{"id":197,"date":"2008-05-04T23:39:00","date_gmt":"2008-05-05T02:39:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=197"},"modified":"2014-09-07T22:07:46","modified_gmt":"2014-09-08T01:07:46","slug":"e-preciso-ir-a-luta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/e-preciso-ir-a-luta\/","title":{"rendered":"\u00c9 preciso ir \u00e0 luta!"},"content":{"rendered":"<div class='__iawmlf-post-loop-links' style='display:none;' data-iawmlf-post-links='[{&quot;id&quot;:1047,&quot;href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/archive.org\\\/details\\\/UniversidadeEDesenvolvimentoNaAmericaLatinaExperienciasExitosasDe\\\/v2&quot;,&quot;archived_href&quot;:&quot;&quot;,&quot;redirect_href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/archive.org\\\/details\\\/UniversidadeEDesenvolvimentoNaAmericaLatinaExperienciasExitosasDe&quot;,&quot;checks&quot;:[],&quot;broken&quot;:false,&quot;last_checked&quot;:null,&quot;process&quot;:&quot;done&quot;}]'><\/div>\n<p><span style=\"font-style: italic;\">Com este t\u00edtulo, A revista <\/span><span style=\"font-style: italic;\"><span style=\"font-weight: bold;\">Veja<\/span> <\/span><span style=\"font-style: italic;\">do dia 7 de maio de 2008 publica uma entrevista comigo nas <span style=\"color: #000000;\">&#8220;P\u00e1ginas Amarelas&#8221;, <\/span>a prop\u00f3sito de uma pesquisa que realizamos sobre os v\u00ednculos entre a pesquisa acad\u00eamica e suas aplica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas na Am\u00e9rica Latina. <\/span><span style=\"font-style: italic;\"> Para quem tiver interesse, a publica\u00e7\u00e3o pode ser <\/span><a style=\"font-style: italic;\" href=\"https:\/\/archive.org\/details\/UniversidadeEDesenvolvimentoNaAmericaLatinaExperienciasExitosasDe\" target=\"_blank\">acessada aqui.<\/a><span style=\"font-style: italic;\"> O texto da entrevista \u00e9 o seguinte:<\/span><\/p>\n<p>O soci\u00f3logo Simon Schwartzman, 68 anos, ex-presidente do IBGE, \u00e9 dono de uma vasta produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, na qual o tema da educa\u00e7\u00e3o ocupa lugar de destaque. Seu mais recente trabalho \u00e9 uma an\u00e1lise comparativa de dezesseis centros de pesquisa universit\u00e1rios do Brasil, da Argentina, do M\u00e9xico e do Chile, com foco na aplica\u00e7\u00e3o efetiva da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ali desenvolvida. Nele s\u00e3o esquadrinhadas experi\u00eancias em geral positivas: centros de excel\u00eancia integrados ao mercado e afinados com as necessidades de cada pa\u00eds. Uma realidade bem distante da que se constata na maior parte das universidades brasileiras. Nesta entrevista, concedida em sua sala no Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), Schwartzman defende a maior integra\u00e7\u00e3o entre universidade e empresas e a valoriza\u00e7\u00e3o dos centros de excel\u00eancia. Ele tamb\u00e9m faz um alerta. O Brasil est\u00e1 ficando cada dia mais distante dos pa\u00edses desenvolvidos no que se refere a investimento em pesquisa. &#8220;Estamos perdendo o bonde.&#8221;<\/p>\n<p><span style=\"font-style: italic;\">Veja <\/span>\u2013 As pesquisas feitas nas universidades brasileiras contribuem para o desenvolvimento do pa\u00eds?<br \/>\n<span style=\"font-style: italic;\">Schwartzman <\/span>\u2013 N\u00e3o como deveriam. Em geral, elas ficam restritas ao \u00e2mbito acad\u00eamico e n\u00e3o se transformam em produtos ou servi\u00e7os \u00fateis \u00e0 sociedade. N\u00e3o h\u00e1 transfer\u00eancia de conhecimento, nem mesmo quando se trata de uma pesquisa aplicada.<\/p>\n<p><span style=\"font-style: italic;\">Veja <\/span>\u2013 Por que isso acontece?<br \/>\n<span style=\"font-style: italic;\">Schwartzman <\/span>\u2013 H\u00e1 v\u00e1rios fatores envolvidos. Um deles \u00e9 que a universidade p\u00fablica, onde se realiza boa parte da pesquisa acad\u00eamica no pa\u00eds, n\u00e3o \u00e9 estimulada a atender \u00e0s demandas da sociedade e do setor empresarial, porque \u00e9 integralmente financiada pelo dinheiro do governo. A experi\u00eancia mostra que uma institui\u00e7\u00e3o s\u00f3 se volta para fora quando precisa buscar recursos. Uma universidade integralmente financiada pelo dinheiro p\u00fablico tem uma tend\u00eancia \u00e0 acomoda\u00e7\u00e3o. N\u00e3o precisa buscar parceiros e aliados externos. Ao mesmo tempo, a ind\u00fastria brasileira, tradicionalmente, n\u00e3o tem demanda por tecnologia. Voc\u00ea n\u00e3o pode dizer que a responsabilidade \u00e9 apenas das universidades se do outro lado n\u00e3o h\u00e1 procura.<\/p>\n<p><span style=\"font-style: italic;\">Veja <\/span>\u2013 O melhor caminho \u00e9 necessariamente a associa\u00e7\u00e3o entre universidade e empresa?<br \/>\n<span style=\"font-style: italic;\">Schwartzman<\/span> \u2013 Na maioria das vezes, sim. Mesmo pesquisas importantes para a sociedade n\u00e3o s\u00e3o devidamente aproveitadas fora da academia quando n\u00e3o existe parceria com empresas. O pesquisador pode criar uma cura para determinada doen\u00e7a, mas transformar isso em um produto farmac\u00eautico requer um investimento enorme e muitos anos de trabalho na etapa de desenvolvimento. S\u00f3 o custo para registrar uma patente pode chegar a centenas de milhares de d\u00f3lares. N\u00e3o basta inscrev\u00ea-la num \u00fanico escrit\u00f3rio, a patente tem de ser registrada na \u00c1sia, nos Estados Unidos e na Europa, que s\u00e3o os principais mercados. Isso muitas vezes s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com a ajuda de um parceiro privado.<\/p>\n<p><span style=\"font-style: italic;\">Veja <\/span>\u2013 Qual a responsabilidade dos \u00f3rg\u00e3os oficiais de financiamento \u00e0 pesquisa nessa situa\u00e7\u00e3o?<br \/>\n<span style=\"font-style: italic;\">Schwartzman <\/span>\u2013 O sistema de avalia\u00e7\u00e3o dos centros de pesquisa e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o utilizado pela Capes tem mais de trinta anos. E foi muito importante para o Brasil. Gra\u00e7as a ele, o pa\u00eds tem hoje uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o que \u00e9 de longe a melhor da Am\u00e9rica Latina. Mas j\u00e1 est\u00e1 ultrapassado. Ele d\u00e1 muita \u00eanfase aos trabalhos acad\u00eamicos e desestimula qualquer iniciativa pr\u00e1tica. Os crit\u00e9rios de qualidade levam em conta o n\u00famero de artigos publicados, o n\u00famero de doutores formados e a participa\u00e7\u00e3o em congressos internacionais. A aplica\u00e7\u00e3o da pesquisa n\u00e3o \u00e9 valorizada. Com isso, os pesquisadores s\u00f3 querem publicar artigos em revistas internacionais e, assim, contar pontos para seu departamento. Depois de o artigo ter sido publicado, eles n\u00e3o se interessam em procurar uma empresa para desenvolver o produto. Consideram mais vantajoso \u00e0 carreira iniciar outra pesquisa, para publicar um novo artigo.<\/p>\n<p><span style=\"font-style: italic;\">Veja <\/span>\u2013 O que o Brasil perde com isso?<br \/>\n<span style=\"font-style: italic;\">Schwartzman <\/span>\u2013 H\u00e1 dois tipos de perda. O setor privado perde uma excelente oportunidade de evoluir tecnologicamente. E o governo tamb\u00e9m perde, pois n\u00e3o usa o saber acad\u00eamico para auxili\u00e1-lo na formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. H\u00e1 uma s\u00e9rie de demandas por pesquisa em diversas \u00e1reas. Em sa\u00fade, por exemplo, para controlar a dengue. Na formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de seguran\u00e7a, na administra\u00e7\u00e3o de complexos urbanos. S\u00e3o linhas de estudo que o governo deveria estimular \u2013 e usar. O Brasil precisa do melhor conhecimento para lidar com suas quest\u00f5es econ\u00f4micas e sociais, e n\u00e3o pode abrir m\u00e3o dos centros de excel\u00eancia das universidades. Veja s\u00f3 a \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o, em que o pa\u00eds vive uma trag\u00e9dia. Temos um sistema educacional que n\u00e3o ensina. As crian\u00e7as entram na escola e saem semi-analfabetas com 13 ou 14 anos de idade. Faltam estudos para entender o que est\u00e1 acontecendo, quais as sa\u00eddas, o que funciona e o que n\u00e3o funciona. A \u00e1rea do meio ambiente \u00e9 pior ainda. Eu nunca vi um estudo s\u00e9rio e competente sobre a transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco.<\/p>\n<p><span style=\"font-style: italic;\">Veja <\/span>\u2013 Como mudar esse quadro?<br \/>\n<span style=\"font-style: italic;\">Schwartzman <\/span>\u2013 Por um lado, o governo precisa ser melhor usu\u00e1rio de pesquisas. Embora ele tenha institutos pr\u00f3prios, como o Instituto Nacional de Matem\u00e1tica Pura e Aplicada (Impa), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria (Embrapa) e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), h\u00e1 sempre um risco quando o pesquisador recebe seu sal\u00e1rio diretamente do minist\u00e9rio. E se o ministro n\u00e3o gostar da pesquisa? Outro papel do governo \u00e9 estimular as empresas privadas a investir em inova\u00e7\u00e3o. Ele tem de compartilhar o risco desse investimento. No que diz respeito \u00e0 universidade, h\u00e1 duas maneiras de pensar uma mudan\u00e7a: de cima para baixo e de baixo para cima. No primeiro sentido seria criando normas para regular o funcionamento das institui\u00e7\u00f5es. Isso j\u00e1 foi tentado no Brasil com a cria\u00e7\u00e3o da Lei de Inova\u00e7\u00e3o, que facilita a liga\u00e7\u00e3o da universidade com a ind\u00fastria. Mas nunca funcionou muito bem. Acho que o melhor caminho \u00e9 de baixo para cima. Ou seja, dando mais autonomia \u00e0s universidades e estimulando para que elas n\u00e3o fiquem restritas ao meio acad\u00eamico.<\/p>\n<p><span style=\"font-style: italic;\">Veja <\/span>\u2013 De que forma \u00e9 poss\u00edvel fazer isso?<br \/>\n<span style=\"font-style: italic;\">Schwartzman<\/span> \u2013 As universidades p\u00fablicas seguem a l\u00f3gica do servi\u00e7o p\u00fablico. N\u00e3o t\u00eam flexibilidade para pagar melhor determinado pesquisador nem para tratar de forma diferenciada um departamento que tem potencial para produzir mais. Elas precisam poder ser mais flex\u00edveis na sua administra\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 um ponto. De outro lado, as institui\u00e7\u00f5es t\u00eam de ser motivadas a buscar parceria com as empresas. Precisam ganhar alguma coisa com isso, mas tamb\u00e9m t\u00eam de perder se n\u00e3o o fizerem. Vou dar uma sugest\u00e3o. Se cada departamento da universidade recebesse apenas 50% do seu or\u00e7amento e tivesse de levantar os outros 50%, j\u00e1 seria um grande est\u00edmulo. Poderia ser estipulado que o pesquisador receber\u00e1 seu sal\u00e1rio em dobro se o departamento conseguir mais dinheiro, mas receber\u00e1 a metade se n\u00e3o conseguir nada. Isso os tiraria da in\u00e9rcia. Quando eu estudava na Universidade da Calif\u00f3rnia, em Berkeley, nos Estados Unidos, fecharam o departamento de biologia porque estava obsoleto. E \u00e9 uma universidade p\u00fablica. O departamento era antigo, tinha pesquisadores experientes e famosos, mas considerados ultrapassados. Depois de fech\u00e1-lo, a universidade foi ao mercado buscar uma nova gera\u00e7\u00e3o de pesquisadores para substituir a antiga. E por que fizeram isso? Porque sabiam que se tivessem um departamento forte e atualizado conseguiriam dinheiro com mais facilidade junto ao governo e \u00e0s empresas privadas.<\/p>\n<p><span style=\"font-style: italic;\">Veja<\/span> \u2013 Que crit\u00e9rios uma universidade brasileira segue para definir suas linhas de pesquisa?<br \/>\nSchwartzman \u2013 As decis\u00f5es s\u00e3o individuais. A l\u00f3gica \u00e9 a que est\u00e1 na cabe\u00e7a de cada pesquisador. Isso pode ser bom para a carreira dele, mas n\u00e3o \u00e9 interessante para o pa\u00eds porque n\u00e3o h\u00e1 uma linha coerente. O pesquisador morre de medo de algu\u00e9m dizer a ele o que deve pesquisar. E \u00e0s vezes tem boas raz\u00f5es para isso. Concordo que o governo n\u00e3o pode definir o que deve ser pesquisado no pa\u00eds. Mas acho que cada institui\u00e7\u00e3o tem de eleger prioridades estrat\u00e9gicas, voltadas para as demandas da sociedade. N\u00e3o tem sentido, por exemplo, o Brasil fortalecer sua pesquisa em f\u00edsica de part\u00edculas. Tivemos aqui pesquisadores importantes na d\u00e9cada de 40, como Mario Schenberg e Cesar Lattes, que fizeram pesquisa de fronteira e publicaram artigos preciosos. Mas acabou a\u00ed. Depois disso ningu\u00e9m fez mais nada. A f\u00edsica de part\u00edculas \u00e9 hoje uma \u00e1rea bilion\u00e1ria. Depende de investimentos que nenhum pa\u00eds faz sozinho. O Brasil vai participar desse jogo para qu\u00ea? E vai botar quanto dinheiro nisso?<\/p>\n<p><span style=\"font-style: italic;\">Veja <\/span>\u2013 O governo distribui corretamente seus investimentos em pesquisa?<br \/>\n<span style=\"font-style: italic;\">Schwartzman<\/span> \u2013 Esse \u00e9 outro problema. O governo pulveriza muito os recursos. E os projetos contemplados n\u00e3o conseguem crescer. O CNPq (respons\u00e1vel pelo financiamento de pesquisas universit\u00e1rias) criou o Instituto do Mil\u00eanio, cuja id\u00e9ia inicial era fortalecer alguns centros. Mas isso foi sendo pulverizado. Em vez de concentrar o dinheiro em centros de excel\u00eancia, a estrat\u00e9gia foi diluir. \u00c9 um crit\u00e9rio democr\u00e1tico, mas com isso voc\u00ea n\u00e3o cria densidade. Dessa forma \u00e9 imposs\u00edvel dar um salto de qualidade. A atividade cient\u00edfica \u00e9 cara e concentrada. N\u00e3o \u00e9 para qualquer grupo. Hoje, a legisla\u00e7\u00e3o brasileira exige que todas as universidades fa\u00e7am pesquisa. Isso s\u00f3 estimula uma mimetiza\u00e7\u00e3o. O professor participa de um congresso qualquer ou publica um artigo numa revista que ningu\u00e9m l\u00ea. \u00c9 algo que tem apar\u00eancia de pesquisa, mas n\u00e3o produz conhecimento. Fazer pesquisa significa participar de um grupo seleto e muito exigente de pessoas que est\u00e3o produzindo conhecimento de fronteira. \u00c9 uma atividade que pouca gente faz. Por isso o investimento deveria ser concentrado, como acontece em pa\u00edses desenvolvidos.<\/p>\n<p><span style=\"font-style: italic;\">Veja<\/span> \u2013 Sua pesquisa analisou universidades que conseguem associar ci\u00eancia de excel\u00eancia \u00e0 relev\u00e2ncia social ou econ\u00f4mica. Elas t\u00eam algum ponto em comum?<br \/>\n<span style=\"font-style: italic;\">Schwartzman <\/span>\u2013 O principal fator \u00e9 o humano. Em todos os casos que estudamos, havia um pesquisador com mentalidade empresarial, que liderou o processo de integra\u00e7\u00e3o com o mercado. Mesmo nas universidades p\u00fablicas, o l\u00edder de um departamento, al\u00e9m de ser bom na sua \u00e1rea, deve ter um perfil empreendedor. Precisa estar o tempo todo antenado com o que acontece fora da universidade para saber quais temas de pesquisa est\u00e3o surgindo, quais as linhas mais promissoras e onde est\u00e3o as oportunidades. Ele tem de saber convencer os outros da import\u00e2ncia do seu trabalho. Isso cria uma din\u00e2mica. Foi o que aconteceu no Instituto Tecnol\u00f3gico de Aeron\u00e1utica, que virou padr\u00e3o internacional na \u00e1rea de engenharia. Por que o Ex\u00e9rcito ou a Marinha n\u00e3o conseguiram fazer nada parecido? N\u00e3o foi por quest\u00e3o pol\u00edtica. Foi porque colocaram gente de talento l\u00e1 dentro. \u00c9 preciso dar mais liberdade para que l\u00edderes de departamento com capacidade empreendedora possam agir.<\/p>\n<p><span style=\"font-style: italic;\">Veja <\/span>\u2013 Como isso acontece nos pa\u00edses desenvolvidos?<br \/>\n<span style=\"font-style: italic;\">Schwartzman <\/span>\u2013 Na Inglaterra, todas as universidades s\u00e3o p\u00fablicas, mas s\u00e3o administradas como se fossem do setor privado. Elas t\u00eam agilidade para buscar recursos, identificar prioridades, contratar ou demitir gente e, principalmente, pagar de forma diferente profissionais diferentes. Um grande m\u00e9dico ou um grande qu\u00edmico n\u00e3o podem ganhar o mesmo que um professor de hist\u00f3ria, como acontece nos universidades p\u00fablicas brasileiras. Nada contra os historiadores, mas esses profissionais s\u00e3o pagos de forma diferente no mercado. Se a universidade n\u00e3o fizer o mesmo, os mais qualificados ir\u00e3o atr\u00e1s de oportunidades melhores na iniciativa privada. Nos Estados Unidos, as universidades trabalham com todo tipo de conv\u00eanio e de parceria. Evidentemente produzem muito mais.<\/p>\n<p><span style=\"font-style: italic;\">Veja<\/span> \u2013 O mau uso de verbas p\u00fablicas por funda\u00e7\u00f5es ligadas a universidades originou um esc\u00e2ndalo que resultou no afastamento do reitor da Universidade de Bras\u00edlia. No Brasil, essa liberdade n\u00e3o pode dar margem a abusos?<br \/>\n<span style=\"font-style: italic;\">Schwartzman<\/span> \u2013 N\u00e3o h\u00e1 respostas \u00f3bvias para isso. Tudo precisa ser regulado. O caso das funda\u00e7\u00f5es \u00e9 bastante interessante. Elas foram criadas para contornar a rigidez na administra\u00e7\u00e3o das universidades p\u00fablicas. Claro que h\u00e1 possibilidade de abusos, como aconteceu em Bras\u00edlia. Mas fech\u00e1-las seria um desastre. Acho muito importante manter as funda\u00e7\u00f5es, sobretudo enquanto as universidades p\u00fablicas estiverem submetidas \u00e0 camisa-de-for\u00e7a do servi\u00e7o p\u00fablico. Precisamos ver caso a caso se as irregularidades s\u00e3o de fato a\u00e7\u00f5es desonestas ou o exerc\u00edcio efetivo da flexibilidade para o qual elas foram criadas. Funda\u00e7\u00f5es est\u00e3o submetidas \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria de responsabilidade e transpar\u00eancia no uso de recursos, e, se h\u00e1 irregularidades, a solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 fech\u00e1-las, mas aplicar as regras que existem.<\/p>\n<p><span style=\"font-style: italic;\">Veja <\/span>\u2013 A economia brasileira est\u00e1 vivendo um per\u00edodo not\u00e1vel. A pesquisa acad\u00eamica n\u00e3o tem se beneficiado disso?<br \/>\n<span style=\"font-style: italic;\">Schwartzman <\/span>\u2013 N\u00e3o o bastante. O Brasil est\u00e1 perdendo o bonde. O volume de investimento em pesquisa tem crescido a uma velocidade bem maior nos pa\u00edses desenvolvidos do que aqui. A dist\u00e2ncia est\u00e1 aumentando muito. O pa\u00eds n\u00e3o tem capacidade para atrair um investimento de qualidade porque n\u00e3o tem massa cr\u00edtica. O atual governo fala muito sobre a quest\u00e3o da inclus\u00e3o. Seu tema principal \u00e9 o acesso \u00e0 universidade. Acho isso um equ\u00edvoco. Voc\u00ea n\u00e3o tem tanta gente para colocar na universidade porque o ensino m\u00e9dio est\u00e1 muito ruim. Essa pol\u00edtica d\u00e1 acesso a gente que n\u00e3o vai conseguir muita coisa. N\u00e3o acho que o problema da desigualdade social passe pela inclus\u00e3o na universidade. Seria melhor oferecer uma educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de qualidade. A fun\u00e7\u00e3o da universidade \u00e9 produzir compet\u00eancia, gente bem formada e pesquisa de qualidade. A universidade tem de ter liberdade e est\u00edmulo para eleger prioridades. Hoje ela n\u00e3o tem nem uma coisa nem outra. O que devemos discutir \u00e9 se essa universidade tem bons engenheiros, bons cientistas e se tem capacidade para oferecer servi\u00e7os. O resto \u00e9 secund\u00e1rio.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com este t\u00edtulo, A revista Veja do dia 7 de maio de 2008 publica uma entrevista comigo nas &#8220;P\u00e1ginas Amarelas&#8221;, a prop\u00f3sito de uma pesquisa que realizamos sobre os v\u00ednculos entre a pesquisa acad\u00eamica e suas aplica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas na Am\u00e9rica Latina. Para quem tiver interesse, a publica\u00e7\u00e3o pode ser acessada aqui. 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