{"id":24,"date":"2005-05-30T19:02:00","date_gmt":"2005-05-30T22:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=24"},"modified":"2008-08-03T13:16:31","modified_gmt":"2008-08-03T16:16:31","slug":"o-banqueiro-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-banqueiro-do-mundo\/","title":{"rendered":"O Banqueiro do Mundo"},"content":{"rendered":"<p>Para quem se interessa pelos temas da pobreza,  desigualdade social e direitos humanos, o livro de Sebastian Mallaby, <span style=\"font-style:italic;\">The World\u2019s Banker &#8211; uma hist\u00f3ria de estados falidos, crises financeiras e a riqueza e a pobreza das Na\u00e7\u00f5es<\/span> (New York, Penguin, 2004) \u00e9 leitura obrigat\u00f3ria. O &#8220;Banqueiro do Mundo&#8221; \u00e9 Jim Wolfenshon, presidente do Banco Mundial entre 1995 e 2005,  personalidade ambiciosa e contradit\u00f3ria, ao redor da qual Mallaby produz uma espl\u00eandida an\u00e1lise das atividades do Banco Mundial, n\u00e3o somente atrav\u00e9s de seus projetos, como sobretudo atrav\u00e9s do confronto permanente entre diferentes vis\u00f5es a respeito do seu papel e de como enfrentar as quest\u00f5es da pobreza e do subdesenvolvimento,  do meio \u00e0s press\u00f5es pol\u00edticas de todos os lados, as grandes crises financeiras e as guerras civis que marcaram a \u00faltima d\u00e9cada, antes que o 11 de setembro sinalizasse, talvez, o in\u00edcio de uma nova era.<\/p>\n<p>Nestes anos, o Banco Mundial deixou de ser uma ag\u00eancia de investimentos em grandes obras de infra-estrutura, e tentou se transformar no campe\u00e3o mundial dos direitos humanos, da prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente e da organiza\u00e7\u00e3o dos pobres e discriminados em defesa de seus direitos e interesses. Mallaby resume esta passagem dizendo que o Banco, que no in\u00edcio s\u00f3 se preocupava com o capital f\u00edsico, passa pelo tema do capital humano, e termina como o grande propulsor do capital social. Esta mudan\u00e7a n\u00e3o se explica, simplesmente, pelas id\u00e9ias do seu presidente, mas pela maneira pela qual ele reage e procura se adaptar a todo o tipo de press\u00f5es e conflitos que atingem a institui\u00e7\u00e3o, desde os governos conservadores que n\u00e3o acreditam que exista um papel para organiza\u00e7\u00f5es multilaterais como esta, nem pol\u00edticas de combate \u00e0 pobreza que possam resultar, at\u00e9 as organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais que v\u00eam no Banco um agente dos interesses da globaliza\u00e7\u00e3o, do capitalismo multinacional e das ambi\u00e7\u00f5es imperialistas dos Estados Unidos. N\u00e3o \u00e9 uma mudan\u00e7a bem sucedida: o livro mostra como, na \u00e2nsia de agradar a todos, o desagrado \u00e9 geral, o Banco passa por graves crises e conflitos internos, e termina voltando, dentro de certos limites, aos projetos de infra-estrutura mais tradicionais.<\/p>\n<p>Wolfensohn assume o Banco quando, em Madrid, manifestantes exigiam nas ruas o fechamento da Institui\u00e7\u00e3o, proclamando que  \u201ccinq\u00fcenta anos j\u00e1 bastam\u201d. Segundo os cr\u00edticos, o Banco funcionava como bra\u00e7o auxiliar do Fundo Monet\u00e1rio Internacional das pol\u00edticas de ajuste fiscal que for\u00e7avam os pa\u00edses pobres a cortar or\u00e7amentos, desmantelar os sistemas de bem estar social, privatizar empresas estatais e abrir as fronteiras para o capitalismo internacional; e, al\u00e9m disto, vinha de uma tradi\u00e7\u00e3o de apoio a governos corruptos e ditatoriais, aliados do ocidente na Guerra Fria. \u201cA imagem do economista do Banco Mundial viajando de primeira classe de Washington para uma capital qualquer do terceiro mundo, trazendo uma mala de dinheiro para ditadores corruptos, ficou gravada na imagem do p\u00fablico: os ajustes estruturais passaram a ser vistos como um pacto pernicioso entre o burocrata e o autocrata\u201d (p. 49).<\/p>\n<p>Wolfensohn tenta mudar esta situa\u00e7\u00e3o, criando ou recuperando a imagem do Banco como institui\u00e7\u00e3o sens\u00edvel, preocupada com a pobreza e com o meio ambiente, e intolerante com a corrup\u00e7\u00e3o. Para mostrar sensibilidade, o banco deveria ouvir e responder a todas as demandas e cr\u00edticas das organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, e ser ainda mais radical que elas em seu compromisso com os pobres; para cuidar do meio ambiente, o Banco passa a incorporar normas cada vez severas de avalia\u00e7\u00e3o de impacto ambiental de seus projetos, e reduz o financiamento a barragens e outras obras que pudessem levar ao deslocamento de popula\u00e7\u00f5es, a amea\u00e7a a esp\u00e9cies e \u00e0 polui\u00e7\u00e3o do meio ambiente; para n\u00e3o se comprometer com a corrup\u00e7\u00e3o, o Banco procura apoiar programas que transferem recursos diretamente \u00e0s pessoas, e n\u00e3o \u00e0s burocracias, ou condicionar os empr\u00e9stimos e financiamentos \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de mecanismos e institui\u00e7\u00f5es que possam garantir seu bom uso. O Banco transfere os escrit\u00f3rios de suas coordena\u00e7\u00f5es nacionais para os respectivos pa\u00edses, e passa a ser um defensor do perd\u00e3o da d\u00edvida externa dos paises mais pobres. A reforma do setor p\u00fablico, com a cria\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es modernas e eficientes nos pa\u00edses em desenvolvimento, passa a ser objeto de aten\u00e7\u00e3o cada vez maior. Ao mesmo tempo, o Banco continua e amplia suas atividades de an\u00e1lise e pesquisa, transformando-se no principal centro de estudos sobre temas relacionados \u00e0 pobreza e ao desenvolvimento em todo o mundo.<\/p>\n<p>Existiam limites, no entanto, para tudo isto. As pol\u00edticas de ajuste estrutural n\u00e3o estavam ajudando a maioria dos pa\u00edses a revigorar suas economias, e elas n\u00e3o dependiam do Banco, que, no entanto, era chamado a colaborar com o FMI na montagem dos pacotes de financiamento para atender \u00e0s crises mais graves.  As cr\u00edticas que o Banco poderia ter a estas pol\u00edticas, expressas de forma mais radical nos escritos de Joe Stiglitz, se referiam sobretudo \u00e0 forma em que estas pol\u00edticas eram impostas e implementadas nos pa\u00edses, e n\u00e3o \u00e0 sua necessidade do ponto de vista macroecon\u00f4mico. O problema parecia estar relacionado, sobretudo, \u00e0 quest\u00e3o da  \u201cgood governance\u201d, bom governo, que era associada mas n\u00e3o se reduzia \u00e0 quest\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Nos tempos da Guerra Fria, e antes da crise do ajuste econ\u00f4mico, o Banco apoiava governos como o do Presidente Suharto da Indon\u00e9sia, entendendo pragmaticamente que o importante era que a economia crescesse e o que pa\u00eds se mantivesse alinhado ao bloco ocidental, mesmo que neste processo algumas pessoas se fizessem multimilion\u00e1rias e os princ\u00edpios democr\u00e1ticos sofressem. A crise do ajuste mostrou que, na hora de disciplinar os gastos p\u00fablicos, privatizar companhias e redirecionar os gastos sociais, ter um governo agindo com compet\u00eancia e responsabilidade e outro que s\u00f3 est\u00e1 interessado em se manter no poder e distribuir favores entre amigos podia fazer toda a diferen\u00e7a. Pa\u00edses bem governados, como a Uganda, a China e o Chile, encontraram formas de usar bem os recursos internacionais e enfrentar as crises, enquanto que outros, como as Filipinas, a Indon\u00e9sia e a Bol\u00edvia n\u00e3o o fizeram.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es entre \u00e9tica, compet\u00eancia e resultados, no entanto, s\u00e3o muito mais complexas do que aparentam: na economia, n\u00e3o h\u00e1 boas inten\u00e7\u00f5es que sobrevivam a uma pol\u00edtica macroecon\u00f4mica equivocada; na pol\u00edtica, governos totalit\u00e1rios cometem os piores crimes em nome de princ\u00edpios elevados e da busca da efici\u00eancia econ\u00f4mica e da ordem social, enquanto que l\u00edderes democr\u00e1ticos necessitam negociar apoios e alian\u00e7as sem sempre palat\u00e1veis. O casos da Argentina e Brasil, que Mallaby n\u00e3o analisa ilustram bem os dilemas envolvidos. Por um tempo, na Argentina, parecia que a paridade com o d\u00f3lar, estimulada e elogiada pelo FMI, havia feito a m\u00e1gica de fazer o pa\u00eds entrar definitivamente para o primeiro mundo. Diante disto, a corrup\u00e7\u00e3o do governo Menem e o descontrole das finan\u00e7as p\u00fablicas pareciam um inconveniente desagrad\u00e1vel, mas sem maiores conseq\u00fc\u00eancias. Depois do desastre, discute-se ainda se era a pol\u00edtica econ\u00f4mica que estava errada, e que fracassaria com qualquer governo, ou se foi a irresponsabilidade das autoridades que faz o pa\u00eds perder uma oportunidade de ouro. No Brasil, governos democr\u00e1ticos e honestos como os de Fernando Henrique Cardoso e Lula nem sempre souberam definir com clareza a fronteira entre pol\u00edticas necess\u00e1rias de alian\u00e7a e toler\u00e2ncia inadmiss\u00edvel \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta complexidade n\u00e3o existe para os ide\u00f3logos da pol\u00edtica e dos movimentos sociais. A maioria das organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais do primeiro mundo, descritas por Mallaby como \u201ca m\u00e1fia de Berkeley\u201d, v\u00ea o mundo em preto e branco, e depende da mobiliza\u00e7\u00e3o constante e do impacto na m\u00eddia para continuar existindo. Mallaby examina em detalhe um caso extremo, a pol\u00eamica criada contra o projeto de financiamento de constru\u00e7\u00e3o da represa de Qinghai na China, na regi\u00e3o do Tibet, aparentemente de grande valor e interesse para os habitantes da regi\u00e3o, mas contestada violentamente pelas ONGS nos Estados Unidos. \u201cO cerco das ONGS, vis\u00edvel nas ruas ao redor dos escrit\u00f3rios do Banco em Washington, existia de forma invis\u00edvel dentro do pr\u00f3prio Banco. Para aplacar os mission\u00e1rios, o Banco os deixou entrar em seus dom\u00ednios, criou regras que refletiam os valores dos mission\u00e1rios, e jurou obedec\u00ea-las. O resultado foi uma organiza\u00e7\u00e3o de desenvolvimento que foi perdendo contato com os pa\u00edses em desenvolvimento, uma organiza\u00e7\u00e3o que refletia a agenda dos ativistas do Norte, e n\u00e3o as dif\u00edceis circunst\u00e2ncias de seus clientes mais pobres.\u201d<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o dos c\u00edrculos mais conservadores, que se intensificou a partir da presid\u00eancia de George W. Bush, n\u00e3o era muito diferente. Por um lado, havia os que, como o Secret\u00e1rio do Tesouro Paul O\u2019Neill, consideravam que o crescimento do mercado privado de capitais tornava uma institui\u00e7\u00e3o multilateral como o Banco Mundial desnecess\u00e1ria, e n\u00e3o viam nenhum valor em suas tentativas de agir em todas as \u00e1reas relacionadas com os temas da pobreza, sem a efici\u00eancia e a clareza de objetivos das grandes empresas privadas, como a Alcoa, de onde vinha o Secret\u00e1rio. Mais amplamente, o governo Bush, como principal acionista do Banco, nunca aceitou de bom grado que esta fosse uma institui\u00e7\u00e3o  multilateral que tivesse suas pol\u00edticas pr\u00f3prias, e n\u00e3o alinhadas \u00e0s orienta\u00e7\u00f5es e aos valores do governo norte-americano. Esta situa\u00e7\u00e3o se tornou particularmente dif\u00edcil depois da invas\u00e3o do Iraque, quando o Banco \u00e9 chamado, mas reluta, em participar do financiamento da reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. O mundo \u00e9 simples, para os conservadores americanos. De um lado, est\u00e3o as virtudes do capitalismo, da democracia  e do American way of life; de outro, o resto. Cabe a cada um decidir de que lado quer ficar, sem d\u00favidas, complica\u00e7\u00f5es e elabora\u00e7\u00f5es intelectuais mais complexas, que s\u00f3 expressam a falta de clareza moral e de convic\u00e7\u00f5es das pessoas. De alguma maneira, Wolfensohn consegue sobreviver ao primeiro mandato de Bush, mas, em 2005, o governo americano nomeia para seu lugar um de seus ide\u00f3logos mais conservadores, Paul Wolfowitz.<\/p>\n<p>Mallaby n\u00e3o \u00e9 um radical, e sua avalia\u00e7\u00e3o do Banco Mundial nos anos de Wolfensohn \u00e9 balanceada. Ele critica Wolfensohn pelas tentativas de reforma institucional do Banco, que jamais poderia funcionar como uma empresa, e que sofreu grande desgaste pelos processos constantes de reorganiza\u00e7\u00e3o interna. Ele considera correta a postura do Banco em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas de ajuste estrutural do FMI, ao considerar que medidas financeiras n\u00e3o funcionariam por elas mesmas, e colocar o foco de aten\u00e7\u00e3o nos problemas de corrup\u00e7\u00e3o, do perd\u00e3o da d\u00edvida dos pa\u00edses mais pobre,  e do enfrentamento direto dos problemas da pobreza. Por outro lado, ele critica a tentativa do Banco de criar uma nova estrat\u00e9gia global de atua\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s do que ficou conhecido como o \u201cComprehensive Development Framework\u201d.  As duas principais id\u00e9ias nesta estrat\u00e9gia era que os projetos de desenvolvimento n\u00e3o poderiam ser impostos pelo Banco aos pa\u00edses e controlados por condicionalidades, mas deveriam ser solicitados e \u201capropriados\u201d por eles (a express\u00e3o inglesa \u00e9 \u201ccountry ownership\u201d); a segunda era a abrang\u00eancia dos projetos: n\u00e3o haviam prioridades, tudo precisava ser feito ao mesmo tempo \u2013 educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, reforma institucional, sistema de cr\u00e9dito, infra-estrutura de transportes e eletricidade&#8230; Ainda que plaus\u00edveis em teoria, estas id\u00e9ias dificilmente funcionavam na pr\u00e1tica, pela pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica entre um grande Banco com muito dinheiro e pa\u00edses pequenos buscando adivinhar as inten\u00e7\u00f5es e agradar o financiador.<\/p>\n<p>Ao final, Mallaby diz que o principal problema com a gest\u00e3o de Wolfensohn foi a grande ambi\u00e7\u00e3o de atender a todos, e fazer do Banco o grande motor do desenvolvimento e do combate \u00e0 pobreza.  O Banco Mundial n\u00e3o \u00e9 um substituto para um governo mundial, o dinheiro que disp\u00f5e \u00e9 s\u00f3 uma fra\u00e7\u00e3o dos recursos que os pa\u00edses necessitam para se desenvolver, e seus milhares de funcion\u00e1rios, por melhores que sejam, s\u00e3o poucos se comparados com as grandes administra\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses ricos ou em desenvolvimento. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, ao mesmo tempo, agradar os acionistas, atender aos ditames da pol\u00edtica externa e interna norte-americana, obter o apoio dos governos dos pa\u00edses em desenvolvimento e as ONGS da \u201cm\u00e1fia de Berkeley\u201d, enfrentar a corrup\u00e7\u00e3o, e ajudar os pobres do terceiro mundo a se tornarem respons\u00e1veis pelo seu pr\u00f3prio destino. A esta ambi\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica e desmesurada, Mallaby contrap\u00f5e a import\u00e2ncia da humildade, que poderia fazer com que o Banco pudesse usar, da melhor maneira poss\u00edvel, o grande acervo de experi\u00eancias e conhecimentos que tem acumulado ao longo destes anos t\u00e3o tumultuados. Agora \u00e9 esperar para ver.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para quem se interessa pelos temas da pobreza, desigualdade social e direitos humanos, o livro de Sebastian Mallaby, The World\u2019s Banker &#8211; uma hist\u00f3ria de estados falidos, crises financeiras e a riqueza e a pobreza das Na\u00e7\u00f5es (New York, Penguin, 2004) \u00e9 leitura obrigat\u00f3ria. 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