{"id":177,"date":"2007-10-14T10:30:00","date_gmt":"2007-10-14T13:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=177"},"modified":"2008-08-03T10:21:31","modified_gmt":"2008-08-03T13:21:31","slug":"merval-pereira-o-mal-estar-na-america-latina-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/merval-pereira-o-mal-estar-na-america-latina-2\/","title":{"rendered":"Merval Pereira: O mal-estar na Am\u00e9rica Latina (2)"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-style: italic;\">O jornal <span style=\"font-weight: bold;\">O Globo<\/span> publica no domingo, 14 de outubro, a segunda parte de seu artigo a prop\u00f3sito da pesquisa de Coes\u00e3o Social:<\/span><\/p>\n<p>Apesar de ter apontado a democracia como a melhor forma de governo, uma ampla pesquisa sobre coes\u00e3o social na Am\u00e9rica Latina, que integra o projeto \u201cBases para uma Agenda de Coes\u00e3o Social em Democracia na Am\u00e9rica Latina\u201d, financiado com recursos da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia, mostra que h\u00e1 diferen\u00e7as entre concep\u00e7\u00f5es e valores. A pesquisa foi realizada pelo Instituto Fernando Henrique Cardoso, em conjunto com a Universidade Cat\u00f3lica do Chile e a Corporaci\u00f3n de Estudios para Latinoam\u00e9rica, tamb\u00e9m chileno, com amostra de dez mil pessoas, em seis pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina: Argentina, Guatemala, Brasil, Chile, M\u00e9xico, Col\u00f4mbia e Peru. Os valores democr\u00e1ticos s\u00e3o mais fortes na Argentina e Brasil, e menores na Col\u00f4mbia, Chile e Guatemala. O que as pessoas entendem por democracia, no entanto, pode variar muito de pessoa a pessoa e de pa\u00eds a pa\u00eds.<\/p>\n<p>Muitas pessoas valorizam a democracia, mas n\u00e3o entendem que ela sup\u00f5e a garantia dos direitos individuais de todas as pessoas que fazem parte dela, ressalt ao soci\u00f3logo Simon Schwartzman,  do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), que atuou na pesquisa. No Brasil e no Chile, metade dos entrevistados n\u00e3o cr\u00ea que os criminosos t\u00eam os mesmos direitos que as pessoas honestas. A principal queixa \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edcia, considerada ruim ou p\u00e9ssima por 30 a 40% da popula\u00e7\u00e3o, exceto no Chile.<\/p>\n<p>No Brasil, a maior queixa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edcia ocorre no Rio de Janeiro, enquanto que em S\u00e3o Paulo a queixa maior \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s escolas p\u00fablicas. A popula\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses pesquisados vive insegura. Nas casas, durante o dia, 16% das pessoas se sentem inseguras; o centro das cidades \u00e9 praticamente inacess\u00edvel, com uma sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a pr\u00f3xima de 80%. Os n\u00edveis de vitimiza\u00e7\u00e3o, ou seja, roubos e assaltos efetivamente sofridos, chegam a ser surpreendentemente altos em pa\u00edses como a Argentina e Chile, cujas capitais t\u00eam uma longa tradi\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a. A pesquisa mostra que os bairros est\u00e3o deteriorados, com a propriedade privada amea\u00e7ada e riscos de viol\u00eancia, roubos, assaltos e a presen\u00e7a de tr\u00e1fico de drogas.<\/p>\n<p>No Brasil, a cidade que aparece como mais insegura \u00e9 Porto Alegre, acima dos n\u00edveis do Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo e Salvador. Um n\u00famero significativo de respondentes, 15%, acredita que se justifica ter arma de fogo em casa para se defender. Comparado com outros pa\u00edses, o Brasil, e mais especialmente a cidade de S\u00e3o Paulo, \u00e9 onde as pessoas s\u00e3o menos favor\u00e1veis \u00e0s armas de fogo; Porto Alegre, por outro lado, se aproxima dos demais pa\u00edses da regi\u00e3o, aonde a aprova\u00e7\u00e3o da posse de arma de fogo varia entre 30 e 40%.<\/p>\n<p>O expresidente Fernando Henrique Cardoso identifica, em entrevista recente \u00e0 rede de televis\u00e3o inglesa BBC, que existe um mal-estar difuso na sociedade devido aos p\u00e9ssimos servi\u00e7os prestados pelo governo, \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 tens\u00e3o pol\u00edtica \u2014 o que impediria um novo consenso nacional que proporcione maior coes\u00e3o social.<\/p>\n<p>Alguns trechos de um artigo de Joaquim Villalobos, consultor para conflitos internacionais e ex-comandante guerrilheiro em El Salvador, publicado no jornal \u201cClar\u00edn\u201d, da Argentina, ajudam a entender esse \u201cmalestar\u201d na regi\u00e3o. Na Am\u00e9rica Latina, escreve ele, \u201cenfrentamos o que alguns qualificam como guerra civil continental contra o crime organizado, as quadrilhas urbanas, a delinq\u00fc\u00eancia comum e a viol\u00eancia social. A produ\u00e7\u00e3o e o tr\u00e1fico de drogas est\u00e3o ligados \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o cosmopolita, mas, em nossos pa\u00edses, geram fragmenta\u00e7\u00e3o social. Esse fen\u00f4meno supera em extens\u00e3o as rebeli\u00f5es pol\u00edticas que existiram durante a Guerra Fria, e, em propor\u00e7\u00f5es diferentes, afeta todos os pa\u00edses\u201d.<\/p>\n<p>Com o cen\u00e1rio descrito, numa cr\u00edtica \u00e0 atua\u00e7\u00e3o de certos setores da esquerda na Am\u00e9rica Latina, Villalobos diz que \u201cincentivar sistematicamente a viol\u00eancia de rua e deslegitimar as institui\u00e7\u00f5es das democracias emergentes \u00e9 multiplicar a impunidade e a inseguran\u00e7a. A generaliza\u00e7\u00e3o da desordem ajuda os grupos criminosos e coloca a demanda por seguran\u00e7a acima das demandas sociais. Isto abre caminho para os autoritarismos\u201d.<\/p>\n<p>Como a popularidade de Lula continua alta, e a pesquisa reafirma o desprest\u00edgio das institui\u00e7\u00f5es junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, o soci\u00f3logo Simon Schwartzman cr\u00ea que temos a\u00ed um problema para a democracia \u201cporque \u00e9 essa combina\u00e7\u00e3o, exatamente, que d\u00e1 margem ao surgimento de governos unipessoais e autorit\u00e1rios, que passam por cima das institui\u00e7\u00f5es em nome de seu prest\u00edgio junto \u00e0s massas\u201d. A fraqueza dos partidos pol\u00edticos e do Congresso, como atualmente no Brasil, facilitaria o surgimento de l\u00edderes populistas, como j\u00e1 ocorre na Am\u00e9rica L atina. Schwartzman lembra que \u201cum Congresso fraco e desprestigiado \u00e9 uma presa f\u00e1cil de pol\u00edticos que possam propor seu fechamento, ou sua substitui\u00e7\u00e3o por uma assembl\u00e9ia constituinte, por exemplo, que possa criar as bases para um regime centralizado e autorit\u00e1rio\u201d. Como explicar o sentimento de esperan\u00e7as no futuro e des\u00e2nimo no presente, em especial no Brasil, onde a redu\u00e7\u00e3o da desigualdade est\u00e1 acontecendo e o n\u00edvel de vida das popula\u00e7\u00f5es mais pobres est\u00e1 melhorando ? Schwartzman tem uma vis\u00e3o nada otimista dessa realidade constatada pela EcosociAL: \u201cAs esperan\u00e7as se d\u00e3o no n\u00edvel da vida quotidiana das pessoas, enquanto o des\u00e2nimo \u00e9 sobretudo em rela\u00e7\u00e3o ao contexto mais amplo, os governos e as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Vale a pena notar que essas esperan\u00e7as, na verdade, s\u00e3o bastante irrealistas, porque, mesmo nos melhores cen\u00e1rios, dificilmente a popula\u00e7\u00e3o brasileira ter\u00e1 tanta mobilidade educacional e econ\u00f4mica quanto as pessoas esperam\u201d.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornal O Globo publica no domingo, 14 de outubro, a segunda parte de seu artigo a prop\u00f3sito da pesquisa de Coes\u00e3o Social: Apesar de ter apontado a democracia como a melhor forma de governo, uma ampla pesquisa sobre coes\u00e3o social na Am\u00e9rica Latina, que integra o projeto \u201cBases para uma Agenda de Coes\u00e3o Social &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/merval-pereira-o-mal-estar-na-america-latina-2\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Merval Pereira: O mal-estar na Am\u00e9rica Latina (2)&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24,21],"tags":[],"class_list":["post-177","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/177","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=177"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/177\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":323,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/177\/revisions\/323"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=177"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=177"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=177"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}