{"id":1598,"date":"2010-03-17T21:55:56","date_gmt":"2010-03-18T00:55:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=1598"},"modified":"2019-02-28T20:23:48","modified_gmt":"2019-02-28T23:23:48","slug":"da-politica-que-sai-do-ministerio-a-educacao-que-entra-nas-salas-de-aulaue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/da-politica-que-sai-do-ministerio-a-educacao-que-entra-nas-salas-de-aulaue\/","title":{"rendered":"Da pol\u00edtica que sai do Minist\u00e9rio \u00e0  educa\u00e7\u00e3o que entra nas salas de aula"},"content":{"rendered":"<p><em>Sob este t\u00edtulo, a revista<\/em><em> REP Educa\u00e7\u00e3o e Terceiro Setor<\/em><em> publicou uma entrevista minha que transcrevo abaixo, com pequenas corre\u00e7\u00f5es. Eu n\u00e3o diria algumas das coisas abaixo da forma em que foram captadas pelo entrevistador, mas, de forma geral, acho que a entrevista resume bastante bem as coisas que penso.<\/em><\/p>\n<p><strong>Da pol\u00edtica que sai do Minist\u00e9rio \u00e0 \u00a0educa\u00e7\u00e3o que entra nas salas de aula<\/strong><\/p>\n<p><strong>por Gustavo da Silva Barbosa <\/strong><\/p>\n<p><strong>Entrevista publicada na revista REP Educa\u00e7\u00e3o e Terceiro Setor (ISSN 1984-6231, Ano 23, n\u00b0 270, fevereiro de 2010)<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\">O sistema educacional do Brasil sofre com problemas s\u00e9rios de falta de investimento, baixa capacita\u00e7\u00e3o profissional, repet\u00eancia e abandono escolar. O analfabetismo tamb\u00e9m \u00e9 um agravante. Em janeiro, a UNESCO lan\u00e7ou o Relat\u00f3rio de Monitoramento Global de Educa\u00e7\u00e3o para Todos 2010. Um dos dados publicados \u00e9 que a m\u00e9dia anual de repet\u00eancia no ensino b\u00e1sico \u00e9 de 2,9%. O Brasil, por sua vez, teve um \u00edndice muito superior: 18,7%. Isso representa o pior desempenho de todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e esse cen\u00e1rio demonstra que pol\u00edticas p\u00fablicas de educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e3o sendo eficazes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\"><strong>Estamos em ano de elei\u00e7\u00e3o. Como voc\u00ea v\u00ea a educa\u00e7\u00e3o como bandeira a ser levantada pelos pol\u00edticos e por que acontece o fen\u00f4meno de educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o costumar render votos?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\">A aspira\u00e7\u00e3o que a maioria da popula\u00e7\u00e3o tem \u00e9 ir para a escola, mas para a\u00ed. A discuss\u00e3o n\u00e3o costuma ir al\u00e9m disso. O que o candidato pode fazer \u00e9 prometer mais. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds que tem uma cobertura quase total no ensino b\u00e1sico. J\u00e1 a educa\u00e7\u00e3o superior tem uma cobertura bem menor. Quando o assunto \u00e9 educa\u00e7\u00e3o, o debate gira mais em torno de o gasto p\u00fablico ser mais eficiente e melhorar a qualidade e a estrutura das escolas. Sendo assim, qualquer proposta mais s\u00e9ria acaba sendo impopular ou pouco interessante eleitoralmente. Os candidatos ent\u00e3o n\u00e3o costumam falar muito sobre isto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\"><strong>O Projeto de Lei 73\/99 prev\u00ea a inclus\u00e3o de alunos em universidades p\u00fablicas por meio de cotas sociais e raciais. Em fevereiro, o Senado retoma a discuss\u00e3o sobre o Estatuto da Igualdade Racial, um projeto em tramita\u00e7\u00e3o h\u00e1 mais de seis anos. Um dos pontos controversos do Estatuto \u00e9 a quest\u00e3o das cotas. De que forma voc\u00ea analisa esses mais de dez anos de indefini\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\">Os problemas da educa\u00e7\u00e3o superior no Brasil n\u00e3o passam pela pol\u00edtica de cotas, mas sim pela inefici\u00eancia do sistema educacional. Passa pela incapacidade de as universidades atenderem de maneira adequada as pessoas que v\u00eam com uma forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e m\u00e9dia de m\u00e1 qualidade. Diante disso, n\u00e3o acho que a cota seja um assunto de relev\u00e2ncia a n\u00edvel de pol\u00edtica educacional. A cota virou um assunto muito politizado mas n\u00e3o acredito que ela toque os problemas fundamentais da educa\u00e7\u00e3o. Na verdade, ela acaba distraindo a aten\u00e7\u00e3o que deveria estar sendo dispensada \u00e0s falhas nos n\u00edveis b\u00e1sico e m\u00e9dio, sobretudo nas escolas p\u00fablicas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\"><strong>Qual \u00e9 a sua avalia\u00e7\u00e3o do novo Enem? Voc\u00ea acredita que as altera\u00e7\u00f5es feitas foram eficazes?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\">\u00c9 interessante essa ideia de ter uma prova nacional bem feita, que sirva como refer\u00eancia para a educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dia e que as universidades podem utilizar como instrumento para selecionar os alunos. Nesse sentido, o novo Enem \u00e9 melhor que o modelo anterior. Um dos aspectos que as universidades deveriam prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o focar no resultado geral da prova, pois ela avalia conte\u00fados de diversas \u00e1reas do conhecimento. Um curso de matem\u00e1tica ou engenharia, por exemplo, deve dar prefer\u00eancia aos estudantes com melhor desempenho nas disciplinas que fazem parte das ci\u00eancias exatas, e dar menos peso ao resultado que esse candidato teve na \u00e1rea de humanas, e vice-versa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\"><strong>O Enade faz parte do SINAES &#8211; Sistema Nacional de Avalia\u00e7\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o Superior. O sistema foi criado pela Lei n\u00b0 10.861, de 14 de abril de 2004, e \u00e9 formado por tr\u00eas componentes: avalia\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es, dos cursos e dos estudantes. Voc\u00ea acha o Enade uma ferramenta adequada para analisar a qualidade do ensino superior? Quais boas pr\u00e1ticas de avalia\u00e7\u00e3o voc\u00ea apontaria como alternativa?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\">O sistema de avalia\u00e7\u00e3o de desempenho de alunos ao terminar o ensino superior \u00e9 uma inova\u00e7\u00e3o que permite identificar cursos mais problem\u00e1ticos e envolve todas as \u00e1reas no processo de discuss\u00e3o sobre os conte\u00fados que os alunos t\u00eam que aprender. Por\u00e9m, tenho a impress\u00e3o que o Enade acabou ficando pior que o antigo Prov\u00e3o, pois tentou combinar avalia\u00e7\u00e3o de alunos que entram com os que est\u00e3o saindo da universidade, e n\u00e3o o fez bem e introduziu uma prova de conhecimentos gerais que n\u00e3o faz sentido. Al\u00e9m disso, h\u00e1 falhas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma que o MEC faz o c\u00e1lculo dos \u00edndices. Em v\u00e1rios pa\u00edses, pr\u00e1ticas de avalia\u00e7\u00e3o externa funcionam bem. Os EUA, por exemplo, est\u00e3o divididos em sistemas de acredita\u00e7\u00e3o regionais que acompanham um n\u00famero limitado de universidades. No Brasil, uma boa pr\u00e1tica s\u00e3o as provas de certifica\u00e7\u00e3o profissional feitas independentemente das universidades, como \u00e9 o caso da do exame da Ordem dos Advogados. Isso acaba criando um padr\u00e3o para as universidades.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\"><strong>Em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo em que esteve \u00e0 frente do IBGE (de 1994 a 1998), voc\u00ea poderia destacar algum dado revelado pelo Instituto, na \u00e1rea educacional, que tenha despertado sua aten\u00e7\u00e3o de forma particular? Como ficou essa mesma quest\u00e3o nas \u00faltimas pesquisas?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\">As Pnads (Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios) realizadas durante minha gest\u00e3o no IBGE mostraram que a d\u00e9cada de 1990 foi o per\u00edodo em que o Brasil praticamente universalizou o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o fundamental. Foram feitos avan\u00e7os no ensino m\u00e9dio, que passa a ser predominantemente p\u00fablico. Parte dessa expans\u00e3o se d\u00e1 por conta da cria\u00e7\u00e3o de cursos noturnos, usando escolas j\u00e1 existentes para abrir vagas com aulas \u00e0 noite. Outro aspecto de destaque foram as pol\u00edticas estaduais de redu\u00e7\u00e3o da repet\u00eancia escolar. Alguns estados passaram a tomar fortes medidas nessa dire\u00e7\u00e3o. Tanto os dados do IBGE como os do MEC sinalizam que o problema da educa\u00e7\u00e3o fundamental deixou de ser de acesso e passou a ser de qualidade. Um dado do MEC que me assusta \u00e9 que, diferentemente dos anos 90, o ensino m\u00e9dio n\u00e3o est\u00e1 mais em expans\u00e3o. Nos \u00faltimos anos, ele vem inclusive diminuindo e isso \u00e9 preocupante, pois a cobertura do n\u00edvel m\u00e9dio no pa\u00eds ainda \u00e9 limitada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\"><strong>Como definir pol\u00edticas educacionais que atendam \u00e0 pluraridade de realidades do pa\u00eds, que deem conta da no\u00e7\u00e3o de unidade nacional, mas que tamb\u00e9m respeitem o regionalismo?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\">N\u00e3o podemos ter somente um modelo de escola ou de universidade para o pa\u00eds inteiro. Ao mesmo tempo, n\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel que o padr\u00e3o de qualidade da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica seja diferente nas diversas regi\u00f5es. \u00c9 claro que \u00e9 poss\u00edvel acrescentar ingredientes locais, mas isso \u00e9 um detalhe. O importante \u00e9 aprender portugu\u00eas, matem\u00e1tica, saber ler e pensar. Quando o assunto \u00e9 ensino superior, a t\u00f4nica muda. Temos um n\u00famero limitado de institui\u00e7\u00f5es que podem oferecer pesquisa e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de boa qualidade. A ideia de impor um mesmo modelo para o pa\u00eds inteiro acaba criando um enorme desperd\u00edcio de recursos, pois a maioria das institui\u00e7\u00f5es superiores, inclusive p\u00fablicas, \u00e9 focada em ensino e n\u00e3o em pesquisa. S\u00e3o necess\u00e1rias pol\u00edticas que sejam adequadas a essa realidade. Os recursos devem estar concentrados nas \u00e1reas em que eles devem realmente desenvolver e isso muda de caso em caso dependendo do perfil e da atua\u00e7\u00e3o de cada institui\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\"><strong>O Bolsa Fam\u00edlia \u00e9 um programa de transfer\u00eancia direta de renda com condicionalidades, que beneficia fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de pobreza (com renda mensal por pessoa de R$ 70 a R$ 140) e extrema pobreza (com renda mensal por pessoa de at\u00e9 R$ 70), de acordo com a Lei 10.836, de 09 de janeiro de 2004 e o Decreto n\u00ba 5.209, de 17 de setembro de 2004. O Governo Federal promete que em 2010 o n\u00famero de lares beneficiados ser\u00e1 de 12,9 milh\u00f5es (dados do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Social e Combate \u00e0 Fome). Qual \u00e9 a sua avalia\u00e7\u00e3o da efic\u00e1cia e da trajet\u00f3ria do Bolsa Fam\u00edlia, que em janeiro acabou de comemorar 6 anos?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\">O Bolsa Fam\u00edlia \u00e9 importante \u00a0para a popula\u00e7\u00e3o rural de baixa renda. O programa ajuda a dar uma condi\u00e7\u00e3o de vida melhor para essas pessoas. \u00c9 claro que ele n\u00e3o resolve o problema em si. Mas enquanto isso n\u00e3o acontece, o fato de o Governo oferecer um m\u00ednimo de recursos para esse contingente \u00e9 uma maneira de redistribuir renda. O Brasil tem uma tradi\u00e7\u00e3o de ser eficaz na redistribui\u00e7\u00e3o de renda em favor de classes m\u00e9dias e altas. N\u00e3o se costuma reclamar muito das aposentadorias p\u00fablicas destinadas \u00e0s classes mais abastadas, por exemplo. O bolsa familia faz redistribui\u00e7\u00e3o em favor dos mais pobres, que \u00e9 socialmente mais justo.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\"><strong>H\u00e1 aproximadamente 14 milh\u00f5es de analfabetos plenos no Brasil. O Movimento Todos pela Educa\u00e7\u00e3o tem como meta para 2022 fazer com que toda crian\u00e7a saiba ler e escrever at\u00e9 os 8 anos de idade. Voc\u00ea \u00e9 otimista em rela\u00e7\u00e3o a esse objetivo?<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Dados do IBGE apontam que a maior parte dos analfabetos plenos no Brasil \u00e9 composta por idosos, e n\u00e3o por crian\u00e7as e jovens. Boa parte desses dois \u00faltimos grupos sabe ler e escrever. Em contrapartida, n\u00e3o h\u00e1 muito o que ser feito com essa popula\u00e7\u00e3o envelhecida que est\u00e1 concentrada no interior das regi\u00f5es Norte e Nordeste. Eles n\u00e3o aprenderam a ler quando eram jovens e nunca pegaram um livro. Os esfor\u00e7os devem estar concentrados em quem est\u00e1 entrando na escola. A preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 fazer com que essas crian\u00e7as n\u00e3o se tornem analfabetos funcionais. Quando crian\u00e7as entre 8 e 10 anos de idade s\u00e3o testadas para avaliar se conseguem ler rapidamente um texto e entender o que leram, encontramos um grande n\u00famero de analfabetos funcionais. A meta do Todos por Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 resolver o cen\u00e1rio problem\u00e1tico do analfabetismo funcional dessas crian\u00e7as. Isso \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel, com o uso de pedagogias adequadas.<\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\"><strong>De que forma voc\u00ea analisa os avan\u00e7os da tecnologia sendo apropriados pelos educadores e sendo utilizados como ferramenta para o aprendizado?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\">H\u00e1 um consenso entre os especialistas de que isso n\u00e3o faz tanta diferen\u00e7a. Quando o professor tem equipamentos tecnol\u00f3gicos para dar suporte a sua did\u00e1tica &#8211; e sabe us\u00e1-los adequadamente -, esses instrumentos podem ajudar. Foi atribu\u00edda \u00e0 tecnologia uma esperan\u00e7a de que ela fosse resolver os problemas da qualidade da educa\u00e7\u00e3o. S\u00f3 se resolve isso com um bom professor dentro de sala de aula. Esse profissional tem que ser bem preparado, ter um bom material de apoio e uma metodologia de ensino consistente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\"><strong>Voc\u00ea critica a \u00eanfase na indissolubilidade do ensino, da pesquisa e da extens\u00e3o e que essa \u00e9 uma concep\u00e7\u00e3o de universidade que j\u00e1 deixou de existir. Como voc\u00ea tem acompanhado as institui\u00e7\u00f5es brasileiras que v\u00eam cada vez mais se especializando? Isso est\u00e1 acontecendo no Brasil ou ainda \u00e9 incipiente?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\"><strong><span style=\"font-weight: normal;\">A \u00a0pesquisa est\u00e1 concentrada em universidades como USP, Unicamp, algumas federais e \u00a0cat\u00f3licas do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Quando o MEC estabelece normas de como as institui\u00e7\u00f5es de ensino devem ser, ele tende a dizer que todo mundo tem que ser igual e a avaliar a todos sob o mesmo crit\u00e9rio. Hoje, no entanto, mais de 75% dos estudantes brasileiros no ensino superior est\u00e3o nas institui\u00e7\u00f5es particulares que n\u00e3o fazem pesquisa, ou em insitui\u00e7\u00f5es estaduais e federais que tampouco o fazem. N\u00e3o h\u00e1 uma pol\u00edtica que claramente tome isso como fato e leve em considera\u00e7\u00e3o como \u00e9 oneroso manter um sistema em que, por exemplo, o professor da universidade p\u00fablica recebe um sal\u00e1rio alto para atender a um n\u00famero baixo de alunos e fazer pesquisas que acabam n\u00e3o accontecendo.<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\"><strong>Voc\u00ea tamb\u00e9m critica a universidade p\u00fablica gratuita. Como voc\u00ea acredita que a cobran\u00e7a deveria ser sistematizada?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\">Se compararmos a renda de quem tem forma\u00e7\u00e3o superior com quem n\u00e3o tem, \u00e9 poss\u00edvel perceber que o benef\u00edcio do primeiro grupo \u00e9 bem maior. Independentemente da classe social da pessoa, uma vez que ela consegue entrar no sistema e completar o ensino superior, h\u00e1 uma valoriza\u00e7\u00e3o desse profissional no mercado de trabalho. Sendo assim, esse ganho deveria ser devolvido para a sociedade. N\u00e3o h\u00e1 por que a sociedade financiar esse privil\u00e9gio. No Chile, por exemplo, n\u00e3o existe educa\u00e7\u00e3o gratuita. Nos Estados Unidos todo mundo paga tamb\u00e9m. S\u00f3 alguns pa\u00edses europeus montaram um sistema gratuito e continuam mantendo esse modelo, mas a maioria j\u00e1 est\u00e1 saindo dele. \u00a0Depois que a pessoa se forma e \u00e9 absorvida pelo mercado de trabalho, ela come\u00e7a a pagar o empr\u00e9stimo. Outro exemplo: h\u00e1 uma falta de m\u00e9dicos no interior do pa\u00eds. Diante disso, o governo pode abonar a d\u00edvida de pessoas que querem fazer medicina nestas \u00e1reas. \u00c9 claro que n\u00e3o estou falando de negar educa\u00e7\u00e3o para quem n\u00e3o pode pagar. Isso \u00e9 inadimissivel. \u00c9 preciso garantir o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o para todos e isso pode ser combinado com um sistema de cr\u00e9ditos educativos, empr\u00e9stimos e bolsas. Nos Estados Unidos, as fam\u00edlias poupam desde cedo para que o filho possa entrar na universidade quando ele fizer 18 anos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\"><strong>No Brasil, 31,4% dos 5,9 milh\u00f5es de estudantes de gradua\u00e7\u00e3o t\u00eam renda familiar entre um e cinco sal\u00e1rios m\u00ednimos. Esse n\u00famero est\u00e1 associado a pol\u00edticas de cotas, ao ProUni e tamb\u00e9m de universidades destinadas \u00e0s classes C e D que cobram mensalidades baixas. Em 2009, o caso Uniban aqueceu a discuss\u00e3o sobre os pr\u00f3s e contras da dissemina\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 universidade para p\u00fablicos menos abastados. Qual \u00e9 a sua opini\u00e3o a respeito dessa expans\u00e3o do ensino superior?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\">\u00c9 bem-vinda, pois est\u00e1 criando oportunidade para pessoas que muitas vezes s\u00e3o as primeiras em suas fam\u00edlias a frequentar uma universidade. Tanto a expans\u00e3o do setor privado como o ProUni e o programa federal REUNI s\u00e3o iniciativas que buscam aumentar a taxa de acesso ao ensino superior, que ainda \u00e9 muito baixa. Entretanto, o problema recai novamente na quest\u00e3o da qualidade do ensino nessas institui\u00e7\u00f5es. Nos Estados Unidos, boa parte da popula\u00e7\u00e3o vai para as Community Colleges, que t\u00eam cursos que duram dois anos e ajudam essas pessoas a entrar no mercado de trabalho. No Brasil, o setor de ensino tecnol\u00f3gico \u00e9 pequeno. Muitos cursos de universidades particulares s\u00e3o fracos e os alunos n\u00e3o aprendem: eles estudam para simplesmente fazer as provas. Alunos de direito, por exemplo, quando se formam, acabam n\u00e3o passando no exame da OAB. O panorama que temos \u00e9 de um sistema que est\u00e1 admitindo muita gente, mas que n\u00e3o est\u00e1 se organizando para atender a essa popula\u00e7\u00e3o de acordo com as caracter\u00edsticas dela. O ideal \u00e9 que o ensino tecnol\u00f3gico fosse mais expressivo e que fosse preparado conte\u00fado adequado para a popula\u00e7\u00e3o que est\u00e1 entrando nas universidades.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\"><strong>Em dezembro de 2009 foi lan\u00e7ado &#8220;Pol\u00edticas Educacionais e Coes\u00e3o Social: Uma agenda latinoamericana&#8221; (Editora Campus). Voc\u00ea e o soci\u00f3logo Cristi\u00e1n Cox organizaram a edi\u00e7\u00e3o desse livro, que traz trabalhos de diversos autores. Que discuss\u00f5es o livro apresenta?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\">O livro partiu de dois projetos feitos em parceria entre o Instituto Fernando Henrique Cardoso e a CIEPLAN &#8211; Corporaci\u00f3n de Estudios para Latinoam\u00e9rica, do Chile. O primeiro \u00e9 chamado &#8220;Uma nova agenda para o desenvolvimento da Am\u00e9rica Latina&#8221; e outro se chama &#8220;Coes\u00e3o social na Am\u00e9rica Latina&#8221;. Cada um resultou numa s\u00e9rie de publica\u00e7\u00f5es. Os dois projetos tinham uma \u00e1rea voltada para educa\u00e7\u00e3o. Eu coordenei os trabalhos de pol\u00edticas educacionais e Cristi\u00e1n Cox trabalhou na parte de coes\u00e3o social. Juntamos isso e fizemos o livro. Na parte que coordenei s\u00e3o tratados aspectos como financiamento, controle de qualidade e organiza\u00e7\u00e3o do sistema educativo. J\u00e1 a parte de coes\u00e3o aborda o que a educa\u00e7\u00e3o transmite em termos de princ\u00edpios e sentimentos. Na hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o de pa\u00edses europeus e alguns da Am\u00e9rica Latina \u00e9 poss\u00edvel identificar a preocupa\u00e7\u00e3o em formar cidad\u00e3os. As institui\u00e7\u00f5es tinham conte\u00fados voltados para quest\u00f5es nacionais, valores e cidadania. O que temos hoje no Brasil s\u00e3o escolas com programas que discutem assuntos locais, voltados para comunidades regionais, ou ent\u00e3o com \u00eanfase no global. A ideia de Estado nacional est\u00e1 um pouco abandonada. O livro analisa esse cen\u00e1rio e apresenta formas de a educa\u00e7\u00e3o oferecer valores junto com conhecimento cient\u00edfico.<\/span><\/p>\n<p><em> <\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal;\"><em> <\/em><\/span><\/p>\n<p><em> <\/em><\/p>\n<p style=\"display: inline !important;\">\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sob este t\u00edtulo, a revista REP Educa\u00e7\u00e3o e Terceiro Setor publicou uma entrevista minha que transcrevo abaixo, com pequenas corre\u00e7\u00f5es. Eu n\u00e3o diria algumas das coisas abaixo da forma em que foram captadas pelo entrevistador, mas, de forma geral, acho que a entrevista resume bastante bem as coisas que penso. Da pol\u00edtica que sai do &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/da-politica-que-sai-do-ministerio-a-educacao-que-entra-nas-salas-de-aulaue\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Da pol\u00edtica que sai do Minist\u00e9rio \u00e0  educa\u00e7\u00e3o que entra nas salas de aula&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[22],"tags":[],"class_list":["post-1598","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1598","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1598"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1598\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6250,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1598\/revisions\/6250"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1598"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1598"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1598"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}