{"id":3752,"date":"2012-08-08T21:27:04","date_gmt":"2012-08-09T00:27:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=3752"},"modified":"2012-08-08T23:23:34","modified_gmt":"2012-08-09T02:23:34","slug":"abrir-as-portas-da-universidade-para-o-povo-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/abrir-as-portas-da-universidade-para-o-povo-3\/","title":{"rendered":"Abrir as portas da universidade para o povo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/archive.org\/details\/Mosaico4\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright  wp-image-3744\" title=\"abrir\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/abrir1.jpg\" alt=\"\" width=\"434\" height=\"621\" srcset=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/abrir1.jpg 543w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/abrir1-209x300.jpg 209w\" sizes=\"auto, (max-width: 434px) 85vw, 434px\" \/><\/a>A aprova\u00e7\u00e3o, pelo Senado, do Projeto de Lei da C\u00e2mara 180\/2008, que reserva 50% das vagas das universidades p\u00fablicas e escolas t\u00e9cnicas federais para alunos que tenham cursado todo o ensino m\u00e9dio na rede p\u00fablica, parece ser exatamente o que demandavam em 1961 os estudantes da Universidade Federal de Minas Gerais, entre os quais Vin\u00edcius Caldeira Brant, Theot\u00f4nio dos Santos Jr., Ivan Otero Ribeiro, Herbert Jos\u00e9 de Souza (o Betinho) , Guido Ant\u00f4nio de Almeida, Ant\u00f4nio Oct\u00e1vio Cintra e eu, em artigos publicados em Mosaico, a revista de nosso DCE. \u00a0Diz\u00edamos ent\u00e3o que\u00a0era necess\u00e1rio &#8220;abrir as portas da Universidade para o povo e, em toda parte, lutar por aquilo que \u00e9 do povo. Democratizar o acesso ao ensino, mas reformular completamente sua estrutura, devot\u00e1-la \u00e0 pesquisa criadora, instrumento de forma\u00e7\u00e3o de uma cultura popular. Cultura popular que consistir\u00e1, para as classes exploradas, na consci\u00eancia de sua destina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. At\u00e9 hoje a cultura tem consistido na contempla\u00e7\u00e3o do mundo. Posta a servi\u00e7o do homem, erigida em consci\u00eancia popular, ela constituir\u00e1 um ponto de partida para a luta de transforma\u00e7\u00e3o social&#8221;.<\/p>\n<p>Levou cinquenta anos, mas parece que finalmente conseguimos! O tema da revista eram as diferentes aliena\u00e7\u00f5es e como super\u00e1-las, e\u00a0<a href=\"http:\/\/archive.org\/stream\/Mosaico4\/mosaico#page\/n1\/mode\/2up\" target=\"_blank\">ela est\u00e1 dispon\u00edvel aqui<\/a>. O\u00a0texto sobre a Universidade, al\u00e9m da ilustra\u00e7\u00e3o inicial de Amaury de Souza, est\u00e1 ao final da revista, \u00a0na p\u00e1gina 115.<\/p>\n<p>N\u00e3o se equivoca quem v\u00ea na id\u00e9ia que t\u00ednhamos de Universidade a Tese 11 sobre Fueuerbach de Marx, que dizia que os fil\u00f3sofos (e, por extens\u00e3o, os cientistas e intelectuais) \u00a0at\u00e9 hoje interpretaram o mundo, mas o que se trata \u00e9 de transform\u00e1-lo. Estava embutida tamb\u00e9m a id\u00e9ia de que a separa\u00e7\u00e3o entre cultura popular e cultura cient\u00edfica e t\u00e9cnica era uma forma entre outras de domina\u00e7\u00e3o, e que desapareceria quando, finalmente, as portas das universidades, pela a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria de n\u00f3s estudantes, fossem finalmente abertas para o povo.<\/p>\n<p>Alguns de nossos companheiros de Mosaico j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o entre n\u00f3s, e eu n\u00e3o \u00a0poderia falar por ningu\u00e9m, mas desde ent\u00e3o entendi que n\u00e3o era bem assim. Entendi, por exemplo, que a diferen\u00e7a entre conhecimento especializado e conhecimento popular n\u00e3o \u00e9 um simples artif\u00edcio, mas o resultado de um processo complexo e dif\u00edcil de forma\u00e7\u00e3o, capacita\u00e7\u00e3o e especializa\u00e7\u00e3o profissional que nem todos conseguem cumprir, e que n\u00e3o se pode resolver por um ato revolucion\u00e1rio como o que um dia Mao Ts\u00e9 Tung tentou com sua famosa e tr\u00e1gica revolu\u00e7\u00e3o cultural. Entendi tamb\u00e9m que a tentativa de Marx de romper a separa\u00e7\u00e3o entre conhecimento e a\u00e7\u00e3o levaria, como levou na antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e seus defensores, \u00e0 politiza\u00e7\u00e3o extrema do conhecimento e suas institui\u00e7\u00f5es, t\u00edpica dos regimes pol\u00edticos e das seitas totalit\u00e1rias, com a degrada\u00e7\u00e3o do trabalho intelectual. Entendi que sociedades modernas necessitam de universidades aonde deve predominar os valores do m\u00e9rito e da qualidade do trabalho intelectual tanto de professores quanto dos alunos, e que o princ\u00edpio de justi\u00e7a da educa\u00e7\u00e3o superior deve estar baseado na igualdade de oportunidades para o desenvolvimento da capacidade intelectual de cada um. Entendi que \u00a0as universidades n\u00e3o deveriam ser um instrumento de milit\u00e2ncia revolucion\u00e1ria, e sim um componente central da sociedades democr\u00e1ticas e abertas.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o significa, no entanto, que o car\u00e1ter elitista das universidades de ent\u00e3o n\u00e3o fosse verdadeiro, como continua sendo at\u00e9 hoje. Basta olhar os dados de renda familiar dos estudantes de n\u00edvel superior para constatar que eles prov\u00eam, em sua grande maioria, de setores de renda m\u00e9dia e alta. \u00a0Em parte, isto tem a ver com os custos do setor privado, que hoje \u00e9 respons\u00e1vel por 75% das matr\u00edculas do ensino superior brasileiro. Mas tamb\u00e9m com os processos seletivos tradicionais das universidades p\u00fablicas, que tendem a selecionar, para os cursos mais procurados, os jovens que se beneficiaram de uma educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de mais qualidade, gra\u00e7as aos recursos financeiros de suas fam\u00edlias. Segundo os dados do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, os investimentos diretos por estudante no ensino superior p\u00fablico e gratuito eram, em 2010, de 18 mil reais por estudante, em compara\u00e7\u00e3o com 3.580 gastos por estudante da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. Este gasto t\u00e3o elevado com a educa\u00e7\u00e3o superior seria justific\u00e1vel se todo o ensino superior brasileiro fosse de alta qualidade, e se todos ou pelo menos a maior parte dos benef\u00edcios da forma\u00e7\u00e3o de alto n\u00edvel das universidades revertesse para a sociedade, e n\u00e3o para os alunos individualmente. Sabemos, no entanto, que a qualidade do ensino superior p\u00fablico brasileiro \u00e9 muito vari\u00e1vel, e que os diplomas servem muitas vezes para que as fam\u00edlias consigam manter seus padr\u00f5es de renda e acesso ao emprego, reproduzindo assim o c\u00edrculo vicioso da desigualdade. Esta n\u00e3o \u00e9, seguramente, toda a hist\u00f3ria, mas \u00e9 inegavelmente uma parte importante dela.<\/p>\n<p>Diante desta situa\u00e7\u00e3o, me parece perfeitamente razo\u00e1vel que o pa\u00eds decida, atrav\u00e9s de seus representantes no Congresso, que as universidades p\u00fablicas passem a atender prioritariamente aos filhos das fam\u00edlias de renda mais baixa, que estudam na rede p\u00fablica de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica cuja qualidade \u00e9 bastante prec\u00e1ria, restringindo o espa\u00e7o para os filhos de classe m\u00e9dia e alta, que podem pagar por seus pr\u00f3prios estudos. O uso de crit\u00e9rios raciais na sele\u00e7\u00e3o dos alunos me parece absurdo, como j\u00e1 argumentei em outras partes, mas o crit\u00e9rio de dar prefer\u00eancia aos oriundos de escola p\u00fablica me parece bastante razo\u00e1vel, embora sujeito tamb\u00e9m a problemas. Aceita esta premissa, a quest\u00e3o que se coloca \u00e9 como as universidades v\u00e3o lidar com esta nova realidade de ter metade dos alunos admitidos por processos competitivos e metade admitidos sem maiores considera\u00e7\u00f5es de desempenho.<\/p>\n<p>A maneira mais f\u00e1cil de resolver o problema \u00e9 postular que ele n\u00e3o existe.\u00a0Nossas id\u00e9ias de 1961 sobre a uni\u00e3o da teoria com a pr\u00e1tica, da pesquisa e da milit\u00e2ncia, e do desaparecimento da separa\u00e7\u00e3o entre \u00a0o conhecimento das elites e do povo, assim como da separa\u00e7\u00e3o entre o trabalho manual e intelectual, \u00a0n\u00e3o morreram de todo, e\u00a0\u00a0podem ser reconhecidas no conceito de &#8220;politecnia&#8221; que circula entre certos meios no Brasil e que tem sido utilizado para justificar a transforma\u00e7\u00e3o dos antigos centros federais de forma\u00e7\u00e3o profissionais, os CEFETs, em Institutos Nacionais de Tecnologia, equiparados para todos os efeitos \u00e0s universidades federais.<\/p>\n<p>O suposto \u00e9 que todas diferen\u00e7as de forma\u00e7\u00e3o desapareceriam se os alunos fossem expostos a uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade.\u00a0Infelizmente, n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia de que isto seja assim, da mesma maneira de que n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia de que cursos de nivelamento ou reciclagem consigam superar, com facilidade, d\u00e9ficits de forma\u00e7\u00e3o no uso da linguagem, de conceitos b\u00e1sicos de ci\u00eancias e de uso de aritm\u00e9tica e matem\u00e1tica acumulados ao longo dos anos. Ao contr\u00e1rio, a evid\u00eancia \u00e9 que este tipo de nivelamento, embora n\u00e3o imposs\u00edvel, \u00e9 extremamente caro e de resultados incertos. A op\u00e7\u00e3o mais adequada \u00e9 oferecer uma variedade de forma\u00e7\u00f5es profissionais para pessoas com n\u00edveis distintos de forma\u00e7\u00e3o pr\u00e9via, proporcionando tanto compet\u00eancias cognitivas como n\u00e3o cognitivas (relacionadas por exemplo \u00e0 capacidade de trabalho em grupo, lideran\u00e7a, responsabilidade e motiva\u00e7\u00e3o), permitindo ao mesmo tempo que as pessoas avancem em suas carreiras e forma\u00e7\u00e3o conforme as caracter\u00edsticas de cada um.<\/p>\n<p>Sem isto, cursos mais competitivos em \u00e1reas como medicina ou engenharia ou nas faculdades de direito mais disputadas, que hoje oferecem por exemplo 100 vagas para os estudantes mais qualificados, passar\u00e3o a ter somente 50, tornando muito mais dif\u00edcil o acesso por esta via, e estimulando os alunos mais qualificados a buscar outras institui\u00e7\u00f5es, provavelmente no setor privado. Com 50% de alunos selecionados por m\u00e9rito \u00a0 de forma mais competitiva do que antes, e outros 50% por cotas, caber\u00e1 \u00e0s universidades decidir se ensinar\u00e3o predominantemente para uns ou para outros (expulsando na pr\u00e1tica a outra metade) se dividir\u00e3o as turmas em duas, ou se seguir\u00e3o apostando em que tudo ser\u00e1 resolvido pelo conceito m\u00e1gico de &#8220;politecnia&#8221;.<\/p>\n<p>O encaminhamento correto desta quest\u00e3o seria criar institui\u00e7\u00f5es e carreiras diferentes para estudantes diferentes, tratando de atender com compet\u00eancia a cada setor, e criando mecanismos para permitir que os estudantes que queiram e possam circulem de um setor de forma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica de curta dura\u00e7\u00e3o, por exemplo, para outro mais acad\u00eamico. A diferencia\u00e7\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel quando o ensino superior se massifica, e ela ocorre seja atrav\u00e9s de pol\u00edticas deliberadas, seja por processos descontrolados em que cada um procura se salvar como puder, com preju\u00edzo para todos.. Seria bom se fosse poss\u00edvel, no Brasil, combinar um n\u00famero relativamente pequeno de institui\u00e7\u00f5es \u00a0de alta qualidade e seletividade com um n\u00famero muito maior de institui\u00e7\u00f5es voltadas para a educa\u00e7\u00e3o de massas, com diferentes n\u00edveis de exig\u00eancia e projetos pedag\u00f3gicos, \u00a0com pol\u00edticas adequadas para tratar de forma diferentes as as quest\u00f5es de acesso e as quest\u00f5es de qualidade e excel\u00eancia, \u00a0tanto no setor p\u00fablico quanto no privado. N\u00e3o \u00e9 este, no entanto, o caminho que parece que temos pela frente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A aprova\u00e7\u00e3o, pelo Senado, do Projeto de Lei da C\u00e2mara 180\/2008, que reserva 50% das vagas das universidades p\u00fablicas e escolas t\u00e9cnicas federais para alunos que tenham cursado todo o ensino m\u00e9dio na rede p\u00fablica, parece ser exatamente o que demandavam em 1961 os estudantes da Universidade Federal de Minas Gerais, entre os quais Vin\u00edcius &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/abrir-as-portas-da-universidade-para-o-povo-3\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Abrir as portas da universidade para o povo&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-3752","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao-superior"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3752","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3752"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3752\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3769,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3752\/revisions\/3769"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3752"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3752"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3752"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}