{"id":4520,"date":"2013-06-20T17:36:10","date_gmt":"2013-06-20T20:36:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=4520"},"modified":"2013-06-20T17:39:14","modified_gmt":"2013-06-20T20:39:14","slug":"bernardo-sorj-a-politica-alem-da-internet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/bernardo-sorj-a-politica-alem-da-internet\/","title":{"rendered":"Bernardo Sorj: A pol\u00edtica al\u00e9m da Internet"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/philippoteaux_Lamartine.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-4521 alignright\" style=\"margin: 2px;\" alt=\"philippoteaux_Lamartine\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/philippoteaux_Lamartine-300x150.jpg\" width=\"300\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/philippoteaux_Lamartine-300x150.jpg 300w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/philippoteaux_Lamartine-1024x514.jpg 1024w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/philippoteaux_Lamartine.jpg 1400w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 85vw, 300px\" \/><\/a>Pareceria que Maio de 68 nunca aconteceu. Menos ainda a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. A raz\u00e3o \u00e9 simples, na \u00e9poca ainda n\u00e3o existiam nem o telefone celular nem Internet. Esta parece ser a conclus\u00e3o l\u00f3gica de certas analises que explicam as mobiliza\u00e7\u00f5es que o Brasil est\u00e1 vivendo pelo papel das redes virtuais. Certamente os novos sistemas de comunica\u00e7\u00e3o s\u00e3o mais r\u00e1pidos e eficientes que o texto mimeografado utilizado pelos estudantes nos anos sessenta, o folheto tipografado pelos revolucion\u00e1rios dos s\u00e9culos passados, ou a picha\u00e7\u00e3o de paredes ou textos manuscritos pregados em pra\u00e7as p\u00fablicas antes da inven\u00e7\u00e3o da imprensa. Mas as raz\u00f5es pelas quais as pessoas decidem exprimir insatisfa\u00e7\u00e3o e anseios de mudan\u00e7a devem ser procuradas em mentes e cora\u00e7\u00f5es e n\u00e3o nas maquinas.<\/p>\n<p>As tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o influenciam os processos sociais, pois elas s\u00e3o uma express\u00e3o e extens\u00e3o de nossos sentidos e habilidades, como lembra McLuhan. Os novos meios de comunica\u00e7\u00e3o disseminam a informa\u00e7\u00e3o em tempo real e em forma viral, facilitando chamados de protesto e concentra\u00e7\u00e3o de pessoas. Num contexto como o brasileiro, onde a apatia pol\u00edtica tinha tomado conta da sociedade, as novas tecnologias passaram a ser particularmente relevantes por causa da incapacidade ou falta de vontade dos partidos pol\u00edticos, sindicatos e gr\u00eamios estudantis de mobilizar a popula\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o publico. O que antes era poss\u00edvel e normal sem as redes virtuais hoje s\u00f3 parece vi\u00e1vel gra\u00e7as \u00e0s novas tecnologias. Mas o novo hoje no Brasil \u00e9 o povo na rua e n\u00e3o o uso da Internet. Lembremos que ela foi utilizada recentemente no abaixo-assinado pedindo que Renan Calheiros n\u00e3o assuma a presid\u00eancia do Senado, e mais de 1,5 milh\u00f5es de assinaturas foram inoperantes.<\/p>\n<p>O caracter\u00edstico das manifesta\u00e7\u00f5es que o Brasil est\u00e1 vivendo, assim como em outros lugares do planeta, \u00e9 a conflu\u00eancia de novos meios de comunica\u00e7\u00e3o extremamente eficazes com institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas incapazes de dar voz a diversos segmentos da popula\u00e7\u00e3o. Esta conflu\u00eancia possui uma afinidade eletiva: as mensagens curtas dos MSN e das redes sociais s\u00e3o as mais adequadas para criar sinergias entre indiv\u00edduos que n\u00e3o possuem nem est\u00e3o \u00e0 procura de discursos ideol\u00f3gicos, algo que os marqueteiros pol\u00edticos j\u00e1 tinham entendido.<\/p>\n<p>Aterrissando no que est\u00e1 acontecendo no Brasil, n\u00e3o se trata de argumentar que a explos\u00e3o social era previs\u00edvel. Explos\u00f5es sociais n\u00e3o s\u00e3o previs\u00edveis. Menos ainda no caso brasileiro, onde dez anos de governo do PT, que antes da chegada ao poder era o principal canal de mobiliza\u00e7\u00e3o de massas, neutralizou a disposi\u00e7\u00e3o ao protesto de rua das organiza\u00e7\u00f5es sindicais &#8211; em particular de funcion\u00e1rios p\u00fablicos, historicamente os mais militantes-, da sociedade civil, dos movimentos sociais e gr\u00eamios estudantis. A capacidade de coopta\u00e7\u00e3o politica do PT foi extremamente eficiente, e os grupos que ela n\u00e3o atingia pareciam ter ca\u00eddo na apatia politica, em parte pela incapacidade das oposi\u00e7\u00f5es de mobiliz\u00e1-las.<\/p>\n<p>No novo cen\u00e1rio social brasileiro surgiram camadas que n\u00e3o est\u00e3o ligadas \u00e0 malha institucional controlada pelo PT, as chamadas novas classes m\u00e9dias. Se trata de setores que passaram a integrar as expectativas da sociedade de consumo e de que seus filhos acedam \u00e0 educa\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, o que se traduziu num endividamento crescente facilitado pelos mais variados sistemas de cr\u00e9dito. Quando poss\u00edvel ela tenta fugir do sistema p\u00fablico de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, considerados de baixa qualidade.<\/p>\n<p>A nova classe media foi amplamente festejada por economistas oficiais que enfatizaram o incremento do ingresso monet\u00e1rio, esquecendo que uma parte da mesma mora em resid\u00eancias que n\u00e3o t\u00eam servi\u00e7os de esgoto ou de recolhimento de lixo, que os custos mensais de manuten\u00e7\u00e3o de telefone celular, Internet, carro, e juros esvaziam o ingresso familiar no inicio de m\u00eas, mais ainda quando possuem filhos estudando no ensino privado ou pagam seguro sa\u00fade.<\/p>\n<p>Ainda assim n\u00e3o era claro como este novo setor se expressaria politicamente, porque aparentemente se tratava de um grupo ap\u00e1tico e descrente da pol\u00edtica. O porqu\u00ea desta atitude era explicado pelos analistas por uma variedade de raz\u00f5es. Para alguns se tratava de um grupo que ascendeu recentemente e portanto estava satisfeito com sua situa\u00e7\u00e3o. Para outros, entre os quais me inclu\u00eda, se tratava de um setor socialmente fragmentado e preocupado com estrat\u00e9gias individuais de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>O diagnostico possivelmente estava certo em rela\u00e7\u00e3o aos pais, mas se mostrou errado em rela\u00e7\u00e3o aos filhos. Tudo indica que o grosso dos manifestantes s\u00e3o estudantes universit\u00e1rios \u2013mas n\u00e3o organizados pelo movimento estudantil &#8211; , sendo que, dado o crescimento da popula\u00e7\u00e3o estudantil nas ultimas d\u00e9cadas, boa parte certamente pertence a fam\u00edlias de classe m\u00e9dia que ascenderam recentemente. Com a disponibilidade e a for\u00e7a de cora\u00e7\u00f5es e mentes, certamente ing\u00eanuas e ainda n\u00e3o domesticados por responsabilidades familiares e\/ou laborais, os jovens sa\u00edram \u00e0s ruas para expressar o sufoco em que vivem com suas fam\u00edlias, aglutinados pelo problema que \u00e9 comum a todos eles: a baixa qualidade dos servi\u00e7os p\u00fablicos. Baixa qualidade que eles, assim como grande parte e da cidadania, credita \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o e falcatruas dos pol\u00edticos. O extraordin\u00e1rio do acontecido \u00e9 que, apesar de atos de vandalismo, as manifesta\u00e7\u00f5es n\u00e3o expressam uma minoria de ativistas radicais frente a uma maioria silenciosa conservadora e contr\u00e1ria a eles; pelo contrario, a maioria silenciosa se identificou com os manifestantes.<\/p>\n<p>Assim, o que deveria ter sido um momento de ufanismo nacional, a Copa das Confedera\u00e7\u00f5es, se transformou no seu reverso, num sinal para demostrar insatisfa\u00e7\u00e3o com a realidade do pa\u00eds. Por qu\u00ea? Porque a Copa aparece para os cidad\u00e3os n\u00e3o como sendo o rosto de um pa\u00eds que afirma uma imagem de sucesso nacional, mas como a face de obras p\u00fablicas caras e superfaturadas. Como me disse um manifestante na minha prec\u00e1ria pesquisa de campo, \u201cse for para roubar, pelo menos que construam hospitais.\u201d<\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es representam um momento de inflex\u00e3o na hist\u00f3ria do Brasil contempor\u00e2neo. Depois de vinte anos de sil\u00eancio a juventude redescobre o happening pol\u00edtico, o sentimento prazeroso, e no momento atual, sem deslizar em ideologias omnipotentes e totalit\u00e1rias, de ser parte de uma a\u00e7\u00e3o coletiva na qual a participa\u00e7\u00e3o gera o sentimento de empoderamento, que suspende por um momento as preocupa\u00e7\u00f5es individuais. Certamente \u00e9 diferente das de outros tempos onde as ideologias ocupavam um papel importante e os objetivos eram, ou nos pareciam, claros. Grande parte dos manifestantes n\u00e3o s\u00e3o nem pr\u00f3-governo nem pr\u00f3-oposi\u00e7\u00e3o, ou melhor, s\u00e3o contra ambos. O que eles querem \u00e9 um pais melhor e desconfiam do sistema politico e dos pol\u00edticos que eles as associam \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o e \u00e0 impunidade.<\/p>\n<p>Para ganhar elei\u00e7\u00f5es ser\u00e1 preciso que os partidos pol\u00edticos decifrem e traduzam em propostas, ou pelo menos promessas, as demandas que apareceram nas ruas. Tanto o governo quanto a oposi\u00e7\u00e3o foram tomados por surpresa. O primeiro procurar\u00e1 limitar os danos, mantendo sua base j\u00e1 consolidada de apoio eleitoral mas elaborando um discurso de \u201couvimos o clamor das ruas\u201d que incluir\u00e1 na sua ret\u00f3rica a necessidade de mudan\u00e7as no sistema pol\u00edtico. Para a oposi\u00e7\u00e3o o desafio \u00e9 maior, o de traduzir o mal-estar social numa proposta pol\u00edtica suficientemente convincente que, se certamente n\u00e3o eliminar\u00e1 a desconfian\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o, pelo menos gere a esperan\u00e7a de que pol\u00edticos s\u00e3o capazes de tra\u00e7ar o caminho para um Brasil melhor.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pareceria que Maio de 68 nunca aconteceu. Menos ainda a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. A raz\u00e3o \u00e9 simples, na \u00e9poca ainda n\u00e3o existiam nem o telefone celular nem Internet. Esta parece ser a conclus\u00e3o l\u00f3gica de certas analises que explicam as mobiliza\u00e7\u00f5es que o Brasil est\u00e1 vivendo pelo papel das redes virtuais. 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