{"id":4588,"date":"2013-07-24T07:52:25","date_gmt":"2013-07-24T10:52:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=4588"},"modified":"2013-07-24T07:52:25","modified_gmt":"2013-07-24T10:52:25","slug":"gerado-martins-o-que-vira-depois-da-tempestade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/gerado-martins-o-que-vira-depois-da-tempestade\/","title":{"rendered":"Gerado Martins:  O que vir\u00e1 depois da tempestade?"},"content":{"rendered":"<p><strong><a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/tempest.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-4589\" style=\"border: 1px solid black; margin: 1px;\" alt=\"tempest\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/tempest-205x300.jpg\" width=\"205\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/tempest-205x300.jpg 205w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/tempest.jpg 611w\" sizes=\"auto, (max-width: 205px) 85vw, 205px\" \/><\/a>O que vir\u00e1 depois da tempestade?<\/strong><\/p>\n<p><em>Escreve Geraldo M. Martins, educador, soci\u00f3logo e administrador. Coordenador da Pastoral da Ecologia da Diocese da Campanha<\/em><\/p>\n<p>Passada a perplexidade diante da eclos\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es populares que continua abalando os governantes, a m\u00eddia e os empres\u00e1rios, a indaga\u00e7\u00e3o que surge na mente de todos \u00e9 o que vir\u00e1 depois da tempestade. Instantaneamente nos remetemos para o prov\u00e9rbio popular: \u201cDepois da tempestade, vem a bonan\u00e7a\u201d. Tamb\u00e9m vem \u00e0 tona a not\u00e1vel 6\u00aa sinfonia de Beethoven, a Pastoral, cujos movimentos expressam sentimentos humanos diante da magnitude da natureza, come\u00e7ando pela paz e pela felicidade de uma doce manh\u00e3 de primavera at\u00e9 o in\u00edcio das trovoadas, seguidas pela tempestade que irrompe violentamente, provocando temor por suas consequ\u00eancias. Segue o canto dos pastores celebrando a alegria e a gratid\u00e3o ao Criador, com a retomada da calmaria, ap\u00f3s dissipadas as amea\u00e7as.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma expectativa otimista com base em nosso senso comum. A tempestade social que sacudiu o Pa\u00eds trouxe alguns benef\u00edcios ao varrer alguns entulhos e coisas podres do sistema pol\u00edtico, que foi transformado em lucrativo balc\u00e3o de negociatas. A pergunta \u00e9 se essa onda de protestos ir\u00e1 se arrefecer com uma acomoda\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o diante dos ganhos obtidos e das expectativas quanto aos prometidos avan\u00e7os democr\u00e1ticos. Em caso positivo, a bonan\u00e7a estaria \u00e0 vista. Todavia, s\u00e3o muitas as incertezas quando se olha para o horizonte mais adiante. A reforma pol\u00edtica est\u00e1 sendo alardeada como a principal sa\u00edda para a crise. Mas tamb\u00e9m \u00e9 grande a sensa\u00e7\u00e3o de que tudo n\u00e3o passa do velho engodo de maquiar ou procrastinar as mudan\u00e7as necess\u00e1rias para uma democracia verdadeiramente participativa.<\/p>\n<p>H\u00e1 motivos de sobra para a descren\u00e7a de que essa crise seja superada pelo jogo pol\u00edtico entre o Planalto e o Congresso ou por um pacto federativo em torno de medidas pontuais e de resultados paliativos. S\u00e3o medidas direcionadas para contornar as causas mais vis\u00edveis e imediatas como corrup\u00e7\u00e3o generalizada instalada no aparelho do Estado ou a deteriora\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos. Na verdade, tudo indica que essas e outras causas da crise, agora desnudada pela indigna\u00e7\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es, t\u00eam ra\u00edzes bem mais profundas. Acreditamos, por exemplo, que est\u00e3o, direta e indiretamente, radicadas nas quest\u00f5es da cidadania e do meio ambiente, ainda que os seus nexos n\u00e3o apare\u00e7am suficientemente claros e convincentes.<\/p>\n<p><strong>Cidadania<\/strong> \u2013 N\u00e3o se pode negar que o exerc\u00edcio da cidadania ativa e consciente revela-se cada vez mais deteriorado pela desintegra\u00e7\u00e3o por que passa a civiliza\u00e7\u00e3o moderna. \u00c9 a chamada crise de valores ou mais propriamente a crise espiritual diante da insanidade e das consequ\u00eancias degradantes do progresso materialista. Vivemos em uma \u00e9poca de crescente desilus\u00e3o e descontentamento. Nesse contexto, as manifesta\u00e7\u00f5es expressaram insatisfa\u00e7\u00f5es concretas e imediatamente tang\u00edveis, seja em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e1 qualidade dos servi\u00e7os p\u00fablicos ou \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o instalada no aparelho do Estado. Tamb\u00e9m \u00e9 fato que a sociedade, e n\u00e3o s\u00f3 a brasileira, vive engolfada em uma sucess\u00e3o de conflitos, preconceitos e viol\u00eancias entre os diferentes segmentos sociais, forma\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas, fac\u00e7\u00f5es religiosas, corpora\u00e7\u00f5es e agrupamentos partid\u00e1rios. A taxa de homic\u00eddios entre os jovens brasileiros, por exemplo, \u00e9 das mais altas do mundo, o que reflete a desvaloriza\u00e7\u00e3o da vida pela sociedade e pelo Poder P\u00fablico. Tudo isso concorre para estreitar os caminhos da conviv\u00eancia c\u00edvica, para dar vaz\u00e3o aos \u00f3dios reprimidos e ampliar o ceticismo diante das institui\u00e7\u00f5es. Dessa forma, s\u00e3o corro\u00eddas as possibilidades de di\u00e1logo e de compreens\u00e3o m\u00fatua necess\u00e1rias ao exerc\u00edcio de uma cidadania ativa e consciente, condi\u00e7\u00e3o essencial da democracia. Incr\u00edvel que isso ocorra num tempo em que a comunica\u00e7\u00e3o se d\u00e1 em quantidade e velocidade nunca vistas, mas que paradoxalmente \u00e9 refor\u00e7adora de um alucinante padr\u00e3o individualista de vida em busca da felicidade material (ter mais, consumir mais e aproveitar mais). A \u00e9tica, enquanto portadora dos princ\u00edpios e das pr\u00e1ticas humanas orientadas para o bem comum, para a Justi\u00e7a, para a verdade, para a solidariedade, em \u00faltima inst\u00e2ncia, para o amor vem sendo extirpada das consci\u00eancias por estar na contram\u00e3o das aspira\u00e7\u00f5es individualistas. Pode parecer uma vis\u00e3o pessimista, mas \u00e9 not\u00f3ria a fal\u00eancia da fam\u00edlia, da escola, da igreja, dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas por aceitarem e reproduzirem essa forma individualista de ver o mundo. A busca exacerbada pela realiza\u00e7\u00e3o dos interesses pessoais n\u00e3o apenas rompe os la\u00e7os de sociabilidade e de vida comunit\u00e1ria, como estimula o ego\u00edsmo e at\u00e9 mesmo conduz ao extremo da engana\u00e7\u00e3o e da corrup\u00e7\u00e3o. O descontentamento levado \u00e0s ruas foi certamente um protesto contra a baixa qualidade e a desigualdade de acesso pela maioria da popula\u00e7\u00e3o aos bens de consumo e aos benef\u00edcios do desenvolvimento moderno (emprego, transporte, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a e lazer). Mas, enquanto ato coletivo, as manifesta\u00e7\u00f5es podem tamb\u00e9m ser vistas como um despertar da consci\u00eancia ou um grito de liberta\u00e7\u00e3o da cidadania capturada e sufocada pela forma de viver imposta pela atual civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Meio Ambiente &#8211;<\/strong> O que o meio ambiente tem a ver com as origens e os desdobramentos dessa crise? \u00c0 primeira vista, essa rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o faz muito sentido. Todavia, ela se torna percept\u00edvel quando se observa que todos os elementos dessa crise est\u00e3o na esteira de uma crise maior, ou melhor, do esgotamento do modelo capitalista, que tem por base a competi\u00e7\u00e3o, a busca desenfreada de bens e a exaust\u00e3o dos recursos naturais. Desde os prim\u00f3rdios da industrializa\u00e7\u00e3o selvagem at\u00e9 a barb\u00e1rie globalizada dos tempos atuais, os governos e os sistemas pol\u00edticos t\u00eam sido colocados a servi\u00e7o dos grandes interesses do capital que pouco ou nenhum apre\u00e7o t\u00eam pela \u00e9tica do Estado e do direito coletivo. Hoje, a sobreviv\u00eancia desse modelo esbarra inapelavelmente na finitude dos bens naturais. Conforme adverte Leonardo Boff, \u00e9 praticamente imposs\u00edvel encontrar uma solu\u00e7\u00e3o para a crise ambiental dentro do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. \u00c9 inerente \u00e0 logica do mercado, do lucro, da competi\u00e7\u00e3o e da concentra\u00e7\u00e3o de riqueza explorar ao m\u00e1ximo as for\u00e7as produtivas. \u00c0 selvagem explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a do trabalho e \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o privada do conhecimento e das tecnologias juntou-se a avassaladora preda\u00e7\u00e3o dos recursos naturais. Acontece que o crescimento cont\u00ednuo da atividade econ\u00f4mica tornou-se incompat\u00edvel com a sustentabilidade do Planeta. Por\u00e9m, mesmo amea\u00e7ado de fal\u00eancia, esse sistema jamais ir\u00e1 suicidar-se ou permitir restri\u00e7\u00f5es ao lucro, \u00e0 conquista de mercados e \u00e0 cont\u00ednua expans\u00e3o do consumo. Pelo contr\u00e1rio, esse modelo buscar\u00e1 todos os meios e artif\u00edcios para se prolongar, como \u00e9 o caso da chamada economia verde pela qual os bens coletivos da natureza passam a ter valor de mercado e a ser contabilizados monetariamente.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de uma postura anticapitalista infantil. \u00c9 fato que tamb\u00e9m o socialismo democr\u00e1tico vigente em pa\u00edses da Europa aceitou ou incorporou o essencial do capitalismo: o mercado, a concorr\u00eancia e a ordem financeira mundial. \u00c9 o que ocorre tamb\u00e9m com o socialismo totalit\u00e1rio chin\u00eas e de alguns pa\u00edses asi\u00e1ticos e latino-americanos. Seus governos mostram-se incapazes de construir sa\u00eddas para a crise social e ambiental que s\u00f3 vem agravando-se com a amplia\u00e7\u00e3o do consumo irracional e o crescimento insustent\u00e1vel das economias.<\/p>\n<p>Resta a esperan\u00e7a de que um novo paradigma de civiliza\u00e7\u00e3o seja constru\u00eddo para frear ou impedir os processos de destrui\u00e7\u00e3o que h\u00e1 duzentos anos vem sendo impiedosamente perpetrada. Experi\u00eancias de autogest\u00e3o, de economias solid\u00e1rias, de organiza\u00e7\u00f5es hol\u00edsticas e de cooperativas comunit\u00e1rias surgem em diversos pontos do mundo em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 logica do mercado, do capital especulativo e do crescimento econ\u00f4mico baseado na devasta\u00e7\u00e3o da natureza. O futuro da humanidade pode estar na propaga\u00e7\u00e3o dessas c\u00e9lulas se elas conseguirem construir as bases de uma nova civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No Brasil, uma esperan\u00e7a vem sendo acenada por Marina Silva, desde a sua candidatura nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais. \u201cSe n\u00f3s n\u00e3o formos capazes de criar um modelo de desenvolvimento que preserve a diversidade, teremos um grave e dram\u00e1tico problema de sobreviv\u00eancia\u201d. A viabiliza\u00e7\u00e3o da Rede Sustentabilidade \u00e9 uma expectativa alvissareira caso as suas propostas contribuam para a constru\u00e7\u00e3o desse modelo verdadeiramente sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o.<\/strong> N\u00e3o h\u00e1 bonan\u00e7a \u00e0 vista enquanto persistir a crise \u00e9tica e ambiental. Como super\u00e1-la \u00e9 o grande desafio lan\u00e7ado pelos protestos, ou seja, para se construir uma democracia participativa requer-se uma cidadania aut\u00f4noma e solid\u00e1ria. A grande li\u00e7\u00e3o que podemos extrair das manifesta\u00e7\u00f5es \u00e9 a compreens\u00e3o de que fazemos parte de um todo. As injusti\u00e7as feitas a um grupo e a destrui\u00e7\u00e3o de qualquer parte do meio ambiente dizem respeito aos direitos e ao futuro de todos.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que vir\u00e1 depois da tempestade? Escreve Geraldo M. Martins, educador, soci\u00f3logo e administrador. Coordenador da Pastoral da Ecologia da Diocese da Campanha Passada a perplexidade diante da eclos\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es populares que continua abalando os governantes, a m\u00eddia e os empres\u00e1rios, a indaga\u00e7\u00e3o que surge na mente de todos \u00e9 o que vir\u00e1 depois &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/gerado-martins-o-que-vira-depois-da-tempestade\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Gerado Martins:  O que vir\u00e1 depois da tempestade?&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_members_access_role":[],"_members_access_error":""},"categories":[27],"tags":[],"class_list":["post-4588","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-politica-publica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4588","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4588"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4588\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4590,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4588\/revisions\/4590"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4588"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4588"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4588"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}