{"id":2579,"date":"2011-11-03T07:53:47","date_gmt":"2011-11-03T10:53:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=2579"},"modified":"2011-11-03T07:53:47","modified_gmt":"2011-11-03T10:53:47","slug":"prova-para-professores-jabuticaba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/prova-para-professores-jabuticaba\/","title":{"rendered":"Prova para professores: Jabuticaba?"},"content":{"rendered":"<p><em>Reproduzo o artigo de Jo\u00e3o Batista Araujo e Oliveira publicado no <strong>O \u00a0Estado de S\u00e3o Paulo<\/strong> de 1\/11\/2011.<\/em><\/p>\n<p><strong>Prova para professores \u00e9 mais uma jabuticaba<\/strong><\/p>\n<h1><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-size: 13px; font-weight: normal;\"><a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/jabuticaba.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-2580\" title=\"jabuticaba\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/jabuticaba.jpg\" alt=\"\" width=\"320\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/jabuticaba.jpg 320w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/jabuticaba-300x210.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 320px) 85vw, 320px\" \/><\/a>Sempre julguei que uma prova nacional para professores fosse uma boa solu\u00e7\u00e3o. Selecionaria pessoas equipadas para o magist\u00e9rio e apontaria \u00e0s institui\u00e7\u00f5es formadoras aspectos importantes na prepara\u00e7\u00e3o dos recursos humanos. A recente iniciativa do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC) mostrou-me que meu repentino otimismo era infundado. Mais uma vez, venceram as corpora\u00e7\u00f5es. O documento produzido pela comiss\u00e3o respons\u00e1vel reproduz a geleia geral caracter\u00edstica dos cursos de Pedagogia, ancorados em teorias da moda, sem fundamenta\u00e7\u00e3o nem compromisso com os graves problemas da forma\u00e7\u00e3o do professor, em especial nas mat\u00e9rias b\u00e1sicas. As audi\u00eancias p\u00fablicas e os \u00f3rg\u00e3os respons\u00e1veis pelos sistemas de ensino n\u00e3o trouxeram racionalidade ao debate.<\/span><\/h1>\n<p>A men\u00e7\u00e3o de que experi\u00eancias de outros pa\u00edses foram consideradas tampouco diz grande coisa, tendo em vista a seletiva capacidade de ouvir dos que conduzem tais quest\u00f5es. A modelagem do exame com base no famigerado Enem, o mais fr\u00e1gil e controvertido dos testes produzidos pelo MEC, aumenta o pessimismo.<\/p>\n<p>Falta racionalidade \u00e0 proposta que foi apresentada para debate pelo MEC: uma matriz com tr\u00eas dimens\u00f5es, dez \u201ccompet\u00eancias\u201d e dez \u201ceixos\u201d do conhecimento. Inexiste diferencia\u00e7\u00e3o entre professores de creches, pr\u00e9-escolas e s\u00e9ries iniciais. Os conte\u00fados das disciplinas centrais \u2013 elaborados por comiss\u00f5es formadas por v\u00e1rios especialistas \u2013 ocupam 3 a 4 linhas cada, num documento de 15 p\u00e1ginas. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que essa seja a \u00fanica contribui\u00e7\u00e3o de t\u00e3o selecionado grupo.<\/p>\n<p>Alguns exemplos e contrastes: na matriz de refer\u00eancia n\u00e3o h\u00e1 refer\u00eancia ao fato de que um educador de pr\u00e9-escola precisa conhecer as cantigas infantis, mas se afirma que necessita \u201catuar em situa\u00e7\u00f5es do cotidiano escolar com base na legisla\u00e7\u00e3o vigente\u201d. A palavra literatura aparece uma \u00fanica vez, mas se espera que o professor \u201ccompreenda aspectos culturais, sociais, ambientais, pol\u00edticos, econ\u00f4micos e tecnol\u00f3gicos da sociedade e suas interfaces com a educa\u00e7\u00e3o\u201d. Deu para perceber? 90% do documento trata dessas platitudes ou \u201ccompet\u00eancias\u201d.<\/p>\n<p>Vale comparar essa mel\u00edflua proposta com os concursos p\u00fablicos para as carreiras s\u00e9rias. Num concurso t\u00edpico, os t\u00f3picos que v\u00e3o cair na prova s\u00e3o expl\u00edcitos \u2013 qualquer pessoa sabe o que precisa estudar e onde encontrar a informa\u00e7\u00e3o. E sabemos que esses concursos t\u00eam conseguido recrutar os melhores candidatos. Na prova do MEC a maioria esmagadora das \u201ccompet\u00eancias\u201d \u00e9 do tipo gen\u00e9rico: \u201cpromover a\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito da comunidade escolar, com vistas \u00e0 inclus\u00e3o e ao respeito \u00e0s diversidades\u201d. Reproduz o vi\u00e9s do Enade, a prova de conclus\u00e3o de curso superior aplicada aos professores e nada acrescenta que possa mudar os rumos da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Seria um enorme avan\u00e7o se os professores de L\u00edngua Portuguesa dominassem e ensinassem o c\u00f3digo alfab\u00e9tico, o c\u00f3digo ortogr\u00e1fico e tivessem forma\u00e7\u00e3o suficiente para ler e interpretar um texto com os alunos. No caso da matem\u00e1tica, o esperado era que tivessem condi\u00e7\u00e3o de ensinar o sistema de numera\u00e7\u00e3o decimal, as quatro opera\u00e7\u00f5es e soubessem explicar e representar as propriedades das opera\u00e7\u00f5es, fra\u00e7\u00f5es, decimais e porcentagens na reta num\u00e9rica. Em ci\u00eancias, que dominassem alguns conceitos b\u00e1sicos, como a no\u00e7\u00e3o de sistemas, evolu\u00e7\u00e3o, ciclos e a teoria at\u00f4mico-molecular, para apresentar os fen\u00f4menos e caracter\u00edsticas associadas aos seres vivos e n\u00e3o vivos. Nada disso, parece, cair\u00e1 na prova do MEC.<\/p>\n<p>Pouco se conhece sobre o que faz uma pessoa ser bom professor. Mas \u00e9 certeza que n\u00e3o h\u00e1 correla\u00e7\u00e3o com titula\u00e7\u00e3o ou n\u00famero de cursos superiores realizados. H\u00e1 fortes evid\u00eancias de que um professor bem-sucedido \u00e9 o que domina bem os conte\u00fados e sabe um pouco mais para entender as implica\u00e7\u00f5es do que ensina. As pedagogias eficazes s\u00e3o associadas a um profundo conhecimento da mat\u00e9ria e \u00e0s formas adequadas de comunic\u00e1-la. Esse \u00e9 o tipo de conhecimento pedag\u00f3gico relevante.<\/p>\n<p>Liping Ma, da Universidade Stanford, mostrou que professores chineses com apenas nove anos de escolaridade conseguem resultados muito melhores com seus alunos do que seus colegas norte-americanos, que, apesar de terem cursos de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s, n\u00e3o conhecem a fundo a matem\u00e1tica elementar e as maneiras de ensin\u00e1-la. O \u00faltimo relat\u00f3rio do National Council on Teacher Quality, nos EUA, mostra a precariedade da forma\u00e7\u00e3o dos professores de Matem\u00e1tica pelas faculdades de educa\u00e7\u00e3o e analisa como s\u00e3o inadequados os livros did\u00e1ticos usados nas faculdades daquele pa\u00eds. Aqui, nem sequer temos esses livros \u2013 mas queremos desenvolver \u201ccompet\u00eancias\u201d. Conte\u00fado da disciplina, parece, \u00e9 quest\u00e3o secund\u00e1ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe receita para formar professores. A evid\u00eancia cient\u00edfica \u00e9 bastante limitada. A experi\u00eancia dos pa\u00edses com melhores n\u00edveis de ensino varia em torno de alguns pontos centrais: atrair jovens com boa forma\u00e7\u00e3o para a carreira, exigir prova de conhecimentos antes do ingresso, estabelecer rigorosos est\u00e1gios probat\u00f3rios nos anos iniciais. Em algumas \u00e1reas j\u00e1 sabemos quais conhecimentos s\u00e3o relevantes. Fugir disso \u00e9 querer colher jabuticaba. Com a prova do MEC continuaremos a formar professores com muitas compet\u00eancias no que \u00e9 perif\u00e9rico e pouca compet\u00eancia no que \u00e9 essencial.<\/p>\n<p>A qualidade do professor \u00e9 o n\u00f3 g\u00f3rdio da qualidade do ensino. Sabemos que a educa\u00e7\u00e3o s\u00f3 ter\u00e1 chance de melhorar no Pa\u00eds quando tivermos professores qualificados. Estamos diante de mais uma oportunidade perdida para avan\u00e7ar e de possibilidades de enorme retrocesso.<\/p>\n<p>O erro na condu\u00e7\u00e3o do problema est\u00e1 na origem: para dar um salto da qualidade na educa\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 preciso libertar a discuss\u00e3o e o MEC do controle das corpora\u00e7\u00f5es. N\u00e3o basta ter audi\u00eancias p\u00fablicas, \u00e9 preciso qualificar o debate com base em evid\u00eancias e n\u00e3o ter como crit\u00e9rio a busca de consenso entre parceiros pr\u00e9-selecionados. O MEC tornou-se ref\u00e9m das corpora\u00e7\u00f5es. Agora ser\u00e1 a vez do Pa\u00eds.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reproduzo o artigo de Jo\u00e3o Batista Araujo e Oliveira publicado no O \u00a0Estado de S\u00e3o Paulo de 1\/11\/2011. Prova para professores \u00e9 mais uma jabuticaba Sempre julguei que uma prova nacional para professores fosse uma boa solu\u00e7\u00e3o. Selecionaria pessoas equipadas para o magist\u00e9rio e apontaria \u00e0s institui\u00e7\u00f5es formadoras aspectos importantes na prepara\u00e7\u00e3o dos recursos humanos. &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/prova-para-professores-jabuticaba\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Prova para professores: Jabuticaba?&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-2579","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao-basica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2579","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2579"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2579\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2583,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2579\/revisions\/2583"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2579"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2579"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2579"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}