{"id":156,"date":"2007-06-12T19:45:00","date_gmt":"2007-06-12T22:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=156"},"modified":"2008-08-03T12:51:59","modified_gmt":"2008-08-03T15:51:59","slug":"historia-geografia-e-ciencias-sociais-nas-escolas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/historia-geografia-e-ciencias-sociais-nas-escolas\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria, geografia e ci\u00eancias sociais nas escolas."},"content":{"rendered":"<p>Procurado pela reporter da <span style=\"font-style: italic;\">Veja<\/span>, conversei longamente sobre a quest\u00e3o do ensino das ci\u00eancias sociais das escolas brasileiras.  O que saiu, em uma reportagem sobre as queixas de uma m\u00e3e sobre os livros adotados pelo Sistema COC de  Ensino, foi eu dizendo que &#8220;as crian\u00e7as n\u00e3o aprendem mais o nome dos rios ou as datas relevantes da hist\u00f3ria da humanidade. Elas est\u00e3o tendo contato com uma ci\u00eancia social superficial, marcada pela cr\u00edtica marxista vulgar&#8221;.  Espantada, a professora de geografia Zilda Rodrigues me escreve:<\/p>\n<p><span style=\"font-style: italic;\">Dito por um soci\u00f3logo, numa revista que atinge aos mais variados segmentos sociais e intelectuais, deixa-nos, professores de Geografia, numa situa\u00e7\u00e3o, no m\u00ednimo, constrangedora. Afinal, o que se espera de n\u00f3s? Uma Geografia puramente descritiva de paisagem ou uma Geografia anal\u00edtica e cr\u00edtica da paisagem? O conhecimento geogr\u00e1fico \u00e9 apol\u00edtico?<\/span><br \/>\n<span style=\"font-style: italic;\">Certamente, com todo o respeito e admira\u00e7\u00e3o que tenho por suas id\u00e9ias \u2013 sou leitora de v\u00e1rios artigos seus, dos livros \u201cPobreza, exclus\u00e3o social e modernidade: uma introdu\u00e7\u00e3o ao mundo contempor\u00e2neo\u201d &#8211; excelente, ali\u00e1s e j\u00e1 indiquei a v\u00e1rios colegas; \u201cAs causas da pobreza\u201d, que tamb\u00e9m sempre indico; tal afirma\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ter sido descontextualizada, uma vez que, n\u00e3o se pode esperar uma escola cidad\u00e3, repetindo amontoados de nomes, fatos e datas que serviriam apenas como \u201cdecorebas\u201d. Isso remete-nos a uma \u00e9poca de \u201cobscuridade\u201d das ci\u00eancias humanas.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-style: italic;\">N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que h\u00e1 vasto material did\u00e1tico \u201cmarcado pela cr\u00edtica marxista vulgar\u201d, bem como \u00e9 urgente maior rigor das editoras na divulga\u00e7\u00e3o desse material. Mas da\u00ed a defender uma hist\u00f3ria e geografia que exaltem nomes e datas, h\u00e1 uma dist\u00e2ncia muito grande. Assim compreendemos(mal?) eu e  v\u00e1rios leitores, com quem c\u00e7a,onversei, a maioria deles professores, claro!&#8230;Considerando que nossa opini\u00e3o n\u00e3o tenha grande peso, como tem a sua, n\u00e3o caberia, portanto, \u00e0 revista esclarecer melhor tal coloca\u00e7\u00e3o?<\/span><br \/>\n<span style=\"font-style: italic;\">Lembrando Paulo Freire, que ainda continua guiando meus passos \u201cAi daqueles e daquelas que, em lugar de visitar de vez em quando o amanh\u00e3, o futuro, pelo profundo engajamento com o hoje, com o aqui e com o agora, se atrelem a um passado, de explora\u00e7\u00e3o e de rotina.\u201d; refletindo sobre o desafio de que \u201c&#8230;Para que a pobreza seja vencida, \u00e9 necess\u00e1rio vontade pol\u00edtica e compromisso com os valores da igualdade social e dos direitos humanos; uma pol\u00edtica econ\u00f4mica adequada, que gere recursos; um setor p\u00fablico eficiente, competente respons\u00e1vel no uso dos recursos que recebe da sociedade; e pol\u00edticas espec\u00edficas na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade, do trabalho, da prote\u00e7\u00e3o \u00e0 inf\u00e2ncia, e do combate \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o social, e outras. Tudo isto \u00e9 f\u00e1cil de dizer, e dific\u00edlimo de fazer. A constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade competente, respons\u00e1vel, comprometida os valores de equidade de justi\u00e7a social, e que n\u00e3o caia na tenta\u00e7\u00e3o f\u00e1cil do populismo e do messianismo pol\u00edtico, \u00e9 uma tarefa de longo prazo, e que pode n\u00e3o chegar a bom termo. Mas n\u00e3o h\u00e1 outro caminho a seguir, a n\u00e3o ser este.\u201d<\/span><br \/>\n<span style=\"font-style: italic;\"> Creio tratar-se de um lament\u00e1vel equ\u00edvoco&#8230; Afinal, que papel cabe a n\u00f3s, professores, na constru\u00e7\u00e3o dessa sociedade? <\/span><\/p>\n<p>O que tratei de explicar para a reporter foi que, no passado, o ensino da hist\u00f3ria nas escolas se limitava quase que \u00e0 narra\u00e7\u00e3o de uma cronologia de reis e batalhas, que os alunos tinham que decorar. Este tipo de hist\u00f3ria, que corresponde ao que os ingleses chamam de \u201cWhig history\u201d, e que poder\u00edamos traduzir para \u201chist\u00f3ria de salto alto\u201d, interpretava o passado como uma marcha acendente da civiliza\u00e7\u00e3o at\u00e9 o presente, moldada pelos grandes feitos dos pol\u00edticos. Eu lembrei que, ao final dos anos 30, na Fran\u00e7a, surgiu uma nova maneira de ver a hist\u00f3ria, como processos de longo prazo, que deveriam ser entendidos com o aux\u00edlio das diversas ci\u00eancias sociais. Esta nova hist\u00f3ria, conhecida como a da \u201c Escola dos Annales\u201d, e representada por autores como Marc Bloch, Lucien Febre, e, depois, Fernand Braudel, teve muitos desdobramentos, e hoje a historiografia \u00e9 muito diversficada, cobrindo desde a hist\u00f3ria pol\u00edtica mais tradicional at\u00e9 a hist\u00f3ria econ\u00f4mica, hist\u00f3ria social, hist\u00f3ria das mentalidades e hist\u00f3ria da cultura, entre outros.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 como transformar esta hist\u00f3ria mais aberta e cheia de especializa\u00e7\u00f5es em um curriculo escolar. Um bom curso de hist\u00f3ria, me parece, deve dar o contexto e a interpreta\u00e7\u00e3o dos grandes processos sociais, mas deve tamb\u00e9m dar aos estudantes um marco de refer\u00eancia clara, um \u201cmapa\u201d dos principais eventos que fazem parte de nossa mem\u00f3ria hist\u00f3rica, do per\u00edodo cl\u00e1ssico at\u00e9 a hist\u00f3ria mais recente \u2013 o que foram a civiliza\u00e7\u00e3o do Egito, o Imp\u00e9rio Romano, a Idade M\u00e9dia, a revolu\u00e7\u00e3o industrial, o per\u00edodo das descobertas, os imp\u00e9rios coloniais, a guerra fria\u2026 N\u00e3o h\u00e1 como fazer isto sem nomes de pa\u00edses, de personalidades e  datas relevantes.<\/p>\n<p>Na geografia, o problema \u00e9 parecido.  Mais talvez do que a  hist\u00f3ria, o que era antigamente geografia est\u00e1 hoje dividido entre muitas disciplinas diferentes \u2013 cartografia,  geoci\u00eancias, bot\u00e2nica,  economia regional, demografia, sociologia urbana e  sociologia rural, entre outras. Os franceses, sobretudo, com sua excelente tradi\u00e7\u00e3o de ensino, desenvolveram uma geografia para as escolas que procura ser uma s\u00edntese did\u00e1tica de tudo isto, com um forte elemento descritivo \u2013 \u00e9 a\u00ed aonde os alunos aprendem como s\u00e3o os continentes, os pa\u00edses, as principais forma\u00e7\u00f5es naturais, os sistemas pol\u00edticos e econ\u00f4micos, como o territ\u00f3rio \u00e9 ocupado pelo homem \u2013 e, claro, quais s\u00e3o os principais rios, e a import\u00e2ncia que t\u00eam.<\/p>\n<p>A substitui\u00e7\u00e3o dos antigos cursos de hist\u00f3ria e geografia pelas ci\u00eancias ou \u201cestudos sociais&#8221;, feita com a boa inten\u00e7\u00e3o de acabar com a memoriza\u00e7\u00e3o sem sentido de datas, nomes e acidentes geogr\u00e1ficos,  redunda muitas vezes na transmiss\u00e3o de interpreta\u00e7\u00f5es extremamente simplistas e ideologicamente carregadas da hist\u00f3ria e da atualidade, vazias de conte\u00fado, que n\u00e3o contribuem em nada para a boa forma\u00e7\u00e3o dos estudantes.<\/p>\n<p>Eu concordo com a professora Zilda e com Paulo Freire que devemos olhar para o futuro, buscar melhorar nossas sociedades, valorizar e garantir os direitos humanos, etc. Quem poderia pensar diferente? Mas a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 esta, e sim decidir o que ensinar nas escolas. E a\u00ed minha inspira\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 Paulo Freire, que pregava a jun\u00e7\u00e3o entre educa\u00e7\u00e3o e \u201cconscientiza\u00e7\u00e3o\u201d, ou doutrina\u00e7\u00e3o,  mas Max Weber e seus textos famosos sobre a ci\u00eancia e a pol\u00edtica como voca\u00e7\u00e3o. A responsabilidade do professor, que trabalha do lado da ci\u00eancia, \u00e9 de formar os estudantes para que eles possam entender o mundo em que vivem e suas diferentes interpreta\u00e7\u00f5es, e tomar suas pr\u00f3prias decis\u00f5es. \u00c9 uma viol\u00eancia, eticamente inaceit\u00e1vel, aproveitar da posi\u00e7\u00e3o de professor para inculcar nos alunos uma vis\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o particular a respeito do passado, do presente e do que deveria ser o futuro.  O pol\u00edtico \u00e9 diferente, sua voca\u00e7\u00e3o \u00e9 defender seus pontos de vista, e tratar de destruir os argumentos dos advers\u00e1rios. Todos n\u00f3s somos, em alguma medida, pol\u00edticos, porque temos nossos pontos de vista, mas nossa obriga\u00e7\u00e3o, enquanto professores, \u00e9 n\u00e3o for\u00e7\u00e1-los sobre os alunos. A melhor contribui\u00e7\u00e3o que os professores podem dar para a constru\u00e7\u00e3o de um futuro melhor, me parece, n\u00e3o \u00e9 conquistando os alunos para suas ideologias, mas dando a eles os fatos, e tamb\u00e9m as diferentes interpreta\u00e7\u00f5es e pontos de vista, que lhes permitam exercitar, plenamente, sua cidadania.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Procurado pela reporter da Veja, conversei longamente sobre a quest\u00e3o do ensino das ci\u00eancias sociais das escolas brasileiras. O que saiu, em uma reportagem sobre as queixas de uma m\u00e3e sobre os livros adotados pelo Sistema COC de Ensino, foi eu dizendo que &#8220;as crian\u00e7as n\u00e3o aprendem mais o nome dos rios ou as datas &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/historia-geografia-e-ciencias-sociais-nas-escolas\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Hist\u00f3ria, geografia e ci\u00eancias sociais nas escolas.&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[26,7],"tags":[],"class_list":["post-156","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ciencias-sociais","category-educacao-basica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/156","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=156"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/156\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":348,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/156\/revisions\/348"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=156"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=156"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=156"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}