{"id":189,"date":"2008-02-03T14:43:00","date_gmt":"2008-02-03T17:43:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=189"},"modified":"2008-08-03T10:12:11","modified_gmt":"2008-08-03T13:12:11","slug":"bernardo-sorj-racismo-carnaval-e-liberdade-de-expressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/bernardo-sorj-racismo-carnaval-e-liberdade-de-expressao\/","title":{"rendered":"Bernardo Sorj: Racismo, Carnaval e Liberdade de Express\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-style: italic;\">O Globo de 1 de fevereiro de 2008 publicou o seguinte texto de Bernardo Sorj:<\/span><\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o diz que a sabedoria \u00e9 o caminho do meio. Nem empurrar realidades desagrad\u00e1veis embaixo do tapete por medo do conflito, nem insuflar os fatos al\u00e9m de suas reais dimens\u00f5es.    Tempo atr\u00e1s a porta de minha sala na UFRJ foi pixada com uma su\u00e1stica. Fui convidado por lideran\u00e7as da comunidade judaica  a denunciar publicamente a \u201cexist\u00eancia de anti-semitismo na universidade\u201d.  Recebi a solidariedade de todos meus colegas e alunos, e minha intui\u00e7\u00e3o \u2013 informada por outras pixa\u00e7\u00f5es que tinha sofrido &#8211;  era de que ela  foi feita por um aluno ressentido com minhas cr\u00edticas.  Com certeza n\u00e3o estava frente a um fen\u00f4meno de \u201canti-semitismo na universidade\u201d e a solidariedade de meus colegas me pareceu suficiente. Achava que valorizar o evento seria dar publicidade indevida a um ato isolado e alimentar uma imagem distorcida da realidade.<\/p>\n<p>O respeito pela  sensibilidade alheia, e mais ainda no espa\u00e7o publico, seja em rela\u00e7\u00e3o a objetos sagrados ou de  grupos que sofreram  discrimina\u00e7\u00e3o, humilha\u00e7\u00e3o  e persegui\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para construir uma sociedade  onde ningu\u00e9m sinta negada sua dignidade humana.  Este objetivo porem \u00e9 um ideal em dire\u00e7\u00e3o ao qual procuramos encaminhar, mas que \u00e9 constru\u00eddo a partir de uma bagagem cultural, onde h\u00e1bitos ling\u00fc\u00edsticos, formas de humor   e preconceitos inconscientes est\u00e3o presentes. N\u00e3o se trata de justificar nenhum deles, mas tamb\u00e9m de reconhecer que um coment\u00e1rio mal elaborado em torno a ra\u00e7a, religi\u00e3o, sexo ou  etnia n\u00e3o transforma algu\u00e9m em racista, anti-semita, homof\u00f3bico ou sexista. O conceito racismo esconde uma diversidade de situa\u00e7\u00f5es. Um coment\u00e1rio racista n\u00e3o significa que o individuo esteja disposto a entrar o Klu Klux Klan ou o partido nazista, ou que esteja imbu\u00eddo de \u00f3dio racial. As maiorias das pessoas que fazem estes coment\u00e1rios se desculpam quando se conscientizam que feriram a sensibilidade de algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Aclaremos, n\u00e3o estamos justificando  express\u00f5es indevidas. Elas devem ser combatidas, mas com a pondera\u00e7\u00e3o devida em cada caso. Porque infelizmente o racismo, sexismo, etc., pode produzir uma ind\u00fastria de vitimiza\u00e7\u00e3o,   de lideres e institui\u00e7\u00f5es que se  projetam pela denuncia, levando-os a apresentar uma vers\u00e3o distorcida ou inflacionada dos fatos.<\/p>\n<p>Existem \u00e1reas onde a luta contra o preconceito apresenta dimens\u00f5es complexas e dif\u00edceis de resolver. O humor sem duvida \u00e9 uma delas. Muitas charges muitas vezes ferem a sensibilidade de  indiv\u00edduos e grupos.  O humor deve ser censurado, a pesar de que  ele explicitamente se reconhece como tal, isto \u00e9 goza\u00e7\u00e3o, distor\u00e7\u00e3o e caricatura do real? A minha rea\u00e7\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o, que o humor \u00e9 parte constitutiva de uma sociedade democr\u00e1tica, pois ela representa a forma mais eficaz de  criticar, questionar, duvidar e ironizar, nos obrigando a aceitar vis\u00f5es diferentes daquilo que  n\u00f3s \u201cadoramos\u201d.<\/p>\n<p>Agora volta a surgir, como  j\u00e1 aconteceu em carnavais passados, a quest\u00e3o do lugar  da liberdade de express\u00e3o das escolas de samba, e, em particular, seus carros aleg\u00f3ricos.    Como sabemos, o carnaval \u00e9 uma parodia da realidade e as escolas de samba tratam dos mais diversos temas, desde a viol\u00eancia na cidade, que contou com a participa\u00e7\u00e3o de vitimas diretas e familiares, \u00e0 escravid\u00e3o no Brasil. Todo tema pode ser \u201ccarnavalizado\u201d. A quest\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 o tema, pois ningu\u00e9m tem monop\u00f3lio sobre ele, mas a forma em que ele \u00e9 tratado e a mensagem que procura-se  veicular. Uma discuss\u00e3o ponderada sobre o carro aleg\u00f3rico dedicado ao holocausto deveria  focalizar somente esta quest\u00e3o. Idealmente, um di\u00e1logo aberto, p\u00fablico, entre todas as partes interessadas \u00e9 o caminho a trilhar nestas situa\u00e7\u00f5es, onde n\u00e3o existem raz\u00f5es para duvidar da boa f\u00e9 de todos os envolvidos.  \u00c9 poss\u00edvel que no final do dia tenhamos  posi\u00e7\u00f5es diferentes, mas sem preconceitos e com clareza sobre os pontos em que divergimos, dentro de uma li\u00e7\u00e3o de conviv\u00eancia democr\u00e1tica.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Globo de 1 de fevereiro de 2008 publicou o seguinte texto de Bernardo Sorj: A tradi\u00e7\u00e3o diz que a sabedoria \u00e9 o caminho do meio. Nem empurrar realidades desagrad\u00e1veis embaixo do tapete por medo do conflito, nem insuflar os fatos al\u00e9m de suas reais dimens\u00f5es. Tempo atr\u00e1s a porta de minha sala na UFRJ &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/bernardo-sorj-racismo-carnaval-e-liberdade-de-expressao\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Bernardo Sorj: Racismo, Carnaval e Liberdade de Express\u00e3o&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[],"class_list":["post-189","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-politica-racial"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/189","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=189"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/189\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":306,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/189\/revisions\/306"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=189"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=189"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=189"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}