{"id":3731,"date":"2012-08-06T18:02:57","date_gmt":"2012-08-06T21:02:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=3731"},"modified":"2012-08-06T18:04:47","modified_gmt":"2012-08-06T21:04:47","slug":"o-merito-nao-pode-ficar-em-segundo-plano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-merito-nao-pode-ficar-em-segundo-plano\/","title":{"rendered":"O m\u00e9rito n\u00e3o pode ficar em segundo plano"},"content":{"rendered":"<p><strong>Entrevista publicada em &#8220;O Estado de S\u00e3o Paulo&#8221;, \u00a06 \u00a0de \u00a0agosto de 2012<\/strong><\/p>\n<p><em>Em meio \u00e0 greve das universidades federais que j\u00e1 completou 80 dias de paralisa\u00e7\u00e3o &#8211; come\u00e7ou em 17 de maio -, o soci\u00f3logo, professor e pesquisador Simon Schwartzman questiona o modelo de ensino superior brasileiro, o papel dos sindicatos e a &#8220;suposta&#8221; autonomia defendida por essas institui\u00e7\u00f5es. &#8220;Os or\u00e7amentos p\u00fablicos de universidades de todo o mundo est\u00e3o associados ao desempenho. E isso precisa ser medido externamente&#8221;, argumenta, na entrevista a seguir.<\/em><\/p>\n<p><em>Um dos pontos criticados pelos sindicatos \u00e9 o atrelamento da promo\u00e7\u00e3o \u00e0 titula\u00e7\u00e3o. Como o senhor v\u00ea isso?<\/em><\/p>\n<p>Acredito que a proposta do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC) valoriza o desempenho. E isso \u00e9 bom. Se um \u00f3rg\u00e3o de ensino n\u00e3o valoriza e prioriza o desempenho &#8211; valor central de uma institui\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e profissional &#8211; n\u00e3o pode ser uma universidade. Sem isso, o que sobram s\u00e3o funcion\u00e1rios p\u00fablicos brigando pelo seu sal\u00e1rio. O m\u00e9rito n\u00e3o pode ficar em segundo plano.<\/p>\n<p><em>E a titula\u00e7\u00e3o \u00e9 o que mede isso, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>A titula\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser o \u00fanico crit\u00e9rio, mas \u00e9 um indicador importante de desempenho, mostrando o esfor\u00e7o do professor em se aperfei\u00e7oar e o reconhecimento de seus pares.<\/p>\n<p><em>Os grevistas questionam as avalia\u00e7\u00f5es externas por acreditarem que isso pode ferir a autonomia. Qual \u00e9 a avalia\u00e7\u00e3o do senhor sobre isso?<\/em><\/p>\n<p>Em todo o mundo as avalia\u00e7\u00f5es s\u00e3o externas. N\u00e3o s\u00e3o realizadas necessariamente pelos governos, mas muitas vezes por institui\u00e7\u00f5es independentes, credenciadas para isso. Avalia\u00e7\u00f5es internas s\u00e3o necess\u00e1rias em qualquer institui\u00e7\u00e3o, mas quando ficam apenas nisso, o grande risco \u00e9 de se resumir a uma a\u00e7\u00e3o entre amigos. Isso n\u00e3o \u00e9 autonomia. Autonomia n\u00e3o pode ser o direito de fazer o que se quer sem prestar contas, mas sim liberdade para buscar os melhores caminhos para exercer as fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas pelas quais as universidades s\u00e3o financiadas.<\/p>\n<p><em>O que uma avalia\u00e7\u00e3o externa n\u00e3o invalidaria&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Claro que n\u00e3o. Os or\u00e7amentos p\u00fablicos de universidades de todo o mundo est\u00e3o associados ao desempenho. E isso precisa ser medido externamente. A sociedade n\u00e3o pode dar um cheque em branco. Ali\u00e1s, uma universidade verdadeiramente aut\u00f4noma n\u00e3o funcionaria como querem os grevistas, com essa isonomia que prega sal\u00e1rios id\u00eanticos aos docentes.<\/p>\n<p><em>Como seria?<\/em><\/p>\n<p>A tend\u00eancia em todo o mundo \u00e9 que as universidades, mesmo p\u00fablicas, uma vez bem avaliadas, recebam um or\u00e7amento integrado e o administrem com autonomia, buscando sempre os melhores talentos, at\u00e9 mesmo negociando os sal\u00e1rios de cada um individualmente. Os professores com melhor desempenho recebem ofertas, podem ganhar mais e mudam muitas vezes de institui\u00e7\u00f5es, buscando as que oferecem melhores sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p><em>Isso n\u00e3o acontece por aqui&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Aqui fica tudo em fam\u00edlia. A pessoa se forma e se torna professor da mesma institui\u00e7\u00e3o. E de l\u00e1 nunca sai. Nos Estados Unidos, por exemplo, uma universidade n\u00e3o contrata uma pessoa formada por ela. Na Alemanha, o professor, para ser promovido, precisa ser convidado a ir para outra institui\u00e7\u00e3o. Elas seguem um princ\u00edpio de mobilidade, de que \u00e9 preciso circular, criam um mercado de talentos, e acabam se valorizando nesse tr\u00e2nsito. \u00c9 por essa autonomia que os professores universit\u00e1rios brasileiros deveriam brigar. Mas, pelo contr\u00e1rio, os sindicatos fogem disso. Querem todos iguais. Se esquecem de que as universidades n\u00e3o s\u00e3o f\u00e1bricas.<\/p>\n<p><em>Mas elas se comportam como se fossem?<\/em><\/p>\n<p>Para os sindicalistas que querem tudo igual para todo mundo, sim. Mas h\u00e1 muita gente fora disso. Mesmo durante a greve, basta entrar nas melhores universidades e departamentos que voc\u00ea encontra laborat\u00f3rios em funcionamento, professores que continuam seus projetos, que seguem participando de congressos cient\u00edficos, que t\u00eam pesquisas financiadas e n\u00e3o podem paralis\u00e1-las. Eles n\u00e3o participam dessas assembleias grevistas. Ali\u00e1s, acham essas assembleias muito chatas, com aquele blablabl\u00e1 e sem solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Isso desgasta a institui\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Isso deteriora a universidade. Os alunos se desinteressam, os cursos s\u00e3o mal dados, cria-se uma atmosfera de total desest\u00edmulo que enfraquece a institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica. \u00c0 medida em que fica desacreditada, professores e alunos que podem migram para universidades privadas. Isso foi o que aconteceu no ensino m\u00e9dio h\u00e1 algumas d\u00e9cadas, quando a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, que era refer\u00eancia, se deteriorou e quem podia pagar foi para as escolas particulares. Se continuar assim, esse ser\u00e1 o futuro de nosso ensino superior p\u00fablico.<\/p>\n<p><em>Como o senhor v\u00ea a discuss\u00e3o sobre a cobran\u00e7a de mensalidade no ensino p\u00fablico?<\/em><\/p>\n<p>Hoje, o ensino p\u00fablico \u00e9 mantido integralmente pelo governo. Acredito que seja necess\u00e1rio criar condi\u00e7\u00f5es e estimular as institui\u00e7\u00f5es a buscar recursos pr\u00f3prios, at\u00e9 mesmo cobrando anuidades dos alunos que podem pagar. Quase todo o mundo faz isso &#8211; China, Inglaterra, Estados Unidos, Chile, R\u00fassia, Jap\u00e3o, Austr\u00e1lia, Canad\u00e1 -, aliado a programas espec\u00edficos de ajuda ou empr\u00e9stimos aos que n\u00e3o podem bancar. Se isso acontecesse, as universidades federais teriam mais recursos para gerir com autonomia e s\u00f3 ficariam na institui\u00e7\u00e3o os estudantes que realmente quisessem investir em seus estudos.<\/p>\n<p><em>Como o senhor avalia a nossa produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica?<\/em><\/p>\n<p>A pesquisa no Brasil est\u00e1 concentrada em poucas universidades e em alguns departamentos. Dentre as universidades federais, umas cinco ou seis t\u00eam pesquisas mais densas, mas, na grande maioria, ela \u00e9 muito rarefeita. Mas nem toda institui\u00e7\u00e3o e nem todos os professores devem se dedicar \u00e0 pesquisa. \u00c9 preciso haver uma combina\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es de pesquisa e outras voltadas ao ensino. Nos cursos profissionais como Engenharia, Medicina, Direito e Administra\u00e7\u00e3o, \u00e9 importante que muitos professores tenham contratos de tempo parcial, trabalhem em suas respectivas profiss\u00f5es e transmitam essa experi\u00eancia do mercado de trabalho para seus alunos.<\/p>\n<p><em>Nos \u00faltimos anos, houve no Brasil um investimento p\u00fablico na expans\u00e3o de universidades que seguem a mesma estrutura de dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 pesquisa. N\u00e3o teria sido melhor apostar em outros modelos, como centros de forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica etc?<\/em><\/p>\n<p>Sim, mas foi feito o contr\u00e1rio. Nos \u00faltimos anos, o governo transformou os antigos centros de forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, os Cefets, em institutos universit\u00e1rios, com a mesma estrutura de cargos e sal\u00e1rios das universidades federais. Com isso, em vez de avan\u00e7ar na diferencia\u00e7\u00e3o do sistema, abrindo espa\u00e7o para a forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica intermedi\u00e1ria de que o Pa\u00eds tanto precisa, o movimento foi no sentido contr\u00e1rio.<\/p>\n<p><em>Por fim, o senhor acredita que o professor universit\u00e1rio \u00e9 mal remunerado no Pa\u00eds?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o. Participei de um estudo internacional comparado e os resultados mostraram que o Brasil n\u00e3o se sai mal. O padr\u00e3o de vida do professor de uma universidade federal n\u00e3o \u00e9 ruim e cresce \u00e0 medida em que ele se qualifica, participa de grupos de pesquisa, de projetos, recebe bolsas. Mas, para isso, ele precisa ser bom. Estamos de volta \u00e0 discuss\u00e3o do desempenho. E, como se v\u00ea, os sindicatos n\u00e3o querem falar disso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista publicada em &#8220;O Estado de S\u00e3o Paulo&#8221;, \u00a06 \u00a0de \u00a0agosto de 2012 Em meio \u00e0 greve das universidades federais que j\u00e1 completou 80 dias de paralisa\u00e7\u00e3o &#8211; come\u00e7ou em 17 de maio -, o soci\u00f3logo, professor e pesquisador Simon Schwartzman questiona o modelo de ensino superior brasileiro, o papel dos sindicatos e a &#8220;suposta&#8221; &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-merito-nao-pode-ficar-em-segundo-plano\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;O m\u00e9rito n\u00e3o pode ficar em segundo plano&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_members_access_role":[],"_members_access_error":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-3731","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao-superior"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3731","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3731"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3731\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3734,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3731\/revisions\/3734"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3731"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3731"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3731"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}