{"id":2700,"date":"2012-02-08T07:10:22","date_gmt":"2012-02-08T10:10:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=2700"},"modified":"2016-07-18T09:47:39","modified_gmt":"2016-07-18T12:47:39","slug":"o-cne-e-o-pesadelo-do-ensino-medio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-cne-e-o-pesadelo-do-ensino-medio\/","title":{"rendered":"O CNE e o pesadelo do ensino m\u00e9dio"},"content":{"rendered":"<p><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-2709\" title=\"estadao2\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/estadao21.jpg\" alt=\"\" width=\"290\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/estadao21.jpg 290w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/estadao21-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 290px) 85vw, 290px\" \/>O jornal O Estado de S\u00e3o Paulo, em sua edi\u00e7\u00e3o de 8 de fevereiro, publica o artigo abaixo, assinado por Jo\u00e3o Batista Araujo e Oliveira, Claudio de Moura Castro e por mim:<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>CNE e o pesadelo do ensino m\u00e9dio<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 um abismo separando o ensino m\u00e9dio no Brasil do que se faz no resto do mundo. Exemplo dessa dist\u00e2ncia \u00e9 a Resolu\u00e7\u00e3o 2, de 30 de janeiro de 2012, do Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o (CNE). Ali se alarga o fosso que existe entre as elites brasileiras e o mundo das pessoas que dependem de suas decis\u00f5es.<\/p>\n<p>Comecemos com a realidade: muitos dos alunos que v\u00eam da escola p\u00fablica e entram no ensino m\u00e9dio n\u00e3o conseguem ler e escrever com um m\u00ednimo de compet\u00eancia. De fato, 85% chegam com um n\u00edvel de conhecimentos equivalente ao que seria de se esperar para o 5.\u00ba ano. Desse total, 40% se evadem nos dois primeiros anos e menos de 50% concluem os cursos, com m\u00e9dia inferior a 4 na prova objetiva do Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio (Enem) e acumulando nas costas uma m\u00e9dia de um ano e meio de repet\u00eancia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos suspeitos usuais (por exemplo, mau preparo dos professores), v\u00e1rias pesquisas confirmam o que todos sab\u00edamos: o ensino m\u00e9dio \u00e9 chato! Os temas est\u00e3o muito longe do mundo dos alunos, n\u00e3o permitindo que vislumbrem um bom uso para tais conhecimentos, e \u00e9 descomunal a quantidade de assuntos tratados, n\u00e3o deixando entender nada em profundidade e obrigando os alunos a memorizar f\u00f3rmulas, listas, datas e princ\u00edpios cient\u00edficos. O prazer do estudo \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de entender, de decifrar os mist\u00e9rios do conhecimento. Se as mat\u00e9rias fluem freneticamente, n\u00e3o h\u00e1 como dominar o que quer que seja. Convidamos o leitor a folhear um livro de biologia do ensino m\u00e9dio e contar os milhares de bichinhos e plantinhas citados.<\/p>\n<p>Uma fra\u00e7\u00e3o \u00ednfima dos egressos de escola p\u00fablica prossegue para o ensino superior. Para os demais \u00e9 ensino t\u00e9cnico ou nada. Mas os que querem fazer ensino profissional precisam concluir primeiro a barreira do ensino m\u00e9dio. Ou, ent\u00e3o, t\u00eam de estudar em outro turno, para aprenderem uma profiss\u00e3o. Isso contrasta com o que fazem muitos pa\u00edses, onde as disciplinas de cunho mais pr\u00e1tico ou profissionalizante substituem as disciplinas acad\u00eamicas &#8211; mantendo a carga hor\u00e1ria.<\/p>\n<p>Dos que v\u00e3o para a escola t\u00e9cnica, dois ter\u00e7os estudam em institui\u00e7\u00f5es particulares pagas e sem subs\u00eddios p\u00fablicos. S\u00e3o os cursos voltados para alunos mais modestos. Por que as bolsas e os cr\u00e9ditos educativos n\u00e3o v\u00e3o para os cursos que matriculam os menos pr\u00f3speros?<\/p>\n<p>Nos pa\u00edses desenvolvidos, o ensino m\u00e9dio tem tr\u00eas caracter\u00edsticas. Em primeiro lugar, \u00e9 diversificado, n\u00e3o existindo um curr\u00edculo m\u00ednimo \u00fanico ou obrigat\u00f3rio para todos. O grau de diversifica\u00e7\u00e3o varia entre pa\u00edses, podendo ser diferente entre tipos de ensino m\u00e9dio e escolas. Muitas das alternativas oferecidas preparam para o trabalho. De fato, entre 30% e 70% dos alunos cursam uma vertente profissionalizante. A segunda caracter\u00edstica \u00e9 o ganho de efici\u00eancia. Com a exist\u00eancia de m\u00faltiplos percursos, os alunos podem escolher os mais apropriados para seu perfil e suas prefer\u00eancias. Assim, o \u00edndice de perdas \u00e9 m\u00ednimo. Em contraste, a deser\u00e7\u00e3o ocorre com maior intensidade nos pa\u00edses onde h\u00e1 menor diversifica\u00e7\u00e3o. A terceira caracter\u00edstica \u00e9 que, consistente com a diversifica\u00e7\u00e3o, muitos pa\u00edses n\u00e3o utilizam um mesmo exame de fim de ensino m\u00e9dio, padronizado para todos. Os alunos tampouco precisam fazer provas em mais de quatro ou cinco disciplinas para obter um certificado de algum tipo de ensino m\u00e9dio.<\/p>\n<p>O estilo gong\u00f3rico da resolu\u00e7\u00e3o do CNE dificulta sua compreens\u00e3o. Por exemplo: &#8220;O projeto pol\u00edtico-pedag\u00f3gico na sua concep\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o deve considerar os estudantes e professores como sujeitos hist\u00f3ricos e de direitos, participantes ativos e protagonistas na sua diversidade e singularidade&#8221;. J\u00e1 que alguma for\u00e7a profunda empurra para esse linguajar, por que n\u00e3o publicar, simultaneamente, uma vers\u00e3o intelig\u00edvel para o comum dos mortais?<\/p>\n<p>E tome legisla\u00e7\u00e3o: s\u00e3o quatro \u00e1reas de conhecimento e nove mat\u00e9rias obrigat\u00f3rias &#8211; apelidadas de &#8220;componentes curriculares com especificidades e saberes pr\u00f3prios constru\u00eddos e sistematizados&#8221; -, que s\u00e3o subdivididas, sempre na forma da lei, em 12 disciplinas. N\u00e3o admira que os alunos abandonem os cursos. Como dizia An\u00edsio Teixeira na d\u00e9cada de 50, tudo legal, e tudo muito ruim!<\/p>\n<p>Mas o pior est\u00e1 por vir. A resolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o define o que seja &#8220;educa\u00e7\u00e3o geral&#8221;, mas no inciso V do artigo 14 afirma que &#8220;atendida a forma\u00e7\u00e3o geral, incluindo a prepara\u00e7\u00e3o b\u00e1sica para o trabalho, o Ensino M\u00e9dio<strong> pode<\/strong> preparar para o exerc\u00edcio de profiss\u00f5es t\u00e9cnicas&#8221;. Instrutivo notar que a profissionaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 vista como um &#8220;pode&#8221;, e n\u00e3o como um caminho natural que alhures \u00e9 seguido pela maioria.<\/p>\n<p>Essa profissionaliza\u00e7\u00e3o se obt\u00e9m adicionando 800 horas ao curso (o equivalente a um ano letivo). Ou seja, em primeiro lugar, \u00e9 preciso sofrer as 2.400 horas da tal &#8220;educa\u00e7\u00e3o geral&#8221;. Depois, para a profissionaliza\u00e7\u00e3o, s\u00e3o mais 800 horas de estudo. Na pr\u00e1tica, os alunos dos cursos t\u00e9cnicos t\u00eam uma carga de estudos mais pesada do que os que fazem o acad\u00eamico puro. Dif\u00edcil imaginar maior desincentivo para a forma\u00e7\u00e3o profissional. Nos pa\u00edses mais bem-sucedidos em educa\u00e7\u00e3o os cursos t\u00e9cnicos t\u00eam carga hor\u00e1ria igual ou menor que o acad\u00eamico. Para valorizar o lado profissionalizante, o texto diz que o &#8220;trabalho \u00e9 conceituado na sua perspectiva ontol\u00f3gica de transforma\u00e7\u00e3o da natureza, como realiza\u00e7\u00e3o inerente ao ser humano e como media\u00e7\u00e3o do processo de produ\u00e7\u00e3o da sua exist\u00eancia&#8221;. Deu para entender? Traduzindo do javan\u00eas, \u00e9 preciso aumentar a &#8220;educa\u00e7\u00e3o geral&#8221;.<\/p>\n<p>O novo ministro da Educa\u00e7\u00e3o encontra-se diante de uma oportunidade \u00edmpar. Ou seja, alinhar o ensino m\u00e9dio \u00e0 realidade de seus alunos, de sua economia e \u00e0 luz da experi\u00eancia de quem fez melhor do que n\u00f3s. Ou, ent\u00e3o, perpetuar o genoc\u00eddio pessoal e intelectual que caracteriza um ensino m\u00e9dio unificado e, por consequ\u00eancia, excludente.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornal O Estado de S\u00e3o Paulo, em sua edi\u00e7\u00e3o de 8 de fevereiro, publica o artigo abaixo, assinado por Jo\u00e3o Batista Araujo e Oliveira, Claudio de Moura Castro e por mim: CNE e o pesadelo do ensino m\u00e9dio H\u00e1 um abismo separando o ensino m\u00e9dio no Brasil do que se faz no resto do &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-cne-e-o-pesadelo-do-ensino-medio\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;O CNE e o pesadelo do ensino m\u00e9dio&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[22],"tags":[],"class_list":["post-2700","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2700","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2700"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2700\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5557,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2700\/revisions\/5557"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2700"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2700"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2700"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}