{"id":183,"date":"2007-12-02T07:10:00","date_gmt":"2007-12-02T10:10:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=183"},"modified":"2020-11-08T10:11:18","modified_gmt":"2020-11-08T13:11:18","slug":"adios-muchachos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/adios-muchachos\/","title":{"rendered":"Adi\u00f3s Muchachos"},"content":{"rendered":"<p>Leio, com muito atraso, \u201cAdi\u00f3s muchachos: una memoria de la revoluci\u00f3n sandinista\u201d  de S\u00e9rgio Ram\u00edrez, publicada em 1999. S\u00e9rgio Ram\u00edrez \u00e9 um importante escritor nicaraguense, que participou ativamente da revolu\u00e7\u00e3o sandinista desde seu come\u00e7o, coordenando o que ficou conhecido como o \u201cgrupo dos 12\u201d, de apoio \u00e0 Frente Sandinista de Liberaci\u00f3n Nacional (FSLN), e integrou a junta de governo de 1979 a 1984, quando foi eleito vice-presidente com Daniel Ortega.  Em 1996, depois de criar o Movimiento de Renovaci\u00f3n Sandinista, de rompimento com o FSLN, foi candidato derrotado \u00e0 presid\u00eancia da rep\u00fablica. Deste ent\u00e3o, ao que consta, se dedica integralmente ao trabalho de escritor.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o sandinista \u00e9 como tantas outras. Havia na Nicar\u00e1gua uma ditadura terr\u00edvel e corrupta, apoiada pelos americanos, e a popula\u00e7\u00e3o pegou em armas para derrub\u00e1-la, em nome de nobres ideais, e \u00e0 custa de muitas mortes e sacrif\u00edcios. Alguns anos depois, veio o fracasso, causado em  parte pelo contexto internacional desfavor\u00e1vel, e em parte pelo fracasso das pol\u00edticas sociais e econ\u00f4micas do  novo regime, assim como pela deteriora\u00e7\u00e3o \u00e9tica e moral dos princ\u00edpios humanistas que haviam levado tantas pessoas  \u00e0 morte na guerra civil.<\/p>\n<p>Quanto que o fracasso da revolu\u00e7\u00e3o se explica pelas press\u00f5es externas, e quanto pelos pr\u00f3prios problemas?  N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que a atua\u00e7\u00e3o do governo Reagan, financiando os \u201ccontras\u201d e bloqueando a Nicar\u00e1gua, causou um grande dano. Mas Ramirez mostra tamb\u00e9m como a revolu\u00e7\u00e3o j\u00e1 continha, desde o in\u00edcio, o germe de sua destrui\u00e7\u00e3o.  A come\u00e7ar pelo poder dos mortos sobre os vivos. Como diz ele,<\/p>\n<p>\u201cEl que ning\u00fan m\u00e9rito pudiera compararse entre los vivos y el m\u00e9rito mismo de la muerte, fue toda una filosofia que al momento del triunfo de la revoluci\u00f3n asumi\u00f3 un peso \u00e9tico aplastante. Los \u00fanicos heroes eran los muertos, los ca\u00eddos, y a ellos se lo deb\u00edamos todo, ellos habian sido los mejores, y todo lo dem\u00e1s, referente a los vivos, deb\u00eda ser reprimido como vanidad mundana\u201d(p. 47).<\/p>\n<p>E, mais adiante:<\/p>\n<p>\u201cAl triunfar la revoluci\u00f3n, ser un buen militante signific\u00f3 estar dispuesto a acatar el c\u00f3digo de conducta establecido por los muertos: pero desde la jerarqu\u00eda del partido, este c\u00f3digo pas\u00f3 a ser interpretado por los vivos. Fue cuando comenz\u00f3 a burocratizarse la santidad\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 esta combina\u00e7\u00e3o de uma \u00e9tica absoluta da santidade, t\u00edpica da teologia da liberta\u00e7\u00e3o, com o poder absoluto da hierarquia, t\u00edpica do leninismo marxista, que vai marcar a atua\u00e7\u00e3o do governo sandinista em seus poucos anos de exist\u00eancia. Tudo era poss\u00edvel fazer, os inimigos deviam ser afastados e liquidados, e quem n\u00e3o estava ao lado da revolu\u00e7\u00e3o era aliado do imperialismo e da burguesia. Ramirez lista  uma s\u00e9rie de erros fundamentais cometidos pelo governo, ao tentar coletivizar as terras, alienando os camponeses; ao tentar destruir a cultura dos \u00edndios miskitos; ao tentar comandar a economia por decreto, criando infla\u00e7\u00e3o descontrolada e desabastecimento; ao tentar empreender projetos grandiosos e invi\u00e1veis de estradas e aeroportos (a come\u00e7ar pelo grande aeroporto para operar os ca\u00e7as MIG que viriam da R\u00fassia e nunca chegaram).  Tudo isto criou um terreno f\u00e9rtil para os Contra, que n\u00e3o tinham somente o apoio da  CIA, mas tamb\u00e9m dos camponeses e dos ind\u00edgenas, sem falar nos empres\u00e1rios e nas classes medias assustados e acuados.<\/p>\n<p>No final, quando tudo estava perdido e era a hora de passar o governo para as m\u00e3os de Violeta Chamorro, veio \u201cla pi\u00f1ata\u201d, a apropria\u00e7\u00e3o de propriedades e empresas p\u00fablicas e nacionalizadas pelo movimento sandinista e seus lideres no momento de deixar o poder. Ram\u00edrez fala de suas longas discuss\u00f5es com Ortega e outros companheiros sobre a quest\u00e3o do direito \u00e0 propriedade, que era visto como algo inaceit\u00e1vel desde a \u00e9tica das catacumbas, mas que acabou se transformando na base de sustenta\u00e7\u00e3o do novo Ortega que, anos mais tarde, voltaria a ser eleito presidente da Nicar\u00e1gua.<\/p>\n<p>Dentro do movimento sandinista, primeiro, e fora dele depois, Ram\u00edrez fez o poss\u00edvel para fazer da Nicar\u00e1gua uma sociedade que respeitasse a mem\u00f3ria e os valores de seus mortos, mas que tamb\u00e9m evitasse a ditadura, a onipot\u00eancia e a corrup\u00e7\u00e3o dos vivos. A li\u00e7\u00e3o que fica, me parece, \u00e9 que isto s\u00f3 pode ocorrer, quando ocorre, em uma verdadeira democracia.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leio, com muito atraso, \u201cAdi\u00f3s muchachos: una memoria de la revoluci\u00f3n sandinista\u201d de S\u00e9rgio Ram\u00edrez, publicada em 1999. 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