{"id":4561,"date":"2013-07-14T19:56:54","date_gmt":"2013-07-14T22:56:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=4561"},"modified":"2013-08-06T07:03:39","modified_gmt":"2013-08-06T10:03:39","slug":"antonio-octavio-cintra-ainda-as-manifestacoes-de-junho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/antonio-octavio-cintra-ainda-as-manifestacoes-de-junho\/","title":{"rendered":"Antonio Oct\u00e1vio Cintra: Ainda as manifesta\u00e7\u00f5es de junho"},"content":{"rendered":"<p><em>Comparto a contribui\u00e7\u00e3o do cientista pol\u00edtico Ant\u00f4nio Oct\u00e1vio Cintra ao debate sobre como interpretar o sentido e as consequ\u00eancias nas manifesta\u00e7\u00f5es de rua do m\u00eas passado:<\/em><\/p>\n<p>Este blog tem acolhido um bom debate sobre o sentido das recentes manifesta\u00e7\u00f5es de rua, em particular como interpretadas pelo artigo de Andr\u00e9 Lara Rezende no Valor, que Simon aqui reproduziu.<\/p>\n<p>Dou aqui algumas breves opini\u00f5es \u00e0 luz do que foi dito pelos v\u00e1rios colegas. Primeiramente, tem-se questionado essas manifesta\u00e7\u00f5es por fugirem dos canais institucionais, tendo elas, assim, car\u00e1ter muito gen\u00e9rico e por certo fugaz.<\/p>\n<p>O influente Samuel Huntington, em seu opus magnum <em>Political Order in Changing Societies,<\/em> no final dos anos 60, ampliou o conceito de \u201cpretorianismo\u201d, tirando-o da mais estrita conota\u00e7\u00e3o militarista, advinda da interven\u00e7\u00e3o da guarda pretoriana na sele\u00e7\u00e3o e destitui\u00e7\u00e3o de imperadores em Roma, e estendendo-o \u00e0 irrup\u00e7\u00e3o de grupos da sociedade civil na esfera pol\u00edtica, sem interm\u00e9dio das institui\u00e7\u00f5es. Ao dar-se tal amplia\u00e7\u00e3o do conceito, como ficou sua valora\u00e7\u00e3o negativa? Parece ter irremediavelmente contaminado a abrangente realidade agora denotada. Em suma, por n\u00e3o serem institucionalizadas e, at\u00e9 mesmo, anti-institucionais , as manifesta\u00e7\u00f5es, pedir-nos-ia redobradas cautelas em sua avalia\u00e7\u00e3o. P\u00e9 atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Fica, por\u00e9m, pendente a outra faceta da realidade: e quando as institui\u00e7\u00f5es se ossificam e se tornam avessas aos reclamos da sociedade, como se manifestam estes?<\/p>\n<p>Lembrarei, aqui, tr\u00eas manifesta\u00e7\u00f5es de representantes institucionais, ao longo dos \u00faltimos anos, sob governos do lulopetismo. Lula, j\u00e1 presidente, declarava, em 2006, ser a sa\u00fade, no Brasil, quase perfeita\u00a0.\u00a0J\u00e1 no clima de prepara\u00e7\u00e3o da Copa, n\u00e3o faz muito tempo, a ministra do \u2013 vejam bem \u2013 Planejamento, recomendava-nos despreocupa\u00e7\u00e3o com o pouco que se fazia quanto \u00e0 mobilidade urbana. Esse <a href=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/noticia\/esporte\/para-miriam-belchior-mobilidade-urbana-nao-e-essencial-para-a-copa\" target=\"_blank\">problema seria resolvido, porque decretaria feriado nos dias dos jogos<\/a>.\u00a0Finalmente e, creio, mais importante, numerosas vezes t\u00eam a presidente e o ministro da Fazenda proclamado estar a infla\u00e7\u00e3o sob controle, apesar de h\u00e1 muito bater no topo da meta.<\/p>\n<p>S\u00f3 sobre este \u00faltimo assunto, recordaria aos mais jovens que sou de uma gera\u00e7\u00e3o formada politicamente tendo a infla\u00e7\u00e3o como um dos problemas centrais da vida econ\u00f4mica nacional. Infla\u00e7\u00e3o era tema quotidiano da discuss\u00e3o p\u00fablica. Alguns professores meus a defendiam, como instrumento de poupan\u00e7a for\u00e7ada, para o crescimento nacional. Mas o povo se queixava da crescente da \u201ccarestia\u201d, palavra que Fernando Henrique Cardoso voltou a por em circula\u00e7\u00e3o em recentes artigos.<\/p>\n<p>Contudo, nos estratos mais altos da classe m\u00e9dia, tal problema n\u00e3o \u00e9 vivenciado com a mesma intensidade que \u00e9 pelo pov\u00e3o. Fiz a experi\u00eancia, outro dia, num almo\u00e7o, em que se reuniam amigos, todos da elite do funcionalismo p\u00fablico de Bras\u00edlia. Perguntei o pre\u00e7o de certo tipo de mel\u00e3o. Ningu\u00e9m sabia. Contudo, esse pre\u00e7o varia bastante entre um \u201cverdur\u00e3o\u201d e dois supermercados da vizinhan\u00e7a, estes vendendo-o mais barato do que aquele. Uma amiga, presente, disse ter percebido a grande diferen\u00e7a de pre\u00e7o no que adquiria ao fazer uma compra num hiper-mercado, outro dia, dos mesmos itens e das mesmas quantidades habituais, e ter economizado cerca de R$ 100,00. Pois bem, minha empregada, meses atr\u00e1s, me alertava para n\u00e3o fazer compras de alguns produtos onde eu semanalmente as fazia, por ach\u00e1-los muito caros. Comecei a observar e vi estar corret\u00edssima. Mudei os h\u00e1bitos de compra.<\/p>\n<p>Quem foi criado j\u00e1 sob a \u00e9gide do Real n\u00e3o tem, provavelmente, id\u00e9ia disso. Mas as autoridades p\u00fablicas, se antes retomavam velhas id\u00e9ias sobre a import\u00e2ncia de alguma infla\u00e7\u00e3o para o crescimento, certamente se assustaram com as manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O descolamento, entre n\u00f3s, das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas da base social, se presta a uma an\u00e1lise de quase vinte anos atr\u00e1s, feita por Richard Katz e Peter Mair, da evolu\u00e7\u00e3o dos partidos pol\u00edticos nas democracias ocidentais (1). \u00a0\u00a0Resumidamente, mostram eles como essas entidades foram-se modificando ao longo dos \u00faltimos duzentos anos. De agremia\u00e7\u00f5es, inicialmente, da aristocracia rural, para quem a administra\u00e7\u00e3o estatal era quase uma continuidade de sua atividade privada \u2013 n\u00e3o \u00e0 toa, o parlamento era quase que uma extens\u00e3o do club dessa elite \u2013 passa-se \u00e0 incorpora\u00e7\u00e3o dos estratos burgueses e da classe m\u00e9dia, ao longo do s\u00e9culo XIX. Surgem, depois, as agremia\u00e7\u00f5es da classe oper\u00e1ria, inicialmente de fora do sistema pol\u00edtico, com toda uma subcultura pr\u00f3pria e, portanto, com a necessidade de suprir essa classe com as coisas a que n\u00e3o tinha acesso na sociedade global (imprensa, associa\u00e7\u00f5es de vizinhan\u00e7a, educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica). Segue-se sua gradual entrada na institui\u00e7\u00e3o parlamentar e a amplia\u00e7\u00e3o de sua base social a outras camadas \u2013 tornam-se <em>catch-all parties,<\/em> na expressiva denomina\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica &#8212; e, finalmente, a assun\u00e7\u00e3o ao comando do executivo.<\/p>\n<p>Nos anos 50, coube ao polit\u00f3logo franc\u00eas Maurice Duverger formalizar o paradigma dos novos partidos, os partidos de massa, que ele achava proverem o modelo que no futuro predominaria na vida pol\u00edtica, mesmo entre os partidos burgueses, for\u00e7ados a se organizar nos mesmos moldes (tese do cont\u00e1gio pela esquerda).<\/p>\n<p>O PT, quando criado entre n\u00f3s, seguiu bastante, e de caso pensado, a cartilha de Duverger. E o partido sabia organizar, foi capaz de agregar e institucionalizar movimentos sociais, e canalizar pleitos, e fazer oposi\u00e7\u00e3o. Aos poucos, o partido abriu o foco, e o conceito de \u201ctrabalhador\u201d abrangeu, al\u00e9m da classe oper\u00e1ria, as demais categorias. Por pouco, n\u00e3o ter\u00edamos tamb\u00e9m trabalhadores-empres\u00e1rios e, at\u00e9, trabalhadores-banqueiros, abrangidos pelo largo conceito&#8230;<\/p>\n<p>Mas, conforme apontado por Katz e Mair, o partido de massa, ao conquistar o poder, entra numa nova categoria, o partido governamental (na terminologia e acep\u00e7\u00e3o deles, partido-cartel). A teoria, na pr\u00e1tica, torna-se diferente&#8230; Temos, ent\u00e3o, a \u201ccarta ao povo brasileiro\u201d. O vasto espectro de associa\u00e7\u00f5es, sindicatos, movimentos organizados, \u00e9 incorporado ao poder, se torna para-estatal.<\/p>\n<p>Que acontece? Aos poucos, reclamos novos s\u00e3o ignorados. Demos, acima, algumas inst\u00e2ncias chamativas desse fechamento oficial \u00e0s novas demandas, algumas at\u00e9 geradas pela pol\u00edtica governamental, como a mobilidade urbana, muito afetada pela massa de autom\u00f3veis que tomaram as ruas.<\/p>\n<p>Enfim, o partido que antes estava do lado de fora, agora, de dentro, se mostra incapaz de perceber a mudan\u00e7a que ele pr\u00f3prio ajudou a efetuar. Que, ent\u00e3o, as manifesta\u00e7\u00f5es irrompam por fora, n\u00e3o canalizadas, n\u00e3o deve causar surpresa, nem merecer desqualifica\u00e7\u00e3o por se darem sem a intermedia\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es. \u00c9 que estas se descolaram primeiro.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<\/p>\n<p>(1)\u00a0(Richard S. Katz e Peter Mair,<em> Changing Models of Party Organization and Party Democracy: the Emergence of the Cartel Party,<\/em> Party Politics, 1995, 1, 5).<\/p>\n<p>&nbsp;<span hidden class=\"__iawmlf-post-loop-links\" data-iawmlf-links=\"[{&quot;id&quot;:472,&quot;href&quot;:&quot;http:\\\/\\\/veja.abril.com.br\\\/noticia\\\/esporte\\\/para-miriam-belchior-mobilidade-urbana-nao-e-essencial-para-a-copa&quot;,&quot;archived_href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/web-wp.archive.org\\\/web\\\/20111220040843\\\/http:\\\/\\\/veja.abril.com.br:80\\\/noticia\\\/esporte\\\/para-miriam-belchior-mobilidade-urbana-nao-e-essencial-para-a-copa&quot;,&quot;redirect_href&quot;:&quot;https:\\\/\\\/veja.abril.com.br\\\/noticia\\\/esporte\\\/para-miriam-belchior-mobilidade-urbana-nao-e-essencial-para-a-copa&quot;,&quot;checks&quot;:[{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-17 11:22:13&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-23 14:12:49&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-04-27 01:59:18&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-11 18:43:11&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-17 05:35:43&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-05-31 13:42:42&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-06-04 00:04:52&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-06-09 22:24:58&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-06-14 20:58:51&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-06-19 00:21:13&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-06-25 06:35:36&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-06-30 13:16:12&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-07-06 08:34:11&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-07-12 15:28:06&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-07-22 12:03:55&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-07-29 12:25:37&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-08-04 00:50:55&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-08-08 23:55:56&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-08-14 20:27:04&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-08-20 11:48:39&quot;,&quot;http_code&quot;:200},{&quot;date&quot;:&quot;2026-08-25 03:42:14&quot;,&quot;http_code&quot;:200}],&quot;broken&quot;:false,&quot;last_checked&quot;:{&quot;date&quot;:&quot;2026-08-25 03:42:14&quot;,&quot;http_code&quot;:200},&quot;process&quot;:&quot;done&quot;}]\"><\/span><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comparto a contribui\u00e7\u00e3o do cientista pol\u00edtico Ant\u00f4nio Oct\u00e1vio Cintra ao debate sobre como interpretar o sentido e as consequ\u00eancias nas manifesta\u00e7\u00f5es de rua do m\u00eas passado: Este blog tem acolhido um bom debate sobre o sentido das recentes manifesta\u00e7\u00f5es de rua, em particular como interpretadas pelo artigo de Andr\u00e9 Lara Rezende no Valor, que Simon &hellip; 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