{"id":18,"date":"2005-03-29T10:02:00","date_gmt":"2005-03-29T13:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=18"},"modified":"2009-07-13T09:16:26","modified_gmt":"2009-07-13T12:16:26","slug":"a-crise-da-saude-no-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/a-crise-da-saude-no-rio-de-janeiro\/","title":{"rendered":"A crise da saude no Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"<p>Sem ser um especialista no assunto, tenho tratado de acompanhar e entender a crise da sa\u00fade no Rio. Eis algumas id\u00e9ias, como hip\u00f3teses a serem pesquisadas.<\/p>\n<p>O que mais aparece \u00e9 o aspecto pol\u00edtico. O governo federal diz que o prefeito abandonou a sa\u00fade, e o prefeito diz que o governo federal n\u00e3o deu o dinheiro que prometeu. O governo estadual, que teria muito que ver com isto, nao diz nada, nem aparece. Neste n\u00edvel, o grande vitorioso \u00e9 o governo federal, atrav\u00e9s do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, e o grande perdedor \u00e9 o Prefeito. De um um lado, aparece um Minist\u00e9rio preocupado com os problemas da popula\u00e7\u00e3o, mobilizando m\u00e9dicos, convocando o Ex\u00e9rcito para abrir hospitais de campanha, trazendo medicamentos de avi\u00e3o, descobrindo materiais e equipamentos abandonados. De outro, um prefeito aparentemente insens\u00edvel, com um Secret\u00e1rio de Sa\u00fade com suas camisas e gravatas impec\u00e1veis, sem explicar direito \u00e0 popula\u00e7\u00e3o o que est\u00e1 ocorrendo, dizendo que o governo federal agiu bem em chamar o problema para si, e levantando firulas legais e administrativas que podem ser at\u00e9 justas, mas que a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o entende. \u00c9 dificil pensar em um exemplo melhor de tiro no p\u00e9, justamente quando o Prefeito ensaia seus primeiros passos para ir al\u00e9m da pol\u00edtica municipal, aparecendo na TV para falar de sua compet\u00eancia administrativa e dos jogos panamericanos. Algu\u00e9m acredita?<\/p>\n<p>Existem dois problemas de fundo que ningu\u00e9m est\u00e1 discutindo, um gerencial, outro financeiro.  Ser\u00e1 que o modelo de organiza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica brasileira, o Sistema Unificado de Sa\u00fade, o SUS, \u00e9 realmente o mais adequado?  A id\u00e9ia consiste em fazer com que a sa\u00fade seja gerida localmente, com a participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, e fazendo uso dos recursos municipais, estaduais e federais. Este sistema costuma ser elogiado como o melhor do mundo, mas existem suspeitas de que ele n\u00e3o passe de uma jaboticaba.  Pelo menos no caso do Rio, a brigalhada mostra que ele n\u00e3o funcionou. Talvez o problema seja que \u00e9 muito dificil, se n\u00e3o imposs\u00edvel, gerenciar um sistema de sa\u00fade complexo quando o gestor n\u00e3o tem controle sobre o conjunto, n\u00e3o sabe que recursos que vai receber, e tem que passar todo o tempo costurando consensos. Em um artigo recente, Bresser Pereira diz que o problema \u00e9 que os hospitais no Rio s\u00e3o reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, quando o melhor seria se eles estivessem estruturados como organiza\u00e7\u00f5es sociais de direito privado, como ocorre em S\u00e3o Paulo, onde este tipo de problema n\u00e3o ocorre. Pode ser. N\u00e3o creio, em todo caso, que isto tenha a ver diretamente com o sistema do SUS, que seria compat\u00edvel com ambos os formatos. No caso do Rio de Janeiro, seria interessante saber como ser\u00e1 a organiza\u00e7\u00e3o, a ger\u00eancia e o financiamento da sa\u00fade p\u00fablica da cidade, depois de passado este momento de mobiliza\u00e7\u00e3o, em que os recursos parecem ser infinitos.<\/p>\n<p>Por detr\u00e1s dos problemas organizacionais est\u00e1 a quest\u00e3o dos custos. A legisla\u00e7\u00e3o brasileira, que o SUS deve implementar, parte do princ\u00edpio de que todos t\u00eam direito ao atendimento  m\u00e9dico gratuito, a ser pago com recursos p\u00fablicos. Ocorre que esta conta n\u00e3o fecha, e tende a ficar cada vez mais desequilibrada. Na medida em que a medicina avan\u00e7a e a popula\u00e7\u00e3o vive mais, os custos do atendimento \u00e0 sa\u00fade aumentam. O resultado \u00e9 que a press\u00e3o sobre os servi\u00e7os p\u00fablicos aumenta cada vez mais,  estourando em crises como a do Rio de Janeiro, e afastando os que conseguem pagar, que buscam a medicina privada.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata, simplesmente, de uma oposi\u00e7\u00e3o entre medicina privada e medicina p\u00fablica, nem entre medicina preventiva e medicina curativa.  Hospitais p\u00fablicos tamb\u00e9m precisam de equipamentos caros, manuten\u00e7\u00e3o dispendiosa, pesssoal m\u00e9dico e administrativo com salarios decentes, e o direito de prescrever tratamentos e medicamentos caros. N\u00e3o existem solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis para isto, mas algumas coisas podem ser feitas. Uma delas seria inverter o princ\u00edpio atual de que todo o atendimento m\u00e9dico \u00e9 gratuito, e estabelecer que todo o atendimento deve ser pago, com alguma participa\u00e7\u00e3o, ainda que pequena, dos pacientes, abrindo exce\u00e7\u00e3o para quem n\u00e3o pode pagar. Isto traria mais recursos, e, sobretudo, inibiria o uso abusivo dos servi\u00e7os p\u00fablicos, fazendo com que os pacientes sejam co-respons\u00e1veis. Um outro caminho \u00e9 limitar o atendimento p\u00fablico a pessoas de determinado n\u00edvel de renda, ou para problemas e doen\u00e7as que o setor privado n\u00e3o consegue atender, inclusive enfermidades catastr\u00f3ficas do ponto de vista econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Enfim, h\u00e1  muit\u00edssimo a fazer: mudar o sistema de gerenciamento dos hospitais e outros servi\u00e7os de sa\u00fade, racionalizar o uso dos recursos,  direcion\u00e1-los a quem mais os necessite, e avaliar o que de fato tem ocorrido com o modelo SUS, que parece que funciona bem em algumas partes, mas n\u00e3o em outras.  Seria \u00f3timo se, no lugar as trocas de acusa\u00e7\u00f5es entre as autoridades, pud\u00e9ssemos ter uma discuss\u00e3o mais aprofundada destas quest\u00f5es, com os dados correspondentes.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sem ser um especialista no assunto, tenho tratado de acompanhar e entender a crise da sa\u00fade no Rio. Eis algumas id\u00e9ias, como hip\u00f3teses a serem pesquisadas. O que mais aparece \u00e9 o aspecto pol\u00edtico. 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