{"id":38,"date":"2005-10-30T14:46:00","date_gmt":"2005-10-30T17:46:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=38"},"modified":"2008-08-03T18:21:12","modified_gmt":"2008-08-03T21:21:12","slug":"a-caixa-preta-do-ensino-medio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/a-caixa-preta-do-ensino-medio\/","title":{"rendered":"A caixa preta do ensino m\u00e9dio"},"content":{"rendered":"<p>Junto com o Instituto Unibanco, o IES organizou um semin\u00e1rio em S\u00e3o Paulo, no dia 20 de outubro, sobre \u201cEduca\u00e7\u00e3o Brasileira: Diagn\u00f3sticos e Alternativas\u201d, aonde o interesse era ver o que as pesquisas nos dizem sobre os problemas centrais e as alternativas de pol\u00edtica para Educa\u00e7\u00e3o brasileira. Sem surpresa, os apresentadores concentraram sua aten\u00e7\u00e3o na m\u00e1 qualidade da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, que amplia os problemas de iniq\u00fcidade do pa\u00eds, e na dificuldade que temos tido em avan\u00e7ar em rela\u00e7\u00e3o a isto: fazer com que os professores saibam alfabetizar, tornar as escolas, e seus diretores, mais conscientes e mais respons\u00e1veis pelo seu desempenho, e fazer com que os recursos para a educa\u00e7\u00e3o fundamental aumentem e sobretudo n\u00e3o se dispersem.<\/p>\n<p>Uma das participantes foi Alvana Bof, da UNESCO, que falou sobre a educa\u00e7\u00e3o de jovens e adultos (EJA), e abriu espa\u00e7o para discutir um pouco as quest\u00f5es do ensino m\u00e9dio, que acabam sempre espremidas entre os problemas do ensino fundamental e as grandes mobiliza\u00e7\u00f5es ao redor do ensino superior. Ela mostrou como existe um grande n\u00famero de jovens e adultos que, ou abandonaram a escola antes de completar o ensino m\u00e9dio, ou continuam cursando escolas m\u00e9dias noturnas, apesar de j\u00e1 estarem acima da idade correspondente, entre 15 e 17 anos. Os programas de EJA buscam recuperar este tempo perdido, proporcionando de forma compacta e flex\u00edvel, e com o uso de novas tecnologias de educa\u00e7\u00e3o semi-presencial, a forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica correspondente ao segundo grau, em um prazo muito mais curto. Por que tantos jovens adultos persistem nos cursos regulares, quando existe esta alternativa? A explica\u00e7\u00e3o, segundo Alvana, seria que estes programas t\u00eam baixo prest\u00edgio e reconhecimento social, apesar de que, segundo Cl\u00e1udio de Moura Castro, os candidatos ao vestibular das Faculdades Pit\u00e1goras origin\u00e1rios da EJA n\u00e3o sejam piores dos que se originam dos cursos m\u00e9dios regulares.<\/p>\n<p>Uma outra explica\u00e7\u00e3o, certamente, \u00e9 que os cursos de EJA n\u00e3o preparam os estudantes para os vestibulares mais  competitivos. Os vestibulares, ao exigirem conhecimentos enciclop\u00e9dicos dos estudantes, t\u00eam sido apontados como um dos principais respons\u00e1veis pela m\u00e1 qualidade dos nossos cursos de ensino m\u00e9dio, aonde nada se aprofunda e tudo se decora. Porque, ent\u00e3o, n\u00e3o transformar o sistema flex\u00edvel do EJA na modalidade predominante de forma\u00e7\u00e3o para o n\u00edvel m\u00e9dio, com um bom padr\u00e3o de avalia\u00e7\u00e3o ao final (que chegou a ser tentado pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o no governo passado atrav\u00e9s de um projeto denominado \u201cENCEJA\u201d, n\u00e3o implementado), e deixando que os candidatos aos vestibulares mais competitivos se preparem por conta pr\u00f3pria atrav\u00e9s de \u201ccursinhos\u201d especializados? Maria Helena Guimar\u00e3es Castro reagiu horrorizada \u00e0 minha id\u00e9ia, dizendo que eu estava propondo voltar atr\u00e1s na conquista que teria sido a amplia\u00e7\u00e3o do n\u00famero de anos de educa\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria no pa\u00eds (que j\u00e1 \u00e9 de onze anos, e que agora o governo est\u00e1 querendo ampliar para doze ou treze, com o in\u00edcio da educa\u00e7\u00e3o fundamental obrigat\u00f3ria aos seis anos, e a amplia\u00e7\u00e3o do ensino m\u00e9dio de tr\u00eas para quatro anos). Eu penso, realmente, que n\u00e3o tem sentido for\u00e7ar o aumento da dura\u00e7\u00e3o do ensino formal de m\u00e1 qualidade, e que seria poss\u00edvel pensar em um sistema de educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dia muito mais diversificado e flex\u00edvel do que se tem hoje, sem cair na antiga fal\u00e1cia de for\u00e7ar os jovens menos qualificados a seguir cursos profissionalizantes que acabam se transformando, na maioria dos casos, em cursos de segunda ou terceira classe.<\/p>\n<p>Tive a oportunidade de retomar o assunto alguns dias depois no F\u00f3rum Mundial de Educa\u00e7\u00e3o realizado pela OECD em Santiago do Chile, aonde me pediram para comentar a apresenta\u00e7\u00e3o de Andr\u00e9as Schleicher sobre os resultados do PISA. O PISA \u00e9 o exame comparado sobre as compet\u00eancias dos jovens de 15 anos em v\u00e1rios paises do mundo, do qual o Brasil participou duas vezes, em 2000 e 2003, sempre ficando bem na lanterninha. Segundo Schleicher, o Brasil melhorou algo entre 2000 e 2003, embora nada que o retirasse do p\u00e9ssimo n\u00edvel em que est\u00e1: 25% dos jovens brasileiros da amostra pesquisada em 2003 est\u00e3o abaixo do m\u00ednimo da escala de desempenho em matem\u00e1tica de 5 pontos do PISA, e mais da metade ficou abaixo do n\u00edvel 2.  Estes p\u00e9ssimos resultados refletem a m\u00e1 qualidade do ensino no Brasil como um todo, e o fato de que 25% dos  jovens de 15 anos, que entraram na amostra de 2003, ainda n\u00e3o t\u00eam a escolaridade m\u00e9dia que lhes corresponderia. No entanto, o n\u00edvel \u00e9 ruim mesmo entre os alunos das melhores escolas: entre os 10% melhores alunos brasileiros, 70% ficaram abaixo da pontua\u00e7\u00e3o m\u00e9dia geral do PISA.  Ou seja: n\u00e3o s\u00f3 o Brasil fracassa na m\u00e9dia, o que seria de se esperar, mas tamb\u00e9m fracassa na ponta, mostrando que n\u00e3o existe, no pa\u00eds, um padr\u00e3o aceit\u00e1vel de qualidade da educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dia que possa ser adotado como refer\u00eancia para o conjunto.<\/p>\n<p>Nos meus coment\u00e1rios, retomei alguns pontos da discuss\u00e3o do semin\u00e1rio IETS -Instituto Unibanco, enfatizando o papel delet\u00e9rio dos vestibulares, e chamando a aten\u00e7\u00e3o para a potencialidade de refor\u00e7ar a ado\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es de desempenho para o n\u00edvel m\u00e9dio como o ENEM, e criar formas mais flex\u00edveis e socialmente prestigiadas de obten\u00e7\u00e3o das qualifica\u00e7\u00f5es do n\u00edvel formal de educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dia. Livre da press\u00e3o dos vestibulares e da massa de estudantes mais velhos que precisam a qualquer custo de seus t\u00edtulos, para n\u00e3o ficar exclu\u00eddos definitivamente do mercado de trabalho, o ensino m\u00e9dio regular poderia ir evoluindo como  nos paises mais desenvolvidos, com mais \u00eanfase em forma\u00e7\u00e3o em habilidades centrais (l\u00edngua nacional, l\u00edngua estrangeira, racioc\u00ednio matem\u00e1tico, racioc\u00ednio cient\u00edfico e indutivo) e menos no ac\u00famulo de informa\u00e7\u00f5es irrelevantes, e com um curr\u00edculo mais moderno e voltado para o mundo real em que os estudantes vivem.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Junto com o Instituto Unibanco, o IES organizou um semin\u00e1rio em S\u00e3o Paulo, no dia 20 de outubro, sobre \u201cEduca\u00e7\u00e3o Brasileira: Diagn\u00f3sticos e Alternativas\u201d, aonde o interesse era ver o que as pesquisas nos dizem sobre os problemas centrais e as alternativas de pol\u00edtica para Educa\u00e7\u00e3o brasileira. 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