{"id":1623,"date":"2010-03-24T17:41:42","date_gmt":"2010-03-24T20:41:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=1623"},"modified":"2010-07-02T16:13:07","modified_gmt":"2010-07-02T19:13:07","slug":"adalberto-cardoso-o-presente-e-o-futuro-do-iuperj","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/adalberto-cardoso-o-presente-e-o-futuro-do-iuperj\/","title":{"rendered":"Adalberto Cardoso: O presente e o futuro do IUPERJ"},"content":{"rendered":"<p><em>Escreve Adalberto Cardoso, professor do IUPERJ, a respeito de minha postagem anterior (transcrevo a mensagem, e comento logo abaixo):<\/em><\/p>\n<p><strong>A carta<\/strong>:<br \/>\nPrezado Simon,<\/p>\n<p>Li com aten\u00e7\u00e3o seu artigo. Acho que voc\u00ea n\u00e3o tem acompanhado o que temos feito, o que torna parte de seu julgamento injusto, por mal informado. Por isso gostaria de esclarecer alguns pontos sobre nosso presente e o que esperamos do futuro.<\/p>\n<p>O IUPERJ \u00e9 um centro de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o com cerca de 200 alunos. Formamos perto de 300 doutores e 500 mestres, muitos deles hoje lotados em centros de pesquisa aplicada, como o IPEA (a prop\u00f3sito, um de nossos doutorandos tirou o primeiro lugar no mais recente concurso do IPEA, e tr\u00eas outros doutores foram aprovados), a Fiocruz, o ISER, o seu IETS, o CEBRAP, o CEDEPLAR\u2026 Promotores p\u00fablicos, procuradores da Rep\u00fablica e ju\u00edzes de v\u00e1rios ramos do direito t\u00eam sido qualificados por n\u00f3s. E quarenta e cinco por cento de nossos doutores s\u00e3o, hoje, professores de universidades p\u00fablicas. Um quarto est\u00e1 em centros de pesquisa p\u00fablicos e privados. Em nossos 11 n\u00facleos de pesquisa, consolidados nos \u00faltimos dez anos, realizamos pesquisa b\u00e1sica e pesquisa aplicada, alimentamos bancos de dados de v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es e estamos conectados com n\u00facleos de pesquisa em v\u00e1rias partes do mundo. E tudo isso, como voc\u00ea lembra em seu texto, feito sem cobrar anuidades aos alunos.<\/p>\n<p>O IUPERJ, ao voltar-se para a academia e dedicar-se principalmente \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de quadros de alto n\u00edvel (para dentro e para fora dela), fez uma op\u00e7\u00e3o pelo p\u00fablico. Prestamos um servi\u00e7o p\u00fablico, embora tenhamos sido financiados, com exce\u00e7\u00e3o do pequeno interregno sustentado pela FINEP, por institui\u00e7\u00f5es privadas, a principal delas a Sociedade Brasileira de Instru\u00e7\u00e3o, mantenedora da Universidade Candido Mendes.<\/p>\n<p>A voca\u00e7\u00e3o p\u00fablica de nossa atividade, consolidada nos \u00faltimos vinte anos (posteriormente, pois, \u00e0 sua sa\u00edda da institui\u00e7\u00e3o), embora voc\u00ea n\u00e3o o aponte, ganhou reconhecimento dos pares. Temos um programa 7 em sociologia (h\u00e1 apenas outros 2 no Brasil, USP e IFCS) e um programa 6 em ci\u00eancia pol\u00edtica (h\u00e1 apenas mais um no Brasil, a USP). Isto \u00e9, essa institui\u00e7\u00e3o financiada com recursos privados, sustenta programas de excel\u00eancia que s\u00f3 t\u00eam equivalentes nas duas maiores universidades p\u00fablicas do pa\u00eds, cujos or\u00e7amentos s\u00e3o dezenas de vezes superiores ao nosso, com corpo docente 3 ou 4 vezes maior e corpo discente muito menor. Nenhum deles formou tantos doutores quanto o IUPERJ. Todos eles t\u00eam professores formados pelo IUPERJ.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 nosso passado. Isso \u00e9 o nosso presente, e pretendemos que seja nosso futuro.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o que voc\u00ea preconiza para o IUPERJ \u00e9 um clone da FGV, das raras empresas lucrativas de ensino e pesquisa do pa\u00eds: cobrar anuidades aos alunos, fazer pesquisa aplicada na \u00e1rea de pol\u00edticas p\u00fablicas ou voltadas para o mundo privado, e ministrar cursos de extens\u00e3o. Tudo isso sem abrir m\u00e3o da excel\u00eancia acad\u00eamica. N\u00e3o nos parece poss\u00edvel trilhar este caminho, porque ele implica abandonar nossa voca\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Somos um instituto pequeno, com 20 professores e 16 funcion\u00e1rios, inteiramente dedicados \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de nossos alunos. O que estamos propondo \u00e9 a constitui\u00e7\u00e3o de uma Organiza\u00e7\u00e3o Social (OS), n\u00e3o uma OSCIP, vinculada ao MCT. Portanto, voltada para a pesquisa. Uma OS estabelece metas em acordo com o gestor p\u00fablico, no caso necessariamente metas de pesquisa. Parte de nossas atividades se voltaria, justamente, para as pol\u00edticas p\u00fablicas (seu desenho e avalia\u00e7\u00e3o), porque n\u00e3o pode ser outra a voca\u00e7\u00e3o de uma OS ligada \u00e0 ci\u00eancia e tecnologia.<\/p>\n<p>Esse instituto pequeno, al\u00e9m de formar quadros de alto n\u00edvel, participa ativamente do debate p\u00fablico em nosso Estado e no pa\u00eds. As gera\u00e7\u00f5es que convivem no IUPERJ, parte das quais voc\u00ea n\u00e3o conhece, produzem conhecimento novo sobre nossas din\u00e2micas pol\u00edtica e social que \u00e9 refer\u00eancia no Brasil e no exterior. \u00c9 essa produ\u00e7\u00e3o que al\u00e7ou o IUPERJ \u00e0 posi\u00e7\u00e3o que hoje ocupa no sistema p\u00fablico de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no Brasil. \u00c9 o reconhecimento desse fato incontest\u00e1vel que nos move em dire\u00e7\u00e3o ao financiamento p\u00fablico de nossas atividades. Assim, poderemos finalmente exercer, sem as amarras que hoje nos prendem, a voca\u00e7\u00e3o p\u00fablica que nos move h\u00e1 pelo menos duas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Sugiro uma visita a nossa homepage e um passeio pelas atividades de nossos n\u00facleos de pesquisa.<\/p>\n<p>Um abra\u00e7o, Adalberto Cardoso Professor do IUPERJ<\/p>\n<p><strong>Meu coment\u00e1rio:<\/strong><\/p>\n<p>1 &#8211; a qualidade do trabalho do IUPERJ: o que eu disse \u00e9 que me parecia que o IUPERJ havia se rotinizado, e deixado de ter uma presen\u00e7a forte e de lideran\u00e7a no debate e interpreta\u00e7\u00e3o nas quest\u00f5es intelectuais e de pol\u00edtica p\u00fablica e social de maior relev\u00e2ncia, hoje ocupado predominantemente por economistas e alguns fil\u00f3sofos. Aldaberto pode ter raz\u00e3o, de fato eu n\u00e3o tenho acompanhado em detalhe os trabalhos dos diversos grupos de pesquisa do Instituto. Coloquei isto como algo a ser discutido, e meu principal argumento, no caso, \u00e9 que sei que outras pessoas compartem o mesmo sentimento.<\/p>\n<p>2 &#8211; OSCIP e Organiza\u00e7\u00f5es Sociais.\u00a0 V\u00e1rias pessoas me corrigiram, o que o IUPERJ pretende \u00e9 se transformar em uma OS, e n\u00e3o em uma OSCIP. As OSCIPs s\u00e3o organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais que, mediante o atendimento de certos crit\u00e9rios, como transpar\u00eancia, fins n\u00e3o lucrativos e finalidade de interesse social, obt\u00eam certas vantagens fiscais e maior facilidade para celebrar conv\u00eanios com \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos. As Organiza\u00e7\u00f5es Sociais s\u00e3o organiza\u00e7\u00f5es controladas pelo governo que, junto com representantes da sociedade, det\u00eam maioria de seu conselho diretor, e trabalham para o governo desempenhando atividades de interesse p\u00fablico mediante contratos de gest\u00e3o. Diferente das universidades, as Organiza\u00e7\u00f5es Sociais n\u00e3o t\u00eam autonomia, e esta foi uma figura jur\u00eddica criada para reinstituir as funda\u00e7\u00f5es de direito p\u00fablico que foram inviabilizadas pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988.\u00a0 Se o IUPERJ se transformar em uma organiza\u00e7\u00e3o social, ele vai se constituir em um \u00f3rg\u00e3o de execu\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de governo, e perder sua independ\u00eancia.<\/p>\n<p>3 &#8211; Gratuidade.\u00a0 N\u00e3o vejo nenhum m\u00e9rito, ao contr\u00e1rio, no fato de o IUPERJ oferecer educa\u00e7\u00e3o superior subsidiada a pessoas que ocupam hoje posi\u00e7\u00f5es t\u00e3o importantes, prestigiadas e bem remuneradas como as que indica Adalberto. Esta aberra\u00e7\u00e3o, naturalmente, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 do IUPERJ, mas do ensino superior p\u00fablico brasileiro em geral, e particularmente dos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, que subsidiam a elite.\u00a0 O IUPERJ poderia muito bem cobrar, digamos, quinhentos reais mensais de cada um de seus duzentos alunos, o que j\u00e1 daria uma renda de cem mil reais por m\u00eas, combinando a cobran\u00e7a com um sistema de cr\u00e9ditos educativos e patroc\u00ednios diversos para os que n\u00e3o possam pagar no momento.<\/p>\n<p>4 &#8211; Pesquisas aplicadas, atividades de extens\u00e3o e trabalho acad\u00eamico. Eu n\u00e3o acredito, e tem uma vasta literatura que mostra isto, que estas coisas s\u00e3o excludentes. Institui\u00e7\u00f5es de excel\u00eancia desempenham pap\u00e9is m\u00faltiplos, uns alimentam os outros, tanto intelectual quanto financeiramente. Ao contr\u00e1rio, institui\u00e7\u00f5es que se encerram nas torres de marfim acad\u00eamicas correm o risco de se perder nas formalidades dos rituais acad\u00eamicos &#8211; publica\u00e7\u00f5es, congressos, t\u00edtulos &#8211; sem no entanto produzir conhecimentos e id\u00e9ias que a sociedade est\u00e1 disposta a pagar\u00a0 e usar.<\/p>\n<p>5 &#8211; Subs\u00eddio p\u00fablico para institui\u00e7\u00f5es privadas.\u00a0 Eu acredito que, na medida em que uma institui\u00e7\u00e3o privada produz bens de interesse p\u00fablico, ela deveria ser apoiada com recursos p\u00fablicos na propor\u00e7\u00e3o destes bens produzidos, desde que garantidos os princ\u00edpios da equidade social. O atual sistema de p\u00f3s-gadua\u00e7\u00e3o no Brasil tem o grave defeito de s\u00f3 apoiar, praticamente, instituic\u00f5es p\u00fablicas, cujos sal\u00e1rios s\u00e3o pagos diretamente pelo governo, e em muitos casos a qualidade destes cursos e programas \u00e9 bastante prec\u00e1ria.\u00a0 Institui\u00e7\u00f5es privadas como o IUPERJ, Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, PUC do Rio de Janeiro, IBMEC e outras que desenvolvem cursos de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-graduac\u00e3o de qualidade deveriam ter acesso a fundos p\u00fablicos adequados, para os quais pudessem competir,\u00a0 que cobrissem pelo menos parte de seus custos de pessoal e operacionais.\u00a0 Mas eu vejo muitas vantagens no fato de que este apoio seja apenas parcial, e que as institui\u00e7\u00f5es devam tamb\u00e9m buscar na sociedade mais ampla as fontes de apoio que as estimulem a cuidar, permanentemente, de seus padr\u00f5es de qualidade e relev\u00e2ncia.<\/p>\n<table cellspacing=\"0\">\n<tbody id=\"the-comment-list\">\n<tr id=\"comment-756\">\n<td><\/td>\n<td><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escreve Adalberto Cardoso, professor do IUPERJ, a respeito de minha postagem anterior (transcrevo a mensagem, e comento logo abaixo): A carta: Prezado Simon, Li com aten\u00e7\u00e3o seu artigo. Acho que voc\u00ea n\u00e3o tem acompanhado o que temos feito, o que torna parte de seu julgamento injusto, por mal informado. Por isso gostaria de esclarecer alguns &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/adalberto-cardoso-o-presente-e-o-futuro-do-iuperj\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Adalberto Cardoso: O presente e o futuro do IUPERJ&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16,26],"tags":[],"class_list":["post-1623","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ciencia-e-tecnologia","category-ciencias-sociais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1623","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1623"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1623\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1728,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1623\/revisions\/1728"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1623"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1623"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1623"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}