{"id":4551,"date":"2013-07-09T13:45:14","date_gmt":"2013-07-09T16:45:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=4551"},"modified":"2013-07-13T13:00:57","modified_gmt":"2013-07-13T16:00:57","slug":"fabio-w-reis-a-proposito-do-artigo-de-andre-lara-resende","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/fabio-w-reis-a-proposito-do-artigo-de-andre-lara-resende\/","title":{"rendered":"F\u00e1bio W. Reis: A prop\u00f3sito do artigo de Andr\u00e9 Lara Resende"},"content":{"rendered":"<p><em>Mais um coment\u00e1rio cr\u00edtico, agora do cientista pol\u00edtico F\u00e1bio Wanderley Reis:<\/em><\/p>\n<p>Simon Schwartzman reproduziu aqui, h\u00e1 alguns dias, artigo de Andr\u00e9 Lara Resende (\u201c<a title=\"Andr\u00e9 Lara Resende: O Mal-Estar Contempor\u00eaano\" href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=4540\">O Mal-Estar Contempor\u00e2neo\u201d,<\/a> publicado no Valor Econ\u00f4mico no dia 5 de julho), recomendando-o como \u201cprovavelmente o que melhor interpreta o que vem ocorrendo\u201d quanto \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es de rua no Brasil e concitando a que seja \u201clido com muita aten\u00e7\u00e3o e compartido\u201d. Procurei ler com aten\u00e7\u00e3o, e acho o artigo confuso e equivocado na perspectiva adotada. Aproveito a hospitalidade do site do Simon para tentar dizer porqu\u00ea.<\/p>\n<p>Menos mal que o artigo de Andr\u00e9 destaca o papel da internet e das redes sociais, ao contr\u00e1rio de an\u00e1lises que o minimizam ou descartam (nosso amigo Bernardo Sorj, aqui mesmo, chegou a usar o fato de que a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa aconteceu para desqualificar a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 internet nas manifesta\u00e7\u00f5es de agora). Em princ\u00edpio, cabe, naturalmente, distinguir o meio \u00e1gil de comunica\u00e7\u00e3o que a tecnologia da internet e das redes sociais representa, facilitando assim a mobiliza\u00e7\u00e3o, daquilo que fornece propriamente a motiva\u00e7\u00e3o \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es, a insatisfa\u00e7\u00e3o que elas (presumivelmente&#8230;) expressam. \u00c9 claro que podemos ter motivos diversos, como a explos\u00e3o recente de manifesta\u00e7\u00f5es e protestos an\u00e1logos em v\u00e1rios pa\u00edses permite ver \u2013 valendo-se todos da mesma tecnologia e compartilhando com o caso do Brasil de agora o car\u00e1ter de irrup\u00e7\u00f5es meio surpreendentes, o que torna natural tratar de aproxim\u00e1-lo e confront\u00e1-lo com os outros casos. De toda maneira, Andr\u00e9 faz o confronto, e distingue nosso caso dos outros porque aqui faltariam motivos que estariam presentes neles: \u201cos dois elementos tradicionais da insatisfa\u00e7\u00e3o popular\u201d, dificuldades econ\u00f4micas e falta de representa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, que \u201cdefinitivamente n\u00e3o est\u00e3o presentes no Brasil de hoje\u201d, onde a democracia pol\u00edtica est\u00e1 consolidada e onde houve \u201cgrandes avan\u00e7os nas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas de vida\u201d, \u201cganho substancial de renda entre os mais pobres\u201d nos \u00faltimos vinte anos, \u201ca distribui\u00e7\u00e3o de renda melhorou\u201d, \u201co desemprego est\u00e1 em seu m\u00ednimo hist\u00f3rico\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Isso leva Andr\u00e9 a tratar de evitar interpreta\u00e7\u00f5es que se refiram aos \u201cc\u00e2nones do passado\u201d (dificuldades econ\u00f4micas, autoritarismo pol\u00edtico) e a buscar a explica\u00e7\u00e3o do \u201cfen\u00f4meno novo\u201d que presenciamos no Brasil. Mas \u00e9 grande a confus\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o (supostamente negativa) entre aqueles \u201cc\u00e2nones\u201d e os itens em que a nova explica\u00e7\u00e3o trazida se apoia: de um lado, uma crise de representa\u00e7\u00e3o, o fato de que a sociedade n\u00e3o se reconhece nos poderes constitu\u00eddos (Executivo, Legislativo e Judici\u00e1rio); de outro, o hiato entre a sociedade e um projeto de Estado que n\u00e3o corresponde mais aos anseios da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O projeto de Estado de que a sociedade se afasta \u00e9 tortuosamente esbo\u00e7ado como correspondendo \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o, nos governos petistas, do \u201cnacional-desenvolvimentismo\u201d. Este se caracterizaria pela \u00eanfase em industrializa\u00e7\u00e3o for\u00e7ada e pelo compromisso com a cria\u00e7\u00e3o de rede de prote\u00e7\u00e3o social, sendo descrito tamb\u00e9m pela combina\u00e7\u00e3o do \u201cconsumismo das economias capitalistas avan\u00e7adas\u201d com o \u201cprodutivismo sovi\u00e9tico\u201d \u2013 a \u201cess\u00eancia\u201d de seu anacronismo. Seria provavelmente dif\u00edcil explicar aos manifestantes (afinal, recrutados de uma popula\u00e7\u00e3o em sua maioria amplamente desinformada politicamente) a liga\u00e7\u00e3o de suas a\u00e7\u00f5es com a exist\u00eancia de um governo assim caracterizado; mas Andr\u00e9 associa o nacional-desenvolvimentismo do governo brasileiro sob o PT n\u00e3o s\u00f3 com inefici\u00eancia e pol\u00edticas econ\u00f4micas ruins que supostamente ajudam a produzir insatisfa\u00e7\u00e3o difusa (h\u00e1, portanto, dificuldades econ\u00f4micas?), mas tamb\u00e9m, dada a crise de representa\u00e7\u00e3o (defici\u00eancias da democracia?), com toda uma s\u00e9rie de tra\u00e7os negativos em que transparecem velhos objetos de den\u00fancia \u2013 que acabam sendo a den\u00fancia da pr\u00f3pria pol\u00edtica como tal, vista, \u00e0 luz de um modelo rec\u00f4ndito de pol\u00edtica ideol\u00f3gica e \u201caut\u00eantica\u201d, como degeneresc\u00eancia e vilania: pragmatismo c\u00ednico, fisiologismo \u201csem qualquer pudor ideol\u00f3gico\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Um dos subtemas relacionados redunda em enf\u00e1tica retomada de um \u201cp\u00f3s-materialismo\u201d (Andr\u00e9 n\u00e3o usa a express\u00e3o) que h\u00e1 algum tempo andou em voga nos estudos que lidam com \u201ccultura pol\u00edtica\u201d, de que os trabalhos de Ronald Inglehart s\u00e3o um exemplo destacado. Assim, com base na ideia de que a conex\u00e3o entre renda e bem-estar s\u00f3 se d\u00e1 na percep\u00e7\u00e3o das pessoas at\u00e9 que se alcance certo n\u00edvel de renda (e na suposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o explicitada e mais que problem\u00e1tica de que o Brasil j\u00e1 teria alcan\u00e7ado o n\u00edvel adequado), Andr\u00e9 sustenta que o que nos importa agora (como ao \u201cmundo todo\u201d, cuja popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 intuiu \u201ca exaust\u00e3o do modelo consumista do s\u00e9culo XX\u201d) \u00e9, na verdade, a \u201cqualidade de vida\u201d: \u201co tempo com a fam\u00edlia e os amigos, o sentido de comunidade e confian\u00e7a nos concidad\u00e3os, a sa\u00fade e a aus\u00eancia de estresse emocional\u201d \u2013 e tamb\u00e9m a participa\u00e7\u00e3o nas decis\u00f5es pol\u00edticas, em correspond\u00eancia com certa difundida insatisfa\u00e7\u00e3o com a democracia (\u201c\u00e9 poss\u00edvel que o modelo de representa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica [&#8230;] tenha deixado de cumprir seu papel, e precise ser revisto\u201d)&#8230; Ressalvado este \u00faltimo aspecto, a prop\u00f3sito do qual analistas t\u00eam falado de \u201cdemocratas insatisfeitos\u201d justamente porque se preservam valores democr\u00e1ticos enquanto eventualmente se hostilizam o governo e certas institui\u00e7\u00f5es, bastaria ver, quanto ao mais, a forte desqualifica\u00e7\u00e3o empreendida por Harold Wilenski das supostas constata\u00e7\u00f5es emp\u00edricas na dire\u00e7\u00e3o de um \u201cp\u00f3s-materialismo\u201d, em cuidadosa revis\u00e3o de 2002\/3 de v\u00e1rios estudos relativos ao assunto (1): fica claro que vastas maiorias \u201cmodernas\u201d (que se sup\u00f5em mais sens\u00edveis aos temas \u201cp\u00f3s-industriais\u201d e \u201cp\u00f3s-materiais\u201d) da popula\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses estudados atribuem prioridade mais alta a temas como seguran\u00e7a econ\u00f4mica e crescimento econ\u00f4mico \u2013 al\u00e9m de que os mesmos cidad\u00e3os modernos \u201cmudam drasticamente suas respostas a quest\u00f5es referidas a \u2018valores\u2019 diante de mudan\u00e7as conjunturais nos contextos econ\u00f4micos e pol\u00edticos\u201d, o que, naturalmente, torna duvidoso que se esteja observando a mudan\u00e7a profunda de valores b\u00e1sicos. \u00c9 sup\u00e9rfluo acrescentar que, de 2002\/3 para c\u00e1, com a crise econ\u00f4mica, \u00e9 imposs\u00edvel pretender que a conjuntura se tenha tornado mais prop\u00edcia ao \u201cp\u00f3s-materialismo\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Outro subtema \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre a internet e a imprensa, ou os meios tradicionais de comunica\u00e7\u00e3o de massa. Andr\u00e9 coloca a imprensa como apenas um ator entre os muitos outros que n\u00e3o anteviram a insatisfa\u00e7\u00e3o popular e se mostram perplexos diante dos eventos \u2013 n\u00e3o obstante, segundo ele, o fato de que \u201ca irrita\u00e7\u00e3o difusa podia ser claramente percebida na internet e nas redes sociais\u201d. Talvez isso variasse do Facebook de A para o de B&#8230; De toda forma, um par de considera\u00e7\u00f5es relacionadas merece registro: no amontoado disperso de temas de que as manifesta\u00e7\u00f5es se apropriaram (na verdade, todos os temas que de alguma forma surgiram na agenda socioecon\u00f4mica e pol\u00edtica do pa\u00eds em tempos mais ou menos recentes), o papel dos meios de comunica\u00e7\u00e3o tradicionais \u00e9 evidente (e, para o que valham, pesquisas de \u00f3rg\u00e3os como a Folha de S.Paulo t\u00eam mostrado que os links compartilhados entre os pr\u00f3prios manifestantes s\u00e3o tomados da imprensa em sua ampla maioria). E h\u00e1 a\u00ed uma face especial: a de que o antipoliticismo, a vis\u00e3o intensamente negativa da pol\u00edtica e dos pol\u00edticos que distingue o movimento de protesto, reproduz disposi\u00e7\u00e3o an\u00e1loga que tem marcado o notici\u00e1rio e os coment\u00e1rios da imprensa e dos meios de massa no pa\u00eds, vindo a condicionar fortemente a chamada \u201copini\u00e3o p\u00fablica\u201d brasileira \u2013 e isso, sim, h\u00e1 muito podia ser claramente percebido. Dif\u00edcil propor que as manifesta\u00e7\u00f5es tenham trazido algo novo quanto a este aspecto crucial.<\/p>\n<p>Isso permite algumas observa\u00e7\u00f5es finais quanto \u00e0 pr\u00f3pria natureza do movimento. A distin\u00e7\u00e3o feita acima entre a internet como tecnologia facilitadora e os motivos de insatisfa\u00e7\u00e3o que se valem dela deixa de lado uma possibilidade importante e talvez decisiva para se encontrar a explica\u00e7\u00e3o adequada do nosso caso: a de que, de certa forma, a disponibilidade da tecnologia acabe fornecendo os motivos. Refiro-me \u00e0 possibilidade de que as manifesta\u00e7\u00f5es em suas dimens\u00f5es especiais sejam em boa medida f\u00fateis, a mera imita\u00e7\u00e3o das irrup\u00e7\u00f5es anteriores em outros pa\u00edses uma vez deflagrado com \u00eaxito, pelo Movimento Passe Livre, sua etapa inicial referida ao pre\u00e7o das passagens de \u00f4nibus. Da\u00ed que os protestos se mostrem n\u00e3o s\u00f3 desorientados quanto aos objetivos, mas politicamente ing\u00eanuos no antipoliticismo, no antipartidarismo e, na verdade, no antiinstitucionalismo viscerais, que os levam mesmo a estarem prontos (n\u00e3o obstante a insist\u00eancia de muitos na \u201cminoria de baderneiros\u201d) ao confronto violento e sem sentido pr\u00e1tico com prefeituras, assembl\u00e9ias legislativas e o que mais seja. O que n\u00e3o significa, naturalmente, que a ingenuidade torne o movimento inconsequente: uma vez alcan\u00e7ada a dimens\u00e3o que adquiriu, \u00e9 fatal que afete a cena pol\u00edtico-institucional e que os pol\u00edticos se movam em resposta (sem falar da oposi\u00e7\u00e3o a Dilma, por exemplo, por parte de muitos que a apoiavam at\u00e9 outro dia, de maneira congruente com o quadro geral de desinforma\u00e7\u00e3o e inconsist\u00eancia pol\u00edticas). E, afinal, agora que se experimentou a facilidade com que \u00e9 poss\u00edvel semear furac\u00f5es, \u00e9 elementar esperar novos furac\u00f5es para breve, em particular com a nova vitrine que a Copa do Mundo e as elei\u00e7\u00f5es presidenciais do ano que vem representam. Tomara que, ao transpor a correria das ruas para o plano da movimenta\u00e7\u00e3o institucional, as lideran\u00e7as pol\u00edticas e autoridades n\u00e3o venham apenas a turbinar a turbul\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;-<br \/>\n(1) Harold L. Wilenski, \u201cPostindustrialism and Postmaterialism? A Critical view of the \u2018New Economy\u2019, the \u2018Information Age\u2019, the \u2018High Tech Society\u2019 and All That\u201d, Wissenschaftszentrum f\u00fcr Sozialforschung (WZB), Berlim; excerto de Harold L. Wilensky, Rich Democracies: Political Economy, Public Policy, and Performance (Berkeley: University of California Press, 2002).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais um coment\u00e1rio cr\u00edtico, agora do cientista pol\u00edtico F\u00e1bio Wanderley Reis: Simon Schwartzman reproduziu aqui, h\u00e1 alguns dias, artigo de Andr\u00e9 Lara Resende (\u201cO Mal-Estar Contempor\u00e2neo\u201d, publicado no Valor Econ\u00f4mico no dia 5 de julho), recomendando-o como \u201cprovavelmente o que melhor interpreta o que vem ocorrendo\u201d quanto \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es de rua no Brasil e concitando &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/fabio-w-reis-a-proposito-do-artigo-de-andre-lara-resende\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;F\u00e1bio W. 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