{"id":1898,"date":"2010-11-09T04:29:10","date_gmt":"2010-11-09T07:29:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=1898"},"modified":"2012-09-09T17:22:48","modified_gmt":"2012-09-09T20:22:48","slug":"e-hora-de-descer-da-torre-de-marfim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/e-hora-de-descer-da-torre-de-marfim\/","title":{"rendered":"\u00c9 hora de descer da torre de marfim!"},"content":{"rendered":"<p><em>A revista Exame Ceo, da Editora Abril, publica, neste m\u00eas de outubro de 2010, o texto abaixo sobre a educa\u00e7\u00e3o superior no Brasil, que tamb\u00e9m est\u00e1 dispon\u00edvel em formato pdf <a href=\"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/simon\/exameceo.pdf\" target=\"_blank\">clicando aqui<\/a>.<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00c9 hora de descer da torre de marfim!<a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/ivory.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-1899\" title=\"ivory\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/ivory.png\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/ivory.png 500w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/ivory-300x248.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 85vw, 350px\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p>O sistema de educa\u00e7\u00e3o superior no Brasil cresce, mas seu tamanho ainda \u00e9 muito reduzido se comparado com o de pa\u00edses de economia desenvolvida ou at\u00e9 mesmo em desenvolvimento. Nesses pa\u00edses, \u00e9 comum ver a maior parte dos jovens em algum tipo de institui\u00e7\u00e3o de ensino superior. J\u00e1 no Brasil, apenas cerca de 10 milh\u00f5es de pessoas t\u00eam uma gradua\u00e7\u00e3o (menos de 10% da popula\u00e7\u00e3o adulta) e pouco mais de 5 milh\u00f5es est\u00e3o matriculados em uma universidade (menos de 14% da popula\u00e7\u00e3o jovem). Como h\u00e1 pouca gente com diploma, a remunera\u00e7\u00e3o para esse grupo costuma ser muito melhor. Essa discrep\u00e2ncia acaba sendo um grande incentivo para que as pessoas queiram entrar numa universidade. Elas enfrentam, no entanto, v\u00e1rias barreiras: a m\u00e1 qualidade do ensino m\u00e9dio, os altos n\u00edveis de abandono escolar, a seletividade das universidades p\u00fablicas e os custos relativamente altos das institui\u00e7\u00f5es privadas.<\/p>\n<p>O governo federal tem procurado aumentar a quantidade de vagas e facilitar o acesso ao ensino superior. Al\u00e9m de criar novas universidades e centros de educa\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, d\u00e1 est\u00edmulos para que as universidades p\u00fablicas abram mais vagas e estimula programas de cotas. Apesar disso, o setor p\u00fablico n\u00e3o consegue aumentar sua fatia e s\u00f3 atende hoje a 25% da demanda, ficando os 75% restantes com o setor privado. Outra maneira encontrada pelo governo federal de facilitar o acesso \u00e9 a \u201ccompra\u201d de vagas do setor privado, tendo como moeda de troca a isen\u00e7\u00e3o fiscal.<\/p>\n<p>O Brasil vai precisar na pr\u00f3xima d\u00e9cada de mais gente com forma\u00e7\u00e3o superior, mas \u00e9 importante perguntar tamb\u00e9m quem estamos formando e com quais qualifica\u00e7\u00f5es. O censo do ensino superior do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o mostra que 43% dos estudantes est\u00e3o matriculados hoje em cursos de ci\u00eancias sociais, neg\u00f3cios e direito, 17% em educa\u00e7\u00e3o e 15% na \u00e1rea de sa\u00fade e bem-estar. O total nas engenharias \u00e9 de 9% e nas \u00e1reas de matem\u00e1tica e computa\u00e7\u00e3o, de 8%. Nas sociedades modernas, as \u00e1reas de neg\u00f3cios realmente precisam de muita gente, assim como as de servi\u00e7os de sa\u00fade. O nosso problema est\u00e1 no numero de engenheiros formados anualmente. Eles s\u00e3o pouco mais de 51 000, menos de 6% do total, um percentual muito baixo se comparado ao de pa\u00edses como Jap\u00e3o, Coreia e Finl\u00e2ndia (25%), sem mencionar a China (36%). A taxa brasileira \u00e9 mais pr\u00f3xima de sociedades p\u00f3s-industriais, como Estados Unidos, Austr\u00e1lia, Canad\u00e1 e Reino Unido.<\/p>\n<p>Nunca conseguimos desenvolver um setor significativo de forma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que pudesse, em poucos anos, capacitar pessoas para trabalhar em laborat\u00f3rios, hot\u00e9is, restaurantes, empresas de tecnologia de alimentos, oficinas mec\u00e2nicas, constru\u00e7\u00e3o civil, entre outras \u00e1reas. Todos os pa\u00edses que expandiram sua educa\u00e7\u00e3o superior deram esse passo. No Brasil, os estudantes evitam essas carreiras porque as consideram de pouco prest\u00edgio. Na pr\u00e1tica, em muitos casos, essas fun\u00e7\u00f5es acabam sendo desempenhadas por pessoas com diplomas universit\u00e1rios. Os dados da PNAD do IBGE de 2008 mostram que 23% das pessoas com n\u00edvel superior no Brasil trabalham em atividades t\u00e9cnicas e administrativas de n\u00edvel m\u00e9dio.<\/p>\n<p>A \u00e1rea da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m merece aten\u00e7\u00e3o. O Brasil forma hoje cerca de 10 000 doutores ao ano. A pesquisa domiciliar do IBGE registra cerca de 326 000 pessoas fazendo cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Em v\u00e1rias \u00e1reas, como economia e administra\u00e7\u00e3o, existem muitos cursos de gradua\u00e7\u00e3o e a qualidade nem sempre \u00e9 boa. Nesses casos, a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o aparece como uma sa\u00edda para buscar uma posi\u00e7\u00e3o diferenciada no mercado de trabalho. Mas a quest\u00e3o \u00e9 que a grande maioria das pessoas com doutorado acaba indo trabalhar em universidades p\u00fablicas, se \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o estava l\u00e1 quando come\u00e7ou a buscar seu novo t\u00edtulo. Isso traz vantagens para as universidades p\u00fablicas, que ficam com professores melhores, mas beneficia pouco os 75% dos estudantes em institui\u00e7\u00f5es privadas, que quase n\u00e3o contratam professores doutores. Para ser bem avaliados pela CAPES e receber apoio, os programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o precisam que seus professores publiquem artigos em revistas acad\u00eamicas. Com essa exig\u00eancia, o n\u00famero de artigos cient\u00edficos de fato tem aumentado. A qualidade dessas publica\u00e7\u00f5es, no entanto, \u00e9 baixa quando se usa como medida o n\u00famero de cita\u00e7\u00f5es que recebem. Isso sem falar na falta de resultados dessas pesquisas na produ\u00e7\u00e3o de patentes e de tecnologia.<\/p>\n<p>Existem cursos universit\u00e1rios muito bons no pa\u00eds, mas tamb\u00e9m muitos de qualidade duvidosa, tanto no setor p\u00fablico quanto no particular. O Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o d\u00e1 conceitos aos cursos, mas n\u00e3o diz, por exemplo, qual \u00e9 o m\u00ednimo de qualidade aceit\u00e1vel em medicina, direito ou administra\u00e7\u00e3o. Fora isso, tem muito pouca capacidade de interferir nas institui\u00e7\u00f5es consideradas de qualidade inaceit\u00e1vel. No setor privado, existem cada vez mais empresas que atendem a dezenas de milhares de alunos a custos muito reduzidos, geralmente \u00e0 noite, com uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade indefin\u00edvel. No setor p\u00fablico, n\u00e3o existem mecanismos que incentivem as institui\u00e7\u00f5es a melhorar a qualidade e a usar bem os recursos p\u00fablicos que recebem.<\/p>\n<p>Para a pr\u00f3xima d\u00e9cada, o pa\u00eds precisa expandir a educa\u00e7\u00e3o superior e, sobretudo, fazer com que ela se torne cada vez mais relevante para a sociedade em seus diversos n\u00edveis. Os cursos de forma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica precisam aumentar muito, n\u00e3o s\u00f3 para suprir as necessidades crescentes do mercado de trabalho, mas tamb\u00e9m porque muitos dos que hoje buscam uma universidade n\u00e3o t\u00eam forma\u00e7\u00e3o adequada para realmente seguir um curso superior. Para que os cursos tecnol\u00f3gicos sejam atrativos e produzam pessoas capacitadas, eles precisam ser desenvolvidos em forte coopera\u00e7\u00e3o com o setor produtivo, que deve participar discutindo os conte\u00fados dos cursos, abrindo suas portas para est\u00e1gios e fornecendo equipamentos. Para que o estigma associado a esses cursos desapare\u00e7a, \u00e9 preciso que os cr\u00e9ditos obtidos em cursos de curta dura\u00e7\u00e3o possam valer para pessoas que desejem mais tarde continuar a estudar e completar um curso superior pleno.<\/p>\n<p>Os cursos de gradua\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se beneficiariam muito de uma aproxima\u00e7\u00e3o mais forte com o setor produtivo e precisam adquirir muito mais transpar\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua qualidade e aos resultados que produzem. O Brasil ainda vive a fic\u00e7\u00e3o de que todos os t\u00edtulos de n\u00edvel superior s\u00e3o iguais. Tanto o mercado de trabalho quanto o setor p\u00fablico ainda recompensam as pessoas que t\u00eam t\u00edtulos independentemente das qualifica\u00e7\u00f5es efetivas que possam ter. Essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 refor\u00e7ada pelo sistema de regulamenta\u00e7\u00e3o profissional e tamb\u00e9m pela reserva de mercado estimulada pelos sindicatos e associa\u00e7\u00f5es profissionais. S\u00e3o os soci\u00f3logos que conseguiram tornar obrigat\u00f3rio o ensino de sociologia nas escolas, os comunicadores que insistem em requerer diplomas para jornalistas, os m\u00e9dicos que querem restringir o trabalho de outros profissionais de sa\u00fade, as farm\u00e1cias que s\u00e3o obrigadas a contratar farmac\u00eauticos&#8230; O fortalecimento da educa\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e a redu\u00e7\u00e3o dos privil\u00e9gios associados aos diplomas podem fazer com que as pessoas comecem a buscar qualifica\u00e7\u00f5es mais efetivas e mais pr\u00e1ticas, em vez diplomas de cursos superiores de qualidade duvidosa.<\/p>\n<p>Tanto o setor p\u00fablico quanto o privado precisam se ajustar aos novos tempos. As universidades p\u00fablicas s\u00e3o financiadas com recursos or\u00e7ament\u00e1rios que independem de bons resultados. Essas institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem desenvolver pol\u00edticas ativas de busca de talento, nem demitir professores de m\u00e1 qualidade, ou fechar departamentos e cursos para os quais n\u00e3o h\u00e1 demanda. Como s\u00e3o seus professores que desenvolvem os sistemas de avalia\u00e7\u00e3o que o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o utiliza, n\u00e3o \u00e9 surpreendente que essas universidades sejam, em geral, bem avaliadas. O setor privado se queixa das avalia\u00e7\u00f5es que s\u00e3o impostas pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, mas at\u00e9 hoje n\u00e3o desenvolveu um sistema alternativo de controle de qualidade. Os crit\u00e9rios de avalia\u00e7\u00e3o de cursos noturnos para alunos que n\u00e3o tiveram uma educa\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria de qualidade, s\u00e3o mais velhos e precisam trabalhar durante o dia n\u00e3o podem ser os mesmos dos cursos dados durante o dia para alunos jovens, selecionados por vestibulares competitivos e com professores de tempo integral. O setor privado, que atende preferencialmente ao p\u00fablico noturno, precisa mostrar com clareza o que pode de fato oferecer, e n\u00e3o permanecer simplesmente como uma vers\u00e3o empobrecida do que o ensino p\u00fablico deveria ser.<\/p>\n<p>A pesquisa universit\u00e1ria precisa deixar de ser, predominantemente, um complemento dos cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. O Brasil tem excelentes centros de pesquisa e de tecnologia, v\u00e1rios deles trabalhando em parcerias com o setor produtivo. O drama do pa\u00eds \u00e9 que essas institui\u00e7\u00f5es podem ser contadas nos dedos. Todos os incentivos da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o s\u00e3o acad\u00eamicos. A recompensa vai para os programas que formam mais gente e que publicam mais artigos, coisas que s\u00e3o importantes, mas s\u00f3 quando n\u00e3o se transformam em um fim em si mesmo.<\/p>\n<p>Finalmente, a educa\u00e7\u00e3o superior brasileira \u00e9 provinciana e precisa se abrir mais para o mundo. Existem hoje v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es que publicam os rankings das melhores universidades do mundo. A melhor universidade brasileira, a USP, que \u00e9 tamb\u00e9m a melhor da America Latina, geralmente fica l\u00e1 pelo cent\u00e9simo lugar. Podemos e devemos criticar a forma com que essas listas s\u00e3o feitas, mas a coloca\u00e7\u00e3o no ranking reflete o fato de que nossas universidades n\u00e3o s\u00e3o conhecidas l\u00e1 fora. Mostra tamb\u00e9m que n\u00e3o participamos como dever\u00edamos do fluxo internacional de conhecimentos e talento, que se d\u00e1 pelo interc\u00e2mbio e circula\u00e7\u00e3o de estudantes e professores. Muitos professores com doutorado nas melhores universidades brasileiras estudaram fora, mas as ag\u00eancias de governo v\u00eam diminuindo o apoio que davam aos doutorados no exterior, achando que n\u00e3o precisamos mais deles.\u00a0 Nossas universidades n\u00e3o t\u00eam como competir por talentos no exterior devido \u00e0 falta de flexibilidade dos sal\u00e1rios e das dificuldades em contratar estrangeiros. E n\u00e3o temos, no Brasil, universidades que despertem o interesse de estudantes de outros pa\u00edses. \u00c9 poss\u00edvel resumir tudo isso dizendo que o ensino superior brasileiro vem crescendo, mas se desenvolveu em grande parte de forma fechada, voltado para si mesmo. Por isso, n\u00e3o tem a qualidade, a pujan\u00e7a, a efici\u00eancia e a relev\u00e2ncia que deveria ter.\u00a0 \u00c9 preciso abrir as portas e arejar o ambiente.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref\"><\/a><span hidden class=\"__iawmlf-post-loop-links\" data-iawmlf-links=\"[{&quot;id&quot;:686,&quot;href&quot;:&quot;http:\\\/\\\/www.schwartzman.org.br\\\/simon\\\/exameceo.pdf&quot;,&quot;archived_href&quot;:&quot;&quot;,&quot;redirect_href&quot;:&quot;&quot;,&quot;checks&quot;:[],&quot;broken&quot;:false,&quot;last_checked&quot;:null,&quot;process&quot;:&quot;done&quot;}]\"><\/span><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A revista Exame Ceo, da Editora Abril, publica, neste m\u00eas de outubro de 2010, o texto abaixo sobre a educa\u00e7\u00e3o superior no Brasil, que tamb\u00e9m est\u00e1 dispon\u00edvel em formato pdf clicando aqui. \u00c9 hora de descer da torre de marfim! 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