{"id":3832,"date":"2012-08-23T16:48:24","date_gmt":"2012-08-23T19:48:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=3832"},"modified":"2012-08-23T17:08:31","modified_gmt":"2012-08-23T20:08:31","slug":"renato-pedrosa-enem-no-lugar-da-prova-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/renato-pedrosa-enem-no-lugar-da-prova-brasil\/","title":{"rendered":"Renato Pedrosa: ENEM no lugar da Prova Brasil?"},"content":{"rendered":"<p><em><a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/pedrosa1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-3838\" title=\"Renato  Pedrosa\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/pedrosa1.jpg\" alt=\"\" width=\"290\" height=\"260\" \/><\/a>Escreve Renato H. L. Pedrosa,\u00a0Coordenador do Grupo de estudos em Educa\u00e7\u00e3o Superior, Centro de Estudos Avan\u00e7ados, Unicamp (foi Coordenador Executivo do Vestibular da mesma universidade).<\/em><\/p>\n<p><strong>ENEM no lugar da Prova Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>A proposta do Ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Aloizio Mercadante, anunciada recentemente (21\/08\/2012), de usar o ENEM no lugar da Prova Brasil para compor o IDEB (Indicador de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica) do ensino m\u00e9dio n\u00e3o deveria prosperar. Ser\u00e1 que alterar os indicadores utilizados traria alguma melhoria ao sistema? Nesse caso, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o traria, como a qualidade do indicador se tornar\u00e1 altamente question\u00e1vel. Os problemas com essa proposta s\u00e3o de ordem acad\u00eamica (conte\u00fados), metodol\u00f3gica (desenho das provas) e demogr\u00e1fica (popula\u00e7\u00f5es envolvidas).<\/p>\n<p>A Prova Brasil herdou do SAEB (Sistema de Avalia\u00e7\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica) o melhor sistema de avalia\u00e7\u00e3o que o Brasil j\u00e1 desenvolveu, com escala de profici\u00eancias bem estabelecida, um sistema amostral apropriado e eficiente, resultando em uma s\u00e9rie hist\u00f3rica que permite compara\u00e7\u00f5es. \u00c9 um sistema de avalia\u00e7\u00e3o exemplar, um dos melhores em exist\u00eancia no mundo, aplicado h\u00e1 mais de 15 anos, testado, validado, que deveria ser exemplo para outros sistemas desenvolvidos pelo MEC (mas infelizmente n\u00e3o o \u00e9).<\/p>\n<p>Sobre o Enem, por outro lado, tr\u00eas anos ap\u00f3s a mudan\u00e7a de 2009, ainda n\u00e3o se sabe o que significam as notas, se 500 pontos indicam que a pessoa sabe alguma coisa ou n\u00e3o, pois a matriz de profici\u00eancias n\u00e3o est\u00e1 associada \u00e0 escala utilizada. O exame n\u00e3o \u00e9 aplicado de forma a cobrir todas as \u00e1reas da matriz nem a atingir todos os n\u00edveis de habilidade, como ocorre com a Prova Brasil. Em suma, n\u00e3o foi desenhado para ser instrumento de avalia\u00e7\u00e3o de sistema, nem de escolas, mas do n\u00edvel geral de conhecimentos de indiv\u00edduos, em forma competitiva (adequada para sele\u00e7\u00e3o ao ensino superior, apenas isso).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a popula\u00e7\u00e3o que faz o Enem \u00e9 auto-selecionada, o candidato se inscreve por op\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. N\u00e3o \u00e9 uma amostra representativa de todos os segmentos da popula\u00e7\u00e3o educacional que est\u00e1 no \u00faltimo ano do EM, nem \u00e9 censit\u00e1rio. Segundo reportagens dispon\u00edveis, o ministro Mercadante teria dito que o ENEM \u00e9 &#8220;quase censit\u00e1rio&#8221;. Nem chega perto: em 2010, segundo dados do MEC, 221 mil alunos da rede particular e 790 mil da rede p\u00fablica fizeram a prova. Como havia quase 2,2 milh\u00f5es de matriculados na 3a s\u00e9rie do EM naquele ano, apenas 46% dos alunos deles participaram do Enem. Al\u00e9m disso, cerca de 88% dos estudantes estavam matriculados na rede p\u00fablica, sendo que, na popula\u00e7\u00e3o que fez o Enem, a propor\u00e7\u00e3o cai para 78%. Portanto, trata-se n\u00e3o s\u00f3 de uma popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o chega nem perto de ser censit\u00e1ria, mas \u00e9 um grupo que n\u00e3o representa a popula\u00e7\u00e3o como um todo. Mais, com a proposta de haver mais de um ENEM por ano, como seria poss\u00edvel utilizar todos os resultados como avalia\u00e7\u00e3o do sistema?<\/p>\n<p>Com todas essas restri\u00e7\u00f5es, o MEC, desde a mudan\u00e7a 2009, vem ampliando as inst\u00e2ncias de utiliza\u00e7\u00e3o dos resultados do exame, sem parar para analisar se esses usos se justificam. Divulgam-se as notas m\u00e9dias das escolas, mesmo que ningu\u00e9m tenha a menor ideia do que essas notas significam. Ou seja, \u00e9 apenas um &#8220;ranking&#8221; do desempenho m\u00e9dio dos estudantes daquela escola que optaram por fazer o Enem. Utilizam-se os resultados das provas para dar diplomas a estudantes que nem mesmo terminaram o ensino fundamental. As notas de corte tamb\u00e9m nunca foram justificadas e recentemente o MEC anunciou altera\u00e7\u00e3o nos valores. Por qu\u00ea? N\u00e3o eram apropriados? Nada se diz sobre o tema, especialistas desconfiam que as notas de corte s\u00e3o pouco mais do que as notas que um estudante obteria escolhendo aleatoriamente as respostas. Desde 2011, a nota do ENEM serve para avaliar o desempenho dos estudantes nos cursos universit\u00e1rios, junto com o ENADE (Exame Nacional de Desempenho Escolar). Por que isso faria sentido? Como ser\u00e3o avaliados os cursos onde os estudantes n\u00e3o participaram do Enem? Talvez a raz\u00e3o seja de ordem econ\u00f4mica, mas as consequ\u00eancias da mudan\u00e7a aparentemente n\u00e3o foram bem estudadas e avaliadas e, mais de um ano ap\u00f3s a ado\u00e7\u00e3o da medida, o MEC ainda n\u00e3o divulgou como a nota ser\u00e1 utilizada.<\/p>\n<p>Uma pergunta fica no ar: por que o MEC prop\u00f4s essa nova altera\u00e7\u00e3o? O ministro ouviu os t\u00e9cnicos do INEP, em particular a secretaria de avalia\u00e7\u00e3o da EB? Ouviu outros especialistas em avalia\u00e7\u00e3o, que usualmente prestam consultoria ao INEP? Foi mencionado que o ENEM indicaria melhora do sistema. Como poderia indicar isso, se n\u00e3o tem nenhuma validade para avaliar o sistema. Ali\u00e1s, \u00e9 de se esperar que o desempenho no ENEM melhore, cursinhos de prepara\u00e7\u00e3o proliferam de norte a sul. Nada a ver com melhora do EM.<\/p>\n<p>O SAEB e seu suced\u00e2neo (Prova Brasil) s\u00e3o o que de melhor o MEC j\u00e1 desenvolveu em termos de avalia\u00e7\u00e3o educacional no Brasil, com uma experi\u00eancia acumulada de mais de 15 anos. Por que outra mudan\u00e7a? Por que n\u00e3o, primeiramente, estabelecer qual \u00e9 a escala do ENEM, utilizando como refer\u00eancia escalas e matrizes do SAEB\/Prova Brasil?<\/p>\n<p>Os especialistas em avalia\u00e7\u00f5es do pa\u00eds precisam se manifestar sobre o assunto, apontando as falhas dessa proposta, e a total falta de oportunidade da mesma. O que o ENEM precisa \u00e9 se estabilizar, se desenvolver como exame a ser utilizado no acesso ao ensino superior, que j\u00e1 \u00e9 tarefa bastante desafiadora, como sabemos. A Prova Brasil deve ser mantida e aperfei\u00e7oada, em particular no que tange \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o dos dados em relat\u00f3rios completos (o \u00faltimo relat\u00f3rio completo do SAEB \u00e9 de 2006, sobre o exame de 2003).<\/p>\n<p>O ensino m\u00e9dio, ap\u00f3s atingir picos de participa\u00e7\u00e3o e de concluintes em 2003-2005, mostra uma queda preocupante nas matr\u00edculas e nos concluintes. O n\u00edvel de efici\u00eancia do sistema est\u00e1 em torno de apenas 50% (concluintes sobre matriculados na primeira s\u00e9rie do EM). Estudantes est\u00e3o ingressando no ensino superior sem um m\u00ednimo de profici\u00eancia, n\u00e3o apenas nas \u00e1reas relacionadas aos seus cursos, mas mesmo na pr\u00f3pria l\u00edngua materna. \u00c9 preciso que o MEC e as secretarias de educa\u00e7\u00e3o dos estados parem para refletir sobre o que vem ocorrendo, trabalhar de forma coordenada e sistem\u00e1tica para melhorar o EM. Mudar, para pior, a avalia\u00e7\u00e3o do mesmo n\u00e3o vai ajuda nessa tarefa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escreve Renato H. L. Pedrosa,\u00a0Coordenador do Grupo de estudos em Educa\u00e7\u00e3o Superior, Centro de Estudos Avan\u00e7ados, Unicamp (foi Coordenador Executivo do Vestibular da mesma universidade). ENEM no lugar da Prova Brasil? 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