00f5em o famoso \u201cTri\u00e2ngulo de Clark\u201d. Mas esta \u201cprofiss\u00e3o acad\u00eamica\u201d \u00e9 algo muito complexo, e inclui desde os cientistas e pesquisadores at\u00e9 professores ocasionais e pessoas sem maior forma\u00e7\u00e3o. A experi\u00eancia internacional mostra que os sistemas de ensino superior mais bem sucedidos s\u00e3o aqueles que procuram combinar as virtudes dos tr\u00eas vetores deste tri\u00e2ngulo \u2013 a vitalidade do setor privado, a regula\u00e7\u00e3o do governo, e os valores, conhecimento e envolvimento institucional da comunidade acad\u00eamica, da qual os cientistas s\u00e3o parte integrante e fundamental, embora n\u00e3o \u00fanica. Qualquer tentativa de concentrar o poder em um destes v\u00e9rtices, \u00e0s expensas dos outros, gera problemas.<\/p>\n<p>Das muitas coisas ditas por Gustavo Petta, presidente da UNE, destaco duas. Primeiro, sua ardorosa defesa da cl\u00e1usula do projeto do governo que impede o controle de estrangeiros em institui\u00e7\u00f5es de ensino lucrativas. Ele v\u00ea nestas empresas uma amea\u00e7a \u00e0 nossa cultura, e uma porta aberta para a liberaliza\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio de servi\u00e7os educacionais que est\u00e1 sendo proposta por alguns pa\u00edses \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Com\u00e9rcio, e que poderia destruir nossas institui\u00e7\u00f5es educacionais. Eu penso que o segundo perigo \u00e9 remoto, porque o ponto principal destas propostas, pelo que eu entendo, seria dar \u00e0s institui\u00e7\u00f5es estrangeiras as mesmas regras de funcionamento que s\u00e3o dadas \u00e0s institui\u00e7\u00f5es nacionais. Quanto ao primeiro perigo, tudo depende de que cultura queremos \u2013 uma cultura fechada e provinciana, tipo \u201cporque me ufano de meu Brasil\u201d, ou uma cultura aberta \u00e0s id\u00e9ias, influ\u00eancias e conhecimentos que v\u00eam de todas as partes. De qualquer maneira, n\u00e3o h\u00e1 de ser esta cl\u00e1usula que vai impedir que pessoas brasileiras continuem indo estudar no exterior, que cursos por Internet se desenvolvam sem respeitar barreiras geogr\u00e1ficas e regula\u00e7\u00f5es ministeriais, e que nossas melhores institui\u00e7\u00f5es de ensino e pesquisa procurem emular as melhores do mundo. Se tivermos um ensino superior p\u00fablico e privado de boa qualidade, empresas educacionais estrangeiras s\u00f3 podem ser benvindas, e n\u00e3o amea\u00e7ar\u00e3o ningu\u00e9m. Se n\u00e3o tivermos, a\u00ed mesmo \u00e9 que elas se tornam indispens\u00e1veis.<\/p>\n<p>A segunda coisa dita pelo Presidente da UNE, com a qual eu concordo, \u00e9 que a atual proposta de reforma do ensino superior do MEC \u00e9 incompat\u00edvel com a pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo Lula, baseada at\u00e9 aqui no equil\u00edbrio or\u00e7ament\u00e1rio, no respeito aos gastos p\u00fablicos e na abertura do pa\u00eds aos capitais e ao fluxo internacional de conhecimentos e tecnologias.<\/p>\n<p>Da apresenta\u00e7\u00e3o de Paulo Alc\u00e2ntara Gomes, reitor da Universidade Castelo Branco, me parece importante recuperar a id\u00e9ia de que o que deveria preocupar n\u00e3o \u00e9 se uma institui\u00e7\u00e3o \u00e9 p\u00fablica ou privada, e sim se ela tem ou n\u00e3o tem qualidade. Ningu\u00e9m discordou, mas n\u00e3o houve tempo para explorar o que isto significaria na pr\u00e1tica, em termos de organiza\u00e7\u00e3o do financiamento da educa\u00e7\u00e3o superior brasileira em todos os seus aspectos.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No debate de O Globo de 10 de mar\u00e7o, chamou muito aten\u00e7\u00e3o a advert\u00eancia feita pelo reitor da UFRJ, Alo\u00edsio Teixeira, ao Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, de que o governo n\u00e3o deveria deixar que os cientistas assumissem o controle das comiss\u00f5es de avalia\u00e7\u00e3o dos planos de desenvolvimento das universidades, como est\u00e1 sendo proposto pela Academia de &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-que-disseram-os-outros-cientistas-estrangeiros-o-modelo-economico-e-o-ensino-superior-brasileiro\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;O que disseram os outros: cientistas, estrangeiros, o modelo econ\u00f4mico e o ensino superior brasileiro&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[16,11],"tags":[],"class_list":["post-15","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ciencia-e-tecnologia","category-educacao-superior"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":373,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15\/revisions\/373"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}