{"id":193,"date":"2008-02-22T10:56:00","date_gmt":"2008-02-22T13:56:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=193"},"modified":"2008-08-03T10:09:45","modified_gmt":"2008-08-03T13:09:45","slug":"ainda-sobre-a-educacao-e-o-dinheiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/ainda-sobre-a-educacao-e-o-dinheiro\/","title":{"rendered":"Ainda sobre a educa\u00e7\u00e3o e o dinheiro"},"content":{"rendered":"<p>O projeto da Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo de introduzir um sistema de incentivo financeiro para escolas que conseguirem melhor o desempenho de seus alunos levantou uma grande discuss\u00e3o, parte dela refletida neste blog. Creio que os pontos principais da discuss\u00e3o s\u00e3o os seguintes :<\/p>\n<p>Como medir os resultados, e que resultados recompensar? Esta \u00e9 sobretudo uma quest\u00e3o t\u00e9cnica, e acredito que a proposta da Secretaria est\u00e1 bem encaminhada neste sentido. Haveria uma escala de compet\u00eancias de tr\u00eas ou quatro n\u00edveis, todos eles facilmente intelig\u00edveis para professores e pais de alunos: por exemplo, os que n\u00e3o conseguem ler, os que l\u00eaem de forma mec\u00e2nica sem entender, os que l\u00eaem e entendem mas n\u00e3o conseguem interpretar o texto, e os que l\u00eaem, entendem e interpretam. Seriam premiadas as escolas que, entre uma avalia\u00e7\u00e3o e outra, conseguirem que um determinado numero de alunos passem de um patamar a outro, sem aumentar a evas\u00e3o ou a repet\u00eancia. Ainda n\u00e3o est\u00e1 claro, para mim, como se combinariam os desempenhos em portugu\u00eas e matem\u00e1tica e mais os dados de evas\u00e3o e repet\u00eancia, em um \u00fanico \u00edndice de desempenho. Talvez a melhor maneira fosse usar o \u00edndice para ver o conjunto, mas divulgar n\u00e3o um n\u00famero abstrato do \u00edndice de cada escola, mas os resultados separados de cada dimens\u00e3o.  Uma outra quest\u00e3o t\u00e9cnica \u00e9 como medir as compet\u00eancias, e como ir aperfei\u00e7oando os sistemas de avalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Qual o efeito da remunera\u00e7\u00e3o por desempenho no trabalho dos professores e no funcionamento das escolas? Felipe Schwartzman, no seu coment\u00e1rio, indica duas obje\u00e7\u00f5es que se fazem normalmente a este tipo de pol\u00edtica. A primeira \u00e9 que,  como a avalia\u00e7\u00e3o est\u00e1 limitada a coisas mensur\u00e1veis, isto levaria a uma concentra\u00e7\u00e3o exclusiva da escola na prepara\u00e7\u00e3o para os testes, deixando de lado outras disciplinas e conte\u00fados que n\u00e3o est\u00e3o sendo avaliados.  Uma primeira resposta a esta obje\u00e7\u00e3o \u00e9 que se nossas escolas p\u00fablicas somente ensinassem portugu\u00eas e matem\u00e1tica a seus alunos,  e nada mais, j\u00e1 seria uma maravilha. A segunda, mais complexa, \u00e9 que na verdade n\u00e3o h\u00e1 como avan\u00e7ar muito no desenvolvimento da leitura  e da matem\u00e1tica se a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o for rica em conte\u00fados que os estudantes possam absorver e entender. O problema fundamental nos anos iniciais das escolas p\u00fablicas brasileiras \u00e9 o n\u00famero enorme de estudantes que permanecem como analfabetos funcionais, o que pode ser corrigido pelo uso correto de m\u00e9todos f\u00f4nicos de alfabetiza\u00e7\u00e3o e materiais pedag\u00f3gicos de apoio de qualidade. A partir da\u00ed, no entanto,  passam a ser importantes os conte\u00fados. Uma escola que se concentrasse exclusivamente na prepara\u00e7\u00e3o para os testes n\u00e3o iria muito longe.<\/p>\n<p>A segunda critica \u00e9 que metas quantitativas, associadas a recompensas financeiras, estimulariam entre professores e alunos o surgimento de comportamentos oportunistas para enganar o sistema, e substituiriam o valor da educa\u00e7\u00e3o enquanto tal por valores mercantilistas.  Sem d\u00favida, qualquer sistema de avalia\u00e7\u00e3o, sobretudo quando associado a pr\u00eamios e puni\u00e7\u00f5es (o que em ingl\u00eas se denomina \u201chigh stakes\u201d), estimula comportamentos oportunistas, como treinar os estudantes para as provas, eliminar da escola os de pior desempenho, e at\u00e9 mesmo colar e falsificar os resultados. Mas estes comportamentos oportunistas podem ser controlados em certa medida,  punindo, por exemplo, as escolas que reprovam ou for\u00e7am a sa\u00edda dos alunos de pior desempenho. A pergunta, a\u00ed, \u00e9 o que \u00e9 prefer\u00edvel, um sistema bem avaliado e sujeito a este tipo de problemas, ou um sistema sem avalia\u00e7\u00e3o, mas cujos resultados agregados s\u00e3o reconhecidamente desastrosos.<\/p>\n<p>Tenho d\u00favidas, tamb\u00e9m, se existe esta oposi\u00e7\u00e3o t\u00e3o forte entre os valores da educa\u00e7\u00e3o e os valores do mercado como dizem. Todos sabemos que os mercados, muitas vezes, buscam o dinheiro em detrimento da qualidade,  com programas de audit\u00f3rio tomando o lugar dos concertos,  os livros de auto-ajuda substituindo os de literatura,  e os hamburgers substituindo a cozinha sofisticada. Mas existem tamb\u00e9m mercados de qualidade, e os bons profissionais \u2013 m\u00fasicos cl\u00e1ssicos, escritores e chefs \u2013 s\u00e3o valorizados e ganham dinheiro pela compet\u00eancia e qualidade com que trabalham.  O problema n\u00e3o \u00e9, me parece, o da oposi\u00e7\u00e3o entre atividades \u201cnobres\u201d e fora do mercado e atividades prostitu\u00eddas pelo mercado (coisa que elaborei no blog anterior) mas entre mercados que estimulam bons resultados e os que n\u00e3o o fazem. O mercado da educa\u00e7\u00e3o, deixado por ele mesmo, tende a se segmentar entre os dois extremos, o da oferta barata de t\u00edtulos vazios e o da oferta de t\u00edtulos e qualifica\u00e7\u00f5es muitas vezes sobre-valorizadas, e isto ocorre tanto entre as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas quanto entre as privadas. Dai a necessidade de pol\u00edticas p\u00fablicas claras de sinaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Finalmente, M\u00e1rcio da Costa coloca a quest\u00e3o de como valorizar a atua\u00e7\u00e3o de escolas que, embora sem resultados vis\u00edveis em termos de desempenho escolar, conseguem outros objetivos importantes, como criar um ambiente sadio e de inclus\u00e3o para seus alunos. O que me parece \u00e9 que uma escola que faz isto n\u00e3o \u00e9, na realidade, uma escola, mas um outro tipo de institui\u00e7\u00e3o. Escolas s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es que ensinam um conjunto limitado e importante de coisas,  e n\u00e3o se deve pedir a elas mais do que elas podem ou devem fazer. Existe uma tend\u00eancia a querer que as escolas resolvam todos os problemas que a sociedade tem e n\u00e3o  consegue resolver \u2013 ontem mesmo havia um deputado propondo a obrigatoriedade do ensino de comportamento no tr\u00e2nsito nas escolas, para reduzir o n\u00edvel de acidentes. Com isto, a escola n\u00e3o cumpre seu papel, e a sociedade deixa de buscar estes outros objetivos pelos meios apropriados. A institui\u00e7\u00e3o descrita por M\u00e1rcio merece todo o apoio, mas, para ser escola e ser reconhecida como tal, os alunos t\u00eam que aprender.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O projeto da Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo de introduzir um sistema de incentivo financeiro para escolas que conseguirem melhor o desempenho de seus alunos levantou uma grande discuss\u00e3o, parte dela refletida neste blog. Creio que os pontos principais da discuss\u00e3o s\u00e3o os seguintes : Como medir os resultados, e que resultados recompensar? 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