{"id":1783,"date":"2010-09-02T15:00:28","date_gmt":"2010-09-02T18:00:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=1783"},"modified":"2010-09-02T19:37:55","modified_gmt":"2010-09-02T22:37:55","slug":"lula-entre-roosevelt-e-peron","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/lula-entre-roosevelt-e-peron\/","title":{"rendered":"Lula: entre Roosevelt e Per\u00f3n"},"content":{"rendered":"<p>V\u00e1rios comentaristas tem feito compara\u00e7\u00f5es entre Lula e Roosevelt,\u00a0 mas existem tamb\u00e9m os que fazem paralelos com Per\u00f3n. Roosevelt, Per\u00f3n e Lula t\u00eam em comum ter aumentado os gastos do setor p\u00fablico, aumentado o papel do Estado na economia e introduzido\u00a0 pol\u00edticas de distribui\u00e7\u00e3o de renda,\u00a0 conquistando grande apoio popular. Para manter seu poder\u00a0 e levar \u00e0 frente suas pol\u00edticas, fizeram parcerias com setores aparentemente incompat\u00edveis:\u00a0 no caso de Roosevelt, com as oligarquias racistas do antigo Partido Democrata do Sul dos Estados Unidos; no caso de Per\u00f3n, com os militares, sindicatos e oligarquias regionais; e no caso de Lula, com os coron\u00e9is do Nordeste, os velhos pelegos\u00a0 e os pol\u00edticos fisiol\u00f3gicos do PMDB e pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>Os\u00a0 legados de Roosevelt e Per\u00f3n, no entanto, s\u00e3o muito distintos, tanto do ponto de vista econ\u00f4mico quanto pol\u00edtico. Roosevelt governa os Estados Unidos entre 1933 e 1945, e depois da guerra o pais entra em um per\u00edodo de grande expans\u00e3o econ\u00f4mica, enquanto que a Argentina, governada por Per\u00f3n entre 1943 e 1955, que at\u00e9 os anos trinta tinha um n\u00edvel de renda que se aproximava da Alemanha e da Fran\u00e7a, entra gradativamente em um processo de decad\u00eancia econ\u00f4mica e desorganiza\u00e7\u00e3o social que parece n\u00e3o ter fim. Na pol\u00edtica, os Estados Unidos mant\u00eam intacto, ao longo dos anos, o sistema partid\u00e1rio e as institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, enquanto que a Argentina v\u00ea sua ordem legal\u00a0 e institucional rompida por crises sucessivas.<\/p>\n<p>Como explicar estas diferen\u00e7as? No caso dos Estados Unidos, a interven\u00e7\u00e3o do Estado na economia, o aumento de impostos e dos gastos p\u00fablicos se deram pela prem\u00eancia da crise dos anos 30 e pela economia de guerra que lhe sucedeu. Em parte, foram a\u00e7\u00f5es irrevers\u00edveis. Terminada a guerra, os Estados Unidos n\u00e3o voltam aos baixos n\u00edveis de taxa\u00e7\u00e3o dos anos anteriores,\u00a0 nem rompem os v\u00ednculos econ\u00f4micos entre o governo e os setores da ind\u00fastria que participaram do esfor\u00e7o de guerra, e que continuaram se beneficiando de contratos com o governo durante a guerra fria \u2013 o\u00a0 chamado complexo industrial militar, criticado pelo presidente e general Eisenhower em 1961 .\u00a0 O sindicalismo, antes fortemente reprimido, encontra um espa\u00e7o leg\u00edtimo de atua\u00e7\u00e3o, e o embri\u00e3o do estado de bem estar social que havia sido esbo\u00e7ado nos anos 30 continua se expandindo, culminando com o projeto da Great Society de Lyndon Johnson.<\/p>\n<p>Roosevelt tinha grande popularidade, tanto pelo New Deal quanto pela lideran\u00e7a que exerceu durante a guerra, mas seu poder era limitado pela autonomia do judici\u00e1rio e do Congresso, o sistema bipartid\u00e1rio n\u00e3o foi amea\u00e7ado, os impostos se mantiveram contidos e a d\u00edvida p\u00fablica, que havia atingido n\u00edveis alt\u00edssimos com a guerra, cai sistematicamente at\u00e9 os tempos de Bush e Reagan. Apesar das pol\u00edticas de expans\u00e3o de gastos em seu governo, Roosevelt tinha tamb\u00e9m um lado claramente conservador do ponto de vista fiscal, que tentou colocar em pr\u00e1tica ao final dos anos 30 . O que deu impulso \u00e0 economia americana, e permitiu a forma\u00e7\u00e3o da grande classe media naquele pais, foi sem d\u00favida a economia de mercado, fortalecendo o argumento daqueles que consideravam, e ainda consideram, o per\u00edodo de Roosevelt como uma exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No caso da Argentina, o que predominou no ap\u00f3s guerra foi uma pol\u00edtica de fechamento da economia, que fez com que o pais deixasse de aproveitar do fato de ser um dos grandes produtores agr\u00edcolas do mundo para fazer crescer a economia como um todo, como aconteceu, por exemplo, na Austr\u00e1lia.\u00a0 Eis como um autor resume o que ocorreu:<\/p>\n<p>&#8220;O governo de Per\u00f3n, que tinha sido eleito com o voto popular, levou \u00e0 frente uma grande redistribui\u00e7\u00e3o da renda nacional que beneficiou, pelo menos no curto prazo, setores da sociedade com menor renda. Ele criou os fundamentos de um poderoso estado de bem estar social, controlado pelo governo e os sindicatos, e ampliou ainda mais o poder do estado atrav\u00e9s de nacionaliza\u00e7\u00f5es e um alto grau de interven\u00e7\u00e3o do governo no com\u00e9rcio internacional e local, no sistema banc\u00e1rio e de seguros. O governo era apoiado sobretudo pelos militares, por uma burocracia estatal crescente, por alguns empres\u00e1rios locais, que se beneficiavam das pol\u00edticas protecionistas e do apoio do governo, e dos sindicatos, que eram patrocinados pelo governo e se transformaram nos principais benefici\u00e1rios de suas pol\u00edticas.\u00a0 Per\u00f3n gozava de grande apoio popular, ainda que os direitos individuais e as liberdades pol\u00edticas de seus oponentes nem sempre fossem respeitados, a imprensa fosse controlada, e as atividades pol\u00edticas da oposi\u00e7\u00e3o fosse reprimida\u201d\u00a0 (traduzido de Felipe A. M. De La Balze,. Remaking the Argentine Economy. New York: Council of Foreign Relations Press. 1995)<\/p>\n<p>Esta estrat\u00e9gia produziu bons resultados econ\u00f4micos no in\u00edcio,\u00a0 sobretudo para os setores mais protegidos, mas acabou redundando em uma economia com pouco potencial de crescimento. As ind\u00fastrias se desenvolveram a taxas razo\u00e1veis at\u00e9 os anos 60, e depois estagnaram. Os baixos investimentos em tecnologia e as pol\u00edticas fiscais e de c\u00e2mbio fizeram com que o setor agr\u00edcola n\u00e3o se desenvolvesse como deveria. Com a sa\u00edda de Per\u00f3n em 1955, o sistema pol\u00edtico argentino n\u00e3o consegue de estabilizar, e a Argentina perde cada vez mais o lugar que poderia ter tido. Entre 1950 e 1970, enquanto que a economia do mundo se expandia, e com ela o Brasil (uma das economias que mais cresceu, acima de 6% ao ano), a Argentina n\u00e3o foi al\u00e9m de\u00a0 2,1% ao ano.<\/p>\n<p>Duas outras caracter\u00edsticas negativas, tamb\u00e9m assinaladas por Balze, marcam o peronismo. A primeira \u00e9 que o pa\u00eds, sistematicamente, tomava decis\u00f5es erradas na pol\u00edtica internacional. O golpe de estado que levou Per\u00f3n ao poder tinha por objetivo manter a proximidade do pa\u00eds com as ditaduras do Eixo na segunda guerra. A paran\u00f3ia contra o imperialismo ingl\u00eas e americano fez com que a Argentina se recusasse por muitos anos a participar dos acordos do GATT, deixando de se beneficiar do fluxo de com\u00e9rcio e investimentos do per\u00edodo. Como diz Balze, \u201ca Argentina se voltou para o intervencionismo e protecionismo na \u00e1rea econ\u00f4mica e para o nacionalismo, o populismo e o militarismo na \u00e1rea pol\u00edtica \u2013 estrat\u00e9gias equivocadas em resposta ao novo ambiente da economia internacional.\u201d<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a crucial entre Roosevelt e Per\u00f3n, do ponto de vista econ\u00f4mico, parece ter sido que as pol\u00edticas intervencionistas de Roosevelt foram feitas e tiveram como resultado estimular a economia americana, enquanto que as pol\u00edticas peronistas serviram para isolar a Argentina da economia internacional e fazer com que o pais entrasse em um longo processo de decad\u00eancia econ\u00f4mica e desorganiza\u00e7\u00e3o institucional do qual at\u00e9 hoje n\u00e3o saiu .<\/p>\n<p>Um outro ponto assinalado por Balze \u00e9 que o tipo de pol\u00edtica desenvolvido por Per\u00f3n e os peronistas, de uso predat\u00f3rio do setor p\u00fablico em benef\u00edcio de seus aliados, fez com que a Argentina nunca tivesse desenvolvido institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas com a compet\u00eancia e a qualidade que seriam necess\u00e1rias para levar \u00e0 frente as pol\u00edticas intervencionistas que faziam e ainda fazem parte do discurso peronista. Do ponto de vista pol\u00edtico, Per\u00f3n criou o peronismo,\u00a0 que sufocou a oposi\u00e7\u00e3o na Argentina tanto \u00e0 direita quanto \u00e0 esquerda, enquanto que Roosevelt n\u00e3o criou um Rooseveltismo, embora tenha contribu\u00eddo para alterar as caracter\u00edsticas do Partido Democrata, que ficou mais identificado com as pol\u00edticas sociais, os sindicatos e o movimento de direitos civis do que o Partido Republicano.<\/p>\n<p>A crise econ\u00f4mica recente fez com que muitos, no Brasil, comemorassem o fim da economia de mercado e a vit\u00f3ria das pol\u00edticas de\u00a0 intervencionismo estatal representadas, aparentemente, por Roosevelt e Per\u00f3n.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Na verdade, o desenvolvimento do Jap\u00e3o e da Cor\u00e9ia nas \u00faltimas d\u00e9cadas j\u00e1 haviam servido para demonstrar que existe espa\u00e7o e pode ser importante, para os pa\u00edses,\u00a0 desenvolver pol\u00edtica industriais e de investimentos, da mesma maneira que o welfare state da Europa Ocidental j\u00e1 havia demonstrado que n\u00e3o existe oposi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria entre prote\u00e7\u00e3o social e desenvolvimento da economia.\u00a0 Mas todos os pa\u00edses que conseguiram se desenvolver, incluindo a China nos \u00faltimos anos, o fizeram pela combina\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas industriais com a abertura da economia e participa\u00e7\u00e3o intensa nos fluxos internacionais de com\u00e9rcio, finan\u00e7as e tecnologia, e n\u00e3o pelo isolamento e fechamento, nem pelo sufocamento do mercado por impostos excessivos e d\u00e9ficits p\u00fablicos crescentes. Estes pa\u00edses foram capazes, tamb\u00e9m, de investir fortemente na educa\u00e7\u00e3o de qualidade, e fortalecer e capacitar suas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas.<\/p>\n<p>O governo de Lula \u00e9 mais Roosevelt ou mais Per\u00f3n?\u00a0 Olhando a experi\u00eancia dos \u00faltimos anos, \u00e9 poss\u00edvel pensar que ele oscila entre os dois p\u00f3los. Beneficiado por um ciclo extremamente positivo do com\u00e9rcio internacional, o governo tem mantido a economia aberta e respeitado, embora com arranh\u00f5es,\u00a0 a ordem constitucional. A autonomia do Banco Central tem sido mantida, fortalecendo desta forma um lado de austeridade e equil\u00edbrio macroecon\u00f4mico que contrabalan\u00e7a o descontrole crescente dos gastos p\u00fablicos. Ao mesmo tempo vem se acentuando, sobretudo nos \u00faltimos anos, sua face peronista, comprometendo cada vez mais os or\u00e7amentos com gastos fixos, aparelhando a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e\u00a0 ampliando o capitalismo de estado, em parceria com grupos empresariais privilegiados. Embora ainda preservadas, as institui\u00e7\u00f5es se v\u00eam constantemente amea\u00e7adas pelo fantasma dos \u201cmovimentos sociais\u201d e do \u201ccontrole social\u201d, inclusive dos meios de comunica\u00e7\u00e3o.\u00a0 Existe um discurso populista que tenta contrapor os\u00a0 \u201cpobres\u201d \u00e0s \u201celites\u201d, reminiscente dos discursos de Per\u00f3n sobre os \u201cdescamisados\u201d.<\/p>\n<p>No discurso pol\u00edtico, predomina a id\u00e9ia de que tudo \u00e9 poss\u00edvel, n\u00e3o h\u00e1 limites, e que quaisquer restri\u00e7\u00f5es que se possa fazer \u00e0s pol\u00edticas do governo s\u00e3o meramente ideol\u00f3gicas. Este voluntarismo faz com que reformas institucionais importantes, como a reforma fiscal e do sistema previdenci\u00e1rio, n\u00e3o aquiram prioridade. Alguns setores no governo chegam a argumentar que o desenvolvimento da economia nos \u00faltimos se deve ao crescimento da interven\u00e7\u00e3o estatal, ao aumento dos gastos p\u00fablicos e \u00e0s pol\u00edticas de redistribui\u00e7\u00e3o de renda, assim como \u00e0 pol\u00edtica internacional terceiromundista e anti-norteamericana; eu tendo a crer, ao contr\u00e1rio, que \u00e9\u00a0 a relativa abertura da economia e o equil\u00edbrio macroecon\u00f4mico, obtidos sobretudo a partir das pol\u00edticas de Fernando Henrique Cardoso, mais os ventos favor\u00e1veis que v\u00eam da China, que t\u00eam permitido estas a\u00e7\u00f5es. Se estes bons ventos continuarem a soprar nos pr\u00f3ximos anos, esta ambig\u00fcidade pode continuar por muito tempo. Se as coisas se tornarem dif\u00edceis, ser\u00e1 o momento, ent\u00e3o, de o pais optar com mais clareza entre\u00a0 Roosevelt e Per\u00f3n.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>V\u00e1rios comentaristas tem feito compara\u00e7\u00f5es entre Lula e Roosevelt,\u00a0 mas existem tamb\u00e9m os que fazem paralelos com Per\u00f3n. Roosevelt, Per\u00f3n e Lula t\u00eam em comum ter aumentado os gastos do setor p\u00fablico, aumentado o papel do Estado na economia e introduzido\u00a0 pol\u00edticas de distribui\u00e7\u00e3o de renda,\u00a0 conquistando grande apoio popular. 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