{"id":4514,"date":"2013-06-19T18:26:46","date_gmt":"2013-06-19T21:26:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=4514"},"modified":"2016-03-18T13:00:24","modified_gmt":"2016-03-18T16:00:24","slug":"tres-comentarios-sobre-o-povo-nas-ruas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/tres-comentarios-sobre-o-povo-nas-ruas\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas coment\u00e1rios sobre o  povo nas ruas"},"content":{"rendered":"<div class='__iawmlf-post-loop-links' style='display:none;' data-iawmlf-post-links='[{&quot;id&quot;:477,&quot;href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/www.facebook.com\\\/bolivar.lamounier\\\/posts\\\/10151719497791499&quot;,&quot;archived_href&quot;:&quot;&quot;,&quot;redirect_href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/www.facebook.com\\\/login\\\/?next=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fbolivar.lamounier%2Fposts%2F10151719497791499&quot;,&quot;checks&quot;:[],&quot;broken&quot;:false,&quot;last_checked&quot;:null,&quot;process&quot;:&quot;done&quot;}]'><\/div>\n<p>No meio de tanto que tem sido dito sobre as manifesta\u00e7\u00f5es populares dos \u00faltimos dias, tr\u00eas coment\u00e1rios me chamaram aten\u00e7\u00e3o, e expressam \u00a0meu entendimento do que est\u00e1 ocorrendo.<\/p>\n<p>O primeiro foi da economista Eliana Cardoso, ao dizer \u00a0que, se Bras\u00edlia quiser mesmo responder \u00e0s demandas populares, poderia come\u00e7ar cortando imediatamente para vinte os quarenta minist\u00e9rios de hoje existem, e reduzir em 10% os sal\u00e1rios e benef\u00edcios dos nossos &#8220;representantes&#8221; . O segundo foi do prefeito de S\u00e3o Paulo, Fernando Haddad, afirmando que o voto das ruas n\u00e3o pode prevalecer sobre o voto das urnas. E o terceiro foi de<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/bolivar.lamounier\/posts\/10151719497791499\" target=\"_blank\"> Bol\u00edvar Lamounier, ao descrever o romantismo<\/a> que parece prevalecer no que tem sido dito por muitos que se apresentam para falar em nomes dos manifestantes.<\/p>\n<p>O coment\u00e1rio de Eliana me parece resumir o grande fosso que hoje separa grande parte da popula\u00e7\u00e3o, sobretudo nos grandes centros urbanos, que sofre com a infla\u00e7\u00e3o crescente e a m\u00e1 qualidade dos servi\u00e7os p\u00fablicos, n\u00e3o se beneficia diretamente dos programas sociais do governo e v\u00ea com desgosto o mercado persa em que transformou grande parte da pol\u00edtica brasileira, em que os pol\u00edticos negociam abertamente votos e apoios por cargos e os corruptos mais \u00f3bvios continuam impunes e poderosos como sempre. Se o espet\u00e1culo de Bras\u00edlia \u00e9 lament\u00e1vel, o da maioria das capitais estaduais n\u00e3o \u00e9 melhor. Enquanto via horrorizado, pela TV, como tentavam incendiar a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, me perguntava ao mesmo tempo quanta gente, no Estado, sabe mesmo para que ela serve.<\/p>\n<p>Fernando Haddad tem toda raz\u00e3o ao dizer a vontade de milh\u00f5es, expressa nas urnas, e que d\u00e1 aos governantes um mandato para tomar decis\u00f5es e implementar pol\u00edticas, n\u00e3o pode ser atropelada pelo voto das ruas, expresso por porta-vozes cuja representatividade ningu\u00e9m sabe exatamente qual \u00e9. Suas propostas sobre como lidar com os transportes p\u00fablicos em S\u00e3o Paulo contribu\u00edram para sua elei\u00e7\u00e3o, e seu papel \u00e9 levar estas propostas \u00e0 frente, e n\u00e3o mudar de rumo de repente. Mas o mandato pol\u00edtico n\u00e3o pode ser somente uma formalidade legal, precisa ter legitimidade, as pessoas precisam acreditar que realmente os eleitos as representam, e os protestos de centenas de milhares de pessoas nas ruas nos \u00faltimos dias mostram a grande fragilidade desta representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 esta falta de legitimidade que cria o caldo de cultura para o florescimento das ideologias \u201crom\u00e2nticas\u201d que parecem dar o tom de grande parte das manifesta\u00e7\u00f5es que se ouvem de muitos de seus supostos porta-vozes, e de que nos fala Bolivar Lamounier. \u201cRom\u00e2ntico\u201d, aqui, n\u00e3o tem ver com amores, paix\u00f5es e \u00f3dios, mas com um tipo espec\u00edfico de ideologia pol\u00edtica que sonha com um passado ou um futuro, ambos ut\u00f3picos, em que as pessoas vivem em comunidade, tudo \u00e9 decidido e feito em comum, em harmonia entre homens e mulheres e destes com a natureza. Comparado com o mundo perfeito dos rom\u00e2nticos, o mundo real, de institui\u00e7\u00f5es, leis, recursos escassos, interesses contradit\u00f3rios, tudo isto \u00e9 inaceit\u00e1vel. Elei\u00e7\u00f5es, parlamentos, ju\u00edzes, institui\u00e7\u00f5es, bancos centrais, nada disto serve para nada. \u201cQue se vayan todos!\u201d como se dizia na Argentina em um de seus momentos mais tristes. No mundo ut\u00f3pico n\u00e3o existem limita\u00e7\u00f5es de recursos, os servi\u00e7os p\u00fablicos s\u00e3o perfeitos e gratuitos, n\u00e3o se pagam impostos, e s\u00f3 precisamos trabalhar naquilo que gostamos. Alguns rom\u00e2nticos, como os velhos hippies, decidem se recolher em comunidades isoladas de paz e amor, aonde os malef\u00edcios do mundo real n\u00e3o entram; outros, como os antigos anarquistas, partem para a destrui\u00e7\u00e3o deste mundo imperfeito, contra o qual tudo vale, inclusive o terrorismo.<\/p>\n<p>A grande vantagem das ideologias rom\u00e2nticas \u00e9 que elas s\u00e3o simples e f\u00e1ceis de entender; a grande desvantagem \u00e9 que elas s\u00e3o imposs\u00edveis. N\u00e3o h\u00e1 exemplos de sociedades organizadas conforme as ideologias rom\u00e2nticas (as utopias, por defini\u00e7\u00e3o, n\u00e3o existem), mas n\u00e3o faltam exemplos de sociedades em que as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas acabaram sendo destru\u00eddas e substitu\u00eddas por regimes populistas, autorit\u00e1rios, corruptos e ineficientes, que conseguem apoio de muitos e se apresentam como representantes dos romantismos mais puros. Mas existem tamb\u00e9m exemplos de sociedades que foram capazes de reformar suas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, fazendo com que as pessoas se sintam representadas, tenham canais adequados de express\u00e3o, \u00a0e onde a apropria\u00e7\u00e3o deslavada dos recursos p\u00fablicos pelos pol\u00edticos n\u00e3o seja permitida nem tolerada.<\/p>\n<p>Precisamos urgentemente de governabilidade e legitimidade, e, para mim, pelo menos, a principal li\u00e7\u00e3o do voto das ruas \u00e9 a necessidade urgente de uma reforma pol\u00edtica que consiga produzir isto, com as inevit\u00e1veis imperfei\u00e7\u00f5es do mundo real.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No meio de tanto que tem sido dito sobre as manifesta\u00e7\u00f5es populares dos \u00faltimos dias, tr\u00eas coment\u00e1rios me chamaram aten\u00e7\u00e3o, e expressam \u00a0meu entendimento do que est\u00e1 ocorrendo. 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