{"id":1929,"date":"2010-11-21T08:11:11","date_gmt":"2010-11-21T11:11:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=1929"},"modified":"2018-06-03T09:27:29","modified_gmt":"2018-06-03T12:27:29","slug":"joao-batista-de-araujo-e-oliveira-os-tres-senhores-do-enem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/joao-batista-de-araujo-e-oliveira-os-tres-senhores-do-enem\/","title":{"rendered":"Jo\u00e3o Batista de Ara\u00fajo e Oliveira: os tr\u00eas senhores do ENEM"},"content":{"rendered":"<p><em>Escreve Jo\u00e3o Batista Araujo e Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto:<\/em><\/p>\n<p>Ningu\u00e9m pode servir a dois senhores, o ENEM quer servir a tr\u00eas: reformar o ensino m\u00e9dio, unificar o vestibular e servir como crit\u00e9rio para o PROUNI.  E, al\u00e9m disso, quer inovar a psicometria, criando um construto de \u201ccompet\u00eancias gerais\u201d que simplesmente n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Vejamos a hist\u00f3ria do ENEM e seus desdobramentos.<\/p>\n<p>1.\tO ENEM surgiu com a inten\u00e7\u00e3o de balizar a mal concebida reforma do ensino m\u00e9dio de 1997. A id\u00e9ia era que todos alunos cursassem disciplinas de uma pretensa educa\u00e7\u00e3o geral \u2013 e com isso engessamos ainda mais os curr\u00edculos do ensino m\u00e9dio e tamb\u00e9m os do ensino t\u00e9cnico: jogamos fora o beb\u00ea com a \u00e1gua do banho.  O ENEM foi criado para avaliar essas tais \u201ccompet\u00eancias da educa\u00e7\u00e3o geral\u201d.<\/p>\n<p>2.\tComo o ENEM n\u00e3o emplacou, o MEC pediu socorro \u00e0s federais, para legitimar o exame como substituto do vestibular.  Sem perder o v\u00edcio de origem \u2013 medir compet\u00eancias gerais \u2013 o ENEM deu uma leve guinada para atender ao novo senhor. E, claro, nada influiu no ensino m\u00e9dio, a n\u00e3o ser tornar mais extenso e irrelevante o curr\u00edculo dos cursos t\u00e9cnicos.<\/p>\n<p>3.\tA id\u00e9ia de compet\u00eancias gerais \u00e9 sedutora \u2013 antigamente se acreditava que grego, latim, xadrez e outras disciplinas teriam esse poder m\u00e1gico.  At\u00e9 hoje a psicologia cognitiva n\u00e3o conseguiu descobrir compet\u00eancias gerais que tenham o poder de se transferir a novas situa\u00e7\u00f5es: o conhecimento \u00e9 espec\u00edfico aos dom\u00ednios, \u00e0s disciplinas. Testes que tentam medir compreens\u00e3o no 2\u00ba ano prim\u00e1rio, em v\u00e1rios pa\u00edses, n\u00e3o conseguem se correlacionar uns com os outros, pois n\u00e3o possuem construtos v\u00e1lidos, muito menos compar\u00e1veis. Portanto, querer um teste para medir compet\u00eancias gerais \u00e9 miss\u00e3o imposs\u00edvel, no est\u00e1gio atual de conhecimentos. O ENEM se prop\u00f5e a isso, e muita gente aplaude.  \u00c9 pura sandice.<\/p>\n<p>4.\tPara colocar as coisas nos trilhos, \u00e9 preciso separar os problemas. E usar a evid\u00eancia cient\u00edfica e experi\u00eancia internacional como par\u00e2metro.<\/p>\n<p>5.\tNo caso do ensino m\u00e9dio, n\u00e3o existe pa\u00eds com ensino m\u00e9dio acad\u00eamico para 90% dos alunos, como no Brasil. Na maioria absoluta dos pa\u00edses da OCDE mais de 50% dos alunos cursam programas n\u00e3o acad\u00eamicos.  O Brasil insiste em fingir que n\u00e3o entende do que se trata, e, no m\u00e1ximo, continua falando em ampliar cursos t\u00e9cnicos no modelo do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>6.\tNo caso do vestibular, a experi\u00eancia internacional apresenta dois modelos, e apenas dois.  Todos dois se baseiam no princ\u00edpio da validade preditiva, ou seja, um teste que prev\u00ea desempenho no curso superior. Um deles \u00e9 o TOEFL, um teste de vocabul\u00e1rio, com alta correla\u00e7\u00e3o com testes de QI.  Como nos ensina a psicologia cognitiva, o vocabul\u00e1rio \u00e9 o maior fator preditivo da compreens\u00e3o. O outro s\u00e3o testes de conhecimento de disciplinas espec\u00edficas: quem sabe muita f\u00edsica \u00e9 um bom candidato a ter sucesso em cursos de f\u00edsica.  Nos v\u00e1rios pa\u00edses, os alunos nunca s\u00e3o obrigados a prestar mais de 7 provas, na maioria s\u00e3o 3 ou 4 provas.  Cabe \u00e0s universidades estabelecer o ponto de corte.  E as provas, claro, s\u00e3o aplicadas de forma semi-permanente, sem como\u00e7\u00e3o social. Um detalhe: desde 2005 o ETS, que patrocina o TOEFL, tamb\u00e9m oferece testes nas disciplinas espec\u00edficas, para concorrer com o ACT.<\/p>\n<p>7.\tMaior do que o problema do ENEM, o Brasil precisa enfrentar com coragem uma reforma do ensino m\u00e9dio. Hoje temos mais alunos do 1\u00ba ano do ensino m\u00e9dio do que egressos do 9\u00ba ano do Ensino Fundamental. E desses, pouco mais da metade conclui o ensino m\u00e9dio \u2013 a maioria deles com notas inferiores a 4 pontos no ENEM. Ou seja: sabem pouco mais do que nada.  Enquanto isso importamos centenas de t\u00e9cnicos de n\u00edvel m\u00e9dio da China para ajudar a implementar os projetos de desenvolvimento em Itagua\u00ed, apenas para dar um exemplo.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escreve Jo\u00e3o Batista Araujo e Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto: Ningu\u00e9m pode servir a dois senhores, o ENEM quer servir a tr\u00eas: reformar o ensino m\u00e9dio, unificar o vestibular e servir como crit\u00e9rio para o PROUNI. 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